Kino no Tabi, episódio 7 – “Vingança não trás nada de bom”


Coliseu (Parte 2)


Com o sétimo episódio nós finalizamos o conto do coliseu, e devo dizer que mais uma vez é engraçado comparar minha memória do episódio com o episódio em si, agora que o reassisti.

Desde a primeira vez que assisti Kino no Tabi eu senti que o Coliseu era um dos piores contos. Bom, ok, talvez “pior” seja uma palavra forte demais. Digamos então: um dos menos interessantes. Uma história mais preocupada em mostrar as habilidades da Kino do que em desenvolver algum tema maior.

Mas tendo agora o revisto ainda mais uma vez, me surpreende o tanto de coisas que eu tenho a dizer sobre esses dois episódios. Mesmo que não sejam o melhor que a série tem a oferecer, até que se trata de uma história mais tematicamente rica do que eu me lembrava, o que eu considero uma surpresa agradável.

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O Rei Hedonista


Começamos o episódio com os quatro finalistas sendo convocados pelo rei, a fim de receberem uma pequena recompensa por terem sobrevivido até ali: um teatro de fantoches que conta como o rei atual chegou ao poder.

Notem, porém, que o anime não dá as coisas nesses termos. Por mais óbvio que seja o contexto, o pierrot mesmo fala dessa “história” como se descrevesse um épico fictício. Uma decisão interessante, porque acaba que essa história deve estar mesmo no limiar entre a ficção e a realidade.

Ainda que os eventos ali contados estejam corretos (que o rei tenha chegado ao trono matando o pai, e que depois tenha matado a esposa quando esta aconselhou aos filhos que fugissem), é bastante evidente que a situação toda é construída de forma a fazer do rei um personagem trágico. De uma forma distorcida, ele é colocado como a vítima de suas circunstâncias, o que talvez inclusive explique a sua postura em outros momentos.

Se “excêntrico” e “hedonista” bem poderiam descrever esse rei, “mimado” também parece um termo bastante adequado. Ele percebe que seu comportamento é autodestrutivo, mas não tem a intenção de mudar. Ele implora para que alguém o salve de si mesmo, mas quando a Kino e a outra mulher se recusam ele se enfurece. E quando Kino aceita a rendição da mulher, o rei faz o que a nossa protagonista não quis, executando a outra.

Não apenas a imagem do rei caprichoso, que já vimos em outras instâncias ao longo da série, diria que este também bem se encaixa na de um adulto infantilizado. O que pode muito bem ser uma crítica não tão sutil a um modo de vida hedonista, interpretado aqui como essencialmente egocêntrico.

Mesmo prevendo o destino trágico seu e de seu reino, o rei ainda insiste no seu estilo de vida, “porque é divertido”. E os cidadãos de primeira classe não parecem pensar muito diferente, dispostos como estão a se expor ao risco de uma bala perdida se for para ver um show de brutalidade. Enquanto isso, lá em baixo, cidadãos de segunda classe e escravos trabalham para manter o reino funcionando, enquanto vivem na miséria.

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Por Um Sorriso


Por que a Kino decidiu ficar naquele país? Isso é algo que discuti brevemente no texto anterior, mas aqui o anime parece nos dar uma resposta – uma que, vale dizer, recontextualiza muito do que vimos no sexto episódio.

Após a sua partida nas semifinais, Kino tem uma conversa com Hermes na sua cela, onde o anime confirma ainda outra vez que a mulher na carroça do começo e do final do sexto episódio era a mesma da história que o guarda conta para a Kino sobre um casal de viajantes que foram obrigados a se enfrentar logo na sua primeira partida. E então Hermes finalmente faz a pergunta decisiva: por que a Kino decidiu ficar naquele país?

A resposta que ela dá é: o sorriso da mulher. E nisso temos o flashback no qual a mulher havia dito à Kino que o país era sim um maravilhoso, e que a garota devia visitá-lo. O que é algo bem estranho de se dizer, considerando que ela acabou de perder o marido ali, e de uma forma bastante brutal. Ainda assim, ela fala com um sorriso enigmático, o que leva a Kino a, nas suas palavras, querer entender o significado daquele sorriso.

Como ela disse no primeiro episódio: três dias é o bastante para entender o essencial de um país. O anime não chama atenção para isso, mas acabou que esse torneio dura exatos três dias e duas noites. Podemos mesmo aventar a pergunta de se a Kino teria decidido ficar caso a duração da competição fosse maior, mas deixo o questionamento para o leitor refletir a respeito.

Ao invés disso, recupero essa fala do começo da série para apontar que a Kino passa todo o seu tempo ali tentando entender aquele país. No sexto episódio, ela pergunta ao guarda como a competição começou, e depois pede para ser levada até a parte baixa da cidade. A cada oponente, ela pergunta o motivo deles terem entrado no torneio. E ela presta atenção ao teatro de fantoches (bom, e à reação do Shizu a ele).

Acho que a Kino queria entender o porque da mulher a ter mandado para aquele país. Seria malícia da parte dela? Tão traumatizada que estava que queria fazer alguém partilhar do destino de seu marido? Ou seria, talvez, um pedido de vingança? O subtítulo da história é avengers, afinal. “Vingadores”. No plural. Ou talvez nem a própria mulher sabia porque disse aquilo.

No fim, mesmo a Kino não consegue entender o significado daquele sorriso. O assunto fica em aberto, para que cada um pondere sobre ele e conclua o que achar melhor. Quanto à nossa protagonista, quando dessa conversa com Hermes ela parece que já não se importa mais com a resposta. E se prepara para a luta final.

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A Vingança Nunca é Plena…


Gosto bastante da pergunta que o Hermes faz à Kino quando os dois deixam aquele país. Quando foi que a viajante começou a pensar na regra que queria criar?

Não acho que tenha sido logo de início. Ela ficou claramente incomodada com a história do casal, como já comentei aqui e na análise anterior. Mas nesse ponto ela provavelmente ainda estava mais preocupada em entender as palavras da mulher. Não, imagino que a decisão tenha vindo após a sua luta na semifinal. Ela poupara a mulher, mas o rei ainda assim decidiu matá-la. O olhar da Kino quando vê o que aconteceu diz tudo: ela estava absolutamente enfurecida.

Quando Kino volta da luta, ela encontra com o Shizu, que lhe pede para que, caso os dois se enfrentem, ela se rendesse. Kino, porém, recusa a oferta, ainda com clara fúria no olhar. Creio que nesse momento ela já havia decidido como aquele torneio iria terminar.

Diga-se de passagem, o anime faz um bom trabalho de foreshadow do que estaria por vir. Um que já começa com o guarda informando os participantes, lá no começo do episódio anterior, que espectador nenhum poderia reclamar se fosse atingido por uma bala perdida. Que o próprio rei esteja incluso nisso é algo que não nos passa pela cabeça até termos o fato consumado.

Depois temos o teatro do rei, ao final do qual o próprio reconhece que seu comportamento ainda levaria à ruína sua e de seu reino. E de fato levou: pelas mãos da Kino. Bom, ele pediu para ser salvo. Será que isso conta?

Temos a Kino na sua cela, durante a conversa com Hermes, preparando uma solução misteriosa com a qual ela carrega sua arma. Já vimos a sua rotina de preparação e treino antes, e nada nela incluía qualquer coisa do tipo, o que já deveria nos fazer pensar que algo ali estava errado. E claro, temos que logo antes de começar a final a cena corta para um pequeno vislumbre dos fantoches caídos do rei e da rainha.

Tudo isso levando ao golpe decisivo da Kino, no qual sua bala erra o Shizu e atravessa o vidro protetor do rei, matando a este. E logo depois, a sua lei: os cidadãos de primeira classe deverão lutar uns com os outros, com o último que sobrar sendo o novo rei. Fuja e perde a sua cidadania. Machuque cidadãos de segunda classe ou escravos e está desqualificado. Um fim bastante brutal para aquele povo.

Só que a Kino não é de matar sem necessidade. Mais uma vez: o segundo episódio vem para nos mostrar exatamente isso. O que, então, aconteceu aqui?

Acho que a cena do começo do sexto episódio explica isso muito bem. Provocada pelos guardas, Kino tenta se manter indiferente, mas chega um ponto no qual ela mesma não consegue mais se conter. Sacando sua arma, dá alguns tiros nos capacetes deles, para mostrar que não deve ser subestimada. Para todo os efeitos, ela ainda é humana. E sua paciência tem limites.

Kino parecia estar acumulando bastante raiva desde que entrou naquele país. Ser forçada a participar num jogo mortal, a história do casal, e imagino que o rei matando a sua oponente foi a gota d’água que fez o balde transbordar. E pondo de lado a sua política de não intervenção, ela decide dar um pouco de justiça poética àquele povo tão sedento por violência e morte.

Não acho que houve um fator que a fez “explodir”. Nem acho que ela buscava vingança especificamente pelo casal de viajante sou pela sua oponente. Apesar da sua frieza calculista, é provável que ela não estivesse pensando muito sobre as suas motivações.

Mas dá pra dizer que a própria Kino saiu satisfeita de tudo isso? Bom, é nisso que entra a cena final.

Na margem de um lado, encontramos Shizu e Riku. Ali, temos a confirmação de que o Shizu era de fato o príncipe, para a surpresa de absolutamente ninguém (bom, menos o Hermes…). E ouvimos como ele pretendia matar seu pai, repetindo assim a trágica história fratricida da sua família. Nesse sentido, acabou que a Kino veio mesmo para quebrar esse ciclo.

A própria, porém, lhe diz: a vingança não traz nada de bom. Uma fala deveras hipócrita para alguém que acaba de condenar um país inteiro ao genocídio de boa parte da sua população, não? Bom, imagino eu que este seja exatamente o ponto. É porque ela teve a sua vingança que ela pode dizer que ela não traz nada de positivo. Seu olhar, mais uma vez, diz tudo que precisa ser dito.

Ao final, Shizu e Kino se despedem. Os dois “vingadores” do subtítulo do episódio, cada qual indo para o seu caminho.

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E Agora: Todo o Resto


Como de costume, nossa seção de encerramento onde eu deixo tudo que não consegui encaixar no texto corrido. Pode conter spoilers de episódios futuros, então leiam por sua conta e risco!

  • Toda a sequência inicial, com o teatro do rei, é original do anime. Na light novel, o rei é bem pouco explorado.

  • Numa veia similar, a novel sim dá a entender que a Kino já vinha planejando aquele final desde que entrara no país. Ali, sua atitude soa mesmo uma vingança pelo casal.

  • Disse isso no texto anterior e digo agora: gosto de como o anime não tenta esconder a identidade do Shizu. Toda a reação dele ao teatro deixando bem óbvio quem ele é.

  • Os secundários desse conto são surpreendentemente bem trabalhados, ao menos levando em conta o pouco tempo de tela que têm. Créditos também do anime, que expandiu ou mesmo criou o background de muitos.

  • Na luta da Kino contra a mulher, temos outra breve menção à “Mestra” da Kino. Mas ainda vai levar um tempinho até vermos como ela é.

  • A luta da Kino contra o Shizu é bem legal. É curta, mas ainda demonstra bem como ambos são bastante habilidosos com suas armas.

  • Que a Kino termine não sabendo que o Riku fala é algo exclusivo do anime, e eu adoro da ironia dela dirigir uma moto falante e não acreditar na possibilidade de um cão falante.

  • Há só um detalhe da novel que o anime cortou e que eu gostaria que fosse mantido: quando o Hermes diz que ouvir da Kino que ela tem um plano é a única coisa mais assustadora do que ouvir que ela não tem nenhum.


<- Episódio 6 | Episódio 8 ->

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