“A passagem do tempo muda toda sorte de coisas” // Aria the Animation, episódio 11


Aqueles dias laranjas…


E eis que chegamos não apenas ao meu episódio favorito de Animation, como também a um dos meus prediletos em Aria. Após um frio dia de treino, as garotas retornam à companha Aria, encontrando ali suas três instrutoras. O que se segue sendo um breve olhar no passado das três Fadas d’Água – e uma reflexão sobre o que este diz do futuro das aprendizes.

Das três mais velhas rememorando seus dias de single, até as três mais novas se dando conta de que, algum dia, olharão para o presente com a mesma nostalgia, este é um episódio que torna a pôr em foco o conceito de mono no aware – essa melancolia que nasce da impermanência.

Desta vez, optei por dividir o artigo em três seções, começando ai com uma sobre as três Fadas d’Água. Disto passamos a uma rápida reflexão sobre como cada aprendiz espelha a sua instrutora, e finalizamos então com uma digressão sobre o mono no aware – como ele aparece neste episódio e que respostas o anime dá para a tristeza nascida da mudança.

E claro, após tudo isso temos ainda a nossa típica seção de extras, onde vai tudo o que não coube no texto corrido. Então cortemos por aqui a introdução e vamos de uma vez ao episódio!

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As Três Fadas d’Água


Em um episódio que trata de mudanças e permanências, temos aqui que as três Fadas d’Água encarnam muito bem esses conceitos. Suas circunstâncias mudaram: os despreocupados dias de treino substituídos pela rotina do trabalho. Como pessoa, porém, vemos que elas seguem – ao menos em grande parte – as mesmas.

Comecemos assim com a Alicia, que já desde os tempos de single exibia a tranquilidade inabalável pela qual a conhecemos hoje. E enquanto a Akira se exaspera com os rumores de uma aprendiz promissora na Orange Planet, Alicia apenas a responde com o seu típico “ara ara” – e claro, um sorriso no rosto. Não se trata, porém, de mera indiferença.

Aqui cabe lembrar as palavras da Grandma dois episódios atrás. Alicia é especialista em tornar tudo em algo diverto. O tipo de pessoa que dificilmente se irrita ou se frustra, que toma tudo o que o mundo lhe joga e faz o que pode parar tornar em algo positivo. Do que ela então mais se diverte com a intensidade da amiga do que se incomoda com os rumores.

Além disso, temos também que a Alicia já se mostrava bastante graciosa – a cena dela devolvendo a bola às crianças espelhando aquela, ainda no primeiro episódio, na qual ela resgata o Aria.

Passando à Akira, temos que desde quando aprendiz esta já era a mais abrasiva das três. Competitiva, combativa, crítica. O tipo de pessoa que, como já mencionado, se exaspera apenas com a possível existência de uma single melhor do que ela.

Isso dito, há de se destacar a sua cena durante a sequência de treino, onde ela fala do Palazzo Pisani Moretta. Um roteiro ensaiado, mas que por isso mesmo denota esforço, dedicação e estudo. E se a Alicia fica, em Aria, como expressão do puro talento, Akira é posta como o seu oposto natural: expressão do puro trabalho duro.

Ah, e sim, não me escapa que a pequena explicação da Akira termina com esta se oferecendo para comprar ingressos para o baile de máscaras aos seus “clientes”: não muito diferente de quando, no episódio sete, esta se oferece para conseguir ingressos para a ópera ao casal em lua de mel.

E disso chegamos então à Athena. Que, note-se, parece ter melhorado bastante como undine desde os tempos de aprendiz. De alguém com sérias dificuldades para manter o controle da gôndola a uma das três maiores undines de Neo Venezia. Mas claro: ela ainda segue a mesma garota desligada e desajeitada de antes. E também aquela com a melhor voz…

Devo dizer: eu adoro a cena da Athena cantando. Do momento em que as três decidem praticar o canto nós da audiência já esperamos o que está por vir. E ainda assim, uma vez que a Athena começa a nossa reação é bem próxima daquela das outras duas undine.

Há de se dar o crédito à direção. A música de fundo diminuindo até desaparecer pouco antes da Athena começar a cantar cria ai expectativa. E uma vez que ela começa, o anime apenas a deixa ir, tocando o que acredito ser a versão completa de Baccarole. Isso, ainda, acompanhada de uma animação fluida atípida mesmo para Aria.

É toda uma fantástica sequência de bild up e pay off – que, sim, se torna ainda melhor quando acompanhada da voz de Kawai Eri.

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As Três Aprendizes


Acho que cabe aqui algumas poucas palavras sobre como cada aprendiz reflete a sua instrutora. Porque que elas são parecidas não há ai qualquer dúvida – as próprias personagens apontam tanto, neste mesmo episódio. Só que nenhuma é pura cópia da outra, e há diferenças entre as personalidades do elenco principal e aquelas das três Fadas d’Água.

Começando com a Akari, temos que muito como sua instrutora ela é uma otimista inveterada, e também alguém que parece estar sempre se divertindo, pouco importa o que esteja fazendo. Além disso, sua capacidade de se maravilhar com o mundo ao seu redor – marcada por suas típicas “frases embaraçosas” – encontra também reflexo na Alicia, ainda que com algumas diferenças.

Como pessoa, Alicia é muito mais contida. E há nela uma maturidade que falta à Akari, cujo olhar ainda é um tanto infantil. Não que isso seja algo ruim, como o quinto episódio buscou mostrar. Mas ainda é uma diferença importante.

Passando para a Aika, esta também guarda muitas semelhanças com a sua instrutora. É a mais combativa do trio, e também a mais competitiva – algo que vemos no seu sonho de se tornar a maior undine desta geração, como ela colocou no nono episódio.

Eu diria, porém, que ela ainda é um pouquinho mais honesta com os próprios sentimentos do que a Akira. O que, aliás, pode as vezes ser o exato catalisador do conflito entre as duas, conforme vimos no segundo episódio. Não significa que a Aika não tenha seus pequenos momentos de “tsundere”, mas são um pouco mais raros.

Finalmente, temos a Alice. E aqui eu diria que o episódio reitera muito do que já vimos no sexto. Alicia e Athena são similares em circunstância, sendo “a undine promissora da Orange Planet” de suas respectivas gerações. Em quaisquer outros aspectos, porém, uma fica como o oposto da outra.

Athena era claramente a pior dentre as três instrutoras, tendo mesmo um péssimo controle da gôndola (ela encontra com as outras duas porque bateu no barco delas!). Alice, porém, é a melhor do trio atual, sendo aquela que melhor consegue navegar os canais de Neo Venezia (e encontra com as outras duas porque as ultrapassou em um curso avançado).

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Os Bons e Velhos Tempos…


Mono no aware. É um conceito que já discutimos a fundo no quinto episódio, definido pela melancolia que nasce da consciência da impermanência. Mas se lá ele era usado para tratar da passagem da infância à vida adulta, aqui a coisa é um pouco diferente.

Este é um episódio sobre a perenidade das circunstâncias. Sobre como nossas vidas mudam, às vezes ao ponto de se tornarem irreconhecíveis. Como a Athena coloca: aqueles dias de treino que pareciam que iam durar para sempre, hoje mais parecem uma mentira, confrontados com a rotina atarefada de uma undine profissional.

“O tempo tem o costume de mudar tudo”, continua. “As vezes de forma gentil, as vezes de forma cruel”. Ainda assim: o episódio nos apresenta ao menos três respostas à tristeza que nasce dessa realização. Então tratemos delas, uma a uma.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que, ainda que algumas coisas mudem, outras ainda permanecem as mesmas. É o que a história das instrutoras demonstra: por mais que as circunstâncias sejam diferentes hoje, elas ainda são, em muitos aspectos, as mesmas pessoas daquela época. E é como a Akari coloca ao final: aquilo que fica e aquilo que se vai, ambos importam.

A segunda resposta retoma o que vimos no quinto episódio, e trata-se da memória. Ainda que as coisas mudem, sempre estarão conosco as memórias do que se passou.

Em alguma medida, claro, isso é uma faca de dois gumes, e há de se argumentar que esta é toda a causa do mono no aware. Eu percebo a mudança porque lembro de como as coisas eram. E ainda assim, permanece o fato de que lembramos. E se sentimos falta dos “bons e velhos tempos”, fica ao menos a prova de que um dia os vivemos.

A terceira e última resposta, porém, vai na contramão de ambas as anteriores. Se aquelas são sobre se agarrar de alguma forma ao que se passou – seja por meio do que fica, seja pela lembrança do que se foi – a terceira é sobre não se deixar cegar pela nostalgia, e perceber também o que há de bom no presente.

Como a Alicia coloca: seria uma pena ignorar a diversão que se tem no presente por focar demais naquela que se teve no passado. Uma colocação que ecoa bastante os ensinamentos da Grandma, de dois episódios atrás. De que o importante para uma boa vida é saber apreciar o hoje – e se divertir com cada momento.

No fim, eu sinto que essa é uma das grandes lições de Aria. Saber apreciar o momento, mas também saber deixá-lo ir. Manter na mente a memória do que se passou, mas sem deixar de apreciar o que está bem na sua frente. Não é fácil – mas até ai ninguém disse que era.

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Extras


E como é de praxe, finalizamos o artigo com a nossa seção de extras, onde vai tudo o que não coube no texto corrido. E olha, dessa vez teve coisa… Lembrando a todos que alguns dos pontos aqui podem conter spoilers, então sigam por sua conta e risco. No mais: uma boa leitura!

○ Gosto bastante do uso de cores no episódio. De como ele abre tomado por tons de cinza, devido ao frio do inverno, mas uma vez dentro da companhia Aria predominam os tons de laranja, enfatizando ai o calor da lareira (e, por extensão, o calor metafórico da companhia uns dos outros).

○ Se eu fosse fazer uma crítica a Aria, seria a de que a Alicia é perfeita até demais. Ao ponto de, ao menos de vez em quando, cair em um legítimo vale da estranheza. E de verdade: tem vezes que o eterno sorriso dela me soa mais ameaçador do que encantador!

○ De volta ao tempo presente, em dado ponto da conversa Akira admite que teve de eventualmente aceitar a Athena como a melhor cantora. O que denota ai algum nível de amadurecimento em relação à sua versão mais nova – offscreen que seja.

○ A letra de Baccarole, a canção-assinatura da Athena aqui em Animation, não tem significado nenhum. É puro “bla bla bla” sem sentido mesmo – o que, de certa forma, ajuda a dar à música um ar de exótico, mesmo para a audiência japonesa.

○ E falando na Athena, acho válido apontar que esse é, até aqui, o episódio em que ela teve mais falas. É até estranho ver ela tão “tagarela” – mas não que eu esteja reclamando!

○ Acho bem interessante que seja a Alice a perceber as implicações da história das três instrutoras, de que um dia as protagonistas também não se verão com tanta frequência. Isso porque, como bem sabe quem já viu Origination, é justamente ela a primeira a se tornar uma prima, passando por esse exato dilema uma vez que começa a receber clientes.

○ Eu amo a cena final do episódio, das garotas se despedindo. Essa mescla de cores quentes e frias. Como a cena alterna entre a Aika e a Alice indo embora e o rosto da Akari cada vez mais próximo. Essa música! Fora o sentimento agridoce com o qual ela te deixa. É uma das minhas cenas prediletas em Aria, e eu bem podia dedicar um texto inteiro só pra ela!

○ Terminamos o episódio com a Ai falando que gostaria de rever a Akari. Bom… não vai demorar muito mais.

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