“Essa cidade é feita de milagres” // Aria the Animation, episódio 1


Aquele Maravilhoso Milagre…


Em vários aspectos, esse primeiro episódio de Aria é uma introdução bastante convencional à obra. Somos apresentados a boa parte do elenco principal, exploramos um pouco desse mundo no qual a história se passa, e mesmo já podemos notar alguns dos temas que permeiam a série como um todo.

Ainda assim, há algo de diferente aqui: a personagem da Ai. De um lado, nós temos essa garota que se insere no treino da Akari e que demonstra ter um claro viés contra Neo Venezia. Ao mesmo tempo, é por meio dela que nós, da audiência, experienciamos aquele mundo. Ela é a personagem com a qual somos convidados a nos identificar.

O texto abaixo foi dividido em quatro seções, começando com uma dedicada à construção de mundo do episódio: como ela é feita e que mensagens podemos tirar dai. Disso nós passamos a uma seção dedicada às três personagens centrais do episódio, Akari, Aika e Ai: quem são e como esse episódio as retrata.

A terceira seção é também a mais curta, sendo dedicada aos temas que despontam nesse primeiro episódio. Por fim, fechamos o artigo com uma seção de extras, onde coloco tudo o que não consegui encaixar no texto corrido.

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Planeta Aqua


Não seria nenhum grande exagero dizer que Aria é Neo Venezia. Muito mais do que puro cenário, a cidade é, em essência, um argumento. A manifestação material de muitos dos ideais, temas e mensagens da obra. E enquanto isso ficará cada vez mais claro conforme avançamos na série, acho que esse primeiro episódio já bem demonstra o que quero dizer.

Como eu disse, nesta seção eu quero dedicar alguns parágrafos a como o anime constrói do seu mundo, que tipo de mundo emerge dessa construção, e de que forma esse mundo reflete os temas da obra. Muito bem-vindos a Neo Venezia!

Algo a se notar nesse primeiro episódio é que ele constrói, em fato, dois mundos. Um destes, claro, é Aqua, com foco maior em Neo Venezia. O outro, porém, é Man Home – a nossa Terra. E a depender de que mundo estamos falando, a abordagem do anime difere bastante.

Man Home, podem notar, é sempre construída pelo contraste. Quando a Ai comenta a falta de carros em Neo Venezia, com a Akari acrescentando que aqui é preciso comprar e preparar a própria comida. Ou quando as garotas param para comer batata na manteiga, e a Akari comenta que as de Neo Venezia são servidas inteiras.

Nós ainda veremos outros exemplos disso ao longo do anime, que vão estabelecendo uma dicotomia bem forte entre Aqua e Man Home. Nesses momentos, um é definido pela ausência do outro. Um é o que o outro não é. E claro, isso não é por acaso.

Quando se trata de construir apenas Neo Venezia, contudo, ai o anime já é bem mais direto – ainda que também sempre diegético. Pequenas falas das personagens, que vão aos poucos no dizendo mais sobre aquele mundo e como ele funciona.

Por exemplo, no começo, logo após a abertura, temos um monólogo interno da Akari onde ela reflete que já faz vinte meses que ela chegou em Aqua. Mais quatro e terá se passado um ano. Nossa primeira pista de que este mundo é, afinal, o nosso planeta Marte terraformado.

Quando a Ai liga na companhia Aria, Akari explica a sua posição de aprendiz, e como ela não pode levar clientes devido a tanto. Algum tempo depois, quando as duas já se reuniram com a Aika, a Akari tenta explicar um pouco da história de Neo Venezia, e de como já fazia 150 anos desde a colonização de Aqua. É uma exposição sempre bastante orgânica.

Ao longo do episódio, uma coisa fica bem clara: Neo Venezia é o foco aqui, e é com ela que devemos nos preocupar. Man Home, quando mencionada, existe apenas enquanto a antítese de Neo Venezia. E, de novo, isso não é por acaso.

No ar, naves espaciais cruzam a cidade de um lado a outro. No chão, porém, o ritmo de vida é ditado pelas gôndolas, que vagam com calma pelos canais da cidade. O telefone da companhia Aria mais parece um dos primeiros modelos domésticos. Até você atendê-lo e um holograma aparecer mostrando quem ligou.

Neo Venezia é uma cidade que existe no distante futuro, num planeta Marte que foi profundamente alterado a fim de se tornar habitável. E, ainda assim, há bem pouco de “futurista” na cidade, e o pouco que há parece mesmo disfarçado por um “verniz” de antiguidade (como o mencionado telefone da companhia Aria).

Não seria certo dizer que Neo Venezia rejeita a tecnologia. Afinal, a cidade só pode existir por causa dela. Mas ela também não a expõe, não mais do que o necessário. O resultado disso sendo uma cidade que parece parada no tempo. E claro: não poderia ser de outra forma.

Aqui uma pergunta: sendo Neo Venezia uma cidade turística, qual o seu apelo?

Imagino que isso talvez varie de pessoa a pessoa. Para uns, é o fato desta ser uma reconstrução de Veneza, e o ar histórico que isso traz. Para outros, talvez sejam os passeios de gôndola, bem como toda a cultura associada à cidade. Eu, porém, diria que seu maior apelo está em outro lugar: na sua atmosfera.

Refletindo um pouco sobre a relação entre Aqua e Man Home, podemos pintar um quadro talvez familiar. Um que começa numa Terra que, enquanto não uma completa distopia, parece ter exacerbado muito do que vemos hoje nas grandes cidades. Uma onde o ritmo de vida é frenético e a comida é industrializada e pré-pronta.

E nisso temos Aqua, sobretudo Neo Venezia, que se coloca como a antítese disso. Como um refúgio da vida regida pela tecnologia. Uma cidade onde o ritmo de vida é mais lento, e onde a comida é fresca e preparada na hora. Uma que evoca um sentimento de nostalgia pelos “tempos mais simples”, anacrônico e a-histórico.

Akari chega a comentar que veio a se apaixonar pela cidade não apesar de seus defeitos, mas muito por conta deles. Porque há beleza na lentidão. Em caminhar pelos meandros da cidade, prestando atenção a cada viela. Em poder preparar a própria comida com calma. Sim, esta é uma cidade inconveniente. E essa é a sua maior qualidade.

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Akari. Aika. Ai


Como qualquer slice of life, Aria é um anime que vive em seus personagens. Das três protagonistas da série, duas são apresentadas já neste primeiro episódio. E junto delas vemos também alguns dos secundários da história, dentre os quais o mais importante, aqui, é sem dúvidas a garotinha Ai.

Comecemos assim com a Akari, essa nossa adorável goofball. Uma das protagonistas da história, eu diria que este primeiro episódio faz um excelente trabalho de introdução à personagem.

Akari é uma otimista. Alguém que enxerga a beleza do mundo ao seu entorno – e, talvez até mais importante, que não hexita de dizer o que vê. Pouco depois da abertura, quando estão ela e a Alicia na cozinha, Akari comenta como o som das panelas no fogo faz parecer que o dia começou de verdade. Uma pequena mostra de sua tendência a dizer “frases embaraçosas”.

Uma vez que a Ai entra em cena, algumas outras características da nossa protagonista ficam mais claras. Por exemplo, o fato dela não saber se impor, por vezes se deixando levar por aqueles ao seu redor (como essa garotinha que quer um passeio de gôndola).

Mas muito mais relevante: é das suas conversas com a Ai que aprendemos o quanto a Akari ama Neo Venezia. Ela se apaixonou por essa cidade desde o momento em que chegou, e aprendeu a apreciar mesmo as suas inconveniências. E claro: ela tenta de alguma forma transmitir esses sentimentos para a Ai.

Como gondoleira, o episódio cuida de mostrar que ela ainda tem um longo caminho a percorrer. O seu barco ainda balança, e suas explicações sobre a cidade ainda soam robóticas e forçadas. E digo que, enquanto isso já vai além do escopo destes artigos, os que decidirem seguir a série até o seu final poderão ver o quão longe essas personagens chegam em termos de desenvolvimento.

Mas voltando a este primeiro episódio: se a Akari tem ainda um longo caminho como gondoleira, eu diria que ela já demonstra o potencial para se tornar uma excelente undine.

Porque ela ama aquela cidade. Porque ela é capaz de simpatizar com aqueles que entram na sua gôndola, e tenta genuinamente se conectar com eles. E porque o seu maior desejo é que as pessoas deixem Neo Venezia com boas lembranças. Que deixem a cidade um pouquinho mais felizes do que quando chegaram.

A próxima personagem a comentar é a Aika, que, de certa forma, nos aparece aqui nesse episódio como o oposto da Akari. Bem mais séria no treino, e também de personalidade mais cínica. Ocorre, porém, que as duas são bem mais parecidas do que reconhecem – algo que tem lá suas ramificações temáticas.

Sim, Aika é bem mais sérias nos treinos, e as duas admitem que ela é a melhor gondoleira dentre ambas. E, ainda assim, o seu barco balança. Ela resiste à Ai de início, mas não é preciso muito para convencê-la a levar a garota na sua gôndola. E apesar do seu bordão de que “frases embaraçosas estão proibidas”, ela própria não deixa de soltar uma, mais para o final do episódio.

Eu vejo a Aika muito como um aceno à audiência. Um reconhecimento por parte do anime do quão “piegas” algumas de suas falas e situações podem soar. Notem, porém, que seu bordão não é uma negação do que a Akari diz.

Sim, algumas das falas da garota são um pouquinho embaraçosas. E também são sinceras e espontâneas. Não há nada de errado no que ela diz, muito menos no sentimento que essas frases transmitem. Bom, ou ao menos é o que eu sinto que o anime tenta passar com uma personagem como a Aika. Uma que, como mencionei, tem mais em comum com a Akari do que admite.

A última das personagens que eu quero tratar nesta seção é a Ai. Isso para expandir um pouco o que eu disse na introdução, e também para apontar algo: como esse episódio envelheceu bem!

Tomando a perspectiva do presente, é possível que muitos na audiência cheguem à Aria da mesma forma que a Ai chega a Neo Venezia. Isto é: já tendo ouvido bastante sobre o anime, sobre o quão incrível ele é, o quão bonito ele é, o quão reconfortante ele é, e quantas mais outras qualidades forem possíveis.

E enquanto há aqueles que ouvirão esses elogios e irão para o anime de braços abertos, há também aqueles que não podem deixar de pensar “não pode ser tudo isso”. Aqueles que, muito como a Ai, chegam a Neo Venezia com lá seu quinhão de desconfiança.

E longe de rejeitar essa visão, o anime a abraça. E coloca a sua audiência para acompanhar essa garota que vai, aos poucos, se aclimatando àquela cidade e àquelas personagens. Que vai se deixando imergir naquela atmosfera, se deixando levar pela gôndola dessas duas aprendizes a undine. E que, no fim, deixa a cidade já pensando em voltar.

Vale dizer que muito do que eu falo se aplica mesmo quando o anime lançou, 15 anos atrás. A Ai é uma ótima personagem para a qual apresentar aquele mundo, não só em sua lore, mas também em sua atmosfera. E espero que, tal como ela, aqueles que se prestaram a assistir esse primeiro episódio voltem também para o segundo.

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A Beleza da Imperfeição


Vários são os temas que fazem de Aria uma série tão especial. Longe de ser puro escapismo, o anime é, antes de mais nada, um veículo para a transmissão de uma série de ideias e valores. Alguns desses nós já discutimos de passagem ao longo deste texto. Ainda assim, vale a pena ressaltar os mais relevantes nesse primeiro episódio.

Assim, o primeiro que merece menção é a defesa de um ritmo de vida mais lento. Acho que não há porque me aprofundar muito aqui, visto que já falei do tema múltiplas vezes ao longo do artigo. Mas ainda cabe uma menção aqui, visto que este é um dos temas centrais do anime.

O encontro com o “outro” é outro tema bastante caro ao episódio, e é também um que permeia o anime como um todo (e eu inclusive diria que é o aspecto central da próxima temporada, Aria the Natural).

Ser uma undine é estar em constante contato com o outro. E saber como lidar com esse outro é parte integrante do trabalho. Nesse primeiro episódio, temos um pouco da visão e da atitude da Akari nessas questões: buscando se conectar com o outro (no caso, a Ai) e enxergando cada novo encontro como uma chance única e especial.

Por fim, temos um tema bem mais específico a esse primeiro episódio. A ideia de que existe beleza na imperfeição, e de que é possível enxergar algo de positivo mesmo naquilo que, a princípio, não parece o ter.

É o que vemos quando a Akari comenta sobre as inconveniências de Neo Venezia, enxergando nelas todo um outro ritmo de vida, diferente daquele com o qual ela cresceu em Man Home. Ou quando a Ai afinal percebe que sua irmã, longe de querer se gabar da viagem que fez, estava apenas tentando compartilhar a experiência.

E claro, é o que vemos ao final do episódio, quando Akari mostra uma foto da irmã da Ai com seu noivo para a Alicia. Esta diz que se lembrava do casal brigando, percebendo, na viagem, tudo que não gostavam um no outro. E no processo, fica implícito, fortalecendo a própria relação.

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Extras


Finalizando o artigo, nesta seção vão todos aqueles comentários que eu não consegui incluir no texto corrido. Tenham em mente que alguns destes podem conter spoilers do que vem pela frente, então leiam por sua conta e risco!

○ Eu gosto do conceito de abertura de Aria, o fato de ser apenas a música tocando sobre cenas do cotidiano dessas personagens. Quem talvez esteja achando que isso é só para esse primeiro episódio: nop, o anime inteiro é assim, e eu adoro.

○ Numa nota similar, a trilha sonora de Aria é simplesmente maravilhosa. E eu gosto do quão versátil ela é, sempre complementando muito bem momentos mais calmos e tranquilos, momentos de maior tensão, e momentos mais sentimentais.

○ Muito se fala sobre o scenary porn em Aria e… olha, longe de mim dizer que os cenários do anime não são bonitos, porque são, mas eu vou ser aquele cara e dizer que os cenários me impressionam bem mais no mangá.

○ E falando no mangá: o começo dele é completamente diferente do anime, e a própria Ai demora muito pra aparecer. E, pra ser sincero, eu acho que prefiro o começo do anime.

○ Por sinal, reparem que a Akari já começa o anime com apenas uma luva. No mangá, ela começa com duas.

○ “Uma cidade nascida do desejo daqueles que quiseram construí-la, num planeta sem água ou ar. Um maravilhoso milagre”. Mantenham essa frase em mente. Voltaremos a ela no episódio 11.

○ Adoro como o nome de todo mundo nesse anime começa com “A”. Porque sim.


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