[Vídeo] Eu Adoro Anime!


“Porque o mundo não é tão ruim quanto você pensa”


Roteiro:

Já faz ai uns bons anos que eu primeiro assisti Durarara. Acho que foi lá pra idos de 2011, mais ou menos, ou talvez um pouco depois. Nesse meio tempo, eu já esqueci muita coisa série, tanto que nem cheguei a ver ainda as temporadas mais recentes. Mas tem uma cena em específico que, mesmo tantos anos depois, eu ainda lembro vividamente.

Ela vem no episódio 2 e… ok, pelo bem do tamanho desse vídeo eu não vou ficar aqui resumindo todo o episódio, mas mais para o final dele você tem esse momento onde o Izaya, o antagonista maior da série, meio que leva uma garota ao suicídio. Mas enquanto ela está caindo, tendo se atirado de um prédio, ela acaba sendo salva por essa entidade sobrenatural que é a Motoqueira sem Cabeça.

A cena em si é bem legal, mas o que chamou mesmo a minha atenção é a conversa das duas depois do ocorrido. A garota pergunta “por quê?”. Ao que a motoqueira responde:

“Porque o mundo não é tão ruim quanto você pensa”

É uma frase que realmente ficou comigo, e uma que eu de tempos em tempos acabo me lembrando. Um excerto solto, quase sem contexto, mas sempre relevante.

Pensando agora, do presente, acho mesmo que era algo que eu precisava ouvir na época. Nem tanto essa frase em específico, digo, mas mais o que ela representa. Acho que bem precisava de alguém que pegasse todo esse cinismo representado pelo Izaya e todo esse sentimento de desesperança e alienação representado por essa garota e dissesse… “não”.

Você está errado.

Você está errada.

Porque o mundo não é tão ruim quanto você pensa.

Eu adoro anime. É uma mídia fascinante, que já me entregou toda sorte de histórias inesquecíveis e momentos memoráveis. Essa pequena anedota que conto sobre Durarara é só uma de muitas. Poderia facilmente passar horas falando de como esta ou aquela obra mexeu comigo. De certa forma, aliás, é exatamente o que eu faço nesse canal.

Eu adoro anime. E se isso parece óbvio, ótimo. É pra ser mesmo. Porque, algumas vezes, é importante falar o óbvio.

Faz quase dez anos que voltei a ver anime, como um espectador casual. Há cinco eu abri o blog. E há três eu tenho esse canal. Nesse tempo, pude já notar muitas das idiossincrasias desse nosso meio. E tenho lá algumas críticas que poderia fazer a essa nossa comunidade. Mas é uma em particular que me levou a querer produzir esse vídeo.

Sendo direto, me incomoda como esse nosso meio foi tomado pelo cinismo, pela ironia, e pela autodepreciação – nossa e daquilo que consumimos.

E eu sei que há um contexto maior nisso. Fato é que nós vivemos tempos cínicos. A ironia é a língua franca da internet, e que Deus tenha piedade da pobre alma que tentar ter uma discussão séria nela, porque os usuários certamente não terão.

Memes sobre depressão e mesmo suicídio são quase que onipresentes, e denunciam ansiedades para com o nosso momento atual que vão muito além dos fãs de um tipo em particular de animação.

Além disso, também não quero dar a entender que esse comportamento surgiu ontem nesse nosso meio. Eu não quero que esse vídeo fique super técnico, nem nada do tipo, mas não posso deixar de pensar na análise que Saito Tamaki faz do otaku em seu livro de 1999 Beautiful Fighting Girl. Em especial sobre como ele nota no otaku japonês uma tendência a tentar passar a imagem de estarem apenas fingindo estar obcecados. Talvez, ele especula, como um mecanismo de defesa contra os olhares tortos da sociedade.

Tudo isso é importante de se reconhecer, se mais nada no mínimo para entendermos o escopo real da coisa. Mas ainda assim!

Podemos parar por um momento e reconhecer a bizarrice que é o fato de que um dos memes mais duradouros nessa nossa comunidade é aquela frase falsamente atribuída ao Hayao Miyazaki, “anime foi um erro”?

E eu sei, eu entendo, as pessoas falam isso “ironicamente”. Mas que outra mídia você consegue pensar agora, de cabeça, cujos consumidores possuem uma atitude semelhante? Você não vê cinéfilos falando que filmes foram um erro. Ou leitores ávidos falando que livros foram um erro. Acham que nunca sai nada de ruim nessas mídias? Ou de questionável?

Mesmo subculturas que têm uma tendência similar à autodepreciação, como a comunidade nerd ou gamer, ainda me parece tender ao respeito pelas mídias que consomem. O que não falta é gente clamando o valor e o mérito, artístico, social, cultural, dos videogames. Já o anime é… aquela coisa estranha ali pra degenerados – e isso quem diz somos nós, primeiro de tudo.

Até as discussões que surgem são muitas vezes dominadas por esse sentimento. É mais provável que as pessoas falem mal de algum anime ruim que por algum motivo continuam assistindo do que bem de alguma outra coisa que estejam vendo. Tem vezes que eu me pergunto porque esse povo ainda assiste anime, e eu estou imerso nesse meio! Imaginem a imagem que fica para quem está fora.

E não me entendam mal, essa mídia tem problemas. Vários até. Desde obras de baixíssima qualidade até uma produção brutal para os envolvidos. Há muito que se criticar aqui. Mas será que podemos, só por um minuto, parar de fingir que ela não tem valor?

Se for pra especular o que sustenta esse comportamento hoje, acho que o contexto maior é o mais importante. Em tempos cínicos, sinceridade tende a ser confundida com ingenuidade, quando não infantilidade. E demonstrações sinceras de paixão pelo que gosta podem soar um tanto quanto, digamos… cringe.

“Só quem ama animes vai curtir e compartilhar essa imagem”, e eu aposto que você já estava se encolhendo de vergonha alheia antes mesmo de eu terminar essa frase.

Mas eu não acho que o apreço sincero a algo precise ser cringe. E não apenas isso, como também diria que apreço sincero é absolutamente necessário se quisermos que essa mídia seja levada a sério.

E eu sei que há pessoas que não ligam se essa mídia é levada a sério ou não, dentro ou fora da comunidade. E a essas eu digo: eu entendo, mas, respeitosamente, eu discordo.

Porque se mais nada, no mínimo podemos ter discussões bem mais interessantes quando levamos essa mídia a sério. Podemos discutir os méritos artísticos desta ou daquela obra. O impacto cultural deste ou daquele anime. As mensagens, ideias e ideologias de um título qualquer. Ou como nossos animes favoritos nos afetaram.

Eu nunca li nada do escritor americano Kurt Vonnegut, cujo nome eu provavelmente pronunciei terrivelmente errado, mas ele tem uma frase bastante famosa que eu pessoalmente gosto bastante:

“Somos aquilo que fingimos ser, então temos de ter cuidado com o que fingimos ser”

Numa era de sarcasmo e ironia, acho essa uma colocação bastante relevante.

E para todos aqueles que ainda repetem que anime foi um erro, seja com sinceridade, seja com ironia, eu quero dizer: não. Você está errado. E já passou da hora de reconhecermos isso.

Há séries ruins? Sim, há. Mas há também animes que nada deixam a dever a nenhuma outra mídia. Obras absolutamente fantástica, que merecem ser conhecidas, comentadas e celebradas.

Eu adoro anime. Sem “mas”, sem “porém”, sem “exceto”. Sem ironias, sem sarcasmo. Com toda sinceridade:

Eu adoro anime.

E ponto final.

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