Pro inferno com os mangás de luxo!


Um nem-tão-pequeno desabafo


Eu me lembro ainda de quando a editora Panini anunciou que republicaria Monster, clássico mangá de Naoki Urasawa, alguns meses atrás. E eu me lembro especificamente por conta de um detalhe que foi informado sobre a nova edição logo de cara: que ela viria com capa dura e sobrecapa.

Muita gente aprovou a decisão da editora, e agora que o primeiro volume já está a venda país afora as críticas parecem ser majoritariamente positivas. De minha parte, porém, eu não consigo deixar de pensar: por quê? Tanto a capa dura quanto a sobrecapa existem com o propósito de proteger o conteúdo do livro – o quadrinho, neste caso. Qual o ponto de usar os dois?

Bom… Funcionalmente, não tem nenhum. Mas esteticamente, ai já é uma outra história. E eu não me refiro só ao mangá ficar bonito na estante. Configurou-se, no nosso mercado de mangás, uma estética do luxo. Símbolos comuns usados para elevar o status de um produto. Papel de alta qualidade. Formato maior. Capa dura. Sobrecapa. E por ai vai.

Nosso mercado caminha cada vez mais em direção a se tornar um mercado da estética, muito mais do que da função. O mérito em si da obra importa menos do que o seu suporte. Ou talvez o contrário: mangás de prestígio devem vir em formatos condizentes com dito prestígio. Monster tem nome. Capa dura e sobrecapa.

Eu vou ser bem franco: não gosto disso. Essa guinada em direção ao luxo. Reconheço os méritos dela, mas também reconheço seus deméritos. E se ainda não consigo colocar os dois numa balança e dizer com propriedade qual pesa mais, posso ao menos dizer que me sinto… desconfortável. Ansioso, até.

Este texto é, de certa forma, uma continuação e expansão de dois outros que escrevi, em setembro e outubro de 2018:

Considerações sobre o mercado brasileiro de mangás

Sobre leitores de mangá: consumo, identidade e fisicalidade

Neles eu já havia deixado bastante claras algumas das minhas preocupações para com os rumos que o nosso mercado havia tomado, e decidi que agora era um momento tão bom quanto qualquer outro para tornar a explorá-las.

A tendência ao luxo me incomoda. Permitam-me explicar o porquê.

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Um Pouco de História…

Antes de mais nada, porém, vamos contextualizar a situação um pouquinho.

Edições “de luxo” ou “de colecionador” não são realmente nada de novo nesse nosso mercado. Estão ai no mínimo desde 2005, quando a editora Conrad publicou sua nunca finalizada edição definitiva de Dragon Ball.

Melhorias na qualidade dos mangás também não são um conceito novo. Vimos a passagem do meio-tanko para o tankoubon e nem por isso as pessoas clamaram o apocalipse à época. Então o que torna a situação atual assim tão diferente?

Em uma palavra: ubiquidade. Experimentações com formatos de luxo existem há tempos. Mas o que vemos hoje já não são mais experimentações. Edições de luxo deixaram de ser a exceção para se tornar, se talvez não a norma, pelo menos algo comum. Até esperadas, a depender da obra.

Quando isso começou? É difícil apontar com precisão, e a verdade é que provavelmente não existe um momento onde tudo mudou do dia para a noite. Foi um processo. Longo e lento. Que no espaço de alguns anos elevou os mangás da condição de gibis de banca à de grafic novels de livrarias e lojas especializadas – para o bem e para o mal.

Ainda assim, há alguns marcos importantes. Death Note Black Edition, de 2013, inaugurou o “formato BIG” da editora JBC, quando este ainda nem era chamado assim (e que só viria a ser quando da republicação de Eden: it’s an Endless World, em 2015). E o kanzenban de Saint Seiya em 2016, também pela JBC, inaugurou a era dos mangás de capa dura.

De lá pra cá as principais editoras de mangá vêm se mostrando cada vez mais interessadas em formatos de luxo. A JBC lançou ainda diversos outros títulos em seu formato BIG, sem mencionar a publicação de Ghost in The Shell e a republicação de Akira em formato de grafic novel. Panini tem seus kanzenban de Dragon Ball e, agora, Monster. Mesmo a New Pop aderiu à capa dura, com sua nova coleção de clássicos, inaugurada com Devilman.

Outras editoras já entraram nesse mercado lançando apenas produtos de luxo. Devir. Dark Side. Pipoca & Nankin. São editoras já conhecidas por seu trabalho gráfico de maior qualidade, que foi agora aplicado a esses quadrinhos japoneses.

E nisso nós chegamos à situação atual. Uma na qual, como disse, mangás de luxo deixaram de ser a exceção para se tornarem o lugar-comum. Cada novo lançamento, as mesmas perguntas de sempre. Terá capa dura? Terá sobrecapa? Qual o tipo do papel? Qual o tamanho? Um mercado da estética.

Há, é claro, muito mais por trás de tudo isso do que qualquer pretensa “ganância” editorial. Questões culturais e econômicas que eu bem discuti nos dois artigos anteriores, mas que voltarei a comentar ao longo deste texto.

Antes, porém, passemos a uma pergunta:

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O que “Conta”?

Talvez a consequência mais irônica dessa ubiquidade do luxo seja o fato de que o sentido da palavra vai, aos poucos, se erodindo. Ao ponto de eu precisar perguntar: o que torna um mangá “de luxo”, afinal?

É fácil apontar para edições como Monster da Panini ou Devilman da New Pop e dizer “isto é uma edição de luxo”. De fato o são, e não acho que alguém vá discordar. Mas extremos são sempre fáceis de apontar. É quando estamos “no meio” que a coisa se torna um pouco mais complicada.

Por exemplo, que dizer da republicação de Berserk, pela editora Panini? A obra é vendida como uma edição “de luxo”, mas hoje é preciso contextualizar esse “luxo” em quando o mangá começou a ser lançado. Afinal: hoje, uma edição de Berserk, custando ai R$ 21,90, está na mesma faixa de preço que a linha mais básica de mangás da editora.

Lobo Solitário está numa posição similar. Enquanto ainda ligeiramente mais caro que essa linha mais básica, seu preço ainda está longe de, digamos, o preço de um JoJo – e eu nem tenho certeza se podemos chamar o formato de JoJo de um formato “de luxo”.

O que dita que um dado formato é “de luxo”? Tamanho? Se sim, quantos centímetros de altura um mangá precisa ter antes de se encaixar? Made in Abyss tem basicamente a mesma altura de Devilman. Como fica? Número de páginas, então? Pois que dizer então do selo Tsuru, da editora Devir, cujos títulos podem variar drasticamente em número de páginas?

É o preço? Mas nesse caso: qual a linha divisória? Quanto um mangá precisa custar antes de poder ser chamado de “luxuoso”? 20 reais? 40 reais? 60 reais? Não me parece possível traçar uma linha que satisfaça a todos. Digo, se Berserk se qualificar pelo preço, então todo mangá da Panini é uma edição de luxo?

Mas tudo bem, nesse ponto eu só estou sendo obtuso mesmo. A verdade é que não existe uma característica que nos permita qualificar um mangá como “de luxo”, mas sim uma série delas. É a combinação de formatos diferenciados, papel de maior qualidade e preços mais altos que nos faz pensar neste ou naquele título como “de luxo”. Mas notem ai algo de interessante.

“Formatos diferenciados”. “Papel de maior qualidade”. “Preços mais altos”. São termos bastante contextuais, não? Diferentes do que? Maior em relação a que? Mais alto comparado a quais? Essa é uma característica curiosa do luxo: ele é comparativo. Ele só pode existir quando temos algo com o que comparar. E nós estamos perdendo esse referencial.

Quando você já não sabe mais dizer se um dado mangá é “de luxo” ou não, dois fenômenos ocorrem. O primeiro deles é, como discuti acima, uma erosão do próprio significado da palavra, que vai perdendo o sentido de “algo especial”. Mas o segundo é talvez mais pernicioso para nós: o acostumar-se com o alto valor.

Se tudo que exite são mangá de luxo custando na casa dos quarenta, sessenta ou cem reais, mangás de vinte passam a parecer “baratos”. E nisso vamos nos acostumando com a situação. É, podemos reclamar de quando em vez, mas no fim quem pode pagar ainda irá pagar, incentivando assim o andar da carruagem.

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Para Quem Todo Esse Luxo?

Eu não acredito que seja coincidência que os mangás de luxo começaram a se proliferar justamente quando a situação econômica do país começou a piorar, ou que temos cada vez mais edições de luxo apesar de a nossa economia não dar sinais de melhora.

Já tratei extensivamente desse assunto nos meus dois artigos anteriores, mencionados acima, então recomendo ao leitor que dê pelo menos uma olhada neles. Ainda assim, aqui a versão too long, didn’t read dos meus argumentos.

Vivemos um efeito bola de neve no nosso mercado. As dificuldades econômicas fazem as pessoas cortar as despesas que podem, e mangá é uma bem fácil de cortar – para a maioria, pelo menos. Afinal, quando a escolha é entre um pedaço de carne e um novo gibi, parece bastante óbvio qual toma prioridade. Nisso, o mercado encolhe.

No que ele encolhe, restam apenas aqueles que podem continuar comprando. Aqueles que, como descrevi no meu segundo artigo, fazem do consumo de quadrinhos parte integrante da sua identidade. E estes não são fáceis de agradar, nem de longe.

A impressão que eu tenho é que as nossas editoras de mangá cada vez mais tentam apelar não ao público otaku, mas sim ao público leitor de quadrinhos num geral.

Isso explicaria os formatos maiores que encontramos em Akira e Ghost in the Shell, da editora JBC, e toda a coleção Tsuru, da editora Devir: são formatos bem mais próximos das grafic novels americanas. O mesmo vale para a capa dura, comum mesmo entre os quadrinhos mais mainstream, como as edições em capa dura de clássicos da Marvel e DC que a Panini lança com frequência.

O público dos quadrinhos é um que já está acostumado a ser um nicho, e a pagar caro por um material de maior qualidade. Por contraste, enquanto o público otaku nunca foi exatamente mainstream, nossos hábitos de consumo eram muito mais modestos, dispostos a pagar um preço módico por edições igualmente módicas.

Só que nesse atual cabo de força, nós é que estamos perdendo. Por uma simples questão matemática, até. Se uma edição de luxo custa, digamos, três vezes o preço de um mangá comum, significa que uma pessoa comprando a de luxo já vale por três comprando a comum.

A expectativa é que uma edição mais módica atraia mais pessoas, o que acabe balanceando as coisas. Mas num cenário de crise, isso não acontece. As edições módicas encalham, porque o seu público não tem dinheiro sobrando. E as de luxo esgotam, porque são direcionadas àqueles que têm. E nisso a balança pende. Mais edições de luxo são lançadas. E mesmo as coleções mais básicas precisam ser “ajustadas” à nova realidade.

É fácil apontar o dedo e culpa a “ganância” das editoras, mas o fato é que o cenário é bem mais complicado do que isso. E enquanto a nossa economia não der sinais de melhora, esse cenário também não dará.

Mas nisso alguém pode perguntar: qual o problema, afinal? Então a tendência é ao lançamento de mangás de maior qualidade. Bom, ok, nem todo mundo pode pagar, que pena pra eles, mas e daí? O que há de tão ruim aqui?

Pois falemos então disso.

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O que se Presta ao Luxo

Não é qualquer mangá que vem num formato de luxo. Olhando para os títulos lançados, é fácil de notar algumas tendências.

Autores consagrados nessa mídia, como Go Nagai (Devilman, Cute Honey), Shigeru Mizuki (Marcha para a Morte) e Junji Ito (Fragmentos do Horror, Uzumaki). Autores com um traço mais próximo dos quadrinhos europeus, como Jiro Tanichuchi (O Homem que Passeia, Guardiões do Louvre, O Gourmet Solitário).

Obras de grande importância para a história dos mangás, como Rosa de Versalhes, de Ryoko Ikeda, ou Hokuto no Ken, de Buronson e Tetsuo Hara. Mangás “de época” (jidaimono) como O Último Voo das Borboletas, de Kan Takahama. Ou então que tratem de temas sociais mais sérios, como Virgem Depois dos 30, de Bargain Sakuraichi.

São todas obras de nome e, talvez mais importante ainda, de respeito. Mangás que não exibem os traços mais “clichê” da mídia, ou que se exibem o fazem dentro de um contexto de importância histórica (como os do Go Nagai). São, apesar dos temas sérios que alguns possam tratar, obras muito mais sanitarizadas. Muito mais seguras.

É um tipo bastante específico de mangá aquele que se presta ao luxo. Afinal, você não lança um shoujo da Ribon ou um moe da Manga Time Kirara com capa dura e papel couché. Nisso, mangás de luxo criam uma falsa sensação de diversidade, quando na realidade o nosso mercado continua dominado por shounen e seinen, só que agora com alguns clássicos em capa dura e sobrecapa.

Não vou negar que, pelo menos a princípio, muitos desses mangás de luxo foram lufadas de ar fresco num mercado que já era bastante fechado à inovação. Mas conforme esse “nicho dentro do nicho” vai se consolidando, podemos melhor perceber e entender as limitações desses formatos. E conforme os mangás de luxo começam, cada vez mais, a lembrar uns aos outros, nomes, temas e gêneros vão se tornando mais e mais familiares.

Não me entendam mal, é bom que esses clássicos estejam finalmente sendo lançados aqui, atrasados que estejam. Mas a sensação de estagnação do nosso mercado, uma sentida por diversos colecionadores de mangá, é uma que só tende a aumentar. Porque o luxo não vai, mesmo não pode, resolver esse problema.

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$$$

Outra consequência do luxo é o dinheiro – ou, no caso, a falta de.

Conforme mangás de luxo vão se tornando a norma, cada vez menos pessoas têm o capital financeiro necessário para comprar “tudo”. Sim, escolhas sempre tiveram de ser feitas, mas hoje isso é mais verdadeiro do que nunca.

Comprar um mangá, qualquer mangá, se tornou um risco considerável. Quando você investe 40, 60 ou 100 reais em um volume, você quer ter certeza de que a história vale a pena. O que provavelmente explica porque o formato de luxo se presta sobretudo a autores consagrados e clássicos da mídia. Como eu disse: nome importa.

Mas claro, a mesma lógica se aplica aos mangás mais básicos. Em parte porque os mangás de luxo se tornam uma despesa considerável, um único volume absorvendo o valor que poderia ter sido gasto em três ou quatro mangás de preço mais módico. Mas também em parte por conta da natureza serial desses mangás de preço mais baixo.

Quando a Panini lança ainda outro battle shounen a R$ 22,90, somos forçados a considerar a coleção no longo prazo. Mangás desse gênero costumam bater a marca das dezenas de edições. Se você tem uma renda fixa segura, isso não é tão problemático. Mas se não, então o comprometimento é simplesmente grande demais.

Ainda que as nossas editoras finalmente estão começando a tentar manter seus mangás sempre em catálogo. A New Pop já fazia isso há tempos. A JBC começou com a prática quando mudou seu formato de lançamento e de distribuição. E a Panini agora começou a periodicamente reimprimir seus mangás mais recentes desde o volume 1. Ainda vai demorar para o público se acostumar com essa aparente segurança do mercado, mas será um alívio se ela tiver vindo para ficar.

Agora se ao menos pudessem aplicar isso a séries mais antigas, como One Piece ou Hunter x Hunter…

Seja como for, o resultado mais imediato desse cenário é uma hostilidade para tudo o que não é familiar – algo que, para ser franco, eu mesmo ando sentido. No passado eu ficaria feliz com o lançamento de um título desconhecido. Hoje, para um título me atrair, precisa no mínimo ter tido um anime de sucesso que eu tenha visto. Porque eu simplesmente não posso me dar ao luxo de sair experimento mangá, como fazia uns anos atrás.

Mas esse é talvez o menor dos problemas. Um outro é muito, muito mais importante…

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Ampliação não é Renovação

Eu posso resumir toda essa seção em uma única frase: aumento de público não é renovação de público. Simples assim.

Observando as práticas das principais editoras de mangá, eu plenamente reconheço nelas um esforço pelo aumento do público-alvo. Os próprios mangás de luxo são um reflexo disso, por paradoxal que possa parecer para alguns. São uma tentativa das editoras de extrapolarem o nicho otaku em direção ao nicho dos quadrinhos num geral.

Outro exemplo: em Junho de 2019, Panini e New Pop marcaram presença na Poc Con, evento geek voltado para o público LGBT. Em fato, a editora New Pop parece ser a mais preocupada com canais “menos convencionais” de divulgação de seus mangás (leia-se: fora das bancas, livrarias e lojas especializadas). O que é muito bem-vindo.

Só que ao mesmo tempo que as editoras buscam esse aumento de público, eu também as vejo negligenciando a renovação de seu público.

Com os preços atuais do mercado, nenhuma editora parece lá muito interessada em vender seus produtos para crianças e adolescentes. O que é irônico, considerando que shounen (literalmente “garoto” em japonês) é a demografia mais contemplada em números de lançamento por aqui.

Mangás como Dr. Stone, Promissed Neverland e, muito em breve, Kimetsu no Yaiba, são séries voltadas para a faixa dos 12 a uns 16 anos, mais ou menos, o exato público que terá dificuldade de pagar acima de vinte reais por edição num mangá que bem pode ultrapassar as dezenas de volumes.

Ampliar o público-alvo é bastante bem-vindo. Na medida do possível, é bom que o mangá consiga se expandir para além do nicho otaku, e com isso talvez desmistificar muito da mídia e refutar muitas das críticas associadas a ela. Provar que essas obras têm também mérito artístico, para além de serem ótimas fontes de entretenimento. Mas só isso não é o bastante.

Sem que o público se renove, o mercado se torna essencialmente uma bomba relógio!

Bom, tudo bem, catastrófico demais, mas um recrudescimento considerável do mercado no longo prazo não seria nada de se espantar. Porque é isso que acontece quando o produto se torna inacessível. E não só financeiramente, diga-se de passagem: essa guinada em direção às lojas especializadas torna os mangás até fisicamente inacessíveis para muitos.

A tendência, com o tempo, é o nicho encolher cada vez mais. O que, no processo, inviabiliza boa parte das obras que não atendam a esse nicho diminuto, o que só levará a uma ainda maior estagnação do mercado. E cria-se nisso um efeito bola de neve.

Mangás acessíveis são um investimento. Ou, talvez melhor colocando, uma garantia. De que pelo menos as novas gerações terão interesse na mídia. Porque, do contrário, nosso mercado tem prazo de validade. Não vai expirar hoje, nem amanhã, talvez nem em dez ou vinte anos. Mas vai expirar.

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Sobre Republicações

Esta seção será a mais curta, e isso porque só quero dar meus dois centavos sobre um argumento bastante comum quando se fala em mangás de luxo: a ideia de que tudo bem relançar mangás em um formato melhor, dado que já foram publicados antes, em raros casos até múltiplas vezes.

Eu entendo o sentimento por trás desse argumento. E num mundo ideal ele faria pleno sentido. Você acabaria com ambas as versões, uma mais cara, de luxo, e outra mais barata, mas de qualidade inferior. E nisso o público pode escolher a que melhor cabe no bolso e no gosto. Fantástico! Só me digam então: onde eu compro a coleção antiga de Monster?

A pergunta é retórica. Você não compra, simples assim. Talvez encontre no mercado secundário – sebos e vendedores independentes, quase sempre cobrando um rim e um braço. Mas se espera conseguir a coleção através da loja da editora, por exemplo, pode desde já desistir.

Se estas versões mais baratas desses mangás seguissem em catálogo, eu concordaria por completo com o argumento. Como este não é o caso, para os novos leitores a versão de luxo se torna a única versão disponível. Você talvez tenha comprado a coleção original (mais de uma década atrás, a depender de que mangá estamos falando), mas você não é todo mundo.

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O que Fazer, Então?

Sejamos realistas: se houvesse uma saída fácil para todos esses problemas, as próprias editoras já teriam pensado nela.

Podemos reclamar a vontade da suposta “ganância” das nossas editoras de mangá, mas a verdade é que só há produto enquanto houver quem compre. Pressionadas pela crise, as editoras responderam se agarrando ao público que ainda compra – e este, como já disse, não é fácil de agradar.

A mensagem dos consumidores de hoje é clara. Querem produtos de alta qualidade, e estão dispostos a abrir um pouco mais a carteira se isso significar um papel de maior qualidade, formatos variados, ou mimos como capa dura e sobrecapa. Que as editoras podem fazer? Ignorar e falir?

É da parte do consumidor que as coisas precisam primeiro mudar.

Sendo franco: eu aceitaria sem problema nenhum um formato de qualidade mais baixa se isso significasse um preço mais acessível. Infelizmente, eu sou a minoria. As pessoas querem o luxo, mesmo com todas as consequências que descrevi acima. Porque o luxo é mais bonito.

Quando essa onda de mangás de luxo começou, eu era indiferente a ela. Hoje, ativamente desgosto. E ver os rumos desse nosso mercado é apenas frustrante.

Sim, eu vou continuar comprando os mangás que quiser, caros que sejam. Pode soar hipocrisia, dado tudo que disse aqui, mas no fim eu ainda sou um só. Meu dinheiro faz bem pouca diferença, então vou ao menos me divertir quando der. Fora que, como alguém que se interessa por essa mídia, eu quero ler esses clássicos de décadas passadas.

Isso posto, fica aqui o meu desabafo. Pro inferno com a capa dura e a sobrecapa!

Imagem: Wotaku ni Koi wa Muzukashi, episódio 2

8 comentários sobre “Pro inferno com os mangás de luxo!

  1. Achei muito rico o seu ponto e quero se possível acrescentar que hoje em dia na minha opinião seria mais prático serviços de mangá online como a JBC começou de pouquinho a fazer e o crunchyroll também, no meu ponto de vista não faz sentido investir por exemplo em shonen por questões monetárias e de espaço físico sendo assim a editora disponibilizaria os capítulos e poderia no futuro lançar volumes maiores de luxo séria na minha opinião pelo menos para o consumidor uma opção melhor mesmo que esse serviço custasse deus quarenta reais ainda é melhor que investir vinte e poucos em um one piece da vida que é enorme.
    Bom espero ter me explicado.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Agora pergunta honesta: se não pela estética, por que comprar mangás físicos em primeiro lugar?

    Se o apreço pela obra é a única consideração, digital é mais barato. Digo, “barato” para mim, que sou uma das poucas pessoas que conheço que compra mangás digitais legalmente. Para muitas pessoas, a alternativa é “de graça”.

    Para que preterir o scan em troca de um volume caro, frágil e que ocupa espaço se não vai sequer ficar bonito na estante?

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    • Sobre o digital ser mais barato: mais ou menos, né. Você ainda precisa de um leitor. Computador, tablet, kindle, celular… No longo prazo sai mesmo mais barato, mas se você precisa investir, digamos, 300 a mais de 1000 reais só para ter uma forma de ler o digital, esse custo inicial pode ser bem proibitivo. Quando em cima disso você ainda tem de pagar um preço bem próximo do mangá físico, o físico acaba saindo mais em conta no momento mais imediato.

      Mas fora isso, e falando por mim, eu simplesmente prefiro o físico. Ou melhor: eu não gosto do digital. É ruim de ler (especialmente em telas menores, como um celular). Não é adequado para se ler à noite (gosto de ler antes de dormir, e a luz azul de um monitor atrapalha o sono). É muito mais intangível (perdeu o computador / tablet / celular perdeu todo os mangás… a menos que leia online, ai é só o site sair do ar que também somem todos os mangás). E muito pior de navegar (nenhum display digital supera a praticidade de folhear o mangá físico). Fora que requer energia de algum tipo (elétrica, bateria, etc.).

      Físico é mais conveniente, melhor de manusear, não impõe restrições a onde e quando você pode ler… Fora que é mais seguro (se você quer ler no transporte público, é mais seguro ler um volume físico do que tirar um tablet da bolsa).

      E bom, tem também a questão de querer guardar. Não pra ficar bonitinho na estante, mas só pra se um dia você quiser revisitar aquela obra mesmo. E pra isso não é preciso uma edição de luxo. Tenho mangás de papel jornal na minha estante que seguem muito bem preservados por anos a fio. Só ter um pouquinho de cuidado.

      Ah, e por último: mangá digital também ocupa espaço. Espaço digital ainda é espaço. Eventualmente o computador fica lotado. E ai ou você tem que investir mais algumas centenas de reais em uma memória externa, ou vai ter que deletar alguns mangás. Não é muito diferente de ter de comprar uma nova estante ou vender alguns mangás físicos.

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      • Acredito que todo mundo que está reclamando na INTERNET sobre problemas do mangá físico, por definição, tem os meios para consumir conteúdo digital :p. Posto que vários desses serviços operam na nuvem, armazenamento também não é um problema (pelo menos, não no curto prazo. A Amazon/Comixology/o que seja sempre pode falir e levar a nuvem consigo).

        Agora gosto, de fato, não se discute. Se digital/scan não for uma opção e você não quer pagar muito entendo sua dor.

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      • Entendo o seu ponto mas isso a gente pode estender para outras mídias livros por exemplo mas meu ponto é mangás com muitos volumes não valem no meu ponto de vista o investimento em volumes no preço que se pratica hoje e a partir disso acredito que um serviço de streaming de mangás por assim dizer agora se você prefere mangá físico é outras quinhentos.
        Sobre armazenamento existe por exemplo o aplicativo Manga plus um serviço oficial da editora shuisha (que pública a Shonen Jump) onde você pode ler os capítulos semanais em inglês ou espanhol você não baixa o capítulo você lê direito do serviço deles sem consumir espaço.
        Acho que o meu erro foi comentar isso em um texto sobre volumes de luxo ficou meio fora de contexto rs.

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  3. Concordo com muita coisa dita mas dando minha opinião na conversa, a renovação de público ocorrerá quando as editoras investirem pesado em plataformas online de leitura, tal qual o MangáPlus da Shueisha ou os agregadores de scan. Também não gosto da leitura de quadrinhos no digital mas é inegável que essa é uma tendência mundial, as pessoas preferem praticidade e rapidez no consumo de entretenimento ao invés de se comprometerem de uma forma mais, digamos, imersiva naquilo, então mesmo que as editoras vendessem tankobons por 1 real, ainda assim quem compraria seriam as mesmas pessoas que já compram mangás físicos.

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