Kino no Tabi, episódio 9 – “É perigoso se deixar levar pela fantasia, viajante”


Terra dos Livros


Para ser franco, é difícil para mim escrever uma análise desse episódio em particular. É o meu episódio favorito, e tenho certeza de que texto algum que eu escreva ficará tão completo quanto eu gostaria que ele ficasse. Talvez seja só o meu perfeccionismo falando, mas ainda assim…

Aqui temos a visita da Kino à Terra dos Livros, que termina por gerar um episódio bastante metalinguístico. Questões que vão da censura à indistinção entre realidade e ficção servindo para nos fazer pensar sobre como nós, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, nos relacionamos com as histórias que consumimos. Daqueles que querem policiar o que os demais podem ver, àqueles que se deixam tragar pela fantasia.

O episódio é também um excelente tapa na cara e no ego, sobretudo para os críticos. Da mesmo para sentir certa animosidade para com eles por parte dos responsáveis por esse conto (digo, o autor da história original e a equipe do anime). O que eu acho bastante bem vinda, na medida em que fornece bastante sobre o que pensar a respeito.

Mas cortemos por aqui a introdução e avancemos de uma vez para a análise.

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Censura e Crítica


A questão da censura é uma à qual somos introduzidos bem cedo no episódio. Ela vem primeiro de forma mais indireta, quando, ao ajudar o homem no deserto, Kino aprende que no país de onde ele vinha não era permitido escrever livros. Mas ela vem de forma mais direta quando Kino chega à biblioteca e se depara com a pouca quantia de livros disponíveis. “Todos que podemos ler”, lhe diz o bibliotecário chefe, com a Kino logo percebendo o que estava implícito nessas palavras.

É nesse ponto que nós aprendemos sobre o “Castelo”, o Ministério da Leitura e Bem Estar, cujos críticos avaliam cada livro que chega ao país, classificando-os em perigosos ou inofensivos. Os do segundo tipo chegam à biblioteca, ao passo que os do primeiro permanecem guardados no Castelo.

O motivo dessa censura vem mais adiante no episódio, pouco depois do primeiro encontro da Kino com o Autor. Um funcionário do Castelo aparece para lhe dar basicamente as explicações que você esperaria. Primeiro, há o medo de que as pessoas se deixassem influenciar por ideias perigosas. E segundo, há também o medo de que elas passassem a confundir ficção e realidade. Diga-se de passagem, ambas ideias bastante comuns quando se tenta justificar a censura, mesmo hoje.

Essas questões, porém, eu deixo para discutir na segunda parte deste artigo. Nesta, acho que vale mais a pena explorar um pouco mais essa relação entre a censura e a crítica.

Quando primeiro ouvimos falar dos “críticos”, pela boca do bibliotecário chefe, temos a impressão de que são figuras bastante imponentes. São, afinal, aqueles que decidem o que as pessoas podem ou não ler, e pelo menos esse homem em particular parecia ter plena fé na capacidade destes de separar os livros seguros dos perigosos.

É interessante que, quando a Kino aprende sobre o sistema de avaliação dos livros, ela faz ao homem duas perguntas. Primeiro: como você diz se um livro é perigoso ou não? E segundo: quem faz essa avaliação? A segunda pergunta o homem responde sem hesitar, que é quando somos informados sobre os críticos. A primeira, porém, fica curiosamente sem resposta.

Não acho que ele não tenha notado a pergunta. Acho, sim, que ele não tinha como respondê-la. Ele próprio não sabe como isso é feito: apenas confia que os críticos sabem. O que parece ser uma nem tão sutil crítica a como as pessoas muitas vezes se deixam levar pela opinião da crítica ao invés de formular a sua própria e, no processo, ao próprio senso crítico.

Seria mesmo possível sairmos aqui em uma tangente e discutir sobre a crítica anterior ou posterior ao consumo. Se é melhor você saber a opinião dos críticos antes de ler, assistir ou ouvir o produto (e nisso economizar o próprio dinheiro, ainda que ao custo de ter de confiar nessa figura externa que é o crítico), ou se seria melhor sabê-la após o consumo da obra (quando então você pode comparar as suas impressões com as do crítico, ainda que agora ao custo de acabar vendo algumas porcarias aqui e ali).

Mas para fincarmos mais os pés no episódio em si, essa construção dos críticos como figuras imponentes e respeitadas vem muito para que ela seja quebrada mais adiante, quando finalmente entramos no Castelo.

Já disse isso antes múltiplas vezes, mas sempre vale a pena reiterar: Kino no Tabi não costuma ver com bons olhos figuras de autoridade, com estas sendo normalmente retratadas como caprichosas e egocêntricas ou então como representantes sem rosto de todo um sistema opressivo. Curioso é que, aqui, os críticos meio que se encaixam em ambas as situações.

Uma vez no Castelo, aprendemos que eles são “pacientes” (em fato, prisioneiros) do Ministério, forçados a criticar os livros que chegam. A explicação, segundo a ministra, sendo a de que eles devem ser mantidos afastados das pessoas normais, dado que sua tendência a criticar negativamente as obras – segundo ela, por pura arrogância – estraga o prazer das pessoas com a leitura.

É preciso ai reconhecer que há algum mérito na alfinetada que o anime dá nessa classe. Há sim um quinhão de arrogância na ideia de que você é capaz de avaliar, julgar e (não poucas vezes) condenar as obras que consome. E não faltam aqueles que buscam empurrar aos outros a sua opinião, dizendo-lhes o que podem ou não gostar.

Mas por provocativa que seja essa colocação, eu vejo nessa situação toda uma ainda maior.

Como eu disse, quando primeiro ouvimos falar dos críticos imaginamos eles como figuras imponentes. Quando os vemos de fato, porém, isso não poderia estar mais longe da verdade. Não são os que comandam o Castelo, ou mesmo funcionários de alta patente. São seus prisioneiros.

Eu vejo nesse cenário uma ideia da crítica enquanto instrumento da censura. E é nesse sentido que os críticos aparecem aqui como representantes de um sistema muito maior do que eles. Um que lhes dá uma falsa sensação de controle, a habilidade de julgar ao bel prazer as obras de ficção que consomem, mas que ainda assim os mantém prisioneiros. E que ainda usa deles como justificativa para a população do porque de certos livros não serem permitidos.

De certa forma, terminamos mesmo com uma situação na qual os críticos acabam sendo coniventes com a censura. Retratados aqui como arrogantes, sua atenção se volta inteiramente para a ficção. Podem criticar e questionar e julgar os livros que leem: mas não conseguem fazer o mesmo com a sociedade em que vivem. E nisso, permanecem como marionetes de um poder maior. Um sistema interessado em manter o status quo.

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Realidade e Ficção


Mas enquanto a censura e a crítica são temas importantes nesse episódio, eles são também bem mais localizados. Desenvolvidos mais em alguns diálogos no começo e no final do episódio. O grosso do episódio, portanto, fica para outros assuntos.

Esse é um episódio que lida muito com a distinção entre realidade e ficção. Ou mais especificamente: com a indistinção entre ambos.

Isso se dá, inicialmente, a nível estético. As transições de cena são representadas pelo virar das páginas de um livro, única vez que o anime faz algo do tipo e uma decisão que levanta a possibilidade de aquilo tudo ser exatamente isso: apenas uma história em um livro. O próprio Autor coloca essa possibilidade quando do seu primeiro encontro com a Kino. Claro: há certa ironia ai. Kino no Tabi adapta, afinal, uma série de light novels. Kino é literalmente uma personagem em um livro.

A questão, porém, toma o primeiro plano de fato pouco depois dessa primeira conversa da Kino com o Autor, quando um funcionário do Castelo lhe explica o motivo da censura. Como já disse, na essência há aqui o medo de como uma obra pode nos influenciar, ao ponto de não mais conseguirmos distinguir realidade e ficção.

Kino coloca que mesmo que isso aconteça a culpa ainda é das pessoas, não dos livros. Um argumento interessante dado que vimos no anime justamente um exemplo de como uma interpretação errônea de um livro levou ao completo desastre. O funcionário, porém, não se convence. E talvez não tenha motivo para se convencer.

É ambíguo se os membros da resistência tinham ou não dificuldade de separar realidade e ficção. Eles foram, porém, claramente influenciados pelos livros que leram. Quando a Kino se recusa a ajudá-los, um deles até diz, desapontado, que “não será como nos livros”. E quando a Kino deixa a reunião, a bibliotecária descreve os livros do Autor com um olhar que beira a loucura.

A própria Kino experimenta essa atração que os livros do Autor exercem nas pessoas. Após a primeira conversa dos dois, ela fica com seu manuscrito. A história de uma garota num mundo devastado, cujo pai cria um dispositivo que a permite imergir no mundo do seu livro favorito. Kino sonha ser essa garota, e mesmo acorda ligeiramente confusa. O Ministério parece ter todos os motivos para temer os livros. Mas até ai: isso seria ruim?

Fato é que livros são uma forma de comunicação. Ao longo da história, vários se tornaram altamente influentes, com as ideias que passavam engendrando toda sorte de comportamentos, atitudes, crenças, e por ai vai. Algumas vezes isso assume facetas mais negativas, como o famoso caso do livro Die Leiden des jungen Werthers (Os Sofrimentos do Jovem Werther). Em outras, porém, podem muito bem assumir facetas bem mais positivas.

Inspirados pelos livros que leram, os rebeldes se tornaram críticos do sistema no qual viviam, organizando uma forma de resistência à opressão representada pelo Castelo. Seriam mesmo incapazes de separar ficção e realidade, ou seria essa acusação apenas uma forma do sistema de desmoralizar suas ações? Qual dos dois é o caso fica meio que para o espectador decidir. E podemos até mesmo perguntar se, na prática, faz alguma diferença.

Mas, a meu ver, a temática atinge seu ponto máximo quando do segundo encontro da Kino com o Autor. Como ele coloca: “classificações de realidade e ficção são elas próprias fantasias que os humanos criam”.

Ele segue dizendo como cada pessoa nasce acreditando ser o protagonista da própria história, mas o mundo ao nosso redor não nos reconhece nesse papel. Uma questão de percepção, e dessa dissonância nasce a aflição. É um argumento bem interessante, que toca em como a nossa experiência da realidade é sempre subjetiva. Só podemos ver as coisas do nosso próprio ponto de vista.

Faz sentido falar em uma distinção entre realidade e ficção quando a nossa própria realidade é sempre construída com base nas ficções que criamos sobre nós mesmos? Não vivemos, no fim das contas, cada qual no seu próprio “mundinho”? Não há aqui uma resposta certa: fica apenas a reflexão.

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O Autor


Acho que nesse ponto vale a pena discutir um pouco essa figura do autor, sobretudo em termos da posição na qual ele se coloca.

Se o episódio acusa os críticos de serem arrogantes, devo dizer que ele não é assim tão mais gentil com os autores. Afinal, há sim um quinhão de arrogância neste, e não apenas pelo fato dele acreditar ter escrito um livro que contém tudo sobre o mundo. A sua própria posição como “Autor” já denuncia essa arrogância.

Como ele mesmo diz, as pessoas se veem como protagonistas, enquanto que a sociedade as considera coadjuvantes. Dessa dissonância surge o tormento, ao que o Autor conclui que é preciso, portanto, se colocar em uma posição que não seja nem a de principal nem a de coadjuvante. Que ele tenha escolhido a de Autor, porém, é curioso. Afinal, que é o autor se não aquele que controla os personagens?

E este é um papel que o Autor parece bastante disposto a exercer. Aparecendo conforme acha necessário, agindo sempre de forma a mover a sua “história” adiante. Ele parece satisfeito, mas não seria essa satisfação muito mais loucura do que qualquer outra coisa? Fora que, no fim do dia, não é como se a sua posição como autor fosse universalmente reconhecida, então podemos mesmo dizer que ele escapou daquela dissonância?

Mas haveria uma quarta opção? Uma na qual você não coloca nem como o protagonista, nem como o coadjuvante, mas também nem como o autor? Certamente que há, e é uma que a Kino cumpre muito bem ao longo dessa história: a de leitor.

Kino aparece aqui como leitora múltiplas vezes. Começamos o episódio com ela lendo, afinal. Após encontrar o manuscrito do autor, ela o lê. E terminamos com ela folheando o suposto livro do autor que contém tudo sobre o mundo (e que estava em branco). Mas seu papel de leitora se faz presente também no seu modo de agir.

Já disse em outras ocasiões, mas Kino no Tabi é sobretudo uma antologia. Uma miríade de contos, cada qual com seu começo, meio e final. Em alguns deles, Kino toma um papel mais ativo. Na maioria, porém, ela é apenas uma observadora, que se recusa a intervir nos costumes e na situação local. Vemos isso nesse mesmo episódio: ainda que esteja sempre por perto da ação, Kino não realmente participa nela em momento algum.

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E Agora: Todo o Resto


Nossa tradicional seção onde coloco tudo que não consegui encaixar no texto corrido. Sem spoilers desta vez, então boa leitura o/

  • Gosto como o subtítulo do episódio é “nada está escrito”, servindo de foreshadow à revelação final de que o livro do Autor estava em branco.
  • Acho interessante que na biblioteca só tenham livros infantis e manuais. Literatura infantil tende mesmo a ser mais “segura”, mais preocupada em incutir nas crianças certos valores morais do que em questioná-los ou desafiá-los.

  • Não consigo não ver a fala do funcionário do Ministério sobre pessoas que se apaixonam por personagens de livros, na sua conversa com a Kino após o primeiro encontro desta com o autor, como uma pequena referência aos otaku.

  • No Castelo, quando vemos os críticos, dois deles tecem críticas ao livro que estavam lendo. Um fala que a descrição dos personagens não é boa, enquanto que outra diz que a história tem muitas coincidências. Um terceiro, porém, pergunta se os demais não conseguem ver o charme nisso. Mesmo críticos discordam entre si.


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