Vinland Saga, episódio 8 – “Todos são escravos de algo”


A que mestre você serve?


Como vimos no episódio anterior, o inverno já começou. E após o último saque, é chegada a hora do bando do Askeladd voltar para casa. Bom, ou pelo menos quase isso. Não fica exatamente muito clara a relação deles com aquele vilarejo. Eles claramente voltam para lá com frequência, mas são tratados mais como hóspedes do que como habitantes. Diga-se de passagem, hóspedes muito bem vindos.

A sequência após a abertura nos é ainda outro lembrete do quanto a guerra é romantizada por esse povo. A reação da população local ao retorno do Askeladd lembrando aquela da vila do Thorfinn quando os jomsvikings chegaram nela em busca do Thors, lá no segundo episódio.

A cena do Thorfinn esbarrando em um dos habitantes, que prontamente exige um pedido de desculpas, lembra ainda a cena do Ari esbarrando em um jomsviking, e também sendo calado apenas com um olhar. Irônico, considerando que, ao estabelecer esse paralelo, a história coloca o Thorfinn como similar àqueles cujo líder encomendou o assassinato de seu pai.

Mas é na conversa entre Askeladd e Gorm que nós realmente entramos no tema do episódio. Este reclama que sua recém adquirida escrava é inútil, ao que Askeladd responde que na verdade é ele quem não sabe usá-la. E completa: você pode usar de qualquer um se souber como.

É uma cena que parece encapsular bem a atual relação do Thorfinn com o Askeladd. Parece que este vê naquele uma ferramente útil, bom de se ter por perto. Ao mesmo tempo, é a cena que primeiro estabelece um paralelo entre o Thorfinn e a Hordaland, a escrava do Gorm. Mais adiante esse paralelo ficará ainda mais claro.

Antes, porém, temos o duelo. E numa nota não muito relevante, é curioso como a adaptação decidiu cortar qualquer menção a duelos passados, dando a entender que esta é a primeira vez que o Thorfinn enfrenta o Askeladd. Dentre todas as mudanças feitas até o momento, é a primeira que me incomoda um pouco, já que não imagino o Thorfinn como alguém paciente o bastante para esperar dez anos por um duelo.

Em todo caso, a luta começa. E acho a fala inicial do Askeladd bem interessante. Ele diz que o Thorfinn cresceu, e acho que ele reconhecer isso põe em evidência o quão estranha é a relação deles. Para o Thorfinn, Askeladd é um inimigo, alguém que ele precisa matar. Para o Askeladd, Thorfinn é uma ferramenta, uma que ele sabe como usar. Ao mesmo mesmo, é inegável que, de uma forma bastante distorcida, Askeladd se tornou o mais próximo de uma figura paterna que o Thorfinn teve durante a sua infância e adolescência.

A luta em si é bastante silenciosa, como de praxe para o anime. E nela podemos ver como o Thorfinn melhorou bastante enquanto guerreiro, e mesmo dá um pouco de trabalho para o Askeladd. Mas claro: este sabe muito bem como usar a ferramenta que tem.

Eu já disse, quando da minha análise do quarto episódio, que um dos grandes defeitos do Thorfinn é o seu temperamento. Normalmente o garoto é bem calmo e focado, mas pressione os botões corretos e toda essa calma rui em instantes – e o Askeladd sabe muito bem disso. Numa luta, ser previsível é perigoso. E ninguém fica mais previsível do que quando está com raiva. Thorfinn perde, mas Askeladd apenas desloca seu braço. Ele não tem nenhuma intenção de matar o garoto.

Temos então o banquete, e na conversa com o rapaz o Askeladd resume bem o que o episódio busca passar. “Todos são escravos de algo”, ele diz. E de fato, isso é algo que temos visto desde o começo do anime. Thors era escravo de seu passado. Agora, Thorfinn é escravo de seu desejo de vingança. Cada qual com suas correntes. Ainda que uma cena do tipo nos força a pergunta: de que, então, seria o Askeladd um escravo?

O episódio, porém, prefere não nos dar muito tempo para ponderar a questão. Cortamos para o Thorfinn no barco, lamentando a derrota. Ele sonha com seu pai, e acho que essa cena demonstra bem como, apesar de ter crescido em altura e em habilidade, Thorfinn ainda é apenas uma criança que perdeu o pai. E vai continuar sendo uma enquanto se mantiver preso ao seu passado. Mas é como o Thors diz, em seu sonho: essa é uma lição que ele terá de aprender sozinho um dia.

Hordaland chega para lhe dar um pouco de comida, e mais uma vez o anime enfatiza como os dois são similares. Hordaland até o confunde com um escravo.

O monólogo que ela faz pouco depois é também bem interessante. Mesmo que ela fosse fugir para o outro lado do oceano, o que a espera ali? E nisso fica brutalmente clara o quão desoladora é a vida de um escravo – escravo real, agora, não apenas metafórico. Não há para onde fugir, não quando todo o mundo é desse jeito. A nevasca aperta, como se o próprio clima espelhasse a brutalidade daquela sociedade.

É nesse ponto que Thorfinn se lembra da história que ouvia quando criança. Sobre uma terra distante, sem escravos e sem guerras. Ainda outra vez Vinland surge aqui como uma espécie de paraíso mítico, uma centelha de esperança em um mundo imerso na destruição. Hordaland, porém, não parece acreditar que isso seja mais do que um mito.

Podemos mesmo questionar se o Thorfinn acredita. Para ele, que nesse ponto já viajou bastante e já viu toda sorte de guerras e contendas, a história de Vinland deve soar ainda mais fantasiosa do que ela soa para Hordaland. Ainda assim, quando ela pergunta se um lugar do tipo realmente existe, Thorfinn fica em silêncio. Ele não confirma – já não é mais uma criancinha para acreditar em contos da fadas. Mas também não nega – talvez porque, em algum nível, ele apenas quer que Vinland exista.

Os minutos finais do episódio servem essencialmente para nos apresentar os personagens que serão mais relevantes no próximo arco. O inverno acabou, e aqui começa a investida dos nórdicos à Inglaterra. Temos um breve vislumbre de Canute, seguido de uma discussão entre o rei e Ragnar, sobre a real necessidade de trazer o príncipe a campo. Conversa essa que inclusive deixa ambíguo o quanto o rei de fato se importa com seu filho. É ele apenas rígido, dada a sua posição, ou haveria algo mais ai? O tempo dirá.

E encerramos então com a apresentação do Thorkell, que já tínhamos visto de relance no primeiro episódio, lutando ao lado do Thors. Suas habilidades sobre humanas (decepando quatro pessoas com um machado só) e seu gosto pela guerra ficando já evidentes. Mas isso fica para o próximo episódio.

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