“Esse é o começo” // Aria the Animation, episódio 12


Aquele suave desejo…


Em essência, Aria é um slice of life. Em cenário, o anime bem pode ser descrito como uma ficção científica de tipo “soft”. De quando em vez, porém, a história faz também breves suas incursões no sobrenatural. Algo que já vimos no quarto episódio, com a gatinha Ami e sua carta impossível de ser entregue, e que agora retorna aqui.

Em um nublado dia de inverno, Akari parte para visitar a mais antiga ponte de Neo Venezia. Ao cruzá-la, porém, a garota se vê no distante passado, quando a colonização de Aqua ainda estava em sua infância. Um episódio que retoma muitas das marcas do fantástico em Aria, e também muito do que já discutimos sobre a natureza de Neo Venezia.

Desta vez, o artigo vem dividido em três seções. Na primeira, quero comentar um pouco sobre como o anime lida com a sua viagem temporal. Passado para a segunda, exploramos as semelhanças entre este episódio e o quarto, bem como o que podemos tirar delas. Já na terceira, nos debruçamos sobre a fala da Akari de como Aqua é “um planeta feito a mão”.

E claro, fechamos com a nossa costumeira seção de extras, onde vai tudo o que não coube no texto corrido. Uma boa leitura a todos e vamos logo ao episódio!

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Viagem ao Passado


Agora, antes de mais nada eu quero dizer que gosto bastante de como o anime lida com a sua viagem temporal. Para a audiência ela fica evidente tão logo a Akari cruza a ponte, com a câmera se afastando para revelar uma construção muito mais nova do que aquela na qual a garota havia entrado. Para a própria, porém, as peças demoram um pouco mais a se encaixar.

Pistas não faltam, é claro, mas, como tanto a Akari como a Akiko são relativamente novas em Aqua, ambas conseguem descartar qualquer comentário mais estranho da outra como algo que elas próprias só não entendem porque ainda não possuem o “senso comum” daquele planeta. Isso muda, porém, quando a Akari vê o cartão de memória que a Akiko usa em sua câmera.

Esse cartão, sim, é algo que ela reconhece. O mesmo modelo daquele que a gatinha Ami lhe pedira para entregar, tempos atrás. E é então que ela consegue ressignificar muito das conversas que teve com a Akiko, finalmente entendendo o que aconteceu.

É uma forma bastante natural de conduzir a descoberta pela personagem. Mas mais do que isso, como nós da audiência entendemos o que se passou logo de início, ficamos na expectativa da própria Akari perceber. E que ela só perceba quando vê o cartão, uma óbvia referência ao quarto episódio, é uma maneira de recompensar a atenção – e memória – do espectador.

Isso dito, se você já tinha esquecido de Ami e sua cartinha, o episódio cuida de adicionar alguns flashbacks ao quarto, para que não reste dúvida quanto ao que se passou. Ainda assim, a relação entre esses dois episódios é instigante por si só, e quase faz soar aquele como um preparo para este – o que não deixa de ter seu quinhão de verdade.

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Gatos. E mais Gatos


Em grande medida, esses dois episódios trazem características que são típicas do fantástico em Aria – as quais eu já comentei quando da minha análise do quarto.

Temos a presença em massa de gatos, acompanhados pelo som dos sinos de suas coleiras. Temos o Aria servindo como guia da Akari, demonstrando ainda bastante calma diante de situações no mínimo estranhas. Temos o cruzar de um limiar – naquele, dos becos estreitos de Neo Venezia; neste, da antiga ponte.

A única coisa que não vemos com tanta intensidade aqui no décimo segundo episódio, mas que vimos no quarto, é uma mudança drástica da iluminação da cena durante o evento sobrenatural. E ainda assim: logo que a Akari sai da ponte, temos que o fundo é tomado por uma forte luz branca, ainda que apenas de momento.

Mas há características que são mais específicas do fantástico tal como ele aparece nesses dois episódios. Uma delas, claro, sendo a conexão entre passado e futuro.

No caso da Ami, temos a ideia de uma carta que cruza o tempo e o espaço para ser entregue, mas não me refiro só a isso. Lembremos que na segunda vez que a Akari encontra com a Ami, ela aparece no mesmo cenário que vemos ao fundo do vídeo contido no cartão de memória. Uma forte sugestão de que esta tenha sido a primeira viagem no tempo da nossa protagonista.

Mesmo algumas escolhas da direção são repetidas nos dois episódios. Nós abrimos o quarto com as garotas vistas de um beco estreito, como se nossa visão fosse a da Ami. Pois bem: conforme a Akari cruza a ponte, aqui, temos diversas tomadas que a mostram por entre as madeiras da construção, como se nossa visão fosse a dos gatos.

É raro que o anime trace paralelos tão claros entre episódios, o que só faz a ligação entre ambos soar ainda mais forte. Mas podemos tirar algo disso? Bom…

O sobrenatural, em Aria, tem ainda uma última característica que me falta comentar. Uma que teremos ampla oportunidade de nos aprofundar na próxima temporada, Natural, mas que já se faz presente por aqui: a paixão da Akari por Neo Venezia.

Reparem bem em como esse episódio começa. Ao comentar da ponte, Alicia nos informa de como ninguém mais vai até ela. Pois, como coloca, apesar de ser a mais antiga ponte da cidade, ela ainda é apenas uma ponte comum. Ao que a Akari responde: “É? Eu vi uma foto dela num livro ontem. Me pareceu uma ponte tão maravilhosa.”

Isso é algo que ficará mais e mais claro com o passar dos episódios, mas é bastante indicado que é o amor que a Akari nutre por Aqua e por Neo Venezia que a permite ter contato com o lado sobrenatural daquela cidade. Em outras palavras: na medida em que a garota se abre para a cidade, a cidade vai se abrindo para ela.

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Um Planeta Feito a Mão


Ainda no primeiro episódio, durante o tour que a Akari e a Aika dão à pequena Ai, nossa protagonista descreve Neo Venezia como “Uma cidade nascida do desejo daqueles que a quiseram construir, em um mundo sem água ou ar. Um maravilhoso milagre”. Pois bem: aqui, neste episódio, nós fechamos o círculo, e vemos o quão certa a garota estava.

Toda a sequência final desse episódio é – muito como a sequência final do anterior – uma das minhas favoritas em Animation. E, pra ser franco, também uma das que mais me emocionam em Aria.

Timidamente, a água vai chegando. Numa lentidão que bem poderia soar anticlimática, não fosse o seu significado maior. Após o que nós podemos assumir ter sido um longo tempo de esforço, dedicação, e mesmo de sucessivos fracassos, temos aqui um primeiro passo. O ponto em que, como a senhorinha coloca, Aqua finalmente – e pela primeira vez – se abre para as pessoas.

Sobreposto a este momento, temos cenas de episódios anteriores. Sequências que nos lembram para onde tudo isso vai levar. O contraste entre passado e futuro sob a luz do crepúsculo – acompanhado, ainda, da mesma música que encontramos no episódio anterior.

“Aqua é um planeta feito a mão”. Essa fala da Akari sendo talvez o perfeito resumo da essência daquele mundo. Não raras vezes vemos surgir, e isso não só na ficção, uma falsa dicotomia entre o natural e o artificial. O primeiro, sempre bom. O segundo, sempre mau. Mas claro, não precisa ser assim.

Aqua – e, por extensão, Neo Venezia – é artificial, sim, como já discutimos em diversos outros episódios. Mas foi, também, feito com amor, carinho e dedicação. Um mundo que nasceu da esperança das pessoas, que o batizaram de “Aqua” antes mesmo da água chegar. E um que correspondeu a essa esperança.

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Extras


E como é de praxe nós encerramos o texto com essa seção extra, onde deixo tudo o que não coube no texto corrido. Deixo já aqui o aviso de que alguns desses pontos podem conter spoilers, então leiam por sua conta e risco. No mais, só mais um episódio e acabamos Animation!

○ Aos mais atentos, vale notar que tivemos um pequeno cameo do Cat Sìth na ponte. É um personagem que você só reconhece se já tiver assistido as temporadas seguintes, mas ainda é bem legar já vermos ele aqui.

○ O episódio nos mostra vários figurantes que são claros antepassados do elenco do anime, o que levanta a pergunta de se a Akiko seria antepassada de alguém. Pessoalmente, penso que não, e acho que ela serve mais como exemplo de que toda geração tem uma pessoa apaixonada por aquele mundo. Isso dito, ela tem olhos roxos, tais como os da Grandma e os da Alicia…

○ Algo curioso: acredito que no episódio inteiro ninguém chama Neo Venezia de… bom, Neo Venezia! Só falam no planeta como um todo, Aqua.

○ Não vou mentir: é difícil pra mim não chorar com aquela sequência final. Um sentimento super gostoso quando estou vendo como puro espectador, mas complicado quando preciso ver o episódio de forma analítica e escrever sobre ele. Esse artigo não foi fácil!

○ “Sayonara, watashi no avvenire”. Uma das minhas frases favoritas do anime, nem sei dizer porque. Mas há algo de reconfortante e agridoce na Akiko entendendo de onde a Akari veio e na separação das duas ao fim do episódio.

○ No seu e-mail ao final do episódio, Ai se pergunta se também verá um milagre na próxima vez que for a Neo Venezia. Bom… vamos apenas manter isso em mente.

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Um comentário sobre ““Esse é o começo” // Aria the Animation, episódio 12

  1. Esplêndido artigo, como sempre! Adorei essa parte, em especial:

    “Aqua – e, por extensão, Neo Venezia – é artificial, sim, como já discutimos em diversos outros episódios. Mas foi, também, feito com amor, carinho e dedicação. Um mundo que nasceu da esperança das pessoas, que o batizaram de ‘Aqua’ antes mesmo da água chegar. E um que correspondeu a essa esperança.”

    Agora, sobre os extras:

    “Aos mais atentos, vale notar que tivemos um pequeno cameo do Cat Sìth na ponte.”

    Eu assisti ao episódio com baixa iluminação e nem percebi o gato grandão, kkkk

    “Akiko tem olhos roxos, tais como os da Grandma e os da Alicia…”

    Em alguns momentos os olhos da Alicia realmente parece ter um tom de roxo, mas em muitos outros me parecem azuis.

    Curtido por 1 pessoa

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