Vinland Saga, episódio 7 – “Por quanto tempo você planeja continuar fugindo?”


O episódio que não precisava existir


Quando falo de um anime qualquer que adapta um mangá, light novel, jogo ou o que for, eu busco sempre manter uma distinção rígida entre adaptação e obra original. A velha noção de que o anime deve, para o bem ou para o mal, se sustentar por si próprio.

Há, contudo, instâncias nas quais considero válido pensar uma adaptação enquanto adaptação, e nisso refletir um pouco sobre as escolhas da equipe por trás do anime e sobre como elas impactam na história sendo contada. E este sétimo episódio de Vinland Saga me parece um bom exemplo do que quero dizer.

O estúdio WIT tomou uma decisão bastante corajosa com essa propriedade, preferindo ignorar a ordem dos capítulo do mangá a fim de adaptar a história em ordem cronológica. Assim, começamos com Thors, vemos a sua morte, e acompanhamos a transformação posterior do Thorfinn de um garoto ingênuo e inocente em um legítimo viking – certamente tudo o que seu pai não queria.

Essa decisão trás em si uma série de vantagens. Por exemplo, torna o desenrolar da história do Thors bem mais imprevisível do que se começássemos já com a informação de que ele está morto. E ela também permite um enfoque maior no desenvolvimento dos personagens e dos temas da obra, como que dizendo “ei, é sobre isso que essa história é; é nisso que você deve prestar atenção”.

Só que escolha nenhuma é sem consequências. Escolher adaptar a partir do Thors, e ainda adicionar dois episódios de, essencialmente, filler, deu ao começo do  anime um ritmo bem mais lento. Algo que eu, pessoalmente, muito aprecio: foi em grande medida graças a isso que pudermos ter esse enfoque maior nos personagens. Mas entendo que nem todos irão aplaudir a decisão.

Este sétimo episódio, porém, eu já consideraria como legítimo efeito colateral.

No mangá, este é o primeiro capítulo, e lá ele cumpre um papel importante. É uma história isolada, tanto que ela ocorre bem longe do centro geográfico da ação da história maior de Vinland Saga (aqui estamos na França, enquanto que a ação verdadeira ocorre no Reino Unido). Mas ela ainda serve para nos apresentar os personagens – especialmente o Thorfinn e o Askeladd.

Aprendemos um pouco de suas habilidades e personalidades, desejos e ambições, muito da relação entre os dois, além, é lógico, do mundo que habitam, um de guerras e piratas e soldados e vikings. É uma boa introdução. Inconsequente, mas ainda boa. Minha única real crítica a ela seria que o design do nobre franco destoa demais de absolutamente todo o restante (problema que infelizmente esse episódio partilha).

Mas e quando a introdução já foi há muito feita? A que, exatamente, essa história passa a servir?

Esse episódio tem um propósito. No contexto do anime, ele é, de certa forma, o passo final na queda do Thorfinn. Bem pouco resta do garotinho que ele um dia foi – se alguma coisa.

Creio que o maior exemplo disso vem quando o Askeladd ordena que ele sirva de mensageiro, logo no começo do episódio. Thorfinn então pergunta se o Askeladd tinha ideia de quantas pessoas o garoto já havia matado. Não se trata, porém, de um momento de remorso, introspecção ou algo do tipo. Se trata tão somente de exigir a sua recompensa, o tão prometido duelo entre os dois.

Longe de demonstrar alguma apreciação pela vida humana, Thorfinn se lembra daqueles que matou apenas como feitos que o Askeladd precisa considerar. E se o garoto hesita em servir de mensageiro é tão somente porque ele acredita já ter feito o bastante. Está ficando impaciente. Diferente daquele bando, sua prioridade é outra. Askeladd sabe disso, e sabe como usar disso a seu favor.

O restante do episódio nos apresenta um Thorfinn calmo e centrado. Estoico diante do nobre franco, mesmo que com suas lanças próximas da sua garganta. E uma máquina de matar quando em campo, chegando com facilidade ao líder do exército inimigo – e tomando a sua cabeça. Não há hesitação em suas ações. O garoto que chorou a sua primeira morte é agora apenas uma lembrança distante.

Pelo que consta, nesse ponto da história o Thorfinn tem 16 anos. O que implica em 10 anos servindo ao Askeladd. Os últimos dois episódios nos mostrando pelo menos um pouco dos horrores que o garoto teve de passar. E ao que parece, a promessa de uma eventual oportunidade de vingança é agora a única coisa que o move.

O episódio também permite algumas considerações sobre a relação do Thorfinn com o Askeladd. Ainda que aqui a análise seja mais complicada.

É difícil dizer se o Askeladd acredita ou não na capacidade do Thorfinn. Ele o escolhe como mensageiro, mas para seus homens diz que o fez porque, se os francos decidirem matar o mensageiro, o Thorfinn não seria nenhuma grande perda. Devemos mesmo acreditar nessas suas palavras? Será essa a mesma lógica com que ele mandou o garoto a campo no episódio anterior?

Ao mesmo tempo, temos motivos para crer outra coisa? Askeladd se mostrou estranhamente considerado para com o Thorfinn no passado, aceitando que aquele garotinho entrasse para o seu bando. Certamente teria sido muito mais fácil matá-lo. Seria, talvez, apenas parte de seu código pessoal de ética? Não matar crianças de sua etnia a troco de nada? É possível. Mas não sei se engulo uma explicação do tipo.

Ao final deste episódio, quando o bando do Askeladd está para partir, Bjorn chega a comentar a ausência do Thorfinn, ao que o Askeladd diz que ele deve ter morrido mesmo. É curioso que ele pareça tão a fim de se ver livre do Thorfinn quando foi ele quem o trouxe para perto para começo de conversa. Quase tão curioso quanto o fato do Bjorn aparentemente considerar o Thorfinn um “dos seus”, no mínimo o bastante para notar a ausência do rapaz.

Dito isso, talvez o Askeladd não seja assim tão diferente. Quando primeiro invadem a fortaleza, que seu barco é alvejado pelas flechas do inimigo, um dos seus cai no chão, se contorcendo de dor após uma flecha ter lhe atingido as costas. Askeladd, porém, não parece nem reconhecer o que aconteceu, e mantém seus olhos firmes no inimigo distante.

É um pirata, afinal. Um que vive da pilhagem e do combate. Algumas baixas são apenas parte do trabalho. Talvez seu descaso pelo destino do Thorfinn ao final não tenha nada de pessoal, e ele falaria o mesmo de qualquer homem seu que não tivesse retornado a tempo. Talvez…

Mas é fato que Thorfinn voltou, e com a cabeça do comandante do exército inimigo. Askeladd pediu qualquer cabeça, e provavelmente o fez da boca pra fora. Thorfinn, porém, não quis arriscar, e foi logo atrás da mais prestigiosa que podia. Nesse ponto, Askeladd sabe que não pode mais ficar enrolando o garoto – e aceita, finalmente, o duelo.

Não é um episódio de todo dispensável. Mas não consigo deixar de perguntar se tudo o que aprendemos aqui não poderia ter sido comunicado de outra forma, numa sequência de eventos que não soasse assim tão distante da história que acompanhamos até o momento. Um desses “e se” para os quais nunca teremos uma resposta.

Ao menos o episódio começa com o rei informando que o exército viking lançará um ataque no verão, preparando o terreno para o que está por vir. Nos resta, então, esperar.

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