A Ciência em Dr. Stone


“Realismo” é o menor dos problemas…


Adaptando ao mangá homônimo escrito por Inagaki Riichiro e ilustrado por Boichi, este seriado na famosa revista semanal Shounen JUMP, Dr. Stone é a mais nova produção do estúdio TMS, com direção de Iino Shinya. O anime estreou em julho de 2019, concluindo sua primeira temporada em 24 episódios, com uma segunda já anunciada.

Na história, tudo começa num dia como qualquer outro, quando então uma luz misteriosa petrifica toda a humanidade. Mais de três mil anos depois, o adolescente super-gênio Ishigami Senku desperta de seu estado de pedra, e promete não apenas reviver a todos como também devolver a humanidade à sua antiga glória.

Agora, eu quero desde já deixar bem claro que eu gostei de Dr. Stone, bastante até. Foi talvez um dos meus animes favoritos deste ano, o que é dizer muito considerando quantos ótimos títulos nós tivemos. Mas eu queria aproveitar o momento para falar um pouco daquele que é um dos aspectos mais controversos do anime: a sua ciência.

Dito isso, a minha abordagem vai ser um pouco diferente do que o leitor talvez espere. Muito se falou sobre se a ciência apresentada em Dr. Stone é ou não realista ou verossímil, e há argumentos para os dois lados. Mas não é sobre isso que eu quero falar aqui. A exatidão da ciência me interessa menos do que uma outra coisa: como ela é retratada.

Porque mais do que ser um manual de instruções de como fazer Coca Cola, Dr. Stone é uma obra que diz coisas sobre a ciência. Coisas que, na minha opinião, vale a pena examinar com um olhar mais crítico, e é isso o que eu quero fazer aqui. Então sem mais delongas, eis aqui a minha singela análise da ciência em Dr. Stone!

.

Sistemas de Poder

Vamos começar atestando o óbvio: Dr. Stone é um shounen. Acredito que ninguém irá discordar disso. O mangá é, afinal, publicado na Shounen JUMP, a revista de referência da demografia.

Dr. Stone é também um battle shounen, gênero do mangá shounen cujo foco está nas lutas. Essa afirmação já é uma da qual alguns poucos talvez discordem, e de fato Dr. Stone põe bem menos ênfase no combate físico do que outros mangás do tipo. Mas ainda assim: nós tivemos um literal arco de torneio, por curto que tenha sido!

Agora, algo bastante comum no battle shounen é a presença de algum tipo de sistema de poder. Algo que sirva de “base” para explicar as habilidades – quase sempre sobre-humanas – dos personagens. O ki de Dragon Ball, o chacra de Naruto, o nen de Hunter X Hunter, os stands em JoJo, as respirações em Kimetsu no Yaiba, acho que já deu pra entender o ponto, né?

Quase sempre esse sistema de poder é, em fato, um sistema de magia, talvez até por conveniência. “Porque ‘magia’” é, afinal, uma ótima explicação para a pergunta “mas como esse personagem consegue soltar esferas de energia de alto poder destrutivo?” Só que não há nada que obrigue tal sistema a ser mágico, e Dr. Stone vem como uma das raras exceções.

Aqui, é a ciência que cumpre a função de um sistema de poder. Ela é a base que explica os “poderes” do Senku: toda sorte de apetrechos e instrumentos e tecnologias que o garoto cria no decorrer da história. E é pelo aperfeiçoamento nela que os personagens conseguem lidar com os perigos os quais são expostos.

Em parte é por isso que não realmente importa se a ciência em Dr. Stone é ou não realista, ou no mínimo isso importa tanto quanto se as artes marciais em Dragon Ball são ou não realistas. Ela tem uma função bastante específica na trama, e para isso basta que ela seja minimamente verossímil: e isso ela surpreendentemente o é.

Muito mais problemático do que isso, porém, são as consequências que surgem a partir do momento que você torna a ciência em um sistema de poder. Porque desse ponto em diante ela precisa assumir uma função bastante utilitária. Ela tem de ser, de alguma forma, uma ferramenta de combate. E uma que, inclusive, possa ser usada para transmitir o crescimento dos personagens.

Porque essa é outra característica comum dos sistemas de poder no mangá shounen. Eles são também uma forma dos personagens se aprimorarem. Através da prática e do treino, os personagens vão ficando mais e mais fortes, e nisso atingem um domínio cada vez maior do sistema de poder do seu universo. E a ciência, em Dr. Stone, precisa também suprir essa lacuna.

Isso fica bastante evidente em momentos como a Suika e o Ginro ganhando seus óculos, quando temos tanto um crescimento no “nível de poder” desses personagens (por assim chamar) como também um crescimento ao nível pessoal mesmo.

Tsukasa, ironicamente, é talvez o personagem que melhor entenda o que estou descrevendo aqui. Ele sabe que quanto mais tempo ele der ao Senku mais novas tecnologias o garoto irá criar, se tornando uma ameaça cada vez maior ao seu império. Que Tsukasa tema a ciência é talvez a maior prova da sua função como um sistema de poder no universo de Dr. Stone.

A consequência de tudo isso é que, por conta da sua posição na história, a ciência, em Dr. Stone, assume um caráter bastante tecnológico. Em fato, eu diria mesmo que, para o anime, fazer ciência é sinônimo de construir tecnologia. E esse é o grande problema de Dr. Stone sobre o qual ninguém está falando.

.

O Que é Ciência?

Mas o que há de tão mal em igualar ciência e tecnologia? Bom, para responder a essa pergunta eu preciso, antes, responder uma outra: o que é, afinal, “ciência”?

De forma bastante simplificada, “ciência” é um método através do qual se produz conhecimento. E nessa definição nós podemos ver o quanto a ciência real difere daquela que vemos em Dr. Stone. Primeiro porque a ciência real não precisa, necessariamente, resultar em algum tipo de tecnologia. E segundo porque não vemos, em Dr. Stone, qualquer tipo de produção de conhecimento.

Para o quanto o Senku elogia a ciência, ele próprio faz bem pouca real ciência. Não me entendam mal: o garoto é ótimo em aplicar o conhecimento científico que ele tem, mas essa é uma etapa consideravelmente posterior do processo científico.

A ciência do mundo real envolve coisas como a formulação de hipóteses, execução de experiências, revisão dos resultados por pares, replicação dos experimentos, tudo em prol de chegar a algum tipo de conhecimento que nem sempre terá aplicação imediatada. É perfeitamente possível ai um espaço de décadas entre uma descoberta e alguém achar algum uso para ela, se não mais.

Para não ser injusto com o anime, diria que a busca do Senku por um meio de reverter a petrificação, no começo do anime, é talvez o mais próximo que o garoto chega de fazer ciência, onde de fato vemos, ainda que apenas brevemente, ele seguir um processo de formar uma hipótese, testar e observar os resultados.

Talvez fosse mais justo dizer que Dr. Stone é sobre ciência aplicada muito mais do que ele é sobre ciência. Mas a obra não diz isso. E é aqui que está o problema.

.

O Problema

Façamos novamente a pergunta: mas afinal, qual o problema de igualar ciência e tecnologia? Bom, a primeira resposta é que nisso se cria uma visão bastante utilitarista da ciência.

Em Dr. Stone, a ciência parece ter valor na medida em que ela serve para a criação de novas tecnologias. Óculos. Remédios. Eletricidade. Alimentos. Aquecedores. Todos objetos que, sim, melhoram consideravelmente a vida das pessoas, mas que são, para todos os efeitos, consequências da ciência, e não o seu fim último.

Numa visão do tipo, tudo que não encaixa nessa noção utilitarista é ou ignorado ou então ressignificado. Como exemplo do primeiro temos a completa ausência de ciências que não as chamadas “ciências duras” (física, química, biologia). Ciências humanas não são nem mencionadas aqui. Já como exemplo do segundo temos a chamada ciência de base.

Em certo sentido, Chrome é muito mais um cientista do que o Senku, pelo menos na sua primeira aparição. Ele passou a vida coletando toda sorte de minerais, fazendo experimentos, e de fato buscando conhecimento. Mas como ele não conseguiu produzir nada de útil, suas descobertas eram essencialmente ignoradas.

Quando o Senku chega, porém, este imediatamente reconhece o valor dos minérios que o Chrome coletou. Porque o Senku tem o conhecimento necessário para torná-los em algo útil. Mas enquanto isso de fato acontece na ciência do mundo real, eu preciso reforçar que esse nem sempre é o caso.

Como eu disse, é perfeitamente possível que demore décadas ou mais entre alguém descobrir algo e outro alguém achar um uso para essa descoberta. E justamente por causa disso a ciência de base (junto das ciências humanas, aliás) tende a ser vista com certo desdém ou desconfiança pela população. Porque ela não “brilha”. Ela não “produz”.

Ao reforçar uma visão utilitária da ciência, séries como Dr. Stone reforçam também essa antipatia por tudo aquilo que as pessoas veem como “inútil”, entendido, nesse contexto, como aquilo que não produz algum tipo de tecnologia que eu possa usar no meu dia a dia. E nisso conhecimento, o “oficial” objetivo da ciência, se torna secundário.

O que é, diga-se de passagem, até mesmo perigoso. Eu disse que pode levar décadas até alguém achar um uso para uma descoberta qualquer, mas notem que mesmo nesse exemplo alguém ainda acha. Muitas das tecnologias modernas são aplicações de conhecimentos que, quando foram primeiro descobertos, devem ter parecido bem inúteis.

O progresso científico depende dessa busca descompromissada pelo conhecimento. Dessa busca sem a necessidade de aplicação imediata daquilo que se descobre. Sim, é ótimo quando uma nova descoberta tem alguma aplicação prática imediata, mas nós como sociedade precisamos aceitar que esse nem sempre será o caso: e tudo bem!

Mas é como eu disse: essa é a primeira resposta. Porque o buraco, aqui, vai bem mais fundo. Dr. Stone não apenas iguala ciência com tecnologia. De propósito ou não, a obra também iguala progresso tecnológico com progresso civilizatório. E nisso ela acaba por abrir a caixa de pandora que a própria ciência levou um bom tempo para perceber que deveria manter fechada.

.

Progresso Civilizatório

O leitor provavelmente já deve ter visto – na escola ou em algum outro lugar – uma divisão da história humana que segue mais ou meno assim:

Da idade da pedra para a idade do bronze para a idade do ferro. Do nomadismo para o sedentarismo. Da antiguidade para a idade média, para a idade moderna e para a idade contemporânea. Do escravismo para o feudalismo para o capitalismo. O que todas essas divisões têm em comum? Um claro senso de progresso.

Em todos esses exemplos, o que vem depois é muitas vezes subentendido como melhor do que o que veio antes. Como uma escada onde a cada degrau a humanidade “sobe de nível” (uma metáfora que eu não uso ao acaso, como logo verão). Mas ainda mais perigosa é a noção de que essas são as etapas naturais e inevitáveis do desenvolvimento humano.

Primeiro porque: não são. Maior prova disso sendo o fato de que ainda hoje existem povos nômades, por poucos que sejam, além de povos que nós talvez classificaríamos como vivendo na “idade da pedra”.

A humanidade não está predestinada a seguir um dado rumo. Não evoluímos feito pokemons. O que deu certo para uma civilização não necessariamente dará para outra. E enquanto vemos, durante a história humana, diversas práticas, técnicas e tecnologias sendo empregadas em larga escala mundo afora, bem poucas são aquelas que poderiam alegar universalidade.

Não entender isso foi o que levou diversos povos ao longo da história a chamar de “bárbaros” todos aqueles que não viviam como eles. Porque cada povo vê a si próprio como o pináculo da evolução humana, o “ponto final” de uma história que vem desde tempo imemorial. E, passo seguinte, aqueles que tem o “dever” de “civilizar” os “bárbaros”.

Que Dr. Stone use tanto o imagético do videogame toca justamente nessas noções. Cada nova tecnologia é tratada como uma quest, e ao obtê-la é como se a vila “subisse de nível”. Implícito aqui estando justamente essa visão de progresso.

Há mesmo algo de colonial no que o Senku faz com a vila Ishigami. Trazendo toda sorte de novas tecnologias, tornando-se o efetivo líder da vila e empregando todos ali na construção de ainda outras tecnologias. Claro, no anime é tudo muito bonitinho, e também benéfico para todos os envolvidos. No mundo real, porém, as coisas nem sempre dão tão certo.

Colonialismo foi algo que existiu, sustentado, dentre várias coisas, também por aquele ideal civilizatório. Racismo científico foi também algo que existiu, e foi de grande ajuda para justificar tratar o “outro” como inferior, subdesenvolvido, bárbaro.

A título de nota, essa é ainda outra faceta da ciência que Dr. Stone evita de mencionar. Por mais que não gostemos de admitir, a verdade é que a ciência não é neutra. Porque pessoas não são neutras. Cientistas ainda estão sujeitos a todos os vieses de sua época, com os resultados de suas pesquisas podendo ser muito mais fruto destes do que de rigor científico.

Alguns talvez apontassem que isso não é culpa da ciência, e sim de quem a faz. Mas a ciência não existe sem a humanidade. Ela é uma criação nossa, uma bastante eficiente naquilo que se propõe, mas nem de longe infalível ou perfeita.

Se o século XIX acreditava que a ciência ainda resolveria todos os problemas da humanidade, o século XX viu duas guerras mundiais tornadas ainda mais brutais justamente por essa mesma ciência, das trincheiras da primeira às bombas atômicas da segunda. “Progresso” é uma palavra complicada. E talvez impossível de se aplicar, sem um asterisco, em larga escala.

.

Concluindo

Eu quero reforçar que eu realmente gostei de Dr. Stone. Me diverti bastante com a série, e se tudo der certo eu espero poder explicar melhor o porque muito em breve (~foreshadow~). Se por algum motivo você leu tudo isso sem ter visto o anime ainda: assista. Vale a pena.

Entendo que, como um anime, o comprometimento de Dr. Stone é para com o entretenimento em primeiro lugar. E sendo ainda uma obra voltada para crianças e adolescentes (um shounen, afinal), algum nível de simplificação é mais do que esperado: é necessário para o bom fluir da narrativa. Ainda assim, sua representação da ciência é uma que me incomoda desde o começo.

Dr. Stone, intencionalmente ou não (e, pra ser franco, eu apostaria minhas moedas no “não”), reproduz discursos que já deveriam há muito ter sido superados. Uma visão utilitarista da ciência ou um ideal de progresso civilizatório são mais do que antiquados: são perigosos. E é justamente por isso que eu quis dar um olhar crítico a como o anime apresenta a ciência.

Bom, ok, isso e o fato de que as pessoas parecem super preocupadas com se a ciência mostrada no anime é ou não realista, enquanto completamente ignorando tudo o que eu falei aqui. Não é possível que só eu tenha pensado tudo isso!

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Dr. Stone, episódio 1

2 – Dr. Stone, episódio 1

3 – Dr. Stone, episódio 13

4 – Dr. Stone, episódio 11

5 – Dr. Stone, episódio 19

6 – Dr. Stone, episódio 1

7 – Dr. Stone, episódio 20

8 – Dr. Stone, episódio 7

9 – Dr. Stone, episódio 7

10 – Dr. Stone, episódio 7

11 – Dr. Stone, episódio 23

12 – Dr. Stone, episódio 24

Um comentário sobre “A Ciência em Dr. Stone

  1. Parabéns pelo texto, acompanhei essa discussão na época, mas nunca vi ninguém levantar isto que você falou. Dr. Stone é realmente um anime problemático, eu vi os 4 primeiros episódios, mas não consegui gostar de quase nada nele, por isso larguei

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s