“Sua mão esquerda talvez não seja tão inútil quanto você pensa” // Aria the Animation, episódio 6


Aquilo que você quer proteger…


Eu mencionei na análise do episódio anterior que Aria the Animation é uma constante de introduções. Pois bem: depois de já ter sido mencionada em duas outras instâncias, eis que finalmente somos apresentados à Athena, a terceira “Fada d’Água” e a instrutora da Alice. E vamos dizer que agora está explicado como ela foi parar na ilha errada no último episódio…

Mas mais do que a introdução da Athena, esse episódio vem para caracterizar um pouco mais a Alice, dando continuidade a muito do que vimos na sua própria introdução, lá no terceiro episódio. A mais nova do grupo, a garota é ainda propensa a atitudes bastante infantis, algo que se revela aqui em mais de uma maneira.

Este artigo será um pouquinho mais enxuto do que os anteriores, posto que só temos aqui duas seções. Na primeira delas, damos uma olhada mais aprofundada nas duas personagens que são o foco do episódio, Athena e Alice. Já na segunda, exploramos os temas que aparecem aqui, com especial atenção para a ideia de pequenos atos de gentileza que passam despercebidos.

Como é de praxe, ao final temos a nossa seção de extras, onde vai tudo o que não coube no texto corrido. Uma boa leitura a todos, e vamos que vamos!

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Athena e Alice


Eu gosto bastante de como é feita a introdução da Athena. Quando primeiro a vemos, logo no comecinho do episódio, ela está a trabalho, atuando como a undine que é. Sua voz sendo o que primeiro chama a atenção – nossa, e da Akari. Isso cria na audiência certa expectativa quanto a quem é a Athena, uma que seria subvertida quando a conhecemos fora do trabalho.

A segunda vez que a vemos é já na Orange Planet, quando Akari e Alice voltam para o dormitório da segunda. Aqui nós temos a apresentação formal da personagem, quem ela é e como se relaciona com a Alice. E aqui vemos também como ela pode ser um tanto quanto… bom… “descuidada”.

O que é interessante nesse contraste é que ele cria em nós uma segunda expectativa. A de que a dinâmica da Athena com a Alice seria a sua típica dinâmica invertida de professor e aluno. Uma onde o aluno é o mais competente, precisando de bem pouca orientação por parte de seu professor, ou até mesmo terminando por orientar a este. Acaba, porém, que a coisa não é assim tão simples.

Athena pode ser um pouco desligada para algumas coisas, mas é bastante perceptiva com outras. Ela coloca chá demais no seu copo, e xarope demais na sua bebida, além de, sim, ter ido parar na ilha errada no episódio anterior. Mas ela também faz vista grossa para o Maa, e mesmo decide cantar quando este começa a miar, assim encobrindo o barulho.

Ao final do episódio, aprendemos ainda que a Athena tem o costume de cantar sempre que a Alice não consegue dormir, a fim de ajudar a garota a se acalmar e a se sentir menos solitária. Atos que vão deixando mais clara qual é a relação das duas.

Refletindo um pouco nas instrutoras e suas aprendizes, Alicia parece ter um método de ensino mais relaxado, e também mais focado em incentivar e elogiar do que em punir. Akira, por sua vez, é o completo oposto, tendo um método mais direto – talvez mesmo tirânico, diria a Aika – e também mais punitivo, mais focado em corrigir falhas do que em elogiar acertos.

Athena, porém, foi colocada numa posição um pouco estranha. Alice já é um gênio da gôndola, então não há muito que ensiná-la em termos de pura técnica. O que lhe resta, então, é o papel de pilar emocional. E isso ela faz muito bem – mesmo que a própria Alice demore a perceber.

Ainda que, é claro, a Alice bem tenha algumas coisas a aprender com a sua senpai.

Quando da minha análise do terceiro episódio, eu cheguei a mencionar que a Alice, sendo a mais nova do trio principal, é bastante propensa a atitudes mais imaturas.

Começamos o episódio com a Alice fazendo sua “campanha” contra sua mão esquerda, percebida por ela como uma inútil que deixa tudo para a mão direita fazer. É uma lógica bastante infantil, e a campanha em si o é ainda mais. Como se beliscões na mão ou solo janken fossem mudar alguma coisa.

Mas se temos nessa pequena trama o nosso exemplo mais extremos da imaturidade da Alice, há ainda dois outros ao longo do episódio para os quais eu gostaria de chamar a atenção. Exemplos um tanto quanto mais sutis, mas justamente por isso mais interessantes de se destrinchar.

Ainda no começo do episódio, Alice comenta que ela encontrou um gatinho, e o estava criando em seu quarto. Uma decisão curiosa, posto que sua companhia, a Orange Planet, proíbe animais de estimação no dormitório. Alice tendo então de criá-lo às escondidas, numa situação que faria qualquer um perguntar o quão sustentável ela é na longa duração.

Soa mesmo fora de lugar que alguém como a Alice tome uma decisão tão impulsiva, ainda mais sem qualquer plano maior para além de trancafiar o pobre bichano no seu armário. A explicação disso, porém, pode ser lida nas entrelinhas.

No seu quarto, Alice comenta que o diretor da Orange Planet morreu há alguns dias, e adiciona ainda que o Maa a lembra dele. A Akari, por sua vez, então pergunta se os dois são parecidos. Ao que a Alice responde: não.

Fica evidente que a decisão da Alice de adotar o Maa vem muito como a sua forma de lidar com a perda do antigo presidente. Alice ainda é bem jovem, e é bastante provável que a morte do presidente tenha sido a primeira de alguém próximo a ela (como, diga-se, é bastante comum: nossa primeira experiência com a morte sendo a de um animal de estimação).

Pega numa situação de fragilidade emocional, acredito que qualquer gato teria “servido” para a Alice, desde que fosse algum que pudesse preencher o espaço que o presidente deixou na sua vida. O que, diga-se, dá novo contexto ao desespero dela ao final do episódio.

Tendo percebido que o Maa escapou, acredito que a tristeza da Alice não vinha apenas da possibilidade de perder o gatinho, mas também da de perder alguém próximo ainda uma segunda vez – e num espaço de tempo bem curto, inclusive.

O que não é dizer que a garota não se importe com o Maa: ela se afeiçoou ao bichinho, e é provável que quando o episódio começa ela já o visse como mais do que um substituto do presidente que se foi. Ao final, Maa se torna seu sucessor efetivo. Ainda assim, como tudo isso começou diz um bom tanto sobre como a Alice ainda tem muito o que amadurecer.

E claro, tem a forma com que a Alice trata a Athena. Mas isso nós discutimos na próxima seção…

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Gentileza Invisível


Mais uma vez, temos aqui um episódio que é bastante direto naquilo que quer falar. E um que, muito como o episódio 2, liga em tema duas tramas distintas: a da Alice frustrada com a sua mão esquerda e a da relação entre a Alice e a Athena, ambas conectadas pela noção de pequenas gentilezas que, muitas vezes, passam despercebidas por nós.

Alice acreditava que sua mão esquerda não fazia nada, mas descobriu que esta a apoiava em diversos momentos ao longo do dia. Igualmente, a garota começa acreditando que sua instrutora não passa de uma estabanada que nem notaria que ela estava criando um gatinho no quarto das duas, mas termina entendendo melhor tudo o que a Athena fazia por ela.

Como vimos quando da introdução da Alice, a garota tem clara dificuldade para interagir com os outros, sendo bastante reservada e sempre mantendo alguma distância (física e emocional) daqueles ao seu redor. E é nisso que transparece a sua imaturidade – se não talvez como pessoa, certamente que como undine.

Quando as garotas veem a Athena pena primeira vez, no começo do episódio, esta passa por elas cantando. Akari comenta como sua voz era linda, ao que a Alice responde – claramente um pouco incomodada – que saber remar a gôndola era muito mais importante para uma undine.

Num sentido mais literal ela não deixa de ter razão. Antes de mais nada essas garotas são gondoleiras, e precisam ter um bom domínio da gôndola se esperam poder levar passageiros pelos estreitos canais de Neo Venezia. Ainda assim, há uma fala da Athena mais para o final do episódio que dá nova perspectiva a situação: “músicas são feitas para que outros as escutem”.

Em primeiro lugar, é uma frase que me remete a muito do que discuti no quarto episódio, de como o trabalho, em Aria, aparece sempre como algo para e pelo próximo.

Mais relevante, porém, é um argumento que já fiz múltiplas vezes ao longo das minhas análises de Aria: o trabalho de uma undine, em sua essência, é o encontro com o outro. Sim, saber remar é importante, de suma importância até. Mas só isso não é o bastante. E quando uma undine aceita alguém em sua gôndola, surge ai a oportunidade para um breve relacionamento.

Que a Athena veja a sua música como algo que existe para o outro, cantando e, pela sua canção, acalmando e relaxando aqueles que entram na sua gôndola, denota que ela entende isso muito bem. Já a Alice, por sua vez, ainda não.

Mas bom: é por isso que a Athena é a instrutora e a Alice é a aprendiz. Não acham?

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Extras


E fechando o texto temos a nossa costumeira seção de extras, onde eu deixo tudo o que não coube no texto corrido. E vejam só: desta vez sem spoilers! Uma boa leitura, e até o próximo episódio o/

○ Akari menciona que a Orange Planet é a maior companhia no ramo, e a sede mostra isso bem. Tudo bem que estamos mais acostumados com a diminuta companhia Aria, mas mesmo comparada à Himeya a Orange Planet ainda parece mais imponente.

○ Acho interessante como a Akari não demora pra notar as atitudes da Athena. Reforça bem tanto o fato de que é a Alice que é desatenta aqueles ao seu redor como o de que a Akari é seu exato oposto, sempre atenta às pessoas a sua volta.

○ Aos que forçarem um pouco a vista, gosto de como é possível notar que o Maa tem olhos azuis muito antes da Athena apontar isso.

○ Acho muito bonitinho como a história da Ai se liga ao tema do episódio, com o pai tentando lhe encorajar e ela mesma não vendo bem desse jeito. De certa forma, traça algum paralelo entre ela e a Alice, ambas tendo dificuldade para entender os motivos mais profundos das ações daqueles mais próximos.

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