Review – Sketchbook Full Color’s (Anime)


Cada um no seu ritmo


Foi em 2007 que Sketchbook Full Color’s chegou à televisão japonesa. Produção em 13 episódios do estúdio Hal Film Maker, com direção de Hiraike Yoshimasa, o anime adapta ao mangá homônimo de Kobako Totan, então seriado na revista shounen mensal Comic Blade.

Slice of life, aqui acompanhamos o dia a dia da tímida e introvertida Kajiwara Sora, bem como de suas amigas e colegas no clube de artes da escola. Um elenco de personagens memoráveis, cujas interações e maneirismos rendem ótimos momentos – e não só para a comédia.

Iyashikei, é também aquele tipo de anime que é melhor descrito como um remédio para a alma. Tudo aqui – do ritmo aos cenários e à trilha sonora – é construído de forma a criar uma muito bem-vinda sensação de calma e conforto, típica de séries do tipo.

Para os fãs do gênero, é uma recomendação fácil. Mas finda essa introdução, passemos de uma vez à review! E claro, aviso de sempre: spoilers a frente.

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Cute Girls…

Nichijoukei é o nome que se dá a esses animes focados no dia a dia de um grupo de garotas. A palavra deriva de nichijou (literalmente, “dia a dia”), com o gênero sendo marcado por um foco no cotidiano e no mundano, muitas vezes num pendular entre a comédia e o drama mais leve.

Animes do tipo começaram a ganhar proeminência em meados dos anos 2000, e hoje em dia são figuras carimbadas na indústria, com pelo menos um ou dois títulos toda temporada. Mas justamente por conta disso o gênero já viu toda sorte de experimentações. Garotas vão acampar, garotas querem ser mangaka, garotas líderes de torcida… Só pra lembrar de alguns.

Tudo isso pra dizer que, para o espectador moderno, a premissa de Sketchbook Full Color’s talvez soe mundana até demais. Não há nenhum “quirk” aqui, o próprio clube de artes sendo muito mais cenário do que premissa. Ironicamente, porém, eu argumentaria que Sketchbook pode vir a ser uma verdadeira lufada de ar fresco para aqueles acostumados com o gênero hoje em dia.

O anime saiu em 2007, quando essa onda de animes nichijoukei estava ainda relativamente no começo. Sim, já havia várias séries do tipo: Aria, Hidamari Sketch e Lucky Star predatam Sketchbook, só para citar alguns. Mas eu diria que esta é uma época na qual o gênero não estava ainda tão codificado, e por conta disso muitos de seus clichês mais comuns estão ausentes aqui.

A falta de um quirk é um exemplo do tipo, resultando numa série que é muito mais dependente das personalidades e das interações das personagens para criar as situações de cada episódio.

Mas acho que os próprios personagens é que são o melhor exemplo, aqui. Atualmente, o nichijoukei é bastante marcado por um foco em quatro ou cinco garotas de personalidades mais arquetípicas. Sketchbook, porém, conta com um elenco bem vasto, com personagens que não se encaixam lá muito bem em arquétipos pré definidos.

Isso não é dizer que as personagens aqui são todas profundas, complexas e multidimensionais. Não são, e acho que se fossem o anime não conseguiria criar o clima que quer. Mas elas são, sim, únicas e memoráveis, o que já eleva bastante o anime no meu conceito. Bom, mas nesse ponto é melhor encerrar por aqui esta seção do texto e passarmos de uma vez a uma discussão sobre o elenco…

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Um Vasto – e Cativante – Elenco

Vamos retomar aqui o ponto anterior: ainda que as personagens de Sketchbook não se encaixem em arquétipos previamente definidos, isso não significa que sejam todas multidimensionais.

Cada personagem em Sketchbook ainda tende a ser definido por um ou dois traços mais comuns de personalidade ou por pequenas manias. Natsumi e seus fantoches de meia. Kate e sua mania de usar os kanjis errados para as coisas que ela quer escrever. Nagisa e sua paixão por insetos. A professora Kasugano e sua paixão por galinhas. E por ai vai.

De um lado, esses pequenos “quirks” de cada personagem são parte do que os torna assim tão memoráveis. Há várias professoras preguiçosas em animes de clube escolar, mas eu só conheço uma que tem o carro lotado de pelúcias de galinha, além de ter uma como mascote. Por outro lado, uma construção de personagem do tipo traz consigo alguns riscos.

O maior deles é o de que o personagem se torne, como diriam os americanos, um pônei de um só truque. Algo que pode ficar cansativo bem rápido. Uma piada pode ser engraçada na primeira vez, mas e que tal na quadragésima terceira? (e isso assumindo que você achou ela engraçada em primeiro lugar). Felizmente, Sketchbook contorna esse problema de duas maneiras.

A primeira delas é o fato de que, apesar do que eu disse, esses personagens também não são o seu “quirk”. Situações como quando descobrimos que a professora é uma motorista ridiculamente cuidadosa, ou que o explosivo Negishi tem medo de cachorros, são momentos em que vemos que esses personagens podem sim extrapolar os seus “moldes” iniciais.

Há mesmo alguns personagens que não são tão facilmente definidos. Juju, Asaka, Minamo, além da maior parte dos gatinhos, resistem qualquer redução a uma ou duas características, ainda que pelo menos alguns desses casos seja talvez porque são personagens com pouco tempo de tela.

Dito isso, esta é a segunda forma com a qual o anime lida com seus personagens. Porque ainda que seu elenco seja bem vasto (tinha personagem sendo introduzida no último episódio, para terem uma ideia) ele também é cuidadosamente dosado. Os personagens não têm todos, aqui, o mesmo tempo de tela, e isso é até que muito bem-vindo.

Cada episódio de Sketchbook é dividido em esquetes menores, podendo ou não estar conectadas por um evento único. E em cada uma dessas esquetes nós geralmente vemos apenas alguns personagens. É bem raro que o próprio clube esteja preenchido na íntegra, e mais raro ainda que estes personagens saiam todos juntos para algum lugar.

Por exemplo, durante a primeira excursão escolar da série só a Sora e Nagisa aparecem, o que dá ao anime tempo para explorar um pouco a Nagisa e as suas interações com a Sora. Inclusive, não é incomum que o anime forme duplas, trios ou quartetos a cada esquete, repetindo e variando as combinações conforme o episódio pede.

Vemos claros grupos de amigos mesmo dentro do clube, como a Nagisa e a Juju ou a Ryou e a Fuu, além da Sora, Natsumi e Hazuki (que de certa forma compõem o “trio principal” do anime). Mas também vemos como o anime não tem problemas de extrapolar esses grupos menores.

Graças a isso, vamos conhecendo melhor cada personagens em doses homeopáticas, com cada um só aparecendo em cena quando necessário. Isso evita que o espectador se canse de qualquer um deles, e acho que a maioria vai até preferir que este ou aquele personagem tivesse aparecido mais vezes – o que é quase sempre um bom sinal.

Dentre todos, porém, talvez seja a própria Sora a personagem mais arquetípica. Tímida, introvertida, a garota não consegue se comunicar com estranhos, e parece viver no próprio mundinho, além de demonstrar ser bastante impressionável. Em suma: a sua típica personagem too pure for this world.

Pessoalmente, eu gosto da Sora. Ela é uma personagem bem carismática, do seu jeito, e diria que essa sua personalidade é essencial para a mensagem que o anime tenta passar ao final (mais nisso em breve). Mas eu entendo quem disser que ela soa como a menos única num elenco bastante distinto de personagens.

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Uma História Sobre Ritmo

Sketchbook Full Color’s tem um ritmo muito próprio, o que é mesmo parte do ponto da série. Eu não chamaria o anime de lento única e exclusivamente porque eu acho que para algo ser lento é preciso que haja um ponto de chegada, o que não existe aqui. Mas ela é, sim, uma história calma, que também mantém um tom mais ou menos constante.

Sua comédia, por exemplo, é bastante contida. Ela emerge de forma até que bastante natural da própria interação entre essas personagens, e não parece haver aqui o intuito de fazer o expectador gargalhar. Parece, sim, que o anime busca inspirar reações igualmente mais contidas: um sorriso, uma risada leve, algo nesse sentido.

O drama é praticamente inexistente, e os pequenos momentos de conflito nunca são algo de suma importância. São, em fato, exatamente isso: pequenos. Uma discussão que não dura muito. Uma dificuldade nem tão difícil assim. Frutos, sempre, de situações mundanas. Permitem aos personagens expressar uma gama maior de emoções, mas sem trair o tom da série.

Tudo isso, claro, é por design. Iyashikei é um termo que vem de iyashi (literalmente, “cura”), e no contexto do anime e mangá ele é usado para descrever histórias que exercem um certo poder curativo sobre o emocional de quem as lê ou assiste. Obras que inspiram na sua audiência uma sensação de calma e conforto.

Sketchbook Full Color’s preenche várias das marcas de um iyashikei, e o anime como um todo parece mesmo construído de forma a relaxar o espectador. Dai que a série evite um pendular muito brusco para a comédia ou o drama.

Esse intento também se reflete na própria estética da série. Sua trilha sonora é composta sobretudo por músicas mais leves e tranquilas, algo que já fica claro na própria abertura da série, Kaze Sagashite. Sua personagens seguem a estética moe dos anos 2000, e suas cores são também bem menos vibrantes que as que temos hoje.

Tudo isso, e mais um pouco, colabora em criar o clima que o anime deseja. E eu diria que para realmente apreciar Sketchbook Full Color’s é preciso ir para o anime buscando justamente esse clima. Porque aqueles que buscam por histórias mais agitadas não vão encontrar isso aqui. Algo que é, como eu disse, parte do ponto da série.

Uma característica bastante comum no iyashikei é que histórias do tipo tendem a ter um caráter mais contemplativo. E claro, este também se faz presente aqui.

A própria Sora é talvez a grande responsável por situações do tipo. Como eu disse mais acima, a garota por vezes parece viver num mundo próprio, trazendo consigo uma visão sempre positiva (por vezes mesmo um pouco ingênua) do mundo ao seu redor. E claro, existe também a questão da arte – o Sketchbook presente no título.

A cena que abre o primeiro episódio é uma bem interessante. Temos a Sora sentada sobre dois tijolos, tentando a duras penas esboçar as patinhas do nada cooperativo Mike. Passando por perto, a pequena Minamo vê a situação, e pergunta à Sora porque não apenas usar uma câmera. Na hora ele não consegue responder, mas refletindo depois ela conclui: porque câmeras não servem.

Existe um elemento de contemplação no desenho. Ele demora para ficar pronto, mas parece que para a Sora esse é justamente o ponto da coisa.

No último episódio, Sora tece uma reflexão que bem resume o tema da série. “Cada cor é diferente da outra. Cada árvore é diferente da outra. Esta árvore segue no seu próprio ritmo. Talvez eu também esteja no meu próprio ritmo. Mas tudo bem. Eu vou avançar no meu próprio passo. E tenho certeza que os outros também vão”.

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Finalizando…

Escrever uma review é sempre algo complicado. Acho que nunca terminei uma sem a sensação de que poderia ter falado mais. E claro, esta aqui não é uma exceção.

Há diversos pontos que gostaria de ter abordado, mas que não consegui encaixar no texto. Por exemplo, sobre como o status quo do anime está sempre em mudança. A chegada da Kate, a adoção de um cãozinho pelo Negishi, a adoção do gatinho Kuma pela Asaka… Momentos pequenos, mas que dão vida e tempo a esse mundo.

Também gostaria de ter falado dos gatinhos, esse curioso elenco secundário. Se bem que deles eu nem tenho muito que dizer, na verdade. São uns fofos e tornam o anime super recomendável para os amantes de gatos, mas é isso.

Só que tão importante quanto saber o que colocar em uma review é saber também o que deixar de fora. E no fim, acho que cobri o que me parece ser os pontos mais fortes do anime: seu elenco e sua atmosfera, além de seu tema central. Nesse sentido, encerro (relativamente) satisfeito.

Se por um acaso o leitor chegou até aqui sem ter ainda assistido ao anime, reforço mais uma vez a minha indicação: acreditem, ele vale a pena. E se já o assistiu, espero que tenha gostado – do anime e desta review.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Sketchbook Full Color’s, episódio 2

2 – Sketchbook Full Color’s, episódio 1

3 – Sketchbook Full Color’s, episódio 1

4 – Sketchbook Full Color’s, episódio 1

5 – Sketchbook Full Color’s, episódio 2

6 – Sketchbook Full Color’s, episódio 2

7 – Sketchbook Full Color’s, episódio 4

8 – Sketchbook Full Color’s, episódio 4

9 – Sketchbook Full Color’s, episódio 11

10 – Sketchbook Full Color’s, episódio 11

11 – Sketchbook Full Color’s, episódio 13

12 – Sketchbook Full Color’s, episódio 13

Um comentário sobre “Review – Sketchbook Full Color’s (Anime)

  1. Eu assisti Essa obra em 2019, e foi simplesmente uma das melhores do ano. Me fez gastar horas refletindo sobre o que é a timidez, que, não é um defeito e nem uma qualidade, é apenas uma caracteristica.

    Curtido por 1 pessoa

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