“E se puder se tornar um com o vento…” // Aria the Animation, episódio 3


Com aquela garota transparente…


O terceiro episódio de Aria the Animation nos introduz em fim à nossa terceira protagonista: a menina-prodígio da Orange Planet, Alice Carroll. Um gênio da gôndola, a garota é ainda uma pair, uma aprendiz um grau abaixo da Akari e da Aika. Uma situação reveladora, que denota como há mais no trabalho de uma undine do que apenas técnica.

Somos também propriamente apresentados ao Akatsuki, um personagem que vimos apenas de relance no primeiro episódio. O primeiro cliente da Akari, quando esta começou seu treinamento em Neo Venezia. E também o personagem que dá a brecha para o anime continuar a sua construção de mundo, em fim explicando a ilha flutuante que vemos no cenário de Neo Venezia.

Neste artigo, seguimos ainda a mesma estrutura dos dois anteriores. Começamos, assim, com uma seção dedicada ao mundo de Aria, que recebe dois momentos de construção no episódio. Dela passamos para uma discussão das personagens, com foco, claro, na nossa recém-chegada: Alice. A terceira fica, então, para os temas do episódio, sobre o que significa ser uma undine.

Como é de praxe, a quarta e última seção do artigo fica como uma seção de extras, onde incluo tudo o que não consegui encaixar no texto corrido. Espero que gostem, e uma boa leitura a todos!

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Pair. Single. Prima


Single” é um termo que o episódio anterior já havia mencionado, mas, posto que o episódio não se detém a explicá-lo, é possível que para muitos ele tenha soado como puro “ruido de fundo”. Pois bem: este terceiro episódio vem não apenas para clarificá-lo, como também a todo o processo de se tornar uma undine profissional.

Ao se tornar uma aprendiz, a garota começa como uma pair, status marcado pelas duas luvas em seu uniforme. O nível seguinte é, claro, o de single, no qual a garota precisa usar apenas uma luva. Finalmente, uma vez que a garota se gradue da posição, ela deixa de ser uma aprendiz para se tornar uma profissional.

É importante notar que todas são undine, apenas em diferentes níveis de profissionalização. E ainda que o anime não se detenha a explicar isso a fundo, já temos pistas o bastante para concluir que a passagem de um estágio a outro exige mais do que apenas tempo ou mesmo a habilidade da garota em manejar a gôndola.

Em todo caso, eu gosto de como a história usa as luvas para marcar em que ponto no seu treinamento as aprendizes estão. Remar uma gôndola parece um trabalho que exige bastante das mãos, então faz sentido que as menos experientes precisem de alguma proteção nelas, perdendo essa necessidade conforme vão se aprimorando.

Mudando de assunto, o leitor também já deve ter reparado, nos episódios anteriores, como há uma ilha flutuante nos céus de Neo Venezia. Pois bem: com a introdução do Akatsuki, o anime pode agora melhor explicar o que ela é. Chamada “Ukijima”, a ilha é responsável pela manutenção do clima de Aqua, mantendo o planeja habitável.

Mas para além de sua função primária, a ilha têm também duas funções secundárias. A primeira delas é a de habitação, sendo um verdadeiro bairro flutuante. Já a segunda é a de ponto turístico, atraindo as pessoas pela vista ímpar que ela oferece. E é essa segunda atribuição a que eu achei mais interessante aqui, dentro do que já discutimos sobre a construção de mundo de Aria.

Ukijima é um verdadeiro engenhos da tecnologia, mecanismo de contínua terraformação do planeta. Sua aparência, porém, é a de algo saído de algum livro de fantasia – ou, mesmo, de algum filme do Miyazaki. E, lógico, não acho que isso seja por acaso, tendo em vista tudo o que falei sobre esta ser uma cidade que tenta de toda forma esconder a sua faceta mais tecnológica.

Servindo ainda de pontos turísticos, ela dá continuidade à “fantasia” de Neo Venezia, bem como à promessa de uma cidade afastada da correria do dia a dia e da vida regrada pela tecnologia.

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As Três Aprendizes


Eu gosto bastante da forma com que o anime nos apresenta a Alice. O episódio abre com a Akari e a Aika, conforme esta luta para manter sua gôndola em curso num trajeto que, ela admite, é de nível mais avançado. Eis então que a Alice ultrapassa as duas, cruzando as águas com uma graciosidade e leveza que deixam bem claro o quão habilidosa ela é.

Que a garota ainda seja uma aprendiz, mesmo uma um nível abaixo da Akari e da Aika, é uma surpresa para nós tanto quanto o é para as personagens. Há, ai, uma dissonância. Uma que, de forma bem clara, nos comunica algo: pura técnica não é o bastante. Há mais no trabalho de uma undine do apenas guiar a gôndola, e é isso que o episódio irá explorar.

Logo na sua primeira interação com a Akari e a Aika, a Alice se mostra uma pessoa bastante ríspida, deixando bem claro que as duas a estão incomodando. E conforme o episódio avança, esse seu lado mais “seco” e “distante” reaparece ainda outras vezes.

No caminho para a escola, Alice cruza com duas colegas da mesma companhia. Elas se cumprimentam, mas mesmos nas poucas palavras que trocam fica claro que existe ai uma barreira invisível entre as três. E uma vez na escola, uma garota se aproxima da Alice para pedir o seu autógrafo, apenas para ouvir desta uma recusa bem direta.

Alice pode ser um gênio da gôndola, mas ela não nos parece ser lá muito sociável. O que, numa profissão que depende do contato com o outro, pode ser um problema. Ainda que, vale apontar, o que a própria Alice acha disso parece ficar meio ambíguo.

Por um lado, ela aparentar ter um claro desdém pela forma artificial com que as undine interagem com seus clientes. Vemos isso, dentre outros momentos, quando ela se despede das duas colegas que encontra no caminho para a escola. Ao que ela está indo embora, dois clientes aparecem para um passeio, no que as duas assumem então o seu típico sorriso comercial.

Nesse momento, Alice fecha os olhos e segue o seu caminho, como que reprovando mentalmente essa forma de agir. Ainda assim, uma vez na escola ela pratica sorrisos na fonte, como que lamentando o fato dela própria não conseguir fazer o mesmo. É uma personagem marcada por contradições – mas ao menos uma delas se resolve ainda nesse episódio.

Sobre isso, porém, falamos daqui a pouco. Por agora, nos voltemos brevemente para a Aika e Akari, que também recebem um pouco mais de caracterização nesse episódio.

Claro que, tendo em vista que o episódio anterior já foi dedicado a ela, Aika é que recebe menos destaque aqui. Ainda assim, o fato de começarmos o episódio com ela tendo escolhido uma rota claramente difícil demais para ela já nos diz um bom tanto sobre a personagem.

Dentre as três principais, Aika é talvez aquela com mais pressa para se tornar uma undine profissional, algo que episódios futuros irão trabalhar me maior detalhe. Algo que é bastante condizente com a sua personalidade mais orgulhosa, com o seu posto como herdeira da Himeya, e também com a sua posição como aprendiz da Akira.

Quanto à Akari, nós já falaremos bastante dela na próxima seção. Ainda assim, eu queria comentar aqui o pequeno tour que ela acaba dando ao Akatsuki.

Sob alguns aspectos, ele é bastante parecido com o que ela deu à Ai, no primeiro episódio. Que o Akatsuki use da cartada “somos amigos” para convencê-la a levá-lo de graça é uma referência direta àquele, e mesmo já um indício da (falta de) maturidade do personagem. Sem contar de ser ainda outro exemplo de como a Akari as vezes se deixa levar pelos outros.

Ao contrário da Ai, porém, Akatsuki é mesmo alguém que a Akari já conhecia – o seu primeiro cliente.

Durante o tour, fica claro que a Akari já deu uma boa melhorada. Sua fala ainda denota algum amadorismo, mas já flui muito melhor do que quando ela tentou fazer o mesmo pela Ai. Isso pode ser pelo fato dela estar com um conhecido, mas também pode ser pelo tempo que se passou.

O leitor talvez se lembre que, no primeiro episódio, a Akari pondera sobre como, em mais quatro meses, ela completará um ano em Aqua pelo calendário do planeta. Eis então, pois, que começamos esse terceiro episódio com ela mencionando a chegada de seu segundo verão em Neo Venezia.

Que ela seja capaz de atuar como guia sem gaguejar, com muito mais segurança na voz, é mostra do seu progresso. Por outro lado, que ela não saiba dizer a idade do aeroposto internacional de Neo Venezia, enquanto que para a Ai ela sabia dizer há quanto tempo Aqua havia sido terraformado, denota que o processo de aprendizado não é sempre uma reta contínua.

Akari, assim como a Aika e a Alice, ainda tem um longo caminho pela frente. Mas ela está no caminho certo.

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Sorriso Forçado


Por acaso o leito já ouviu falar do conceito de “esforço emocional”? O termo foi primeiro definido pela socióloga Arlie Russell Hochschild, e descreve como certas profissões exigem de seus funcionários que estes exprimam certas emoções durante o expediente.

Pouco importa se o caixa do supermercado teve um dia ruim, se a atendente no MacDonalds perdeu a mãe naquela semana, ou se o funcionário da loja acordou com uma forte dor de cabeça: de todos esses é esperado que te atendam com bom humor e um sorriso no rosto, e ai deles se não o fizerem. Isso, em suma, é “esforço emocional”.

Quando a Alice reclama das undine esconderem seus reais sentimentos por trás de um sorriso forçado, é a isso que, sem saber, ela se refere. E na sua ambivalência, ela não consegue dizer se há algo de errado com as outras… ou com ela.

Alice é a mais nova do elenco principal, e como tal ela é também bastante propensa a atitudes mais infantis. Que ela não seja capaz de disfarçar as próprias emoções (se ela estiver irritada você vai saber) não deixa de ser também um reflexo disso. Ainda assim, a conclusão do episódio não é a de que ela está errada. Porque a Akari existe.

Logo no começo a Alice nota que há algo de diferente no sorriso da Akari. Quando ela a vê com o Akatsuki, porém, essa imagem se desfalece um pouco. Do ponto de vista da Alice, o Akatsuki estava apenas assediando a Akari, enquanto que esta apenas ficava quieta e fingia não se incomodar. Mas claro, a coisa não é bem assim.

Quando a Akari começa o tour, fica bastante evidente que ela está seguindo um roteiro. Não demora, porém, para ela sair dele. E, nisso, demonstrar sincera admiração pelo Akatsuki, pelos salamander, e, é claro, por Neo Venezia.

Tal como a Alice, a Akari não esconde os próprios sentimentos. Ao contrário da Alice, porém, ela é muito mais aberta às pessoas ao seu entorno. Já tínhamos visto isso com a Ai, no primeiro episódio, e vemos agora aqui também, com o Akatsuki.

De certa forma, podemos dizer que a Akari navega as interações sociais com a mesma leveza com que a Alice navega a sua gôndola. Note que eu não digo aqui com a mesma graça, ela também não é nenhum prodígio da socialização. Ainda assim, na medida em que ela se abre para o outro, ela cativa. E, nisso, o outro se abre para ela.

É natural, então, que, ao refletir sobre a Akari, a Alice a compare com o controlar da gôndola. Não lutar contra a corrente. Ir em frente com calma. E abrir o coração àqueles que estiverem na gôndola. Akari é especialista nesse último. Técnica é importante, elas são aprendizes por um motivo. Mas técnica sozinha não é o bastante. Porque o trabalho de uma undine é o encontro com o outro.

Para muitas, esse é um encontro mediado. Por roteiros pré-prontos e sorrisos forçados. O que o episódio diz, porém, é que ele não precisa ser assim. Que é possível um encontro mais sincero e genuíno. Que resulta, afinal, num sorriso verdadeiro.

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Extras


Como de costume, fica aqui esta seção para tudo aquilo que não consegui encaixar no texto corrido logo acima. Mais uma vez: alguns desses pontos podem conter spoilers, então leiam por sua conta e risco!

○ Ao saber que a Alice tem 14 anos, a Aika comenta que, portanto, ela ainda deve precisar ir à escola. A título de curiosidade: o ensino obrigatório, no Japão, só vai até o equivalente do nosso ensino fundamental (isto é, até o 9º ano). Ainda assim, a maior parte dos estudantes ainda optam por avançar para o ensino médio.

○ Gosto de como as idades das garotas espelham a das suas companhias. Aika é a mais velha, e trabalha para a Himeya, a companhia mais tradicional de Neo Venezia. Alice é seu oposto, a mais nova e trabalhando para a companhia mais nova da cidade, Orange Planeta. No meio, temos a Akari, bem como a companhia Aria.

○ Eu gosto da colega de classe da Alice. Pena que, se bem me lembro, essa é a primeira e última aparição dela. E é claro que a garota tem um nome começando com “A”: Anna.

○ Há quatro profissões em Neo Venezia associadas com os elementos aristotélicos. A primeira delas são as próprias undine, seres associados à água. E nesse episódio conhecemos os salamandras, cujo folclore as associa ao fogo.


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