Análise de Cena #1 – Aria the Animation // Vídeo


O Tempo que Chamamos Agora…


Roteiro:

O tempo que chamamos “agora”… quanto tempo ele pode durar?

Nossa rotina diária. Os lugares que frequentamos. As pessoas com as quais encontramos. São aspectos das nossas vidas que, eu sinto, damos muito por garantido. Como que facetas imutáveis do nosso dia a dia. E ainda assim, eu tenho certeza que se você parar um momento para pensar, verá o quanto tudo isso já mudou ao longo da sua vida. Quantas rotinas deixadas para trás. Quantos lugares que já não existem mais. Quantas pessoas que você já não vê…

Quanto tempo vai demorar, quanto tempo pode demorar, até que o “agora” se junte ao que já foi? Porque ele vai se juntar. Ele sempre se junta.

E se refletir sobre tudo isso te traz talvez uma estranha sensação de melancolia, eu acho que tenho o termo pra você. “Mono no Aware”. A melancolia que nasce da impermanência.

Aria é um dos meus animes favoritos. Uma série da qual já falei algumas vezes aqui no canal, e mais outras tantas lá no blog. Se passando no distante futuro, temos no planeta Aqua a cidade de Neo Venezia, uma reconstrução da que um dia existiu na Terra. E é aqui que encontramos nossas três protagonistas: Akari, Aika e Alice, três aspirantes a undine – gondoleiras profissionais.

Nesse vídeo, eu quero tentar algo um pouco diferente do que eu costumo fazer por aqui. Falar e analisar não um anime como um todo, mas sim uma cena em específico. No caso, uma que vem no final do décimo primeiro episódio da primeira temporada de Aria. Uma que é, a meu ver, pura expressão do mono no aware.

Ok, mas antes, um pouquinho de contexto.

O episódio começa quando nossas três protagonistas retornam, após um dia de treino, à titular companhia Aria. Ali, elas encontram suas três instrutoras, Alicia, Akira e Athena, em um raro momento de confraternização. É um episódio que se debruça justamente sobre o passado das instrutoras. Sobre como estas foram um dia, muito como as garotas do trio principal, apenas aprendizes praticando juntas dia após dia.

Ao mesmo tempo, é um episódio que nos diz que, enquanto profissionais com agendas cheias a cumprir, as três já não se veem mais com a mesma frequência de outrora. O que, é claro, leva as protagonistas a refletirem sobre como um dia o mesmo deve acontecer com elas. O que… é meio triste de se pensar, mas ao mesmo tempo não exatamente.

Mono no aware é um termo que se traduz por “o páthos das coisas”, e que lida, como eu disse, com a questão da impermanência. De como tudo, eventualmente, passa. Ou, como coloca a Athena nesse mesmo episódio:

“O tempo tem o costume de mudar as coisas. As vezes de forma gentil. As vezes de forma cruel”

Mas o sentimento não é inteiramente negativo, e há certa beleza naquilo que é breve. Como se a perenidade o tornasse, também, mais precioso. Dai um dos grandes símbolos do mono no aware ser a árvore de cerejeira, de beleza exuberante, mas fugaz.

Além disso, a mudança é inevitável. E, muitas vezes, bem-vinda. É, as três instrutoras já não se veem mais todo dia como nos tempos de aprendiz. Mas isso porque elas chegaram exatamente onde queriam chegar, como as três maiores undine de sua geração. Algo perdido. Algo ganho.

Ao final, eu penso que esse é um episódio sobre como as circunstâncias de cada um não são eternas. Sobre como a vida é uma constante de mudanças e permanências e, talvez o mais importante de tudo, que tudo bem ser assim. Do que nós finalmente chegamos na cena que eu quero tratar.

Com a noite avançando, Aika e Alice decidem ir embora, do que a Akari as acompanha até parte do caminho.

Em dado ponto, Aika a chama, dizendo que já estava bom acompanhá-las até ali. Antes de se despedirem, porém, Aika pergunta à Akari se ela ainda estava pensando no que discutiram até então, sobre como um dia as três também irão se separar, ao que a Akari admite que ainda estava.

Por si só eu gosto de como essa sequência denota o quão próximas são essas duas, ao ponto da Aika entender a amiga sem ela precisar dizer nada. Mas prosseguindo, Aika diz que as três ainda irão se ver amanhã e que tudo vai ficar bem, ao que elas então se despedem. Aika e Alice indo embora, enquanto a Akari as vê partir.

Nesse ponto, a câmera começa a alternar de perspectiva. Temos uma tomada da Akari, vista de baixo, com um sorriso que qualquer um que conheça a personagem vai logo notar que não é o seu natural. Cortamos para a Aika e a Alice indo embora, e logo voltamos para a Akari, agora mais próxima. Novo corte para as outras duas, mas desta vez quando voltamos para a Akari vemos o seu sorriso se desfazer, com ela assumindo uma expressão mais pensativa.

Isso a cena repete mais algumas vezes. E quanto mais distantes a Aika e a Alice vão ficando, mais a expressão da Akari vai refletindo alguma melancolia. Um novo corte mostra a Aika e a Alice fora de cena. Mas desta vez, quando voltamos para a Akari, a câmera foca nos seus pés. E então… ela dá um passo.

Correndo para a pequena ponte, Akari grita pelas amigas. E, em meio ao choro, apenas repete “até amanhã”.

É uma sequência bastante agridoce, e fica claro que há mais por trás desse “até amanhã” da Akari. Que há ai o desejo de que as três possam continuar se vendo, como fizeram até aqui. Mas também a consciência de que, um dia, não será mais assim.

E claro, muito ajudando na atmosfera estão o visual e a música. Toda a cena se passa nesse contraste entre cores e frias e quentes, da neve branca ao redor e da luz alaranjada das lâmpadas da calçada. E é acompanhada pela música “Symphony”, de Yui Makino, uma canção que fala da preciosidade de um momento presente que, fica implícito, é bastante fugaz.

Mas aqui algo interessante. Mesmo chorando aos prantos, mesmo tendo em mente tudo o que as garotas discutiram sobre como um dia não vão mais se ver com a mesma frequência… ainda assim, Akari não cruza a ponte. Antes, ela continua ali, nesse limiar, apenas dizendo “até amanhã”.

E eu acho que isso simboliza o reconhecimento, se não talvez pela personagem no mínimo pelo anime em si, do inevitável. De que a vida é uma constante de mudanças. De rotinas que vem e vão. De encontros e desencontros. De circunstâncias que, não importa o quanto pareçam, não vão e não podem durar para sempre.

Um dia, essas três irão se separar, pelo próprio curso natural da vida. E quando esse dia chegar, é importante estarem preparadas para dizer não “até amanhã”, mas sim: “até uma próxima”.

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