Boa história. Má pessoa.


Sobre a relação entre artista e arte


Em 8 de Agosto de 2020, Matsuki Tatsuya, então roteirista do mangá Act Age, publicado na revista semanal Shounen JUMP, foi preso sob acusações de assédio sexual a uma menor de idade. Tatsuya confessou o crime, e poucos dias depois a Shounen JUMP se pronunciou: Act Age estava oficialmente cancelado.

O caso traz ecos de outro ainda bastante familiar. Em 2017, Nobuhiro Watsuki, autor de Rurouni Kenshin (Samurai X), foi preso por posse de pornografia infantil. Na época, o impacto da notícia nesse nosso meio foi tremendo. E para alguns foi talvez a primeira vez que tiveram de se perguntar: o que eu faço com essa informação?

Act-Age, volume 7 // Act-Age Wiki

É uma questão com a qual outras mídias já vêm lidando há um bom tempo. Como eu reajo quando o autor de uma obra que eu gosto, talvez ele próprio uma pessoa que eu admiro, diz ou faz algo que considero aberrante? Defende uma posição indefensável? Comete um crime hediondo? O que eu, como público, faço com essa informação?

Dou de ombros e declaro a distinção entre autor e obra? A “morte do autor”? Ou seria eu moralmente obrigado a deixar de consumir tudo o que vier dessa pessoa? É possível falar em algum tipo de meio termo ou mesmo uma terceira opção?

Não estou aqui para responder a essas questões. No fim, como cada pessoa lida com uma situação do tipo é algo bastante pessoal, e não acho que exista aqui um certo ou errado. Isso dito, há algumas coisas sobre as quais você talvez queira refletir um pouco antes de se posicionar. E, agora sim, é para isso que estou aqui.

Act-Age, volume 11 // Act-Age Wiki

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A Morte do Autor

Foi em 1967 que o crítico literário francês Roland Barthes publicou seu ensaio La mort de l’auteur (“A morte do autor”). 53 anos depois, suas ideias ainda se provam influentes mesmo entre aqueles que nunca ouviram seu nome.

Nesse ensaio, Barthes defendia uma separação entre autor e obra, argumentando que qualquer análise ou crítica de um texto deveria tomar por base apenas o texto em si, não quem é o seu autor ou o que este tinha a dizer a seu respeito. Qualquer que fosse a intenção do autor, ela é irrelevante se a obra em si não a transmite.

Que autoridade o autor deve ter sobre sua obra? Era essa a pergunta que Barthes buscava responder // Princess Tutu, episódio 1

Em certo nível há mesmo algo de intuitivo no conceito. Digo, quando nós, do público, vamos para uma obra qualquer – um filme, um livro, um anime – raramente o fazemos dotados de vasto conhecimento sobre quem a produziu ou quais eram as suas intenções. E, nisso, tendemos a julgar a obra muito mais por ela própria.

Claro, de quando em vez nos familiarizamos com certos nomes. Um mangaka mais famoso. Um diretor mais conhecido. Uma dubladora que já ouvimos antes. Mesmo nesses casos, porém, seria ingênuo dizer que “conhecemos” essas pessoas. É, sabemos do seu trabalho, mas e quanto à sua história de vida? Ou suas crenças e ideologias?

O quanto realmente “conhecemos” os artistas que acompanhamos? // Princess Tutu, episódio 1

Talvez seja por isso que o conceito de “morte do autor” tenda a reaparecer, de uma forma ou de outra, cada vez que ressurge a questão do que fazer quando aqueles envolvidos na produção de uma obra que gostamos se provem… bom, vamos dizer, “não boas pessoas”. Em essência, há aqui um clamor para que continuemos agindo como já agíamos. Para uma manutenção do status quo.

Existe, porém, um problema fundamental nessa lógica. A “morte do autor” é uma ferramenta de análise. De crítica. Mas a nossa discussão atual não é analítica. Não é literária. Ela é moral.

Essa é uma conversa que vai além da pura literatura // Princess Tutu, episódio 2

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Arte e Contexto

Eu tenho três objeções maiores à ideia de uma separação rígida entre autor e obra nessa nossa discussão em específico. A primeira delas sendo o fato de que, como já mencionei em outros artigos, nenhuma história é escrita num vácuo.

Há sempre aqui um contexto a se considerar, desde o mais macro nível das estruturas sociais vigentes quando a obra foi escrita, até o mais micro de quem é o seu autor (e, nisso, que crenças, posições e ideologias este defende).

É comum que os mangás de Koji Kumeta tragam representações no mínimo questionáveis de imigrantes // Sayonara Zetsubou Sensei, episódio 3

Agora, enquanto eu acredito que toda obra é um reflexo de seu autor, isso não significa que toda obra é uma defesa de todas as suas crenças e atitudes. Pondo de outra forma, qualquer leitor de Rurouni Kenshin dirá que não há nada no mangá que indique as inclinações de seu autor. Foi, mesmo, parte do que chocou a todos quando estas vieram à tona.

Mas claro, há casos onde isso é exatamente o que ocorre. E um relativamente recente foi o de MINE, autor da light novel Nidome no Jinsei o Isekai de.

Em 2018, a adaptação em anime da novel foi cancelada devido a críticas de que seu protagonista era um veterano da segunda guerra sino-japonesa (1937-1945) que teria matado mais de 3000 pessoas durante ela, além de mais 2000 no restante da sua vida. Morrendo aos 98 anos, ele então reencarna em um mundo de fantasia como um jovem de 18.

Uma das piadas de “Joshiraku” coloca as garotas para gritar “devolvam nossas terras” na direção ao norte do Japão // Joshiraku, episódio 1

Não colaborando com a situação estavam vários comentários racistas contra chineses que o autor havia feito em seu Twitter até alguns anos antes. No final, não só a adaptação em anime foi cancelada como MINE optou por encerrar a publicação da web novel e por colocar a light novel em hiato até que o material ofensivo fosse revisto.

Casos como este são aqueles em que a ideia de separar autor e obra é menos útil, visto que a ofensa parte não apenas do autor, mas também da obra em si. E insistir na distinção de ambos pouco nos diz sobre as ramificações morais de se seguir consumindo um material do tipo.

Se essas piadas são evidência de racismo e xenofobia, ou apenas de “humor negro”, é difícil dizer // Kakushigoto, episódio 4

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O Capital

Mas e quanto aos casos em que não há, na obra, evidências do pior que há em seu autor? Se a obra em si é “pura”, existe ainda algum dilema moral em consumi-la pouco importa o que seu autor faz, diz ou pensa? Eu diria que sim, e o motivo disso está em uma só palavra: capital.

Se você pagou por uma obra de qualquer maneira que seja, parte do seu dinheiro foi para o autor. Na maioria dos casos, uma parte muito, muito, muito pequena, e isso porque o valor é diluído em toda uma longa cadeia de produção. Se você comprou um volume de Rurouni Kenshin quando este chegou às bancas, o valor em si se dividiu entre a banca, a editora, e toda sorte de “homens do meio” que fazem a ponte entre você e Nobuhiro Watsuki.

Yasukata Tsutsui é um proficiente autor japonês cujos livros já foram adaptados em anime diversas vezes. O mais recente caso é do tipo é o de “Fugou Keiji” // Fugou Keiji Balance: Unlimited, episódio 1

Ainda assim, o fato de que este usou da sua fortuna para montar toda uma coleção de pornografia infantil, além de, depois, para pagar a sua defesa, deve deixar um gosto amargo em muitos dos que já compraram algo de Rurouni Kenshin.

Há, contudo, um contra-argumento a ser feito aqui: o de que o dinheiro deixa de ser sua responsabilidade no momento em que deixa seu bolso. Você comprou um mangá. O que o autor faz ou deixa de fazer com a minúscula fração de centavo que talvez chegue até ele… bom, isso é com ele! Permanece, contudo, um fato: o dinheiro do Watsuki veio da sua obra.

Em 2017, Tsutsui se envolveu numa polêmica ao fazer um comentário bastante infeliz sobre a “Estátua da Paz”, erigida em frente à embaixada japonesa em Seoul // Fugou Keiji Balance: Unlimited, episódio 1

Além disso, casos como o do Watsuki não realmente capturam toda a problemática. Digo, para todos os efeitos, seus fãs não sabiam das suas inclinações, e há mesmo um argumento a ser feito de que, desde que ele não repita o crime, não há problema em seguir acompanhando sua obra. Mas a situação se complica muito mais quando não estamos falando de um crime.

Se um autor usa do seu dinheiro e influência para propagar mensagens abjetas, ainda que não legalmente criminosas, apoiar o seu trabalho se torna, também, um apoio a essas mensagens.

A estátua tem a forma de uma jovem, e é uma homenagem às vítimas de abuso sexual pelo exército japonês durante a Segunda Guerra // Fugou Keiji Balance: Unlimites, episódio 1

Numa situação do tipo alguns talvez falassem em usar de outros meios para consumir suas obras. Afinal, há formas de se ler um mangá ou assistir um anime sem que seu dinheiro vá para o autor, e eu não me refiro apenas à pirataria. Comprar toda coleção de Rurouni Kenshin num sebo, por exemplo, não renderá um centavo ao Watsuki.

Tal atitude, porém, ignora um outro tipo de capital: o capital social. O poder e a influência de uma pessoa em sua sociedade. E é aqui que temos a minha terceira objeção.

Sobre a estátua, Tsutsui disse, em seu twitter: “Aquela garota é fofa. Todo mundo, vamos ejacular na frente dela” // Fugou Keiji Balance: Unlimited, episódio 1

Quando você consome a obra de um autor, e mais ainda quando você comenta, critica e a recomenda, você aumenta o capital social dessa pessoa. A sua relevância. A sua fama. O alcance da sua voz. E isso também tem o seu valor – até maior do que o financeiro, a depender da pessoa.

A solução, portanto, seria o boicote? Nunca consumir obras feitas por pessoas de índole questionável? Infelizmente, mesmo essa lógica tem lá suas falhas…

Após críticas, Tsutsui excluiu o tweet e se desculpou pela “piada” // Fugou Keiji, episódio 1

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Diga-me com quem andas…

Em 2018, Kazuyoshi Yaginuma, então diretor do anime Net-juu no Susume, fez reascender essa exata discussão devido a uma série de comentários antissemita, conspiracionistas e negacionistas do holocausto em seu twitter.

Até aqui, focamos bastante em mangás e light novels. Ambas mídias que ainda conjuram a imagem do autor solitário, ao qual se por imputar a totalidade da obra. E enquanto nós vamos complicar essa imagem muito em breve, acho que o caso de Yaginuma ilustra melhor o que quero comentar nessa seção. Afinal: anime é feito por muito mais do que uma só pessoa.

Net-Juu no Susume, episódio 1

Produtores. Roteiristas. Animadores. Dubladores. E mais um bom tanto de indivíduos que trabalham para tornar o anime uma realidade. Sem esquecer, claro, o autor da obra original: Net-juu no Susume é, afinal, uma adaptação do mangá homônimo.

Uma situação do tipo expõe os limites de se boicotar essas obras. Bom, ok, talvez não “limites”, mas no mínimo um outro lado da moeda. Afinal, num caso assim, não seria este também um boicote indireto a todos aqueles que também trabalharam no anime? É justo com eles não ter o trabalho reconhecido por conta do que um membro da equipe disse ou fez?

Net-Juu no Susume, episódio 1

Claro, contando a favor de Net-juu no Susume está o próprio fato de ser uma adaptação. No fim, não há nada de antissemita no material original, e Yaginuma apenas calhou de ter sido o diretor contratado para esse trabalho em particular.

O problema de uma lógica do tipo, contudo, é que ela não resolve o dilema principal. Digo, imaginem uma situação semelhante, mas acontecendo com um anime original. Talvez até um que seja, de fato, idealizado pelo seu diretor. Se este então vai e faz um comentário polêmico (ou pior: comete um crime) e decidimos coletivamente por boicotar a obra… é uma decisão justa com os demais que trabalharam nela?

Net-Juu no Susume, episódio 1

O quão envolvida uma pessoa precisa estar com uma obra para que as suas atitudes – e apenas as suas – manchem para sempre a integridade dessa mesma obra?

Acho que aqui cabe retomar o caso do mangá Act-Age. Como eu disse no começo do texto, Matsuki Tatsuya era seu roteirista. O que cabe adicionar agora, contudo, é que Usazaki Shiro era a sua ilustradora. E o cancelamento da obra, bem como qualquer boicote que esta venha sofrer internacionalmente, afeta a ela tanto quanto a ele.

Net-Juu no Susume, episódio 1

Agora, vale dizer que a própria Shiro veio a público se posicionar a favor do cancelamento do mangá. E também que, desde a prisão de Tatsuya, ela vem recebendo diversas mensagens de apoio dos fãs, que torcem para que o caso não se torne um baque decisivo na carreira dela.

Contudo, fica ainda assim a reflexão. No nosso mundo moderno, a arte é cada vez mais um trabalho colaborativo. É justo que todos os envolvidos sejam, mesmo que indiretamente, punidos pelos atos de um, por mais central para a obra que seja esse um? É meio óbvio que eu não tenho a resposta.

Net-Juu no Susume, episódio 1

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Companhias…

Agora, vamos voltar um pouco a conversa. Porque o caso de Net-juu no Susume é singular por ainda um outro motivo: o estúdio responsável pelo anime, Signal.MD, não apenas criticou publicamente os comentários de Yaginuma, como ainda buscaram se distanciar dele após a polêmica explodir.

Comparem a atitude do estúdio com a da editora Shueisha, responsável pela revista Shounen JUMP. É verdade que foram rápidos em agir no caso de Tatsuya, cancelando o mangá Act-Age. Contudo, Watsuki segue ainda seriando na revista a continuação de seu Rurouni Kenshin. E nem a Shueisha, nem a Shounen JUMP, se pronunciaram a respeito de seu caso.

Em 2002, Mitsutoshi Shimabukuro foi preso sob acusações de prostituição envolvendo uma menor de idade. Na época, ele publicava “Seikimatsu Leader den Takeshi!”, na Shounen JUMP // Comic Vine

Acho que isso levanta a pergunta do como lidar com as companhias envolvidas na produção e distribuição das obras feitas por pessoas, digamos, “menos que exemplares”. Que responsabilidades elas têm, se alguma? E como nós, do público, devemos reagir quando elas falham em cumprir quaisquer responsabilidades que imputemos a elas?

Deve a Shounen JUMP ser boicotada pela forma como agiu no caso de Watsuki? Ou, mesmo, deve a Shueisha como um todo o ser? Seria isso justo com os demais que publicam na revista? Ou nas outras publicações da editora? Fica a reflexão.

Em 2008, Shimabukuro voltaria à Shounen JUMP com seu atual mangá de sucesso “Toriko” // Comic Vine

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Olho por… o que?

Mudando um pouco o foco da conversa, permitam-me, nesta seção, bancar o advogado do diabo.

Retomando o caso do Watsuki, é interessante discutirmos um pouco a sua pena. Isso porque, pelo crime de posse de pornografia infantil, ele foi condenado a uma multa de 200 mil ienes. O que não é lá muita coisa, ainda mais quando você considera que Watsuki não é, de forma alguma, um pé-rapado. Tudo considerado, 200 mil ienes não deve ser um rombo assim tão grande na sua carteira.

Rurouni Kenshin, volume 2 (edição brasileira – meio-tanko) // Guia Dos Quadrinhos

Muitos ficaram (e ainda ficam!) compreensivelmente indignados com uma pena tão branda. E há, sem sombra de dúvidas, uma discussão a ser tida aqui sobre a leniência da justiça japonesa no caso. Contudo, eu queria perguntar:

Se essa multa não foi o suficiente… que punição seria?

Quero deixar bem claro que não falo isso pra defender a decisão da justiça japonesa no caso. Mas eu acho válida uma discussão sobre o que nós, como indivíduos, esperamos de um sistema de justiça – qualquer que seja ele. E, ainda mais importante, sobre como reagimos uma vez que o indivíduo deixa esse sistema, tendo, ao menos legalmente, “pagado a sua pena”.

Rurouni Kenshin, volume 1 (edição brasileira – tanko) // Guia dos Quadrinhos

Há alguma punição dura o bastante para que Watsuki, a tendo cumprido, poderia voltar a escrever mangás normalmente? Alguma punição dura o bastante para que alguém possa abrir um volume de Rurouni Kenshin sem se questionar sobre a moralidade do ato?

Agora, eu tenho certeza que alguns lerão essas indagações e partirão logo pro famoso “bandido bom é bandido morto”. Ok, vou entreter a ideia um pouquinho. Imaginemos, pois, um mundo no qual, pelo crime de possse de pornografia infantil, Watsuki foi condenado a morte. Vamos inclusive dizer que ele já foi executado.

Rurouni Kenshin, volume 2 (edição brasileira – tanko) // Guia dos Quadrinhos

Pergunto: você poderia, agora, ler Rurouni Kenshin sem culpa? Porque eu estou confiante que ao menos uma parcela dos leitores diriam que não.

A depender do que o autor fez ou disse, bem como do quão fortes são as suas emoções quanto ao incidente, não há sentença que seja o bastante. Não há reparação que baste. E não há tempo que cure a ferida. Pois cada vez que você abrir o mangá ou colocar o anime pra tocar, isso será um lembrete do que aconteceu.

Rurouni Kenshin, volume 5 (edição brasileira – tanko) // Guia dos Quadrinhos

O que é uma posição compreensível, mas é também uma bem dura. E, de certa forma, mesmo coloca em questão o propósito de um sistema de justiça. Digo: se não há pena que baste, qual então é o ponto de haver uma pena em primeiro lugar?

Reiterando, eu mesmo penso que Watsuki saiu dessa, como diriam os americanos, com “um tapinha no pulso”. Mas quando me questiono qual seria, então, a pena ideal, eu não consigo chegar em uma resposta.

Rurouni Kenshin, volume 6 (edição brasileira – tanko) // Guia dos Quadrinhos

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Outras Reflexões

Há ainda uma série de outras pequenas nuances sobre as quais vale a pena refletir antes de decidir se posicionar nessa discussão. E com o final do texto se aproximando, quero reservar esta seção pelo pelo menos reconhecer algumas delas.

Pra começar, há a própria questão do que conta ou não como uma “ofensa”. Casos como o de Tatsuya e o de Watsuki são fáceis de apontar como exemplos do tipo, mas que dizer de Daisuke Umezu, autor da light novel de Log Horizon, que em 2015 foi acusado de evasão fiscal? Isso conta? É um crime do mesmo jeito, por mais que de uma magnitude completamente diferente.

Log Horizon, episódio 1

Cabe também uma reflexão sobre se a reação do público é, ou mesmo pode ser, proporcional à ofensa do autor. Digo, neste texto vimos desde casos de comentários infelizes no twitter até casos de abuso sexual, e em todos a discussão fica presa num binarismo de se devemos ou não consumir as obras dessas pessoas.

Há bem pouco espaço para diferentes reações para diferentes ofensas, e isso em parte porque nós, do público, temos bem pouco poder de ação fora o famoso “votar com a carteira”. Quando indignados, nossa única reação possível parece ser o boicote e o “xingar muito no twitter”. E eu me pergunto se essa é mesmo a melhor forma de lidar com a situação.

Log Horizon, episódio 1

Podemos também refletir sobre quando a ofensa parte não de indivíduos, mas de companhias. E aqui eu me refiro a casos como animadores mal pagos ou funcionários do estúdio morrendo por excesso de trabalho. Seria moralmente questionável consumir arte feita nessas condições?

Há também a questão do tempo. Por acaso a ofensa tem “prazo de validade”? Assumindo que o autor não repita o erro, qualquer que seja ele, há um período após o qual se torna moralmente aceitável voltar a apoiar o seu trabalho? Se sim, qual é esse período? Ele varia de ofensa a ofensa? Há ofensas que jamais poderão ser perdoadas?

Log Horizon, episódio 1

E como ficam os autores do passado? Aqueles que há muito já se foram, e cujas atitudes nós muitas vezes desculpamos com um “ah, mas na época era assim mesmo” (muitas vezes sem nem nos darmos ao trabalho de checar se na época era “assim” mesmo). É o fato de estarem mortos que torna aceitável consumir seus trabalhos? E se for, por quanto tempo um autor precisa estar morto para gozar desse “privilégio”?

São questões para as quais eu não tenho uma resposta, e que ficam aqui apenas como mais algumas provocações.

Log Horizon, episódio 1

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Kino e Sigsawa

Tendo em conta tudo o que foi dito, acho que é um bom momento para acrescentar que eu não sou exatamente um expectador neutro em toda essa discussão.

Claro, ainda que tenha acompanhado o anime de Rurouni Kenshin na infância, eu não tenho por ele a afeição que muitos da minha geração parecem ter. Eu até hoje não assisti Net-juu no Susume. E só fui descobrir a existência de Act-Age quando estourou a polêmica. Contudo, vocês já devem ter me visto falar – e muito – desse anime chamado Kino no Tabi.

Kino no Tabi, episódio 1

A história de uma garota e sua moto, Kino no Tabi começou como uma série de light novels escrita por Keiichi Sigsawa e ilustrada por Kouhaku Kuroboshi. Em 2003, esta ganhou a sua primeira adaptação em anime, com direção de Ryutaro Nakamura (o mesmo de Serial Experiments Lain). E é este anime que eu tenho como o meu favorito.

Sigsawa, porém, é… Bom, pra ser justo, ele não chega nem perto do nível de controvérsia dos casos mencionados até aqui. Não cometeu nenhum crime, e não parece ter se metido em teorias da conspiração no twitter. Ele é, contudo, claramente de direita, e em seu twitter pessoal Sigsawa frequentemente compartilha matérias do Sankei News, jornal de alinhamento conservador.

Como alguém cujos ideais tendem a pender mais para a esquerda, eu me vejo numa posição no mínimo desconfortável quando se trata de falar sobre Kino no Tabi. E, ainda assim, eu falo.

Kino no Tabi, episódio 1

Talvez porque a série seja o meu anime favorito, e nisso cai muito do que discuti sobre como esta é uma mídia colaborativa. Acreditem: a qualidade do anime de Kino muito deve à equipe do anime. Ainda assim, não é como se eu não tivesse interesse em ler (mesmo comprar) as novels da franquia.

Talvez seja porque, como eu disse, Sigsawa não parece ter se metido em nenhuma grande polêmica. Mas sabem… mesmo que fosse o caso, eu não imagino nada que ele possa fazer que faria eu me afastar de Kino. Porque, e acho que esta sim é a verdadeira razão, essa série é simplesmente importante demais pra mim.

Kino no Tabi, episódio 1

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Finalizando:

Ao fim e ao cabo, penso que a questão de se devemos consumir obras de autores problemáticos é uma que só pode ser resolvida ao nível do indivíduo. Caso a caso, colocamos de um lado da balança a ofensa cometida, enquanto que no outro vai a nossa afeição pela obra em questão. E a depender de para onde a balança pende, temos lá a nossa resposta – pessoal e intransferível.

Um autor do qual você nunca ouviu falar comete alguma atrocidade? Bom, é fácil seguir ignorando a sua obra. O autor da sua obra favorita fala algo controverso no twitter? Bom, tem que separara o autor e a obra né… O seu autor favorito comete um crime? Ouch… Então né…

Cabe a cada um colocar autor e obra na balança // Yu-Gi-Oh!, episódio 5

A depender do quão próximos nos sentimos da pessoa e da obra, a depender do quão profundo é o nosso apreço por aquela obra, a depender do quão séria nós encaramos ser a ofensa… A cada vez que um caso do tipo surge, essas e outras questões são postas na mesma balança de novo e de novo. E assim seguirá sendo.

Autores (e também diretores, roteiristas, atores, etc.) ainda são apenas humanos. Como tal, cometerão erros. Uns mais leves. Uns mais graves. Uns, talvez, irreparáveis. O que isso diz das suas obras, se é que diz alguma coisa, é uma pergunta que seguirá em aberto.


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Imagem de capa: Act-Age, capa do volume 1 (em: Act Age Wiki)

3 comentários sobre “Boa história. Má pessoa.

  1. Você conseguiu contemplar tão bem a questão nesse artigo que até difícil adicionar algo, sério, muito bom.

    “Qualquer que fosse a intenção do autor, ela é irrelevante se a obra em si não a transmite.”
    Acho que esse é um dos pontos mais importantes nessa discussão sobre ser correto ou não consumir a obra. Em algumas obras pode realmente não ter nada, mas se o autor tenta fazer algo mais aprofundado acho que é bem provável que os posicionamentos fiquem a mostra, se ele é racista, machista ou qualquer coisa assim acho que ficará ao menos um pouco notável. Mas mesmo nesses casos não acho que deixaria de consumir a obra, afinal, se eu estou ciente que o posicionamento é errado, e percebo os pontos onde a obra o mostra isso só tem a engrandecer quem está consumindo a obra, acho que ajuda muito a desenvolvedor nisso senso crítico, e não só isso, nos desenvolve como seres humanos. Acho que se eu sempre me afastar de ler coisas polêmicas eu vou apenas estar ignorando o problema, e caso aconteça de haver alguma discussão eu nem terei argu argumentação.

    Eu também não gosto muito da ideia de tirar o sustento da pessoa. É tipo naqueles casos de “cancelamento” em que quem está julgando não quer mostrar o erro, quer apenas estragar completamente a vida da pessoa que está sendo julgada, e assim fã mas faz perder patrocínio e tal, mas não percebem que estão tirando o trampo que serve de sustento do cara.

    Enfim, amei o artigo, essa questão é bem complexa e também não acho que vamos chegar numa resposta definitiva logo, acho que fica mais a critério da moral de cada um.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Separar a obra de seu criador: não importa qual seja a mídia, parte das pessoas vão optar em não continuar consumindo ou perder o interesse de conhecer a obra em si. Como leitora de livros, a quantidade de histórias obscuras ou boatarias de autores e autoras é tão grande quanto e ao meu ver, prefiro separar sim a obra da vida de fulano de tal: não é ignorar a vida destas pessoas e sim, que suas obras tem relevância e merecem ser requisitadas. O que difere em não acompanhar por decisão própria da pessoa, para não influenciar ou chegar no mesmo patamar daquele autor ou autora.

    Eu mesma tenho receios e nego a ver certos animes, populares ou já clássicos, porque não tenho nenhuma identificação ou simplesmente o conteúdo destes me deixa um tanto desconcertada; até mesmo o excesso de pessoal que destrincha demais a obra, me fazendo perder o pouco de interesse de assistir ou por ler o que há. Nada contra a obras desconhecidas ou semi-conhecidas, agora, se o anime tem nuances que atrapalham a experiência e é popular até hoje, aí considero ruim.

    O título desta matéria é o resumo deste aspecto: a obra pode ser manchada, só não quer dizer que não possa ser vista, lida e requisitada; a decisão de acompanhar ou não é de nós mesmos. Desde que, não veja isso como uma mancha suja que afete literalmente a vida de uma pessoa. A não ser que isso acabe prejudicando alguém, como houve recentemente com “Act-Age”, que pode afetar a carreira da ilustradora, em maior ou menor grau; os demais casos só afetaram os próprios responsáveis que tiveram de se afastar e voltar quando resolveram a questão ou deram um tempo.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Bem interessante a forma como trabalhou este texto, usando um posicionamento mais neutro para buscar mais a reflexão sobre esses casos, do que reforçar uma crença.

    Eu tinha escrito um monte de coisas, dando exemplos e mais exemplos da minha posição atual sobre tudo isso, mas quanto mais lembrava do que absorvi de suas reflexões, mais pensava que talvez não seja a melhor atitude e, no fim do dia, penso que é praticamente inevitável nosso papel passivo no que tange essa questão.

    Talvez o mais correto possível fosse realmente não consumir nada que demonstre um mínimo aspecto reprovável, mas isso é bastante relativo e mesmo seria deveras limitador, então no fim do dia a mensagem principal realmente acaba sendo: “Vai da reflexão de cada um”!

    Curtido por 1 pessoa

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