[Vídeo] Análise #15 – Dr. Stone


Tornando o Mundano algo Épico!


Roteiro:

Era um dia como qualquer outro, até que uma misteriosa luz transforma toda a humanidade em pedra. Três mil e setecentos anos depois, o adolescente super-gênio Ishigami Senku é o primeiro a despertar da petrificação. E caberá agora a ele não apenas reviver as outras pessoas, como também reconstruir a civilização humana do zero.

É uma premissa atraente, convenhamos. E em termos de execução, Dr. Stone bem merece elogios. O anime pode não ter a melhor animação do ano, nem nada do tipo, mas uma mescla de personagens interessantes, boa direção, bom timing cômico, além de uma fantástica trilha sonora tornam este talvez um dos títulos mais memoráveis de 2019, e um dos meus favoritos do ano.

Não é uma série sem defeitos, e nessa última terça eu inclusive lancei no blog um texto bastante crítico da forma como o anime retrata a ciência e das mensagens que ele acaba transmitindo por conta disso. Mas onde ele acerta, ele realmente acerta. E o que eu queria com este vídeo é comentar um desses acertos.

Quais os momentos que mais marcaram em Dr. Stone? Eu só posso responder isso por mim mesmo, mas parando pra pensar eu diria que as cenas que melhor me lembro seriam a Suika pondo os óculos pela primeira vez, o Senku acendendo a primeira lâmpada em três mil anos, quando Gen finalmente conseguiu o seu refrigerante ou então quando Senku monta uma pequena hidrelétrica.

Tudo bem que alguns desses momentos são até que bem tarde na história, então talvez haja ai um viés pelo recente, que vai mesmo estar mais fresco na memória. Mas eu não acho que seja só isso.

Fato é que Dr. Stone tem uma capacidade impressionante de fazer o mundano soar excepcional. Óculos não são apenas óculos: são a primeira vez que a Suika pode enxergar o mundo como ele é. Uma lâmpada não é só a lâmpada: é a primeira vez em três mil anos que a noite é iluminada pela luz elétrica. São momentos grandiosos, que impressionam e mesmo inspiram um sentimento de solenidade por essas tecnologias. E eu acho que é aqui que o anime tem um dos seus maiores acertos – e uma das suas melhores mensagens.

Em Dr. Stone, a ciência é tida como a expressão do engenho humano. Isso nem sempre resulta em boas implicações, de novo, leiam meu texto lá no blog, mas onde essa visão é muito bem sucedida é em colocar as coisas em perspectiva.

Acho que, muitas vezes, nós damos muitas coisas por garantido. Medicamentos dos mais variados. Energia elétrica. Telefones. E sim, claro, tem muita gente no mundo ainda hoje que não tem acesso a essas mordomias da modernidade, mas se você está assistindo esse vídeo eu vou chutar e dizer que não é o seu caso.

Pois bem. Ao reconhecer a ciência, e o progresso tecnológico, como expressões humanas, Dr. Stone nos força a lembrar que nada disso estava aqui para começo de conversa. Que por milênios a fio nossos ancestrais viveram sem praticamente tudo que nós, hoje, pensamos ser indispensável. E isso é bem interessante, por uma série de motivos.

Primeiro porque, como eu disse, coloca as coisas em perspectiva, e nos faz apreciar muitas dessas coisas que nós mal pensamos a respeito. E também nos faz entender o quão singular é esse nosso momento na história.

O nosso estilo de vida moderno não é natural. Nossa espécie dobrou a natureza à própria vontade – muitas vezes com resultados desastrosos, é verdade, mas ainda há algo de romântico nessa ideia. E Dr. Stone toca justamente nessa sensação.

O anime também nos força a confrontar uma ideia não muito confortável: a de que esse nosso estilo de vida, na exata medida em que ele não é natural, é também frágil. E enquanto eu não acho que um desastre de nível global ao estilo de Dr. Stone esteja no horizonte próximo, a verdade é que não precisa de tudo isso.

Crise econômica. Crise energética. Crise de alimento. Desastres naturais. Guerras. Situações que frequentemente colocam em xeque a segurança desse nosso modo de ser.

Nesse sentido, Dr. Stone pode ser lido como um aviso. Aprecie o que você tem enquanto ainda tem. Porque a triste verdade é que nada disso é garantido. Mas claro, o anime é positivo demais para ficar só nesse aviso.

Mais do que uma ode à ciência, Dr. Stone é, acima de tudo, um elogio à humanidade. À nossa insistência, mesmo teimosia, de seguir em frente apesar da adversidade. À nossa curiosidade e inventividade, nossa capacidade de, como eu disse, dobrar o mundo natural à nossa vontade. À tudo aquilo que nos faz humanos.

Dr. Stone nos diz que nada disso é garantido. Que vivemos um momento singular na história humana, e que deveríamos apreciar isso, porque cedo ou tarde tudo pode ruir. Mas ele também diz que, se de fato tudo isso ruir, bom, tudo bem. Porque, por absurdamente difícil que seja, sempre podemos reconstruir, mesmo que partindo do zero.

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