Bofuri e o Apelo do MMORPG // Análise


“Nhoc-nhoc” – Maple, provavelmente


Saindo em janeiro de 2020, Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, ou tão somente Bofuri, fica pra mim como um dos títulos mais divertidos de sua temporada.

Na história, a adolescente Kaede é incentivada por sua amiga a tentar o mais novo VRMMORPG do momento: New World Online. Ao criar sua personagem, porém, a garota decide colocar todos os seus pontos iniciais em defesa, dizendo que não queria sentir dor no jogo. E assim começa a jornada de Maple em vias de se tornar uma verdadeira fortaleza ambulante!

Mas algo que, pelo menos pra mim, distingue Bofuri de outros animes sobre mundos virtuais, é o foco da série em fazer de seu jogo… bom… um jogo! Sem armadilhas mortais à lá Sword Art Online ou inteligências artificiais avançadíssimas como o contemporâneo Infinite Dendrogram, New World Online é tão somente um MMORPG. Nada mais, mas também nada menos.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

Sendo assim, o que eu quero aqui é dedicar alguns parágrafos a como Bofuri emula esse estilo de videogame. Porque o argumento que quero fazer é o de que o anime demonstra entender muito bem o apelo desse gênero.

Agora, eu vou tentar manter os spoilers a um mínimo, mas: 1) eles ainda estarão ai, e 2) provavelmente a leitura será bem mais interessante se você já tiver visto o anime. Fica desde já, portanto, a minha recomendação: se deixou o título passar, considere lhe dar lá uma chance. E com isso, vamos em frente!

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Maple: Fortaleza Ambulante

Vamos começar essa análise com nossa protagonista, a adoravelmente desastrada Maple. E isso porque eu vejo na garota uma representação em ao menos dois níveis de um dos apelos centrais não só de MMORPGs, mas mesmo de videogames num geral: a fantasia de poder.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

Videogames como mídia, em sua maioria, tendem a funcionar bastante como ferramentas de empoderamento de sua audiência. De colocar o jogador na pele de um personagem com agência e impacto real perante aquele mundo, seja se tornando algum grande herói, seja tão somente sobrevivendo a situações difíceis. Raros são os jogos em que o final verdadeiro é aquele em que o protagonista morre sem ter conquistado nada ou mudado nada.

Em Bofuri, podemos experimentar, através da Maple, como New World Online cria essa fantasia de poder. Através do acumulo de diferentes habilidades, seu personagem vai se tornando mais e mais poderoso, capaz até mesmo de derrubar sozinho monstros dezenas de vezes o seu tamanho – e isso sem nem precisar de um nível lá muito alto.

Tais feitos permitem então desbloquear ou adquirir novas habilidades que tornam o seu personagem ainda mais forte, criando um efeito bola de neve bastante satisfatório para o jogador. Soa básico, e com toda certeza o é, mas é em bases sólidas que se constrói uma boa experiência.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

Para além disso, porém, Maple funciona ainda como um outro tipo de fantasia de poder, um já mais específico a mídias como o anime ou a light novel: a do “noob” que, quer por talento, quer por pura sorte, se revela como o mais poderoso daquele mundo.

Maple não é uma jogadora hardcore. Na verdade, a garota é bastante casual. Comprou o jogo e o console, mas fora isso não parece gastar com o jogo. Ela não se preocupa com coisas como meta-game ou ter a melhor bild, nem tenta ativamente encontrar as melhores habilidades ou as melhores combinações de habilidades.

Sua forma de jogar é também bastante despreocupada. Ela explora aquele mundo como bem entende, mais pela satisfação de explorar do que em busca de algo em específico (como skills, experiência, quests ou o que for).

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

Ainda assim, por pura sorte Maple vai se tornando uma das mais fortes jogadoras de New World Online. Acumulando, por puro acidente, habilidades que se combinam de tal maneira a tornar a garota praticamente impenetrável e com um poder ofensivo gigantesco. Poder este, aliás, que a coloca sempre entre os melhores nos variados eventos PvP que o jogo organiza.

Agora, em qualquer outra série isso poderia sim ser um problema. Pode soar frustrante para a audiência um personagem tão forte que não merece o poder que tem. Essa é, afinal, a essência da crítica a protagonistas overpower, pelo menos quando não há um longo arco de treinamento explicando como eles chegaram a esse ponto.

Bofuri, porém, contorna esse problema de algumas maneiras. Primeiro fazendo disso a sua piada central: este é, afinal, um anime bem mais leve, parcialmente uma comédia até, e ver o quão ridiculamente apelona a Maple vai se tornando acaba sendo parte do charme da série. Até os outros jogadores de New World se divertem com a situação, então por que não nós, não é mesmo?

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

Mas para além disso, o anime cuida de mostrar o que talento e esforço podem conquistar naquele mundo. Sally, amiga da Maple, é uma jogadora nata, com experiência em VRMMOs que absolutamente domina o jogo desde o momento em que faz o primeiro log in. Já Payne é o exemplo de alguém que se esforça naquele mundo desde que o jogo lançou, conquistando por direito o posto de jogador número 1 de New World Online.

Quer seja você um jogador hardcore, que seja um jogador casual, New World Online comporta ambos os estilos de jogo, e recompensa também a ambos. Ao final, esta acaba sendo a mensagem, e talvez seja por isso que os próprios administradores eventualmente acabam por reconhecer na Maple a “cara” desse jogo.

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New World Online

Mas passemos agora a esse dito jogo, New World Online. Porque eu vejo nele muitas das melhores características que se espera de um MMORPG.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

Vamos começar com o que eu diria ser o apelo central desse jogo: a liberdade. Que começa já no fato de New World Online não tem uma história. Ou, melhor colocando, não ter uma história central, as tão famosas main quests de um RPG típico. Isso é bastante incomum mesmo para um MMO, mas o resultado acaba sendo que cada jogador é então incentivado a experienciar aquele jogo conforme lhe parecer melhor.

Isso se liga também à mecânica central de New World: as skills. Esse é um jogo no qual o objetivo (se é que podemos chamar isso de objetivo) é o acumulo e o upgrade de diferentes habilidades. E aqui você pode ganhar uma nova das mais variadas formas, desde as mais tradicionais, como explorar ruínas e vencer monstros específicos, até as menos convencionais, como literalmente devorar monstros.

Equipamentos podem ser conquistados ou manufaturados, e no fim isso resulta num jogo que comporta um nível surreal de customização do seu personagem. Mesmo duas pessoas jogando com a exata mesma classe ainda terão habilidades, equipamentos e aparências completamente diferentes, frutos de como decidiram se engajar com aquele mundo.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

A seguir, temos como New World demonstra comportar estilos bastante diferentes de jogo. Já toquei no assunto quando mencionei a distinção entre jogadores casuais e jogadores hardcore, mas vale também mencionar outros pares possíveis.

Por exemplo, o jogo demonstra ter bastante conteúdo PvE e PvP. O mundo aberto parece ser majoritariamente PvE, ainda que com PvP ativado. Jogadores são incentivados a explorar o terreno, descobrir side quests e pequenos eventos, enfrentar monstros, completar dungeons… Já os eventos cuidam de um foco maior em PvP.

O primeiro evento no qual Maple participa é um legítimo todos contra todos, onde vence quem sobreviver mais tempo. O segundo, no qual ela participa com a Sally, tem uma mescla maior de PvE e PvP, onde o objetivo é conseguir moedas espalhadas por um mapa com a adição de que você pode roubar essas moedas de outros jogadores. Por fim, o quarto evento do anime é uma verdadeira guerra de guildas.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 2

Quer você queira testar suas habilidades contra o ambiente, quer prefira testá-las contra outros jogadores, New World Online oferece a experiência que você busca.

E vale dizer, numa série um pouco mais séria esses momentos de PvP talvez gerassem de rivalidades a efetivo rancor entre personagens. Aqui, porém, é tudo tratado como parte do jogo. Parte da diversão. E o anime inclusive termina com todos os personagens juntos numa festa na guilda da Maple. Afinal: é só um jogo.

Mas antes de avançarmos para o próximo tópico, só queria também comentar brevemente sobre a distinção entre jogar solo e jogar em party ou em guilda.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 12

Mais uma vez, New World demonstra comportar ambos os estilos de jogo. Você pode sair por ai sozinho enfrentando monstros, mesmo limpando dungeons inteiras. Há inclusive uma recompensa se você conseguir vencer o boss da dungeon sozinho, indicando que o jogo incentiva seus jogadores a tanto. Mas se preferir jogar com amigos, tudo bem: é você quem decide!

Esse aspecto mais social dos MMOs são inclusive parte do seu apelo como gênero. A possibilidade de colaborar com outras pessoas, fazer amizades, vencer desafios… Nem sempre as coisas terminam assim tão doces, é claro, mas ao menos Bofuri reconhece esse ideal.

E só pra não deixar isso passar: o anime tem até uma pequena seção de speedrun! E é claro que você ganha uma skill especial por completar a dungeon no menor tempo. New World é realmente um jogo que comporta todo estilo de jogo possível.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 7

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Exploits for the win!

Para finalizar, precisamos reconhecer: New World é um jogo bastante quebrado.

O fato de que a mecânica principal do jogo é o acumulo de skills, somado ainda ao fato de que você pode alocar essas skills para equipamentos e pets, cria por vezes interações inesperadas que tornam certas habilidades muito mais fortes do que deveriam ser por design.

Por exemplo, o famoso Devorar da Maple. A habilidade era praticamente uma piada… até a garota adicioná-la não ao seu avatar, mas ao seu escudo. O resultado sendo um escudo que consome tudo que lhe toca, de monstros a habilidades e mesmo outros jogadores. E nisso os próprios desenvolvedores se veem forçador a “nerfar” a skill.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 3

Claro, é só uma questão de tempo até a Maple encontrar combinações ainda mais absurdas. E se algo assim talvez soe irreal demais, eu digo com confiança que situações do tipo acontecem com frequência. Talvez nem tanto no universo do MMO, mas tendo jogado YuGiOh por um bom tempo eu posso dizer que interações inesperadas e absurdamente poderosas são praticamente a alma daquele jogo.

Mas há de se perguntar: isso é um problema? Eu não acho. Nem para a narrativa (como eu disse, parte do charme do anime é ver a Maple se tornando mais e mais forte), mas também não para New World como um jogo. Porque que atire a primeira pedra quem não tira certa satisfação de “quebrar” os jogos que joga, encontrando toda sorte de exploits que nem os desenvolvedores pensaram.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 12

Lembro de como anos atrás eu jogava bastante o MMORPG TERA the Rising. Havia (e ainda há!) uma área do mapa mais ao norte que era fechada para os jogadores. Mas é claro que paredes invisíveis significam muito pouco para os mais obstinados, e não era incomum alguém descobrir uma rota que permitisse entrar nessa área. Não tinha nada ali, diga-se, exceto o cenário, mas o ponto nunca foi encontrar algo. Sempre foi apenas entrar lá – só porque o jogo dizia que não podíamos.

Claro, exploits do tipo sempre rendem algum patch. Sua skill é forte demais. Não, você não pode entrar aqui. Não, você não pode apenas sobrevoar toda a área dessa quest. É como se desenvolvedores e jogadores estivessem sempre em constante embate – o que, para alguns, pode até mesmo se tornar parte da diversão.

Vale dizer que nesse embate é a Maple que sai vitoriosa, em Bofuri. Ao final até os desenvolvedores se curvam ao se charme, e decidem apenas deixar a garota fazer como preferir. E ei, eu é que não posso culpá-los.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 12

Bofuri é um anime bastante charmoso. Leve e divertido na medida certa, com personagens carismáticos e um mundo fascinante. Mas para mim onde ele mais brilha é em como ele demonstra entender muito bem o apelo do gênero que busca emular.

Então para concluir: que venha logo a segunda temporada! E ah como eu queria jogar New World Online! Não precisava nem ser em VR…

Imagem de capa: Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai no Omoimasu, episódio 1

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