Kino no Tabi, episódio 11 – “Eu fico pensativa em momentos como este”


A Jornada Dela


Esse décimo primeiro episódio muito se assemelha ao terceiro e ao quinto, sendo um compilado de várias histórias menores, quase todas aqui ligadas por um mesmo fio condutor: a Kino numa balsa relembrando algumas de suas aventuras.

Mas é interessante que são também histórias tematicamente ligadas, tornando esse episódio um tanto quanto mais coeso do que os dois outros mencionados. Temas como crime, vingança e propósito perpassando quase todos os contos que vemos aqui.

Temos também a primeira e única aparição da Mestra, cuja história junto à Kino só viria a ser contada anos depois, no primeiro dos especiais da franquia. Mas falamos mais disso quando eu for cobrir este especial.

Como nota introdutório final, é a primeira vez que um artigo nesta série não tem a seção final “E Agora: Todo o Resto”. Finalmente consegui encaixar tudo que queria dizer no texto corrido! Yey?

Mas feito o aviso, comecemos de uma vez a análise deste episódio.

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A Jornada Dela


Esse episódio é dividido em duas metades bastante distintas, a primeira delas perfazendo três “esquetes” diferentes. A última delas sendo a nossa efetiva introdução à “Mestra”, que até então fora apenas mencionada de passagem tanto no prólogo do episódio 1 quanto no combate da Kino com a mulher no coliseu, no episódio 7.

As duas primeiras, porém, são curiosamente parecidas. Ambas sendo a história de uma mulher que decide sair em uma viagem após a perda do noivo. A motivação de cada uma, porém, não poderia ser mais diferente. A primeira movida por um desejo de vingança. A segunda, por um ideal pacifista. Comentemos melhor cada uma.

O primeiro conto abre com a Kino conversando com um homem num bar, e através de pistas contextuais vamos entendendo melhor o que se passou. Ele matou o noivo de uma mulher, foi preso por isso e aprendeu com seus erros, querendo então se redimir. Entrou em contato com a mulher, que lhe disse que se era o caso ele deveria protegê-la durante a viagem que pretendia fazer. E claro, ele aceita.

Superficialmente é uma bonita história de redenção, que traz à tona temas como o dar uma segunda chance mesmo aos piores criminosos, além de reflexões sobre o papel do sistema carcerário. Afinal, não seria isso que esperamos de tal sistema? Uma reeducação e posterior reintegração do criminoso à sociedade, agora como um membro funcional desta? Bom… é complicado.

Logo na primeira aparição da mulher percebe-se que ela ainda nutre alguma animosidade pelo homem. A câmera até mesmo foca no seu olhar, este uma mistura de raiva e desdém, com o rangido da porta durante a cena reforçando a sensação de que algo ali não está certo. E logo descobrimos o que era.

Uma vez que estão fora do país, ela se aproveita para matar o homem. E como ela mesma coloca: “ele realmente se tornou uma boa pessoa. Isso é o mais imperdoável”.

Justiça e vingança são dois termos que, não raras vezes, acabam equiparados no imaginário popular. O homem mudar para a melhor era o que todos poderíamos querer enquanto sociedade. Mas isso não apaga a dor da perda que ele causou. Não apenas isso, mas quando se é a vitima de uma tragédia do tipo deve ser desconfortável a ideia que aquele que você um dia considerou um monstro seja agora uma boa pessoa.

Imagino que foi essa dissonância que levou a mulher a fazer o que fez. Mas há de se perguntar se ela mesma está satisfeita com isso. Especialmente dado que sairá em uma jornada “para esquecer”. O que exatamente fica no ar. O noivo? O assassino? Tudo?

Em tudo isso, é curioso o papel da Kino. A mulher bem aponta: a Kino podia tê-la impedido. E ainda assim não o fez. O motivo desta sendo “porque não sou Deus”.

Parte dessa resposta deve ser o ideal não intervencionista da Kino. Paradoxo, aliás, que o episódio bem reconhece. Ela quer conhecer pessoas, mas também entende que seu papel é o de uma viajante de passagem. E nisso, não quer se envolver demais. Há uma distância entre ela e as pessoas que conhece. Talvez, recuperando aqui a sua fala no primeiro episódio, como ainda outro mecanismo que a previna de se assentar em algum lugar.

Mas é também possível que ela não se sentisse no direito de impedir a mulher. Afinal, a própria Kino já se deixou levar pela raiva dessa mesma forma. Naquele momento, ela concluiu: “vingança não trás nada de bom”. Talvez esta seja agora a lição que a mulher terá de aprender.

O segundo conto nos apresenta, como já disse, uma situação bastante similar. Uma mulher que decide partir em uma jornada após a morte do noivo. Sua motivação, porém, é diferente. Mesmo porque ela não tem de quem se vingar: o assassino de seu noivo já havia ele próprio morrido.

Sua busca é uma muito mais pacífica, pregando a não violência e o abandono das armas, viajando ela mesma sem carregar nenhuma. A própria mulher reconhece o quão perigosa é a sua jornada, mas está disposta a correr o risco. Novamente, uma história bonita… na superfície.

Para a Kino, o homem que acompanha a mulher revela uma arma. De forma bastante indireta, diga-se de passagem, com o espectador tendo apenas o som do metal e o sorriso da Kino para inferir o que se passou. Mas é mais que suficiente. Um twist bem interessante.

Descobrimos que o homem vem eliminando possíveis ameaças pelas costas da mulher. Não fosse por isso, os dois certamente já estariam mortos há muito tempo. O que, de certa forma, coloca em xeque o idealismo da mulher. Ela pode pregar a não violência o quanto quiser, mas no fim do dia palavras não vão impedir uma bala. Há então, afinal, algum mérito no seu ideal? Fica posta a provocação.

De certa forma, a esquete que nos apresenta a Mestra continua essa ideia. Após fugir de seu país, Kino e Hermes chegam a uma clareira, onde então o combustível do motorad acaba. Kino é aqui atacada por um lobo, mas acaba sendo salva pela Mestra – e sua arma. E é também com a Mestra que ela aprende aquilo com o que mais deve ter cuidado numa viagem: “não perder a vida”.

Em algum nível é mesmo uma resposta meio cínica aos ideais da mulher. E falando em cinismo…

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O Sábio


A segunda metade do episódio é dedicada a um conto só, a história do homem sábio que vive em reclusão. Junto dele apenas uma garota não muito mais velha que a Kino.

Para quem talvez não saiba, a história que a garota conta, sobre o encontro do sábio com o rei, é claramente inspirada num famoso relato do encontro entre o conquistador Alexandre, o Grande, e o filósofo Diógenes, pai da filosofia do cinismo.

Nesse relato, Alexandre, feliz de ter encontrado o famoso filósofo, lhe pergunta se havia algo que desejava. Ao que Diógenes responde: “sim, que saia da frente do sol”. Alexandre teria então dito, reconhecendo a sabedoria dele, que “se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes”. Ao que Diógenes responde: “se eu não fosse Diógenes, também gostaria de ser Diógenes”.

É importante dizer que o cinismo de Diógenes tem bem pouco a ver com o cinismo moderno, popularizado nas redes sociais. Ambos partem de uma profunda desconfiança para com a sociedade, mas o cinismo de Diógenes o faz para propor um retorno à simplicidade, um modo de viver mais próximo da natureza. Diga-se de passagem, “natureza” aqui em sua forma mais bruta.

Citando aqui um rápido excerto da sua entrada na Wikipédia: “É dito que Diógenes teria comido no mercado, urinado em algumas pessoas que o ofendera, defecado no teatro, e se masturbado em público”.

Ao mesmo tempo, a história do sábio tem também em si traços da filosofia budista. Ele mesmo diz que não é como é por ter alcançado a Iluminação, e ao contar sua história aprendemos que ele foi uma cobaia em seu pais natal, com os experimentos fazendo-o perder a noção do si próprio. E, nisso, perder também todo desejo para além daqueles mais primitivos, como alimento e descanso.

Diga-se de passagem, a história do sábio é interessante por abordar temas e questões que já vimos diversas vezes ao longo do anime, incluindo este mesmo episódio.

Seu estado é o resultado de seu país tentando resolver o problema do crime transformando as pessoas (não fica claro se apenas criminosos ou a população em geral) em marionetes obedientes, sem auto-consciência, mas ainda capazes de trabalhar. Seria esta uma solução melhor do que aquela do primeiro país do episódio? Creio que a pergunta seguinte seria: melhor para quem?

Ansiedades para com a autoridade e a tecnologia também se fazem presentes aqui. Já comentei bastante sobre o primeiro ao longo desta série, mas o segundo é algo que pouco abordei.

Em Kino no Tabi, podemos ver diversas vezes o impacto da tecnologia. Muitas vezes, este é positivo, como o caso da Nimya e seu avião, ou dos robôs do país do primeiro episódio. Em outros casos ela pode ter efeitos inesperados, como o soro de ler mentes do primeiro episódio ou o país onde ninguém precisa trabalhar, do quinto. Mas há também instâncias nas quais a tecnologia se torna instrumento de controle e opressão, como o país da Kino e, agora, o país do sábio.

É interessante: quando o sábio conta a sua história, Kino, como é de costume, permanece em silêncio. É apenas quando ele diz que foi expulso de seu país por ser um fracasso que a garota repete, “um fracasso, é?” Será que ela não viu um pouco de si própria na história do homem? Afinal, ela própria foi chamada de “fracasso” pelas pessoas do seu país.

Mas voltemos por um momento ao sábio. Estaria o episódio querendo dizer algo sobre filosofias como o cinismo e o budismo? É difícil dizer, mas acredito que ele esteja, sim, querendo dizer algo sobre propósito.

Ao final do conto do homem, temos o twist de que a garota veio do mesmo país que ele. E com a morte do sábio se aproximando, fora o fato dele ter voltado ao que era antes, ela diz que já não tem mais um trabalho. Ela olha então para o céu e vê um pássaro, dizendo que talvez saia em uma viagem.

É um final que espelha o que vimos na primeira metade do episódio, de uma mulher partindo em uma viagem após a morte de algum próximo. Todas, porém, com motivações bem diferentes. Vingança. Idealismo. E, talvez no caso da jovem do conto final, uma busca por si própria.

Acho que é aqui que entra a história que a Kino conta ao sábio, sobre o “verdadeiro céu azul”. Como a nossa protagonista coloca: não existe tal coisa. Em cada lugar, em cada momento, em cada estação, o céu é ligeiramente diferente. Nenhum deles sendo o “verdadeiro”.

Talvez o que o anime queira dizer com isso é que não há uma forma correta de se viver a vida. Me lembra um pouco o que a Kino diz quando de sua visita à Terra Triste, no terceiro episódio: cada um é cada um. Isso vale para nações, mas também para pessoas. Cada qual viajando pelos próprios motivos, em busca de algo único a si. Há um propósito por trás de cada uma dessas viagens, o que as difere das do sábio que apenas perambulava sem rumo.

Claro: isso levanta então a questão da própria jornada da Kino, uma que Hermes não deixa passar. É a jornada da Kino diferente da do sábio, dado que ela mesma não tem qualquer destino ou propósito em específico? Kino ri e diz que há mesmo semelhanças, mas que há também uma diferença fundamental: ela pretende viver consciente de si mesma.

O sábio perambulava porque não desejava nada. Andava a esmo, sem se importar com o seu arredor. Kino, porém, viaja porque quer. E busca sempre aprender mais sobre cada lugar que passa. Uma diferença de atitude bastante significativa.


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