“Eu devia mesmo relaxar tanto assim?” // Aria the Animation, episódio 10


Aquelas férias quentinhas…


São as duas constantes dos animes slice of life: o episódio de praia e o episódio das termas. Ambos, piadas de lado, servindo de demarcações para suas respectivas estações: o verão e o inverno. E se o quinto episódio de Aria nos trouxe à praia, é no mínimo simétrico que seja o décimo a nos levar para uma noite nas termas.

Com a chegada do inverno, Alicia convida Akari para um onsen, e é claro que a garota estende o convite às suas amigas. Aika escolhe o lugar, e para o banho elas vão. É um episódio bem relaxante, mesmo para os padrões de Aria, o que não é por acaso – como ainda veremos abaixo.

Este artigo eu dividi em três seções, começando com uma para explorarmos a chegada do inverno e o que o anime diz sobre a estação. Na seguinte, eu quero aproveitar das termas para tratar de um tema bem mais geral na série: a dissonância entre sua estética e sua essência.

A terceira seção traz alguns breves comentários sobre o que poderíamos chamar de o tema do episódio. E finalizamos, como já é de praxe, com uma seção extra onde vai tudo aquilo que não consegui encaixar no texto corrido. E finda a introdução, vamos de uma vez ao episódio!

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E Chega o Inverno…

Timidamente, o inverno vai chegando a Neo Venezia. Em diversas cenas vemos como as cores do outono ainda se fazem presentes: algumas árvores mantendo sua característica folhagem laranja. Tons de branco, porém, vão despontando, anunciando a mudança da estação.

E o anime “vende” muito bem essa mudança. Da janela esbranquiçada no quarto da Akari, passando pela respiração condensada das personagens, até como todos se vestem: o episódio comunica muito bem como está ficando mais e mais frio – culminando, claro, com a chegada da primeira neve da estação, na última cena.

Mas claro, mais interessante do que isso é o que o episódio tem a dizer sobre o inverno. Porque há, aqui, certa ênfase no inverno enquanto uma época de união.

É a Akari sentando com o carteiro, dividindo um pouco de chá. São a Akari e a Alicia juntando lenha e se aquecendo em frente à lareira da companhia Aria, enquanto tricotam. E são as garotas indo para as termas, apreciando juntas da água quente. Isso, claro, sem nem entrar no mérito do pequeno snowbug, que repousa no ombro da Akari por boa parte do episódio.

O curioso é que, na maioria dos casos, o frio tende a ter conotações praticamente opostas. Sendo mais associado ao silêncio, à solidão, mesmo à morte. Aria, porém, contorna essas conotações focando em outro aspecto do inverno: o calor criado.

O chá quente. A lareira acesa. Mesmo, vale notar, a rápida menção ao fato de que o inverno de Neo Venezia seria muito pior não fosse pelo calor proporcionado por Ukijima. Formas artificiais de se aquecer, que trazem ainda uma importante dimensão social. Da bebida compartilhada e da lareira apreciada em conjunto.

Mesmo as termas reforçam essas ideias. Sim, a terma em si, a água quente, é um fenômeno natural. Mas tudo em torno dela, não. A hospedaria, e toda a cultura e etiqueta em torno do banho. E claro, há aqui também um importante aspecto social.

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Estética e Essência


Existe, em Aria, certa dissonância entre estética e âmago. Uma que o leitor já deve ter se dado conta há alguns episódios.

Em estética, Aria se inspira muito, como não poderia deixar de ser, na Veneza moderna. A cidade foco da série é, afinal, uma reconstrução daquela. Palavras em italiano são jogadas aqui e ali, e mesmo alguns marcos da cultura e da vida em Veneza se fazem presentes – como é o caso da acqua alta. E ainda assim, Aria é indisputavelmente japonês.

Isso, claro, fica muito mais evidente em episódios como o nono, onde a casa da Grandma é baseada nas casas tradicionais japonesas. Mas esse âmago de Aria também se faz presente de formas um pouco mais sutis.

Eu já comentei diversas vezes ao longo desses textos sobre como Neo Venezia traz em si uma atmosfera que é muito associada ao campo. Um ritmo de vida mais lento, um senso de comunidade mais forte, características que têm bem pouco a ver com a Veneza real, mas tudo a ver com o imaginário japonês de uma cidade pequena.

Outros elementos são mais pontuais, mas nem por isso menos curiosos. Por exemplo, a escrita é divertidamente inconsistente: do italiano na carta que a Alicia recebe ao final do primeiro episódio, aos garranchos indecifráveis do convite à “Neverland”, no quinto, até o óbvio japonês da cartinha do presidente Aria, no oitavo.

E enquanto eu não tenho o conhecimento necessário para falar do assunto com propriedade, vou dizer que a arquitetura da companhia Aria não me parece exatamente “veneziana”.

Já outros aspectos de Aria talvez sejam ainda melhor compreendidos se levarmos em conta também o fato do original ser, afinal, um mangá slice of life. Por exemplo: enquanto Veneza tem quatro estações bem definidas, a ênfase narrativa que Aria dá a estas, tanto nos diálogos como no visual, é bem típica de mangás do seu gênero.

Além disso, alguns leitores talvez se espantem ao descobrir que a profissão de gondoleiro, na Veneza moderna, é uma quase que exclusivamente masculina. Que Aria inverta essa lógica sendo talvez uma consequência de suas origens na revista shoujo Stencil, ainda sob o título de Aqua (antes de mudar para a revista shounen Comic Blade, com o título atual).

E se o leitor estiver se perguntando o porquê de toda essa divagação agora, quando exemplos dessa dissonância já se faziam presentes há vários episódios, eu diria que é porque eu vejo o onsen deste como a perfeita representação de tudo isso.

Sua fachada, sua estética, é a de um típico casarão europeu, ainda que aqui em ruínas. Seu interior, seu âmago, porém, é inconfundivelmente japonês. Uma experiência que, para o espectador japonês, deve ter soado familiar e exótica ao mesmo tempo. Muito como, imagino, a própria série.

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Relaxar é Preciso!


Se este episódio tem uma mensagem, eu diria que ela vem pouco após o primeiro banho das garotas.

De volta ao quarto, Akari acorda de um breve cochilo, recebendo ai um irônico “bom dia” da Alicia. É então que a Akari se dá conta do quão tarde já é, e nisso confessa que até se sente um pouco culpada de se deixar relaxar tanto. E que, como single, ela sente que deveria estar sempre treinando – mesmo que em um dia de folga.

Alicia, porém, tranquiliza a aprendiz. “A magia de uma terma é que ela te deixa relaxar tanto assim”, ela diz, e ainda complementa: “você precisa de tempo para relaxar a fim de passar por um inverno longo e frio”. Uma fala que a Akari toma no literal, mas que também bem podia ser lida de forma mais metafórica.

Aria é um iyashikei, termo que tende a ser traduzido como “cura”. Aplicado à ficção, ele descreve histórias que se voltam para relaxar e acalmar a sua audiência, a “curar” emocionalmente aqueles que as consomem, servindo como um momento de descanso do estresse do dia a dia. Não muito diferente, vejam só, do que promete o seu típico onsen japonês.

“Relaxar” é todo o ponto desse episódio. Um lembrete de que o descanso também tem o seu lugar – pouco importa o que diga o nosso ímpeto de tentarmos ser produtivos sempre. Uma verdade que, diga-se de passagem, vem sendo bem mais reconhecida nos últimos anos, pelo menos ao nível do discurso (se também ao nível da prática, ai já é outra história).

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Extras


E como sempre nós fechamos esse artigo com esta seção de extras, onde vai tudo o que eu não consegui encaixar no texto acima. E vejam só: desta vez sem spoilers! Uma boa leitura a todos, e até o próximo artigo.

○ O mono no aware também se faz bastante presente aqui, por muitas das razões que já vimos no episódio cinco. É um momento de exceção, uma noite de descanso destinada a acabar. A partida do snowbug, ao final, sendo talvez a melhor representação disso no episódio. Mas achei que incluir uma seção pro tema aqui seria um pouco repetitivo…

○ Eu muito aprecio um episódio mais relaxado e mais leve, porque quem conhece Aria sabe que os três episódios finais de Animation são bem mais emocionalmente carregados. Nada fora do padrão da série, mas ainda um pouquinho mais intensos do que isso.

○ Algo que eu aprecio em Aria é como o anime nunca sexualiza as suas personagens, mesmo em instâncias como um episódio de praia ou um episódio de termas. Graças a isso, a série consegue manter o seu foco de, mesmo nessas instâncias, relaxar o espectador, em vez de o distrair da história com… bom… outras “coisas”.

○ Falando em relaxar, aparentemente o Japão vê um “boom” do iyashikei desde os anos 90, com o termo sendo usado na propaganda dos mais variados produtos. E é bastante questionável se isso é uma coisa boa… É um assunto que eu ainda pretendo estudar mais a respeito no futuro.

○ Uma interessante coincidência é que esse episódio foi ao ar no Japão em 8 de dezembro de 2005. Exatamente no começo do inverno japonês.

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