“Cartas podem mesmo carregar sentimentos através do tempo e espaço, não é?” // Aria the Animation, episódio 4


Aquela carta não entregável…


O quarto episódio de Aria the Animation traz uma importante mudança de paradigma. Até aqui, o anime vem se mostrando um slice of life em primeiro lugar e uma ficção científica “soft” em segundo. Este episódio, porém, nos introduz ao lado sobrenatural da série, dando o precedente para muito do que ainda viria pela frente.

Algo similar pode também ser dito do tom desse episódio. Este é o episódio mais melancólico do anime até o momento, e muitos dos sentimentos que ele evoca tornarão a aparecer em episódios futuros, mesmo fora de um contexto sobrenatural.

Neste artigo, temos uma estrutura um pouco diferente da que vim usando até aqui. Assim, nós abrimos com alguns comentários sobre o aspecto sobrenatural de Aria, e dos elementos comuns que vemos em episódios do tipo. Disso, passamos a uma discussão do tom do episódio, e de como ele diferente do da série até o momento.

A terceira seção é mais familiar, dedicada aos temas do episódio. E, para finalizar, encerramos com a nossa costumeira seção de extras, onde incluo tudo o que não consegui encaixar no texto corrido. Uma boa leitura a todos, e vamos em frente!

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Cruzando o Limiar


Vamos começar expandindo um pouco o que eu disse no começo da introdução.

Aria é, antes de mais nada, um slice of life. Seu foco estando no dia a dia de suas personagens, conforme treinam para alcançar a almejada posição de gondoleira profissional. Ainda assim, sendo uma história que se passa no futuro, em um planeta Marte que foi colonizado e terraformado, é inevitável que a série opere também na ficção científica.

Trata-se, porém, de uma ficção científica de tipo “soft”. Uma que não se preocupa com precisão ou mesmo plausabilidade científica. O tipo de história na qual a explicação “porque ‘ciência’” surge muito como que um substituto para a velha explicação “porque ‘magia’”. Como exatamente uma ilha flutuante regula a temperatura do planeta? “Ciência”!

Talvez seja por isso que a série consiga, de quando em vez, fazer pequenas incursões pelo sobrenatural. Fosse o rigor científico uma preocupação aqui, essa lado sobrenatural de Aria poderia acabar destoando do restante da obra. Não sendo esse o caso, o resultado é uma mescla de futuro tecnológico e passado folclórico que não deve soar estranha ao japonês moderno.

Inclusive, em alguma medida o sobrenatural, aqui, reforça muito do que já discutimos sobre a natureza de Neo Venezia. Esta é uma cidade que, tanto dentro da história como fora dela, busca evocar o passado (distante, na história; e próximo, quando esta foi lançada). Que abundem aqui lendas folclóricas e fenômenos inexplicáveis apenas reforça essa identidade.

Assim, esse episódio vem para nos dizer que por entre os canais de Neo Venezia há o oculto. Mas claro: há mais o que se discutir aqui.

O sobrenatural, em Aria, tem a sua própria estética. Uma série de temas que se repetem sempre que este torna a aparecer. E este episódio que dá o precedente de muito do que ainda veremos pela frente – a começar, é claro, com o visual.

Em várias das instâncias em que o sobrenatural está envolvido, o anime distingue tais momentos com algum tipo de mudança visual. Neste caso, podemos reparar nas duas vezes em que a Akari encontra com a Ami – a misteriosa garotinha que lhe implora para entregar uma carta.

O primeiro encontro das duas parece ocorrer nas últimas horas do crepúsculo. Cruzando os meandros da cidade, Akari termina por chegar em um espaço aberto bastante iluminado, mas há algo de estranho nessa iluminação. Ao contrário dos tons de laranja que caracterizavam o episódio até então, temos aqui um amarelo intenso.

A luz ainda parece vir de baixo, como que emanando dos gatos que estão no local e da árvore no centro da praça – ao pé da qual, aliás, temos a Ami. E enquanto o segundo encontro das duas é um pouco diferente, ele não é nem de longe menos distinto.

Atravessando um beco estreito, Akari chega a um canal onde o sol parece brilhar mais intenso – algo que a própria chega a comentar. Ainda, a iluminação desse local parece um tanto quanto inconsistente. Quando a Akari primeiro chega ao canal, a luz parece vir de trás da sua gôndola, mas todos os prédios são iluminados como se esta viesse da frente.

É quase como se toda aquela região estivesse cercada pela luz, o que dá um todo um ar onírico ao ambiente. Em ambos os casos, a mensagem é clara: o mundo natural ficou para trás.

Por sinal, outro elemento comum do sobrenatural em Aria é a presença de algum tipo de limiar. O espiritual e o mundano existem lado a lado, mas nunca integrados. Há sempre algum tipo de separação entre ambos, uma linha que é preciso cruzar para chegar ao “outro lado”.

Nesse episódio, nas duas vezes em que a Akari encontra com a Ami ela o faz após cruzar um beco longo e estreito. Episódios futuros trarão outros limiares, uns mais claros do que outros, mas o conceito em si permanece sempre o mesmo.

E para finalizar, temos os gatos. Estes são presença constante nos eventos sobrenaturais da série, com esse episódio trazendo não poucas instâncias disso.

Eu já mencionei como a praça na qual a Akari primeiro encontra a Ami tinha alguns gatos, e como a luz do lugar parecia emanar deles. Mas para além disso, notem como a Akari só chega até a Ami seguindo o Aria, e como ele próprio parecia estar sempre animado e confortável apesar da atmosfera estranha dos locais de encontro.

Além disso, temos o próprio fato da Ami ser uma gata. Eu gosto de como o anime lida com isso: ele não é exatamente sutil com a identidade da garota, mas também não é expositivo a respeito. Mas seja como for, uma vez que esta é revelada acaba por ficar claro porque é justo ela quem pede para a Akari entregar a carta.

O porquê dos gatos terem essa ligação com o sobrenatural acaba sendo explicado em universo na próxima temporada, Aria the Natural. Mas convenhamos que não é uma associação fora do comum.

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Sob a Luz do Crepúsculo


Eu acho bem interessante a forma como esse episódio começa. Falo mesmo da primeira cena, que é bem diferente do que vimos nos episódios anteriores.

Até aqui, os episódios de Aria começavam em manhãs ensolaradas, com a predominância dos tons de azul. Agora, porém, começamos no crepúsculo, onde predomina os tons de laranja. Além disso, até então abríamos com foco nas protagonistas, enquanto que aqui nós primeiro as vemos de longe. Nosso ponto de vista sendo um beco estreito em frente ao qual elas passam – como se as víssemos pelos olhos da Ami.

É uma forma bastante engenhosa de dar o tom do episódio. Em certo sentido o próprio crepúsculo pode ser entendido como um limiar. Como a linha divisória entre o dia e a noite, e o momento por excelência onde o sagrado e o mundano coexistem. Mas mais do que isso, há também certa melancolia no crepúsculo.

O tom de Aria é um dos aspectos da série que eu tenho mais dificuldade de colocar em palavras. Ele é leve e relaxante, ainda que nunca ao ponto da pura comédia. Mas ele também pode ser reflexivo e mesmo um pouquinho melancólico, por mais que nunca ao ponto do puro drama.

É um tom bastante verdadeiro à experiência humana, que transita entre o alegre, o tocante e o agridoce. E esse quarto episódio é o nosso primeiro real contato com o agridoce em Aria. Um no qual a catarse final é uma mescla de satisfação e melancolia.

Akari é encarregada de entregar essa misteriosa carta, e ao final descobrimos que seu endereço já não existe mais. Um antigo posto de extração de água dos primeiros colonos de Aqua, a região acabou inundada com a própria água que vinha a extrair, ao que tudo indica afogando os trabalhadores no processo.

Ao final, a Akari cumpre a sua função – e, como a Ami coloca, faz com que os sentimentos contidos naquela mensagem cruzem o tempo e o espaço. Ainda assim, aquele para quem a mensagem se dirigia há muito já se foi.

Esse é o primeiro episódio a quebrar a fantasia de Neo Venezia. A nos revelar que a cidade, mesmo todo o planeta, foi sim construída baixo muito esforço, dedicação, paixão e esperança. Mas também baixo muito sacrifício. Ao custo de vidas humanas e de famílias desfeitas. Ao final, valeu a pena? Bom…

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Cartas e Trabalho


O tema central do episódio, aquele para o qual ele dedica o seu tempo e os seus diálogos, é a ideia de que uma carta carrega consigo os sentimentos daquele que a envia. Sentimentos estes capazes de, como a Ami coloca, cruzar o tempo e o espaço, a fim de chegar ao seu destinatário.

É algo que, de certa forma, vimos também ao fim do primeiro episódio, quando a Alicia recebe uma carta de agradecimento da irmã mais velha da Ai. E é também algo que a Akari e a Ai exercitam numa base diária, trocando mensagens uma com a outra.

Infelizmente, não há muito que eu possa extrapolar aqui. Talvez valha um comentário sobre como o fato da mensagem do episódio ser uma espécie de cartão de memória dá a entender que a mediação da tecnologia em nada minimiza os sentimentos passados. De resto, porém, é um episódio bastante direto naquilo que quer falar. O que não é ruim, só não me dá muito com o que trabalhar.

Assim, eu quero aproveitar o momento para falar de um outro tema. Um que o episódio apenas tangencia, mas justamente por isso é tão mais interessante de comentar: trabalho.

No episódio passado, vimos como a Akari fala do trabalho do Akatsuki, um salamander. Responsáveis por regular o clima de Neo Venezia, mantendo o planeta habitável, a garota fala deles com grande admiração. E aqui vemos algo similar.

A introdução do Woody é também a introdução dos sylph, entregadores que cruzam os céus de Neo Venezia. Mais uma vez, a Akari fala do amigo com grande estima, dizendo como ele é responsável por entregar os sentimentos das pessoas. A resposta dele, porém, é a de que são as undine que ajudam as pessoas a criarem esses sentimentos em primeiro lugar.

É claro que podemos atribuir as falas da Akari à sua personalidade otimista, que enxerga beleza em tudo ao seu redor. Mas mesmo que as tomássemos dessa forma, acho que ainda há algo aqui.

Em Neo Venezia, o trabalho é não só para o outro, um serviço prestado a outrem, mas também pelo outro, algo que é ou de fundamental necessidade ou de importância emocional para aqueles a quem o serviço atende.

Isso nos dá as bases para melhor entender o final agridoce do episódio. Valeu a pena todo o sacrifício feito para se colonizar Aqua? É possível que mesmo aqueles que se sacrificaram diriam que sim. Que o resultado final, a encarnação material de seus esforços e esperanças, talvez não justifique o sacrifício, mas o faça ter algum propósito.

E essa é também outra palavra importante aqui. O trabalho, em Aria, é sempre dotado de propósito, tanto interno como externo. É útil e necessário aos que recebem os serviços, mas também emocionalmente gratificante para aqueles que o praticam.

Em 2018 o antropólogo David Graeber lançou seu livro Bullshit Jobs: A Theory, onde ele propõe que a sociedade moderna é afetada por uma epidemia de trabalhos inúteis, que terminam por deixar os próprios trabalhadores emocionalmente exauridos.

Claro, não é preciso que algo tenha nome para que exista – costuma ser o contrário, na verdade. Saindo mais de uma década antes desse livro, Aria ainda parece ir ativamente contra trabalhos inúteis, nos mostrando uma sociedade onde cada serviço tem o seu lugar e o seu propósito.

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Extras


E com isso chegamos ao final do artigo – e também à nossa costumeira seção de extras. Já sabem como ela funciona, mas vale sempre lembrar que alguns dos comentários feitos aqui podem conter spoilers. Sigam por sua conta e risco!

○ Começamos o episódio com a Aika ainda tentando se provar sobre a Alice, algo que me faz pensar que esse episódio não deve se passar tanto tempo depois do anterior.

○ Sylphs são a terceira profissão elementar de Aria, associados ao ar. A quarta profissão, porém, só virá a ser propriamente apresentada ao final da temporada. Para os curiosos, são os Gnome, que cuidam de manter a gravidade de Aqua próxima daquela de Man Home.

○ Ami chega a comentar que só a Akari a notou. Isso é algo que episódios futuros irão trabalhar melhor, mas é bastante implicado ao longo da série que é o amor da Akari por Neo Venezia que a permite encontrar o lado sobrenatural da cidade. Conforme ela se abre para Neo Venezia, esta vai aos poucos se abrindo para ela.

○ Akari menciona, ao fim do episódio, como ela não conseguiu mais encontrar o canal onde ela vê a Ami pela segunda vez. Podemos interpretar que aquilo era uma espécie de “além”, mas eu não descartaria a possibilidade da Akari ter brevemente viajado no tempo – e quem conhece a série sabe porque eu digo isso.

○ E temos novas adições à nossa lista de figurantes com nomes começados com “A”! Desta vez, vemos a gatinha Ami e seu dono Allan. Por sinal, o nome verdadeiro do Woody é Udo Ayanokouji 51º. Já o do carteiro, é Namihei Anno.

○ Essa mescla de leveza e melancolia que caracteriza o tom de muitos dos episódios de Aria tornaria a aparecer, e com muito mais força, na obra seguinte do diretor Jun’ichi Satou: Tamayura.


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Um comentário sobre ““Cartas podem mesmo carregar sentimentos através do tempo e espaço, não é?” // Aria the Animation, episódio 4

  1. Sobre a Ami ser um gato e isso não ser expositivo, é realmente verdade. Eu não percebi isso a princípio, foi o último episódio da série que me dei conta.
    Sobre o Woody, eu realmente pensei que a Maldição dos Nomes com A tinha se quebrado 😓

    “A nos revelar que a cidade, mesmo todo o planeta, foi sim construída baixo muito esforço, dedicação, paixão e esperança. Mas também baixo muito sacrifício. Ao custo de vidas humanas e de famílias desfeitas.”
    Sem muito mais a dizer, só queria deixar registrado que pensar no esforço e sacrifício dessas pessoas me deixa tocado, bate até aquele arrepio 😅

    Curtido por 1 pessoa

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