Mas afinal: necessidade pra que?!


“Desnecessário” é tão ruim assim?


Este não é um texto sobre o ecchi. E, se começo com uma frase do tipo, é tão somente porque preciso, primeiro de tudo, dar ao menos uma rápida pincelada no contexto no qual escrevo este artigo.

Nas últimas semanas, particularmente após o lançamento do terceiro episódio do anime Enen no Shouboutai (Fire Force), ressurgiu nesse nosso meio a já bastante antiga discussão sobre o ecchi, seus méritos e, sobretudo, deméritos. Discussão essa que, em sua encarnação atual, pode ser resumida na frase (já praticamente um meme) “ecchi desnecessário”.

Agora, como eu disse, este não é um texto sobre o ecchi. Antes, eu estou mais interessado na segunda metade dessa frase: o “desnecessário”.

A questão da necessidade é também bastante antiga, sendo resumida no princípio de que tudo em uma obra deve estar a serviço de algo. Eu mesmo já escrevi um texto nesse assunto alguns anos atrás, e em parte é até por isso que quero agora revisitar o tema. Não porque a minha opinião mudou por completo, mas porque vejo agora a questão com algumas nuances adicionais.

Talvez este exato artigo acabe por ser inútil. Mas afinal: que problema há nisso?

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Nem Toda Arma É Pra Ser Disparada

Nesse ponto da discussão, o leitor já deve ter ouvido falar na famosa “arma de Chekhov”, nem que apenas de passagem.

Trata-se de um exemplo dado pelo escritor russo Anton Pavlovich Chekhov, que aparece em várias de suas cartas. A versão mais famosa dizendo: “se no primeiro ato você pendurou uma pistola na parede, então no ato seguinte ela deve ser disparada”. Uma defesa, como fica claro, da ideia de que tudo em uma história deve ter alguma função.

Eu quero começar não realmente rejeitando esse princípio, mas mais complicando o exemplo um pouquinho.

Vejam, Chekhov era um escritor de peças. Seu ponto de referência era, portanto, o teatro. E algo importante de se ter em mente é que esta é uma mídia bastante minimalista. Todo o cenário sendo geralmente composto por apenas alguns poucos referenciais. E é por isso que Chekhov fala que uma arma em cena deve, eventualmente, ser disparada.

Só que o cinema e a televisão são mídias bem diferentes. Seus ambientes podendo ser bem mais “reais”, bem mais “tangíveis” do que os do teatro. E aqui, nem tudo que está em cena precisa cumprir a sua função de uso.

Uma arma em cena, no contexto do cinema ou de uma série para a televisão, pode dizer muito sem que ninguém precise tocar nela. Pode dizer algo sobre seu dono. Por que esse personagem tem uma arma? Ele a deixa guardada, ou exposta? Também pode dizer algo sobre aquele mundo. É um no qual uma arma é necessária? Um mundo violento e perigoso?

Recursos desse tipo são usados o tempo todo. Uma dica: comecem a reparar nos quartos dos personagens, em animes. Porque aquilo que uma pessoa possui diz muito sobre ela mesma e sobre o mundo no qual ela vive.

Isso não é nenhuma refutação do princípio por trás do exemplo que é a arma de Chekhov. Na verdade, este permanece totalmente intacto. A arma continua tendo função, afinal. E isso porque meu objetivo aqui era, como disse, apenas complicar um pouquinho as coisas. Porque, e esse é o meu ponto por agora, nem tudo precisa ter a função que você acha que precisa ter.

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Mas Afinal: Função Pra Que?!

Vamos agora dar um passo para trás e perguntar: por que algo precisa ter função, em uma história?

Óbvio demais? Talvez. Mas questionar o óbvio pode ser importante, de quando em vez. E isso porque o óbvio pode ser uma importante fonte de insight. Ponto em caso: acho que essa atitude para com a ficção, essa noção de que tudo em uma história deve ser útil, diz algumas coisas sobre nós e sobre o nosso momento atual.

Fato é que histórias bem “fechadas”, onde tudo nelas tem algum propósito, tendem também a ser bem mais satisfatórias. E isso porque nós, enquanto seres humanos, temos essa tendência de buscar um sentido para as coisas, desde a nossa própria existência até o universo como um todo. “Por quê?” e “para que?” sendo talvez as duas grandes perguntas que fazemos desde sempre.

Por muito tempo a religião cumpriu o papel de responder essas perguntas, e para muitas pessoas ela ainda responde. Porque a noção de que talvez não exista um propósito para tudo “isso”, para o mundo ao nosso redor ou até para nós mesmos, é uma bem difícil de suportar. Absurdistas e existencialistas que o digam, afinal, sem mencionar os atuais niilistas.

Quando algo em uma história não tem propósito ou função, é mais do que frustrante: é desconfortável. Pontas soltas nos incomodam. E esse é talvez o lado mais “universal” dessa questão toda. E acredito que é a ele que Chekhov se referia quando deu o seu exemplo, dado que ele descreve a sua arma como uma “promessa” feita à plateia, que deve ser cumprida (i.e.: a arma deve ser disparada). Mas ainda assim: não posso deixar de pensar que há também algo de mais específico nessa situação toda.

Específico aqui eu digo em relação ao nosso momento histórico atual. Porque talvez tão importante quanto esses nossos impulsos mais instintivos é também um elemento mais social nessa questão toda. Ponto em caso: histórias não são escritas num vácuo.

Acho que o argumento moderno mais recorrente do porque tudo em uma história deve ter alguma função é a ideia de que aquilo que é inútil – sobretudo cenas, episódios ou mesmo arcos inteiros – é também uma “perda de tempo”. E nisso, creio que cabe nessa discussão toda alguma reflexão sobre a nossa relação com o tempo.

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O Tempo de Cada História

Permitam-me perguntar: quando foi que “perder tempo” se tornou algo tão ruim?

Não vou fingir aqui ser um profundo conhecedor das histórias da antiguidade. Mas tenho lá parco conhecimento no assunto. E acho interessante pensarmos na estrutura de algumas dessas histórias.

Como você resumiria a Odisseia, por exemplo? Começando de quando Odisseu efetivamente começa a contar a sua história, temos a sua partida de Troia, os vários perigos que encontrou, até que chegamos no seu estado atual e eventual partida para Itaca, onde chega para retomar seu trono. E enquanto o “miolo” da história tem lá sua função – em particular, ensinar ao Odisseu uma lição sobre humildade perante os deuses –, as histórias individuais, por memoráveis e icônicas que sejam, não importam muito, importam?

Há toda uma parte da história onde Odisseu e seus homens se encontram com o deus dos ventos, que prende em um saco os ventos pouco favoráveis à viagem de Odisseu. Mas o fato de que este não pode falar a seus homens o conteúdo do saco faz com que estes, quando já estão com Itaca a vista, o abram, liberando os ventos e empurrando o navio para ainda mais longe do que antes. Não torna esse “arco”… meio inútil?

Outro exemplo: o que sabem sobre a Jornada ao Oeste? Essa história chinesa é bastante famosa nesse nosso meio por ter sido a inspiração para muitos dos personagens de Dragon Ball, mas quem já leu do que ela se trata?

Essencialmente, você tem esse monge, Tang Sanzang (ou Tripitaka), encarregado de viajar ao oeste em busca de algumas escrituras sagradas do budismo. Auxiliado por todo um elenco de personagens secundários, dentre os quais o mais famoso é o “rei macaco” Sun Wukong (o que inspirou o Goku… e que consegue ser umas vinte vezes mais OP do que o próprio Goku… sério).

Agora, passadas as introduções, o “miolo” da Jornada ao Oeste é também bastante episódico. Várias histórias individuais onde os protagonistas costumam ter de lidar com algum demônio tentando impedi-los de conseguir as escrituras. Se saísse hoje, não duvido que alguns criticariam a história da Jornada ao Oeste dizendo que ela é “lenta” ou que “não anda”.

Do ocidente ao extremo oriente, cabe também menção ao “meio do caminho”. Narrativas como as Mil e Uma Noites arábicas, ou o Panchatantra indiano tem a curiosa característica de serem narrativas “labirínticas”, com histórias dentro de histórias.

Por exemplo, você tem um personagem contando uma história, e nessa história um personagem começa a contar a sua história (geralmente a da sua vida). E isso cria um amalgama onde a “grande” história, aquela que acaba servindo muito mais como o cenário para todas essas histórias menores, demora bastante a “avançar”.

O que aconteceu no meio do caminho? Como fomos disso que eu descrevi acima para uma situação onde Chekhov pode dizer que tudo em cena deve ter função? Bom… algumas coisas.

Duas em particular, porém, são as mais relevantes para essa nossa conversa. A primeira delas sendo o relógio. Não exatamente a sua invenção, povos bem antigos já tinham formas de medir o tempo (vide o relógio solar, afinal), mas mais o seu aperfeiçoamento. A divisão do tempo em horas, minutos e segundos, todos muito bem definidos. Se antigamente você tinha um compromisso para “depois do almoço”, hoje você tem para as “2h43min”.

E a segunda foi, é claro, a ascensão do capitalismo. E, mais especificamente, a aplicação desse tempo muito bem definido à lógica do trabalho. E cria-se então o horário de entrar, o horário de sair, e o horário do almoço: todos cravados, para não permitir o “desperdício de tempo”. Já dizia o ditado: “tempo é dinheiro”.

Há algo de produtivista nessa discussão sobre a utilidade de algo na ficção. Uma lógica capitalista interiorizada, onde tanto as coisas devem justificar a própria existência com base na sua utilidade, como também o desperdício de tempo passa a ser visto com maus olhos.

E isso é perfeitamente razoável para a fábrica, mas é mesmo a melhor forma de tratar histórias? Eu não sei, de verdade. Mas fica a reflexão.

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E Afinal: “Necessário” para o que?!

Vamos voltar por um minuto à discussão do ecchi, apenas mencionada no começo deste artigo. Porque é curioso a ênfase que o termo “desnecessário” teve na conversa atual. Várias pessoas defendendo que o problema não é o ecchi em si, mas sim o seu mal uso, e que não há nada de errado nele quando é de fato necessário.

Mas isso posa a pergunta: necessário para que, exatamente? Porque vejam: necessidade não existe em um vácuo. Se algo é necessário, ele obrigatoriamente o é para alguma outra coisa ou algum outro fim. Então a que o ecchi – e, por extensão, praticamente todo e qualquer elemento de uma história – teria de servir para ser aceitável?

A tendência maior é a de responder com “trama” e “personagem”, com alguns também adicionando “temas” a essa lista. O que provavelmente explica o porque de Kill la Kill ser o anime mais mencionado quando se busca defender o ecchi.

Em Kill la Kill, a quase nudez das personagens (femininas e masculinas, vale destacar) tem uma função na trama, que prefiro não comentar aqui para não dar spoiler. Ela também serve aos personagens, com parte do desenvolvimento da Ryuko vindo dela aprender a se sentir mais confortável com seu próprio corpo. E claro, há também uma função temática aqui, com as roupas servindo de alegoria para o controle social.

Mas me incomoda um pouco o uso de Kill la Kill como esse grande exemplo de “ecchi necessário”, e isso por dois motivos. Primeiro porque é um exemplo bastante pontual, praticamente o único de seu tipo. Mas ainda mais importante: porque é um exemplo que mantém a primazia daquela tríade trama-personagem-tema.

Nessa mentalidade, reifica-se esses três elementos, colocando-os como os únicos com o direito de existirem por si mesmos. No máximo aceitamos ai uma interdependência, onde a trama deve auxiliar o desenvolvimento dos personagens, estes devem fazer a trama andar, e ambos devem estar em consonância com os temas da história. Todo o restante, porém, é tratado como acessório.

O problema é que uma mentalidade do tipo pode nos tornar intransigentes para com histórias que não façam de algum desses três elementos o seu eixo principal. É o caso, por exemplo, dos animes nichijoukei, mais conhecidos por aqui como animes moe. Séries frequentemente criticadas como tediosas justamente pela tendência a não apresentarem narrativas complexas, desenvolvimento de personagem ou temas profundos.

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Função Interna X Função Externa

A tríade acima cuida também de reificar uma outra noção: a de que tudo em uma história deve ter uma função interna a esta. Afinal, quando falamos sobre o avanço da trama ou o desenvolvimento dos personagens estamos falando daquilo que é interno à narrativa.

Mas permitam-me perguntar: qual o propósito da comédia? Fazer rir, certo? Mas reparem quem ri: o espectador. Piadas são um ótimo exemplo de algo que possui função externa: elas existem pela e para a audiência, e mesmo que sejam completamente inconsequentes para a trama ou os personagens nós ainda as aceitamos como um elemento válido da narrativa.

E o mesmo pode ser dito para todo elemento empregado em prol de causar uma dada reação ou de incitar um certo sentimento. Vemos muito isso em animes iyashikei, por exemplo, onde tudo na obra colabora em prol de causar no espectador uma sensação de tranquilidade.

Rule of cool é talvez outro exemplo disso em ação. Trata-se de um trope bastante comum, onde a explicação do porque algo existe ou porque algo acontece como acontece em uma história é “porque é legal”. Mesmo que não faça sentido, inclusive. E, se bem executado, podemos ser bastante receptivos a esses momentos, até mesmo quando estamos cientes de que não fazem sentido. Porque é muito legal!

E já vou deixar a provocação: seria o ecchi assim tão diferente da comédia, em função? Não existiria ele para causar uma certa reação na audiência, no caso, excitação sexual? Podemos discutir a fundo a questão moral e social da sexualização das personagens, mas se o assunto é função, necessidade, não podemos colocar o ecchi meio que na mesma “categoria” que a comédia, o horror, ou qualquer outro elemento/gênero narrativo que se volta para a audiência?

Claro, essa distinção entre função interna e função externa é uma bastante tênue. O que não falta são elementos narrativos que possuem dupla função. Isso ocorre bastante em animes infantis, onde um objeto (as armaduras dos cavaleiros, os transformadores das sailor, as cartas em Yu-Gi-Oh!) possui tanto função interna (ferramentas de combate) como externa (propaganda para produtos licenciados). E isso aparece também de formas menos óbvias.

Enquadramento fica aqui como um caso interessante. Um bom enquadramento de cena pode dizer muito sobre os personagens, por exemplo: suas relações, suas personalidades, seus estados de espírito… Isso tem a função interna, de caracterizar e desenvolver esses personagens. Mas tem também uma função externa, porque tudo isso é comunicado para a audiência. E só existe em função da audiência.

O problema é que as pessoas podem ser bastante cínicas com a noção de função externa. A ideia de que a obra faz algo para o seu público tende a ser recebida com desconfiança. Não a toa o ecchi é também conhecido como fanservice, um “serviço para o fã” (e sim, há nuances ai, diferenças entre os termos, fanservice abarca bem mais coisa do que apenas o sexual, mas deixemos a discussão semântica para outro momento).

Quando bem executada (uma piada que faz rir, uma atmosfera bem construída, um enquadramento diferente) as pessoas nem parecem registrar essas coisas como tendo função externa, como existindo em prol da audiência. Mas quando é algo mal executado, ou é controverso, é que vêm as críticas.

Vemos muito isso com a questão financeira, quando algo está na obra claramente com o propósito de vender alguma coisa. As pessoas não parecem gostar muito da ideia que seus battle shounen favoritos existem para vender bonecos e outros brinquedos, por exemplo. E ou rejeitam essa noção ou a usam como argumento contra essas obras.

O que é engraçado, porque o ecchi vem então bem na confluência entre uma questão financeira, afinal nós sabemos que ele é uma ferramenta de marketing (para o blue ray sem censura, as figure das personagens de biquíni, as dakimakura, etc.), e uma questão sexual que já naturalmente deixa certas pessoas desconfortáveis (por motivos diferentes a depender de onde você cai no espectro político). E nisso ele se torna o alvo perfeito para a crítica.

O que me leva ao meu último ponto.

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Esta é mesmo uma discussão sobre necessidade?

Até este ponto no texto eu tentei me focar sobretudo na questão da necessidade. Em parte porque a discussão sobre o ecchi é, como mencionei, uma bastante antiga. Estamos tendo essa conversa há um bom tempo, e não imagino o cenário mudando tão cedo. A questão da necessidade, porém, é bem menos discutida, e por nisso acreditei que daria um tema interessante.

Mas eu quero terminar esse artigo deixando no ar uma pergunta. A você que critica o “ecchi desnecessário”, seja sincero: o problema é o desnecessário, ou o problema é o ecchi?

Porque, eu vou ser bastante sincero: todo esse papo de “ecchi desnecessário” me soa muito como uma racionalização posterior. Como algo que as pessoas não gostam (o ecchi) e que estão agora buscando entender o porque de não gostarem (o desnecessário). E não há nada de inerentemente errado nisso, mas é uma atitude que pode desviar a conversa daquilo que talvez realmente devêssemos estar discutindo.

Se realmente quer falar sobre necessidade, então cá está este texto. É um assunto que de fato rende algumas boas reflexões sobre a nossa relação com a ficção, o que esperamos dela e porque esperamos o que esperamos. Mas se o problema é com o ecchi… talvez queiram mudar um pouco a argumentação. Porque o assunto é bem mais complicado do que vocês fazem parecer.

Imagem: No Game No Life, episódio 2

2 comentários sobre “Mas afinal: necessidade pra que?!

  1. Essa questão de necessidade se encaixa muito bem nos shounens de porrada que se prolongam mais do que deviam, na minha opinião essa “necessidade” está ligada a alguns fatores, acho que o principal é o tempo, porque quando algo que não tem um propósito pra história tem foco por muito tempo cria-se essa sensação de que aquilo foi desnecessário. Em resumo quando algo que não tem uma função direta pra história toma demais o tempo de tela, pra mim, é desnecessário.
    PS:desculpa se eu não consegui expressar bem o meu ponto.

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  2. Achei muito bacana a retomada desse tópico, bem como a ampliação dele!

    Tirando o “ecchi” da frente antes de continuar com o comentário, para mim é um gênero que é e sempre me foi incômodo. Tinha a questão da não necessidade dele para a história (como abordado no outro texto), mas também porque me deixa desconfortável e não cria nenhum contexto que me agrada. O mesmo acontece com o moe às vezes. Agora, diria que teria uma tolerância um pouco maior com harém inverso ou com fanservices de outro tipo, apesar de que no presente momento tudo em demasia e que inevitavelmente “atrasa” a história (quando ela existe) me incomoda. Mas mais sobre isso adiante. Só para terminar, chego ao ponto de julgar pelo pôster se darei uma chance ao anime. Acho que os elementos e a forma como são retratados já me dão uma pista se vou gostar ou não. Depois de anos acompanhando a mídia, pode ser uma história legal e profunda, porém, algumas coisas não me descem e prefiro evitar.

    Agora, voltando para o foco da necessidade e sobre a construção de uma história. Assim como apontado, há necessidades que nem sempre cumprem a função que a gente gostaria que ela cumprisse. E fazemos essa demanda por sermos parte da função externa. Seja pelo foco puramente de cunho financeiro ou atribuindo outros valores a mais, a questão é que queremos ver nossos desejos atendidos. O fechamento das pontas soltas, a ligação entre os simbolismos, a devida caracterização do personagem, cenas de luta, sangue, coisas “fofinhas”, piadas, sexualização tudo isso serve ao propósito de nos satisfazer (tanto a quem produz quanto a quem consome). Logo, penso que as obras falam mais sobre os seres humanos, o mundo em que estão, cultura, etc do que a nossa racionalização em avaliar a história por vezes se limita (algo assim também foi abordado no texto). E, sinceramente, se a obra existe, acredito que já cumpre uma função por si, ou melhor, uma necessidade (independentemente se gostamos ou não). A necessidade humana. Mas as pessoas por vezes menosprezam esse fator ou o julgam inferior quando discutem sobre alguma obra de anime, buscam uma objetividade que tem base subjetiva. E talvez isso explique o porquê da minha impaciência com alguma obras que não parecem “caminhar na história” ou “que possuem elementos que não fazem sentido para a história”. A sensação de tempo perdido e de me debruçar sobre algo que não atende o que eu busco no momento parece demasiadamente ruim para dar chance a algo fora do meu nicho (dentro de outro nicho chamado anime). E para mim essa obra se torna ruim. Não quero dizer que com isso não há possibilidade de avaliar criticamente alguma obra, porém, percebi que tendo consciência e buscar entender sobre nossos gostos e preferências, de como o abordaremos (ou até como avaliaremos algo), ajuda bastante nas discussões e a manter o respeito para com o outro. O que, infelizmente, sinto faltar no meio irônico e afiado que nos encontramos (e bem abordado no outro post sobre gostar de anime). E penso que perdemos muito com isso.

    Curtido por 2 pessoas

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