Burnout de anime? Não. Mas… | Especial de 5 Anos


Você ainda gosta de anime?


Quantos episódios de anime você assiste em um dia? E mais importante: você diria que esse número mudou nos últimos anos?

De minha parte, eu diria que sim. Sinto que vejo muito menos episódios hoje do que há alguns anos. Não menos animes, que fique bem claro, mas menos episódios mesmo. Hoje, em um dia bom, eu vejo talvez três episódios, todos de séries diferentes. Episódios seguidos de um mesmo anime? Raro o dia que passo de dois.

Agora, para ser bastante sincero, a minha memória não é das melhores. Não sei dizer ao certo quantos episódios eu via por dia cinco ou dez anos atrás. Mas eu tenho a distinta sensação de que eu via mais. Não acho que algum dia tenha chegado a maratonar uma série inteira em um dia, mas ainda via mais do que vejo hoje.

Parte do ponto dessa série de artigos comemorativos dos cinco anos do blog é o refletir um pouco sobre o que mudou ao longo desse tempo, então para este eu quero perguntar: o que exatamente aconteceu aqui?

Honestamente, eu não tenho uma resposta. Ou melhor: uma única resposta. Acho que o que ocorre aqui é uma confluência de fatores. Uns mais pessoais, mas outros talvez um pouquinho mais amplos. E com certeza uns mais importantes do que outros.

Sei que não estou sozinho nessa sensação. Em fato, é um comentário que vejo com alguma frequência aqui ou ali. Este texto é uma série de reflexões sobre o que pode estar acontecendo. Me diga você depois se o que descrevo aqui lhe parece familiar.

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A questão do tempo

É inegável: quanto mais envelhecemos menos tempo parecemos ter. Da escola para a faculdade para o mercado de trabalho, a cada etapa da vida o nosso tempo ocioso diminui. Bom, ou pelo menos para uma parcela de nós.

Pessoalmente, posso dizer que tive uma juventude bastante privilegiada. Durante todo meu ensino regular (fundamental e médio) pude me dedicar apenas aos estudos. E sendo da turma da manhã, isso significou ter a tarde e a noite livres. Na faculdade só precisei arrumar algum trabalho a partir do meu segundo ano, e mesmo no caso foram bolsas e estágios que nunca interferiram nos meus estudos.

Tive, portanto, uma progressão mais amena dessa perda do tempo ocioso. Mesmo assim, as responsabilidades foram se empilhando. E quando da entrada no mercado de trabalho, me vi saindo de casa às 6 da manhã e voltando por volta das 7 ou 8. Nem de longe um horário horrendo, não faltam pessoas que passam por perrengues muito maiores, mas é claro que nesse ponto meu tempo ocioso diminuiu bastante.

Imagino que para muitas pessoas a explicação termina aqui. O avanço natural da vida sendo o responsável por se ver menos animes hoje do que quando se tinha muito mais tempo livre. Mistério resolvido.

Só que isso não realmente funciona no meu caso.

Isso vai soar estranho, mas: eu posso dizer com segurança que via muito mais animes quando estava trabalhando do que agora que estou desempregado. Graças ao metrô, diga-se de passagem. Cheio demais para se abrir um livro, e com péssimo sinal de internet, assistir alguns episódios de anime na ida ou na volta do trabalho logo se tornou uma rotina minha.

Hoje tenho todo o tempo do mundo, e mesmo assim a minha situação é como descrevi acima: se vejo três episódios, em um dia, é muito. “Falta de tempo” não realmente explica o que me aconteceu.

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Burnout… maybe?

Eu voltei a ver animes lá pra idos de 2010. Estamos, caso não tenham recebido ainda a notícia, já para além da metade de 2019. Após quase uma década acompanhando essa mídia, será que não estou apenas me cansando dela? “Burnout” é uma das palavras do momento, afinal.

Pra ser sincero, me é meio estranha a ideia de “cansar” de toda uma mídia. Anime não é uma coisa só. Há aqui uma variedade bem grande de gêneros, demografias, premissas, estilos… Eu entendo enjoar de um tipo de anime, mas de toda a mídia? Bom… talvez “cansar” é que não seja bem a palavra.

Todos temos nossos gostos, e isso bem sabemos. Mas o que pouco paramos para pensar a respeito é que nosso gosto pode ser bastante circunstancial. Isto é: a depender do nosso momento, podemos estar mais inclinados a ver este ou aquele tipo de história. E nem sempre o que queremos ver bate com o que está no ar.

Há já algum tempo eu penso se deveria me afastar das temporadas. Refletir melhor sobre o que me interessa e o que eu realmente quero assistir e procurar por essas histórias, ao invés de continuar tentando me manter “me dia” com os animes mais atuais. E mesmo assim, a cada nova temporada eu começo a ver uns dez novos títulos, dos quais consiga realmente acompanhar talvez uns três ou quatro.

Se for bastante sincero, boa parte dos animes que tenho para ver são títulos com os quais eu não realmente me importo tanto. Por que, então, ainda estou vendo?

Parte do motivo é puro complecionismo. Essa resistência a largar animes que já comecei. Digo, eu até abandono fácil quando acho ruim, mas quando acho mediano… eh, vai que fica muito bom depois, né? Eu conto nos dedos de uma mão as vezes que isso aconteceu, mas vai que dessa vez, né?!

Imagino que isso muito colabore para o baixo número de episódios que vejo em um dia. Se o meu investimento em uma série já é baixo, é lógico que será difícil de clicar no próximo episódio. Nisso o problema real talvez seja menos de burnout e mais de não saber ou de não conseguir selecionar melhor o que se assiste. Não me agrada a ideia de dropar um anime no episódio 1, mas talvez visse bem mais se passasse a fazê-lo…

Claro, não poderia deixar de mencionar aqui a faceta social do anime. Boa parte da razão para se acompanhar animes da temporada é o poder participar nas discussões, conversando com os demais sobre o que estão achando. Mas não foi o último texto desta série justamente sobre como não ando com vontade de discutir animes? Que diferença faz, então, ver um que saiu ontem ou um que saiu vinte anos atrás?

Mas ainda assim, quando você quiser discutir… Pra ser sincero, tenho certa resistência a ver animes mais antigos. E isso por um motivo inusitado: é meio chato ver uma obra que você acaba gostando, mas não tem com quem conversar a respeito. Eu sei que sempre vai ter alguém comentando o que saiu ontem. Já o que saiu há vinte anos…

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Já sobre maratonar…

Algo que não se discute muito, mas que noto com cada vez mais frequência: nem todo anime é “maratonável”.

Séries plot driven são ótimas para se maratonar. Por seu enfoque no roteiro e no desenrolar da história, elas te fazem querer saber o que vem a seguir. Mas nem todo anime foca na sua trama. Há séries mais episódicas, ou então mais focadas no desenvolvimento dos seus personagens. Títulos que mesmo pressupõem que você irá assisti-los “aos poucos”.

Mas claro, incluso nisso está também a tolerância de cada um. Há pessoas que se divertem com a ideia de ver vários episódios em sequência de uma série episódica de comédia qualquer, e há aqueles que preferem ver títulos plot driven com mais calma a fim de melhor absorver e refletir sobre os detalhes. Seja qual for o seu caso, a cada novo anime que for assistir talvez seja bom pensar em qual categoria ele se encaixa. Pra você: é bom pra maratonar, ou um episódio ao dia já é mais que suficiente?

E diga-se de passagem, é mesmo possível que um dado episódio seja tão bom que você não quer ver o próximo. Ou mesmo que você não quer ver mais nada naquela hora. Só quer ter um tempo pra pensar e refletir um pouco sobre o que acabou de ver, para realmente “absorver” aquele episódio. Acho que é uma sensação tão boa quanto a vontade impulsiva de ver logo o próximo episódio.

Mas claro, admito que falo muito da boca pra fora, propondo um sistema que eu mesmo não uso, ou ao menos não de forma tão organizada. Quando vejo um anime acumulando episódios, meu impulso maior é o de querer maratonar – e ai parar porque não me interesso por ver vários episódios em sequência daquela obra. É algo no que ainda preciso trabalhar, para ser franco.

Quem quiser, faça o teste. E me diga depois se deu certo.

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Mas…

Eu acredito que todas as questões que mencionei agora são parte dessa do motivo por trás dessa queda no tanto de episódios que vejo ao dia. Falta de tempo, acumulo de títulos que pouco me interessam, vontade de maratonar o que nem foi pensado pra ser maratonado em primeiro lugar, todos fatores que de alguma forma me afetam. Mas há pelo menos mais um que eu precisaria discutir.

Digam: quando foi que vinte minutos passaram a soar como um comprometimento tão grande?

É algo que já noto há algum tempo. Por algum motivo, às vezes ver um episódio parece essa tarefa monumental. Eu vejo facilmente um vídeo de mais de hora no YouTube, mas um – ou, ainda pior, dois! – episódio de anime parece tão mais difícil… E acho que sei o porquê.

YouTube é um site. E os vídeos que vejo eu raramente os vejo de fato. São, na maior parte dos casos, sons de fundo. Algo que escuto enquanto faço outra coisa. Eles exigem bem menos atenção e engajamento do que um episódio de anime, e acho que é isso que faz eles parecem esse comprometimento tão maior. É, diga-se de passagem, a mesma razão pela qual um livro ou um filme pode parecer um comprometimento grande demais.

Já comentei isso no meu texto anterior dessa série, mas sinto que minha atenção vem diminuindo com o tempo. É difícil focar em uma coisa só por muito tempo. Fruto, é claro, do condicionamento das redes sociais, que nos acostumam com o novo a cada minuto. Um dos motivos pelos quais venho tentando me afastar um pouco delas. Eu quero a minha atenção de volta!

Vendo pelo lado bom, se for o caso, então ver animes pode mesmo ser um bom treino. São 20 minutos, no mínimo, que exigem a sua total atenção. Só que ai tanto mais importante que você goste do anime que está vendo. O que gera o problema de que, se a história não for interessante 100% do tempo, pode ser fácil de sucumbir à tentação de parar “só um minuto” pra olhar o Facebook ou o Twitter. Complicado.

É famoso o dito que se você não paga por um produto é porque você é o produto. Diferentes plataformas competem constantemente pela nossa atenção, mas quem mais sofre com isso somos nós mesmos.

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Pra encerrar

Eu quero finalizar deixando duas coisas bem claras, a primeira delas sendo que de forma alguma eu quero dar a entender aqui que há algum problema com os animes.

Não penso que os títulos de hoje são de alguma forma inferiores aos de alguns anos atrás, e que essa seja a causa da minha falta de engajamento para com eles. Na verdade, eu posso mesmo dizer o contrário. Todo ano sai pelo menos um pequeno punhado de séries absolutamente fantásticas, que em nada deixam a dever aos títulos do passado. Qualidade não é o problema aqui.

Já o segundo ponto que queria deixar claro é: eu ainda gosto bastante dessa mídia. Não acho que meu problema seja puro burnout. Fosse o caso não estaria começando tantos novos títulos. Acho, sim, que há algo de mais profundo ai. Algo ligado à forma como me relaciono com essa mídia, ou mesmo com o ambiente midiático atual de forma geral. E foi isso que procurei explorar neste texto.

Se já passou por algo parecido, me diga se algo do que eu disse pareceu familiar.

E agora, se me dão licença, eu tenho animes pra por em dia!

Imagem: Animegataris, episódio 1

3 comentários sobre “Burnout de anime? Não. Mas… | Especial de 5 Anos

  1. Sinceramente, eu sou uma leitora fantasma. Reconheço isso. Também não acompanho diligentemente tudo o que é escrito aqui, mas é interessante como eu sempre volto. Às vezes é porque coincidiu de algo que eu quero ler sobre ter sido abordado no blog ou só para dar uma olhada, procurar alguma indicação ou um tema que me chame atenção. E muito disso acredito que se deve ao cuidado em cada texto produzido. Sejam as argumentações, a forma como o texto é estruturado, o conteúdo, as reflexões pessoais ou não, juntamente com uma incitação a temas, curiosidades. É catártico e intelectualmente estimulante (soa estranho, mas não encontrei termo melhor) para mim ler esses tipos de conteúdos.

    Passadas as apresentações, meu comentário não vai se restringir apenas ao post, mas mais como um compilado da minha experiência com esse especial cinco anos e de várias outras que tive com o blog.

    Com o passar do tempo, como apontado, a vida foi adquirindo outros ritmos e demandas, diminuindo tempos ociosos antes existentes. Mas fora isso, uma parte minha que me fez ter esse “burn out” dos animes foi quando me percebi tendo uma relação consumista com essa mídia e não aproveitando de fato o que tinha a oferecer. De interesse e hobby, passou para demandas e excessos que tiravam o brilho e o próprio propósito de eu assistir anime. Era como se eu reproduzisse aquilo que acontecia em outras áreas de minha vida, uma extensão dos vícios. O número grande de séries lançadas e a sociabilidade proporcionadas pelo que está “na moda” também contribuía para esse modus operandi (como citados). Quando percebi isso, deixei de lado um pouco dessa autocobrança e decidi resgatar aquela experiência inicial que eu tive com os animes. Quando me dá vontade, quando me sinto estimulada (ou preciso dessa estimulação), eu dou uma olhadinha e procuro um título para ver, aproveitar e refletir sobre essa minha experiência. Mas é interessante como alguns hábitos não mudam e sempre dou uma olhada na temporada da vez, só para não me sentir totalmente deslocada e perdida, mesmo que eu não acompanhe nenhum título (ainda que insistentemente eu continue separando uns que me chamaram atenção para “futuramente” ver), além de, quem sabe, encontrar um anime que me surpreenda.

    Contudo, admito que ao contrário de antigamente, sinto-me mais solitária. E não é porque eu diminuí os títulos assistidos ou porque antes eu tinha várias pessoas com quem falar, mas sim porque eu não encontro mais esses espaços de conversa: essas pessoas ou não assistem mais anime, ou nossos interesses parecem não bater, ou estamos muito ocupados, ou quando temos tempo, não estamos com vontade de debater, conversar, compartilhar o quanto obra “x” mexeu com a gente, escutar o outro… ou tudo isso junto. Tem horas que eu acho que é preguiça, em outras cansaço, em outras um pessimismo (afinal, porque eu vou me engajar em algo se eu sei que não vai sair nada de lá, que serão só trocadas umas poucas frases? Ou algo superficial e que dificulta a manutenção da conversa?), mas não importando o motivo, a consequência é a mesma: cada um em seu canto, fechado e sem ânimo de ir até o outro. Como foi comentado, nem assistir junto e conversar por horas está sendo possível mais. E parece que com isso entramos em um ciclo vicioso.

    Percebi o cúmulo da minha solidão e desânimo quando, depois de muito tempo, eu encontrei um anime da temporada que me engajasse e me fizesse assistir os episódido semanais religiosamente, o que me levou a acompanhar tópicos de discussão no reddit só para ler alguém falando sobre! Isso mesmo, eu vou lá para ler centenas de comentários porque me sinto bem fazendo isso, passa a sensação de que estou conversando com alguém, trocando ideias (mesmo divergentes) e que tem pessoas tão investidas no anime quanto eu. Eu não faço nenhum comentário, é suficientes ler, porque só ler está bom (será que está?).

    Enfim, esse comentário não chega nem próximo da organização dos textos publicados aqui, porém, é um pouco do muito que sinto, penso e faço, que emergiu das leituras que fiz aqui (principalmente do especial do blog). Eu não vou me referir a cada questionamento, desabafo, feito ao longo dos textos, porém, só quero destacar que também sinto muito do que disse (às vezes nem percebia) e é realmente muito bom ler sobre. Pode ser um tanto ingrato esse papel de “criador de conteúdos” (era esse o termo?), afinal, eu mesma não sou de comentar e nem contribuir com algo por aqui, imagino que é um trabalho um tanto solitário e que parece que se está falando sozinho em alguns momentos (ainda mais considerando o objetivo inicial da criação do blog), mas gostaria de transmitir a mensagem de que ler o que escreve me faz um bem danado. E agradecer. Dito isso, aproveito também para parabenizá-lo pelos cinco anos =)

    Curtido por 2 pessoas

    • Se servir de consolo, eu faço a exata mesma coisa no reddit xD Quase sempre que termino um episódio da temporada eu vou lá dar uma olhada no que as pessoas falam. Sei lá, há algo de interessante em ler as reações das pessoas, desde o povo que só posta prints de algumas cenas até aqueles que fazem uma longa análise de cada episódio. Mas é, eu mesmo mal comento rs.

      Mas bom, em todo caso, agradeço o comentário ^-^ Em parte pelos elogios, fico feliz que goste desse conteúdo que produzo xD Mas também porque às vezes é bom (bom?) quando a gente vê mais gente tendo meio que algumas das mesmas dúvidas / ansiedades / preocupações aqui e ali rs

      Curtido por 1 pessoa

      • Hahahahaha bom saber que eu não sou a única que faz isso! Eu não estava acostumada, então ler centenas de comentários (e aqui sem exageros, porque os números crescem rápido lá às vezes) sem me engajar na discussão parecia algo um tanto improvável de ser feito ao meu ver (as pessoas não parecem ter tempo nem para ler uma mensagem de mais de quatro linhas, quem dirá uma thread inteira?). Mas parando para pensar melhor, acho que o lado positivo disso também é ter acesso a uma porcentagem (talvez representativa?) de quem costuma assistir. Além de insights e outros olhares não percebidos anteriormente. Mal não deve fazer xD

        E sim! Causa um certo alívio quando a gente vê alguém se identificando com algo que não é só a gente que sente, não é só coisa da nossa cabeça. E caso futuramente algum conteúdo do tipo “desabafo” apareça de novo, se achar pertinente, acho bacana compartilhar no blog também. Não precisar esperar o aniversário de 10 anos não xD

        Curtido por 1 pessoa

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