“O ato de viver dia a dia pode ser a coisa mais maravilhosa” // Aria the Animation, episódio 9


Aquela fada brilhante…


É chegado então o outono, que cobre Neo Venezia com tons de laranja. Aika, porém, não parece lá muito disposta. Melancólica, ela suspira na gôndola. Refletindo a respeito, a garota conclui que se sente estagnada. Que não sente progredir nos treinos, e teme que nesse ritmo nunca realizará seu sonho de se tornar a maior undine de Neo Venezia.

Em busca de ajuda, as garotas então partem para conhecer a maior undine que Neo Venezia já viu. E é assim que somos então introduzidos à “Grandma”: aquela que fundou a companhia Aria. Ocorre, porém, que ela não parece muito interessada em treinos intensivos – o que não quer dizer que ela não tenha o que ensinar…

Este artigo eu optei por dividir em apenas duas seções maiores. Na primeira, eu quero explorar um pouco a personagem da Aika, que acaba sendo a personagem foco do episódio. Na segunda parte, porém, nos voltamos para o tempo que as garotas passam com a Grandma, e ao que esta tem a ensinar sobre ser uma boa undine.

Por fim, encerramos o texto com a nossa costumeira seção de extras, onde deixo todos aqueles comentários que não consegui encaixar no texto corrido. Uma boa leitura a todos, e vamos que vamos!

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Visão Hierárquica


Eu vejo esse nono episódio muito como um contraponto ao sexto. No sentido de que se aquele veio para trabalhar mais a Alice, focando em características da personagem que já vinham da sua introdução, este me parece fazer o mesmo, exceto que agora focando na Aika.

Há já alguns episódios eu comento sobre como a Aika se mostra a mais apressada dentre as três aprendizes, sempre buscando crescer rápido como undine.

No terceiro episódio, nós abrimos com a Aika escolhendo um curso de nível avançado para treinar, e podemos ver como ali ela tem bastante dificuldade de manter o controle da gôndola. Já no sétimo episódio, quando do treino com a Akira, o erro da Aika foi justamente o de conduzir a gôndola rápido demais, fazendo-a balançar.

É uma personagem bastante afobada, e podemos imaginar alguns motivos para isso. Como herdeira da Himeya, uma das mais tradicionais companhias de undine de Neo Venezia, Aika é talvez aquela que tem mais em jogo. Além disso, sua instrutora é a Akira, e nós bem já vimos como ela tende a colocar pressão na pupila.

Mas para além desses fatores, acho que a idade também pesa bastante. Sabemos que a Aika é a mais velha das três aprendizes (o segundo episódio estabelece que ela é um ano mais velha que a Akari, enquanto que o terceiro estabelece que ambas são mais velhas que a Alice), o que talvez também faça ela sentir que deveria ser a melhor como undine.

Nessa nota, é interessante reparar em como ela trata a Alice. Amigas que sejam, é evidente que a Aika nutre algum nível de animosidade pela garota.

Já no episódio de introdução da Alice podemos ver surgir ai uma rivalidade unilateral da Aika para com a mais nova. No episódio seguinte, abrimos com a Aika tentando impressionar a Alice com suas habilidades de single – o que quer que isso signifique. E claro, temos também como a Aika sempre chama a Alice de “kouhai-chan”.

São todas formas de se reestabelecer, ai, a hierarquia. Porque, para a Aika, é natural que aqueles abaixo admirem e respeitem aqueles acima. E que, ao menos em se tratando desse universo das undine, aquelas acima sejam também mais habilidosas do que aquelas abaixo.

A Alice, porém, é uma direta contradição a essa lógica. Claro, ela ainda não tem o que é preciso para ser uma prima. Ainda assim, vemos que mesmo como pair ela já têm um controle melhor da gôndola do que as duas single. Então a Aika tenta negar essa diferença. Tenta, como eu disse, reestabelecer a hierarquia.

Que fique claro, eu não acho que ela faz isso por maldade. Não acho nem que ela faz isso de propósito. Acho, sim, que ela simplesmente não sabe como lidar com a Alice. Não sabe como conciliar a sua visão de mundo com a pessoa da Alice.

Nesse episódio, porém, Aika acaba por encontrar uma afronta muito mais drástica a essa sua forma de ver as coisas: a Grandma.

Quando as garotas partem em busca dos conselhos da Grandma, reparem como a Aika espera que ela seja, em essência, uma Akira ainda mais dura – seu único referencial verdadeiro de como age uma instrutora. Que ela treinou a Alicia na base do sangue e do suor, e que fará o mesmo com as três. A realidade concreta, porém, se mostra um pouco diferente.

Longe do arquétipo do “instrutor demoníaco”, a Grandma recebe as garotas muito como uma avó recebendo suas netas. E mais uma vez a Aika não sabe o que fazer com essa situação, terminando por inventar toda sorte de desculpas que conciliem a imagem que ela tem a Grandma com a pessoa que de fato encontraram.

Assim, de início ela toma o pedido da Grandma de colher castanhas e batatas como algum tipo de treino disfarçado. Quando o equívoco se mostra, ela passa o resto da estadia na expectativa de que o treino “de verdade” vá começar logo. E quando percebe que não é o caso, ela conclui que a Grandma não deve ter visto potencial nas três. Mas claro: a coisa não é bem assim.

Nesse ponto, talvez seja interessante compararmos como a Aika e a Akari tratam a Grandma, quando primeiro a encontram.

Aika demonstra real reverência para Grandma, bem típico de alguém que, como já discutimos, enxerga o mundo através de hierarquias verticais. Ela se mostra ansiosa e mesmo um pouco assustada. Chama a Grandma pelo seu “título” completo. E fala com ela em língua formal, todas atitudes que visam demonstrar respeito.

Akari, porém, é seu completo oposto. Sua postura é relaxada. Ela chama a Grandma pelo seu “título” encurtado. E em momento algum ela muda a sua forma de falar. Longe de estabelecer ai uma hierarquia vertical, como a Aika o faz, Akari favorece, com certeza até sem querer, uma hierarquia horizontal.

A Aika cria distância. Uma separação rígida entre ela e o outro. Entre melhores e piores. A Akari, porém, cria aproximação. Um cenário que não apaga ou inibe o respeito e a admiração, mas que ainda coloca a todos como iguais.

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Um Tempo no Campo


Algo que eu gosto nesse episódio é que, pensando na típica dicotomia “campo X cidade”, essa é a primeira vez em Aria que Neo Venezia aparece como “a cidade”.

Até aqui, Neo Venezia foi bastante comparada a Man Home, com o segundo exibindo muitas das características que nós associamos com as grandes cidades. Um ritmo de vida mais acelerado. Comida industrializada e pré-pronta. No quinto episódio aprendemos que já não se pode mais nadar nos oceanos de Man Home, e nesse aprendemos que já não se planta mais em seu solo.

Neo Venezia, por contraste, trazia muitas das características do campo idealizado. Um ritmo de vida mais lento. Uma maior aproximação com a natureza. E um senso comunitário onde todos se conhecem e se ajudam. O tipo de lugar para onde as pessoas vão quando precisam de um descanso do dia a dia tomado pela pressa.

Isso, porém, levanta uma pergunta: e quando é alguém de Neo Venezia que precisa de um descanso?

Nesse episódio, Neo Venezia é comparada ao verdadeiro campo. Um mais no interior, afastado dos centros comerciais. Um terreno montanhoso, tomado pelas cores do outono. Um no qual é preciso plantar e colher a própria comida, e onde o ritmo de vida é ditado pela natureza. Dormir cedo, acordar cedo: seguindo o ciclo solar.

É o campo mais associado às antigas gerações. E que justamente por isso deve trazer em si, pelo menos no imaginário japonês, um “Q” de “casa da avó”. Um onde ainda é possível olhar para cima de noite e observar o céu estrelado. Ao contrário de uma cidade como Neo Venezia.

Essa é a experiência que a Grandma tenta dar às garotas. Um momento de descanso da sua rotina diária. Isso, porém, levanta uma pergunta: mas e quanto ao treino?

Enquanto a Akari e a Alice não sabiam bem o que esperar de uma visita à Grandma, e foram mais para conhecer essa verdadeira lenda viva, Aika foi esperando algum tipo de treino. Algo que a ajudasse a crescer rápido como undine. O segredo do sucesso não só da maior undine que Neo Venezia já viu, mas também daquela que treinou a que está hoje no topo.

Mas a Grandma não pode dar esse segredo: porque ele não existe. E falando da Alicia, Grandma atribui o sucesso dela a um outro fator. Nas palavras da própria: Alicia é mestre em transformar tudo em algo divertido. Só isso.

“Mas, se isso é tudo, e quanto aos momentos difíceis ou tristes?” a Aika pergunta. Uma boa pergunta, eu diria. Mas é nesse ponto que ela elabora:

“Talvez, pense nesses momentos como o tempero que faz a vida parecer mais agradável. Transforme tudo dentro de você. Torne tudo em algo divertido. O ato de viver dia a dia pode ser a coisa mais maravilhosa.

Se elogie honestamente quando der o seu melhor. O que você vê, ouve e toca… Se você puder tomar tudo o que esse mundo lhe dá e transformar em algo divertido, então se tornar a mais brilhante Undine de Aqua não é um sonho”.

Num primeiro olhar, talvez não soe como uma resposta lá muito satisfatória. Afinal, não é como se fosse fácil transformar as amarguras da vida em algo para se apreciar, o que quer que isso signifique. Mas bom: ela nunca disse que era fácil, não é?

Há algo de estoico nesse discurso. Não no sentido moderno de nunca expressar qualquer emoção, mas algo mais próximo da filosofia original. Do não se deixar dominar pelas suas emoções. De aceitar as cartas que o destino lhe deu e seguir jogando o jogo ainda assim. Não podemos mudar o mundo, mas podemos, só talvez, mudar a nossa reação a ele.

Tentar enxergar o lado bom das coisas não como um ato de escapismo, mas como um ato de controle sobre si mesmo e sobre os próprios impulsos e emoções. De não se deixar sobrecarregar pelas dificuldades e mazelas da vida, tentando enxergar ai algo mais profundo. Como a Grandma coloca: que o próprio ato de viver é em si algo com o que se maravilhar.

E por mais que o foco do episódio seja na Aika, acho que é impossível, durante toda essa sequência final, não pensarmos na Akari.

No terceiro episódio, Akatsuki a admoesta, dizendo para que não tente tornar algo mundano em algo divertido. “Ok… mas eu meio que sou especialista nisso”, ela retruca. E ao final do quinto episódio, temos o comentário da Alice: “O mundo parece maravilhoso quando refletido nos olhos de uma pessoa maravilhosa”.

Se conseguir tornar tudo em algo divertido é o segredo para ser uma boa undine, então acho que a companhia Aria está em boas mãos.

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Extras


E fechando o texto temos aqui a nossa costumeira seção de extra. Como sempre eu já deixo o aviso de que alguns comentários aqui podem conter spoilers, então sigam por sua conta e risco. No mais: uma boa leitura.

○ Acho curioso como o episódio abre um pouco diferente dos demais. O cartão título vem antes da abertura, e a partir desse episódio passam a usar a segunda parte da música tema, Undine, durante a abertura. Não sei se dá pra tirar algum significado mais profundo disso, mas é interessante.

○ A trilha sonora de Aria é excelente num geral, mas eu realmente gostei da música que toca quando as garotas descem do trem. Vende muito bem o quão impressionadas elas ficam com o cenário do interior (por sinal, os cenários em Aria também são sempre ótimos).

○ Em Aria the Origination temos uma sequência que mostra como a Grandma e o Aria se conheceram, o que levanta uma série de perguntas quanto à idade do felino. Digo, a Grandma esteve no topo de seu meio por 30 anos, e está aposentada há vai saber quanto tempo. Mesmo que não fossem 30 anos trabalhando na companhia Aria, ainda sinto que o Aria já era pra ser um ancião…

○ Ok, eu tenho certeza que algum episódio passado mencionou como as ilhas em volta de Neo Venezia são enclaves de outras culturas que existiam em Neo Venezia, mas não consegui achar a cena exata. Ainda assim, e embora estejamos aqui no interior, essa típica casa tradicional japonesa me parece um pequeno aceno a isso.

○ O nome verdadeiro da Grandma é Ametsuchi Akino. A título de curiosidade, ela é uma dentre apenas duas personagens em toda série cujo nome e sobrenome começam com “A”. A outra sendo a pequena Aino Ai.

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Um comentário sobre ““O ato de viver dia a dia pode ser a coisa mais maravilhosa” // Aria the Animation, episódio 9

  1. “Que não sente progredir nos treinos, e teme que nesse ritmo nunca realizará seu sonho de se tornar a maior undine de Neo Venezia.”
    Acho que a Aika é relatable demais pra juventude atual, eu incluso. É difícil demais não ter problemas com procrastinação e afins, ao ponto de que qualquer descanso as vezes nos deixa com o sentimento de culpa.

    Curtido por 2 pessoas

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