[Vídeo] Análise #14 – Fushigi no Umi no Nadia


Nossa Relação com a Natureza


Roteiro:

Fushigi no Umi no Nadia é um desses animes que estão numa posição meio esquisita, em termos de popularidade. É bastante provável que você já tenha ouvido falar dele, se mais nada apenas pelo pedigree que a série tem. Uma produção do estúdio Gainax dirigida por Hideaki Anno, que algum tempo depois viria a dirigir Neon Genesis Evangelion.

Mas enquanto o título deve ser vagamente familiar, é fato também que pouco se fala sobre ele, de maneira geral. Você não vai encontrar muitas análises, reviews ou mesmo impressões sobre a série, fora talvez a seção de reviews do My Anime List. E meio que é fácil de entender porquê.

Acontece que Nadia é uma dessas histórias onde a parte boa é realmente muito boa, mas a parte ruim é também realmente muito ruim. Personagens interessantes e bem caracterizados, mas com relacionamentos que a série está sempre avançando e retraindo. Um universo fascinante e muito bem construído, mas também um que o anime precisa por a história em pausa para explorar.

Nadia é uma mescla de boas ideias com um ritmo sofrido de acompanhar, o que o torna uma recomendação bem complicada. E talvez por conta disso esse anime tenha sido renegado aos anais da história dessa mídia, importante o bastante para ser conhecido, mas não bom o bastante para ainda ser celebrado. Ou pelo menos é a impressão que eu tenho.

Por que então eu estou fazendo um vídeo sobre esse anime que pouca gente vai ter visto?

Bom, primeiro de tudo, olá. Bem vindo a este meu canal. Isso é meio o que eu faço aqui.

Mas em segundo lugar, há já algum tempo eu venho querendo falar de Nadia por um motivo bastante específico: ambientalismo. Bom, ok, mais especificamente, sobre como histórias tendem a retratar a tensão entre desenvolvimento e natureza. Porque Nadia é, para todos os efeitos, um dos animes que melhor reconhece as nuances dessa problemática.

E bom, é aqui que cabe o meu costumeiro aviso de spoilers. Ta certo que eu geralmente faço ele depois de dar pelo menos uma sinopse do anime em questão, mas a história de Nadia se desdobra pra tantos caminhos diferentes e traz tantos twists ao longo da sua trama, que qualquer sinopse seria inevitavelmente ou apenas um resumo do primeiro episódio ou então um spoiler em si mesmo.

O que eu posso dizer é que a nossa história começa quando o menino inventor Jean encontra com a misteriosa garota Nadia, que vem sendo perseguida por conta da pedra que carrega em seu colar, a igualmente misteriosa Blue Water. Mais do que isso, como eu disse, já seria spoiler.

Neste vídeo, eu quero me focar um pouco naquele que é o arco mais criticado do anime, o arco da ilha, um momento lá pra segunda metade da série quando Nadia e Jean acabam presos em uma ilha deserta. E enquanto esse é um arco que tem vários problemas, ele também tem alguns acertos que eu sinto que merecem ser reconhecidos.

Então, finda esta longuíssima introdução, passemos, finalmente, a essa pequena análise de Fushigi no Umi no Nadia.

Vamos começar apresentando o cenário. Não do anime, mas da problemática maior.

Frequentemente, histórias que tragam em si um viés ambientalista, de preservação e respeito à natureza em oposto à destruição desenvolvimentista, tendem a trazer uma visão bastante romantizada dessa natureza, igualando esta ao bom e o desenvolvimento tecnológico ao mau. Como se parar o desenvolvimento humano em prol de plantar algumas árvores fosse uma alternativa realista a um problema que é muito mais complicado do que isso.

Fushigi no Umi no Nadia dialoga com esse contexto justamente na medida em que transmite essa dicotomia entre natureza e desenvolvimento nos personagens da Nadia e do Jean, respectivamente.

Não poucas vezes ao longo da história, Nadia se apresenta como ferrenha crítica do progresso tecnológico, e não totalmente sem razão. Quando ela e o Jean chegam ao Natilus, o garoto vê o submarino como um testemunho do engenho humano, uma tecnologia incrível a ser conhecida e estudada. Nadia, porém, o vê apenas como uma máquina de matar. E… é, a garota tem um ponto.

Nadia é também vegetariana, algo com o que o anime lida surpreendentemente bem. E claro, como não poderia deixar de ser, ela idolatra a natureza… mesmo nunca tendo pisado nela. Uma visão bastante maniqueísta, mesmo bastante ingênua, esperada justamente de uma criança… exatamente como a Nadia é.

Algo interessante em Fushigi no Umi no Nadia é que a história está sempre forçando os personagens a questionarem seus ideais. E o arco da ilha, quando Nadia e Jean ficam presos juntos numa ilha isolada do mundo, é justamente o momento da história questionar essa adoração da Nadia pela natureza, jogando um bom tanto de nuance na questão.

Aqui, Nadia espera justamente aquela natureza benevolente e provedora, com amigos animais acolhedores e uma vida de alegrias em meio à mata. O que ela de fato encontra vai da dificuldade de encontrar comida a doenças e toda sorte de riscos.

Tem uma cena muito boa, ainda no começo desse arco, quando a Nadia acaba caindo no mar e começa a se afogar. Ela implora, mesmo espera, que os peixes a venham salvar, mas tudo que encontra é o completo silêncio das águas. A natureza, aqui, não é boa nem ruim. Ela é absolutamente indiferente. E, no fim, quem a salva é o Jean, num barco que ele mesmo fez.

É importante destacar que o anime também não vê com bons olhos o desenvolvimento tecnológico exacerbado. Afinal, a Atlântida foi destruída justamente pela sua própria tecnologia. Desenvolvimento demais pode facilmente levar a humanidade à própria ruína, mas desenvolvimento de menos e não podemos nem salvar a vida daqueles afligidos por alguma doença.

Tem algo que o Jean diz durante esse arco que bem resume qual o ponto que o anime tenta fazer. Parafraseando, ele diz que a tecnologia é a forma através da qual a humanidade consegue coexistir com a natureza, algo que o anime demonstra muito bem aqui.

Precisamos da tecnologia, para o nosso próprio bem. Mas seu uso deve ser sempre consciente e crítico, nunca permitindo que ela se torne uma ameaça a nós próprios. Tudo bem que no mundo real nós meio que já passamos desse ponto há um bom tempo, mas ainda é uma posição interessante de se tomar.

Como eu disse, esse arco tem problemas. O relacionamento da Nadia com o Jean fica num vai e vem que é frustrante de assistir, e o arco como um todo dura bem mais do que precisava durar. E é, não ajuda que todo pouco desenvolvimento que ele traz na relação dos personagens é sumariamente apagado logo no arco seguinte.

Mas enquanto todos esses são problemas que me fazem entender perfeitamente bem o porque desse arco ser tão criticado, eu sinto que tematicamente ele é mais do que bem vindo: ele era necessário. Porque a Nadia precisava desse choque, para se desenvolver como pessoa. E a história também, para que pudesse apresentar o tema com a devida nuance.

Eu reconheço que é um saldo bastante misto, o que meio que resume bem esse anime como um todo. Mas ei: ao menos me rendeu esse vídeo.

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