Kino no Tabi, episódio 8 – “Eu nunca pensei que fosse possível”


Terra dos Magos


Há quatro episódios em Kino no Tabi que, dadas as vezes anteriores que assisti o anime, eu lembrava serem os menos carregados em temas. Eram estes: o segundo, da história dos homens presos na neve; o sexto e o sétimo, que perfazem o conto do coliseu; e o episódio desta análise, o oitavo, onde temos a história da Nimya.

Nesse ponto, o leitor já deve ter notado um padrão. E tal como os demais, acabou que nessa minha quarta rewatch da série eu pude perceber como este é um episódio até que bem mais rico do que eu lembrava. Não se tornou nenhum favorito meu, mas ainda é certamente um bom episódio, e com bastante o que se analisar.

Então, como já é de costume, cortemos de uma vez a introdução e entremos logo no episódio.

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Mudança de Perspectiva


É bastante curioso que o anime tenha decidido contar essa história da perspectiva da Nimya. E sim, essa foi uma decisão do anime: na light novel nós acompanhamos esse conto da perspectiva da Kino, como todos os demais até então. Já nisso o episódio nos fornece algo de único: a possibilidade de vermos a Kino através dos olhos das pessoas com quem ela entre em contato quando da sua curta estadia em cada país.

Já falarei mais disso. Antes, porém, falemos um pouco sobre a inventora que toma o posto de protagonista por esse episódio: a Nimya.

Acho que a cena inicial da personagem funciona como uma fantástica introdução à ela. A já começar pela sua aparência: no que abre a janela para falar com seu noivo, Nimya apresenta as bochechas sujas (de graxa, talvez?), além de estar vestindo um macacão e luvas. Todos indícios de que ela é uma pessoa que trabalha com maquinário, nos preparando para a explicação de que se trata de uma inventora.

Nisso temos a conversa com seu noivo. Este diz que ela teria de vir conhecer seus parentes, mas Nimya praticamente ignora a fala do rapaz, ao invés disso o informando de que havia terminado “aquilo”. É uma cena que nos comunica duas coisas: primeiro, que ela tem uma paixão bem forte por qualquer que seja esse projeto. E segundo: que seu noivo não parece compartilhar dessa paixão, nem de longe.

Essa segunda mensagem é particularmente reforçada quando, após o primeiro flashback, temos a Nimya em sua moto, prestes a partir para falar com o chefe. Nesse momento, ela pede ao noivo que reze para que de tudo certo, mas a expressão no rosto do rapaz deixa bem claro que ele não acredita que nada de bom possa sair disso.

A relação da Nimya com seu noivo é uma bem interessante. Por um lado, ele não é uma pessoa ruim, e parece genuinamente preocupado com a noiva. Além disso: quando do flashback em que vemos a tia da Nimya sendo presa, após a garota recuperar sua herança, vemos que ele estava ali para ela, a apoiando e dando seu suporte em um momento difícil.

Só que enquanto eu não duvido que ele a ame, fica bastante evidente que ele não acredita nela. Ou, pelo menos, não nessa questão em específico da sua máquina voadora. Talvez por já a ter visto falhar tantas vezes. Talvez por não acreditar que pessoas possam voar. Ou talvez porque, como ele mesmo coloca um pouco mais tarde no episódio, ele queria que a Nimya fosse “uma esposa normal”. Uma fala que parece magoá-la bastante.

E é nesse contexto que entra a Kino.

Como alguém “de fora”, quando Kino vê a Nimya sentada em frente à estátua ela pergunta o porque da jovem querer que aquela fosse movida. Nimya pergunta se a Kino gostaria de ouvir sua história, e recebe um sim. Talvez a primeira vez em um bom tempo que alguém decidiu lhe dar a devida atenção.

Levando a viajante para sua casa, Nimya lhe mostra sua “máquina de voar”, explicando a teoria por trás dela. Nisso, Kino apenas diz que estava impressionada da Nimya ter pensado naquilo. Não há julgamento nas suas palavras, ou qualquer forma de tentar dissuadir a jovem de seu sonho. Em fato, quando a Nimya pergunta se Kino já viu uma máquina voadora, Kino diz que não, mas acrescenta que a Nimya pode muito bem se tornar a primeira a criar uma máquina do tipo.

Kino é uma observadora. Seu envolvimento com cada país que visita normalmente se limitando a buscar entendê-lo. Sua história, suas práticas, sua cultura… E na vasta maioria dos casos, ela não julga. Pensa e reflete sobre o que vê, sim, mas sempre com a mente aberta. O que explica a sua postura junto à Nimya.

Para esta, porém, deve ter sido um enorme alívio encontrar alguém que a escutasse. E que esse alguém ainda seja “de fora” deve ter sido uma validação ainda maior.

Quando ela recebe a notícia de que sua máquina seria desmontada, ela permanece algum tempo sentada, pensativa. E então pergunta ao Hermes o que ele achava. Considerando que essa cena vem logo depois dela ter finalmente percebido que o noivo não acreditava no seu sonho, é bastante provável que ela estivesse duvidando de si mesma nesse momento.

Hermes, porém, lhe assegura que sua teoria está correta. A máquina definitivamente irá voar. E esse é todo o encorajamento que ela precisava. Sua atitude muda radicalmente, e ela começa a pensar em uma forma de contornar a estátua – ao que a Kino sugere a rampa e a propulsão por pólvora.

O que eu tiro de tudo isso é que a Nimya só precisava mesmo é de alguém que acreditasse nela. E é esse o papel que a Kino vem cumprir. Mesmo que ela própria vá depois comentar que não acreditava que a máquina iria voar, o simples fato dela ter decidido ajudar e ver no que dava já foi o bastante.

Observadora ou não, Kino acaba tendo um efeito nas pessoas que encontra. Para muitos, ela será só mais uma viajante, um rosto novo na cidade por alguns dias. Para outros, porém, seu impacto pode ser bem maior. E imagino que seja isso que o episódio vem nos demonstrar.

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A Garota que Queria Voar


Mas tratemos um pouco mais da Nimya mais como ela mesma e menos dentro da sua relação com a Kino. Porque esta é uma personagem interessante.

Algo a se elogiar em Kino no Tabi é que o anime até que nos trás boas personagens femininas em cada uma das suas história. No conto anterior mesmo nós tivemos a outra mulher que competia naquele torneio, e no futuro ainda veremos outras mulheres de destaque em suas histórias. Isso, claro, sem mencionar a própria Kino.

Nimya é uma mulher de muitas qualidades. Ela é persistente e decidida. E é curioso que ela seja uma das poucas personagens nomeadas em todo esse anime, o que por si só serve de indício ao fato dela ser independente. Essa garota não é apenas mais um rosto na multidão.

Dito isso, ela não é sem defeitos. Fato é que ela pode deixar seu sonho a dominar um pouco, mesmo ignorando seu noivo em prol de persegui-lo. E, como eu discuti acima, vemos como ela precisava de alguém que acreditasse nela. Mesmo alguém tão obstinada ainda tem seus momentos de fraqueza.

É uma personagem bem humana, muito bem trabalhada considerando que só a vemos por um episódio. Mas falemos um pouco do seu sonho.

É interessante que o anime abra com um call back ao primeiro episódio, onde vemos novamente a cena da Kino citanto a frase “dizem que quando as pessoas veem um pássaro elas sentem vontade de sair em uma viagem”. Na ficção, pássaros tendem a ser um símbolo de liberdade. Nesse episódio essa ideia é mesmo reforçada: logo após esse “flashback” ao primeiro episódio, temos na tela os dizeres “pássaros voando no céu não são sempre livres”.

Quando a Nimya consegue finalmente voar, a OST que toca é “ele é velocidade e eu sou balanço”, a exata mesma de quando a Kino deixou sua terra natal. Então o episódio parece querer dar a entender que a busca da Nimya é a liberdade. Mas liberdade do que, exatamente?

Das convenções da sua sociedade, talvez. Esse é, afinal, um país bastante tradicional, de pessoas de mente ainda bastante fechada, preocupadas com uma coisa e uma coisa só (a colheita). Mas Nimya queria voar. No contexto do episódio, seu sonho é certamente um fim em si mesmo. Mas numa interpretação mais “meta”, ele bem funciona como uma metáfora para o libertar-se da tradição. Das expectativas e pressões sociais.

Tendo realizado seu sonho e provado sua capacidade, a própria Nimya consegue ver valor em si mesma. Ela diz: “os cálculos, experimentos, a minha vida… não foram em vão”.

No chão, é interessante como a Kino a observa com um sorriso de satisfação. Me pergunto se há algo na história da Nimya que ressoou com ela. Uma garota disposta a realizar seu sonho, indo contra os ditames de seu país… Deve ser uma história familiar para nossa viajante, afinal.

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O que é Útil?


Nós finalizamos o episódio com o Hermes comentando sobre o enorme potencial humano, com este sendo um tema bem forte aqui. Toda a história da Nimya é, afinal, uma sobre como as pessoas pode tornar o impossível possível, dada suficiente persistência.

Mas por bonita que soe uma colocação do tipo, o anime reconhece que ideias mirabolantes nem sempre são recebidas de braços abertos. Bem pelo contrário, na verdade: as pessoas naquele país, ou no mínimo aquelas que vimos, não tinham muita fé na capacidade da Nimya.

Parte disso talvez se deva às sucessivas falhas da garota, que vemos em seus flashbacks. São um passo natural no progresso científico, questões de tentativa e erro, mas que para o olhar externo podem soar como… bom, perdas de tempo. Porque para as pessoas o que importa são os resultados.

Ainda no começo do episódio, a Nimya coloca que “útil”, para as pessoas daquele país, era qualquer coisa que pudesse aumentar a produção de grãos. Todo o resto, portanto, era relegado a um segundo plano. Por vastos que fossem os conhecimentos do velho que habitava a casa atual da Nimya, ele ainda acabou por morrer sozinho e isolado.

Talvez eu esteja lendo demais nisso, dado o contexto em que nós estamos hoje, onde a ciência parece constantemente questionada da sua “utilidade”. Mas vejo no episódio certa crítica a esse olhar utilitarista. A ideia de que algo só tem valor se tiver uso prático, e ainda por cima uso prático apenas num pequeno punhado de áreas em específico.

Nimya queria voar. Não porque isso era útil, mas porque era seu sonho. Este, porém, era tido como absurdo. O chefe aqui representando uma visão tradicional do mundo, onde o impossível é impossível e ponto final. Mas Nimya demonstra que isso não precisa ser verdade – e é imediatamente reconhecida quando o faz.

Kino não acreditava que a máquina fosse voar. Ela mesma diz: por mais que entendesse a teoria, ainda não conseguia crer que pessoas podiam voar. Ainda assim, ela decidiu ajudar, segundo ela sem nenhum motivo em particular.

O “inútil” também tem seu espaço. Pois é da curiosidade, da experimentação, do desafiar o impossível e do constante tentar e falhar que se formam as bases daquilo que virá, eventualmente, a ser útil. O potencial humano é mesmo enorme – se deixado para ser explorado, sem as amarras e limitações do senso comum.

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E Agora: Todo o Resto


Nossa tradicional seção onde coloco tudo que não consegui encaixar no texto corrido. Curtinha desta vez, e também sem spoilers, então boa leitura!

  • Gosto de como a estátua do fundador mítico daquele país é um gigantesco pássaro. Traça certo paralelo entre ele e a Nimya, que talvez explique o povo chamá-la de “maga” após voar.

  • Impossível não lembrar daquela famosa frase de Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”.

  • É interessante que o Hermes não duvidava que a máquina iria voar. Provavelmente por ser ele próprio uma máquina, movido mais pela razão do que por noções pré-concebidas sobre possível ou impossível.


<- Episódio 7 | Episódio 9 ->

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