“Esquecemos tantas coisas em nossas vidas. É meio triste” // Aria the Animation, episódio 5


Para aquela ilha que não deveria existir…


Pois é, pelo jeito nem mesmo Aria escapa do famoso “episódio de praia”. Atraídas a uma ilha misteriosa, nossas três protagonistas ali encontram suas instrutoras, que decidiram dedicar o dia a um treino intensivo conjunto. Mas claro, não só de trabalho se vive, e após o treino as garotas recebem um merecido descanso. Rola até um churrasco, vejam só.

De certa forma, esse episódio é um momento de respiro. Um que se preocupa mais em consolidar o que vimos até agora – isto é, estas personagens e suas relações – do que em nos apresentar algo novo. E como tal, não vou mentir, é um dos episódios mais difíceis de se comentar em Aria the Animation. O que não significa que eu não tenha nada a dizer, é lógico.

Neste texto, eu quero começar dando uma olhada mais aprofundada na estrutura desse episódio, do porquê dele vir agora e qual a sua função no contexto maior da série. Disso nós passamos a uma discussão de um dos aspectos centrais de Aria: o mono no aware. Ao que a terceira seção fica dedicada a alguns comentários sobre os temas do episódio.

E como é de costume, finalizamos o artigo com uma seção de extras, onde vai tudo que não coube no texto corrido. Uma boa leitura a todos, e vamos em frente!

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Episódio de Treino. Episódio de Praia


Quando posto no contexto maior de Aria enquanto franquia, há de se notar como Aria the Animation é uma constante de introduções. Basta observar como se estruturam os primeiros quatro episódios da série, sempre em torno de nos apresentar a algum novo personagem do elenco e localidade ou característica de Neo Venezia.

Isso não é dizer que as duas outras séries – Natural e Origination – não apresentem personagens e elementos novos. Elas o fazem, apenas não com a extensão com que Animation o faz. E podem ter certeza que as introduções não acabaram. O leito já deve esperar a introdução da Athena, mas posso adiantar que ela não será a última personagem relevante a conhecermos.

Nesse sentido, reforço o que disse na introdução: este quinto episódio é um momento de respiro. Um momento para o anime cessar com as introduções e trabalhar um pouco mais com o que já tem – isto é, as personagens apresentadas até o momento.

Convidadas a “Neverland”, as garotas se veem, em fato, num improvisado campo de treinamento intensivo, baixo a dupla tutela da Akira e da Alicia. Como interpretar o que se segue vai depender do ponto de vista que o leitor decidir tomar.

Para a história, este é (pelo menos em parte) um episódio de treino. E, como tal, eu muito aprecio o cuidado que foi posto nos exercícios que as garotas têm de fazer. Todos tem algum sentido ou propósito, geralmente ajudá-las a desenvolver as pernas, a resistência física ou o senso de equilíbrio – todos elementos importantes para o trabalho de uma undine.

Para a audiência, porém, o episódio pode muito bem ser lido como o seu típico episódio de praia, completo ainda com vários dos tropes associados a ele. Me surpreende que não tenham quebrado fuma melancia com um bastão, pra ser sincero. Em todo caso, é uma dualidade bem fácil de associarmos com essas duas figuras praticamente antagônicas que são a Akira e a Alicia.

No âmbito maior da série, porém, o episódio vem para consolidar o trio principal. Digo, a Alice só foi apresentada no episódio 3, e o episódio 4 foi mais focado na Akari. Assim, o momento era propício para mostrar essas três interagindo mais entre si.

Como episódio de treinamento, nós podemos ver um pouco das forças e fraquezas de cada uma. Como a Akari se mostra a mais disposta ao treino. Como a Alice tem medo de cometer erros. E como essas três não conseguiriam ficar em cima de uma tora nem que suas vidas dependessem disso.

Além disso, serve também para vermos que essas meninas também não estão ao completo deus-dará. Suas instrutoras são, elas próprias, undines profissionais, que para além de treiná-las precisam também seguir uma agenda bastante apertada de clientes (a Alicia que o diga). Ainda assim, sempre que possível elas tentam participar no crescimento de suas pupilas.

Como episódio de praia, porém, esse é o momento dessas garotas criarem algumas lembranças. Um momento de exceção, que por isso mesmo se presta bem à brincadeira e ao lazer. À atividades que servem para reforçar os laços dessas personagens umas com as outras.

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A Melancolia da Transitoriedade


Mono no Aware. Em tradução literal, “o pathos das coisas”. “Phatos”, aqui, significando algo de forte apelo emocional, que evoca sentimentos de empatia e compaixão.

Na arte japonesa, o termo fala da impermanência. A ideia de que tudo é transitório. Momentos passam. Cenários mudam. Pessoas se vão. Seu grande símbolo sendo a cerejeira (sakura), de beleza transitória e efêmera, que ainda hoje se faz quase onipresente em vários animes e mangás. Mas claro, podemos encontrar diversas outras instâncias do mono no aware.

Já se perguntou porque tantos animes se passam no ensino médio? É possível dar várias explicações para tanto, as duas mais comuns sendo a identificação com o público-alvo (eles próprios adolescentes) ou, quando esta explicação não cabe, o puro escapismo (onde o ensino médio surge como essa época nostálgica e idílica, se comparada à realidade do mercado de trabalho).

São explicações perfeitamente válidas, não me entendam mal. Mas talvez caiba ainda adicionar como essa é a época perfeita para o mono no aware. É a passagem da infância para a vida adulta, mediada pela adolescência. E a passagem do ensino fundamental para o superior ou para o mercado de trabalho, mediada pelo ensino secundário. Uma época de mudança por excelência.

E somos sempre ambivalentes com a mudança. Por um lado, entendemos a sua inevitabilidade, e mesmo, em casos, a sua necessidade. Ainda assim, toda mudança é também uma perda. O fim de um status quo. E, por isso, fonte de certa melancolia. De uma “gentil melancolia”, como coloca a entrada na Wikipedia sobre o mono no aware.

“Coisas misteriosas. Quando você é criança, tem certeza de que elas existem. Mas quando menos espera, essa certeza se transforma no desejo de que elas existissem. Porquê? Quando você deixou de acreditar nelas?”

É com essas palavras que o episódio abre, e mais para o final temos uma fala da Akari que parece espelhar a esta: “Quando eu era criança, acreditava que a Terra do Nunca era um lugar real. Mas uma vez que cresci, entendi que era uma fantasia. Quando isso aconteceu?” Duas passagens que trazem em si a pura essência do mono no aware.

Este é um conceito central em Aria, uma das bases da sua atmosfera. E enquanto a sua presença se faria sentir com mais intensidade sobretudo quando da última série, Origination, ainda podemos ver diversas instâncias do mono no aware aqui em Animation.

Um dos meus exemplos favoritos é o da árvore espelhada na água que a Akari e a Aika encontram no segundo episódio. Uma vista efêmera, que só pode existir enquanto durar a acqua alta. E claro, temos também esse quinto episódio.

Que ele se passe num momento de exceção, um desses raros dias em que tanto a Alicia quanto a Akira estão de folga e podem se dedicar ao treinamento de suas pupilas, bem como que ele se passe num cenário diferente, uma ilha paradisíaca afastada de Neo Venezia, dá a toda essa situação a essência do mono no aware: a consciência de que esse momento é temporário.

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Sobre Aquilo que Esquecemos…


“Memória” é um tema que aparece algumas vezes ao longo desse episódio. Eu já mencionei a fala da Akari mais para o final, sobre acreditar na Terra do Nunca, e todo o contexto dela torna o tema ainda mais evidente. Akari lamenta por tudo aquilo que esquecemos, ao que a Alicia então dá uma resposta até que bastante inesperada:

“Tudo bem, não? Porque esquecer uma memória não é o mesmo que descartá-la, não é? Você não abandona aquilo que lhe é precioso. Elas ficam guardadas, bem no fundo das gavetas do seu coração”

E nós bem vimos um caso do tipo. Lá pela metade do episódio as garotas decidem deitar um pouco na areia, após uma tarde de brincadeiras. Nesse momento, uma aponta que a Akari perdeu um dos seus laços, o que a faz lembrar de um caso similar de quando ela era criança e, durante um passeio com a família, perdera um dos seus laços na piscina.

O episódio até mesmo termina com o laço da Akari voltando para ela, o que parece representar bem o que a Alicia havia dito. Que memórias, pelo menos aquelas mais importantes para nós, nunca são realmente esquecidas. E que basta uma oportunidade para que retornem.

A mudança é inevitável. O tempo sempre passa. E quando menos esperamos, as certezas da infância se transformam nas fantasias da vida adulta. Ao final da história, Wendy sempre deixa a Terra do Nunca. Mas isso não é dizer que nada permanece. Pois ainda que tudo ao nosso redor mude, ainda que nós mesmos mudemos, nossas memórias ainda seguem conosco.

Esse não é, porém, o único tema a despontar no episódio.

Akari chega a comentar que talvez Neo Venezia, mesmo todo o planeta Aqua, seja a “Terra do Nunca”. E, em algum nível, ela bem tem razão. Todo o anacronismo que envolve aquele mundo bem lhe faz parecer a mítica casa de Peter Pan. Uma terra parada no tempo, que por vezes até parece imutável – “parece”, contudo, sendo a palavra-chave aqui.

A “Terra do Nunca” é a direta contradição do mono no aware. Um mundo onde a mudança não chega. E Neo Venezia não é isso, conforme já vimos e ainda veremos outras tantas vezes. Isso posto, uma fala anterior da Alicia talvez explique esse comentário da Akari.

“O mundo parece maravilhoso quando refletido nos olhos de uma pessoa maravilhosa”.

A passagem da infância para a vida adulta é também outro tema recorrente nesse episódio – como, eu espero, já deve ter ficado bem claro. Essa passagem, porém, não precisa ser um caminho sem volta em direção ao puro cinismo. A Terra do Nunca não existe – mas ela pode existir, para aqueles que conservarem a capacidade de se maravilhar com o mundo ao seu redor.

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Extras


E chegamos assim ao final do texto, bem como à nossa costumeira seção de extras. Como sempre, fica aqui o aviso de que os comentários abaixo podem conter spoilers do que está por vir, então leiam por sua conta e risco!

○ Eu tenho certeza que a Akira só queria treinar as garotas e que foi a Alicia quem teve a ideia das cartas.

○ Temos outra menção à Athena, e acho legal como já aprendemos bastante da personagem nessa rápida conversa. Sabemos que ela é uma das três melhores undines de Neo Venezia, junto da Akira e da Alicia. Sabemos que ela é a instrutora da Alice. E sabemos que ela pode ser um pouquinho desligada (vide ir pra ilha errada!)

○ Quando o treino acaba e as garotas ficam livres para brincar, temos uma sequência delas mergulhando e observando a vida marinha. Acho curioso, posto que o próximo mangá de Kozue Amano, Amanchu, seria justamente sobre mergulho.

○ Temos ainda outra pequena instância de construção de mundo quando a Akari menciona que já não é mais possível nadar nos mares de Man Home.

○ O final desse episódio sempre me pega de jeito. É difícil não se emocionar com a Akari se emocionando.


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