[Vídeo] Análise #13 – SSSS.Gridman


Ponderações sobre escapismo e ficção.


Roteiro:

Nossa história começa quando Hibiki Yuta acorda na casa de sua colega de classe, Takarada Rikka, sem qualquer memória de quem ele é ou de como chegou ali. Mistério que só aumenta quando a cidade é atacada por um kaiju, momento no qual Hibiki escuta uma voz vinda de um velho computador na loja da família da Rikka. Se aproximando, Hibiki vê Gridman, e é quando ele é sugado para dentro do computador que este consegue se materializar no mundo real.

Uma homenagem tanto ao Gridman original quanto ao tokusatsu de modo geral, SSSS.Gridman entrega ainda personagens cativantes e surpreendentemente bem explorados; uma animação e direção bastante acima da média; além de um roteiro que entrega toda sorte de twists inesperados, bem ao nível que poderíamos esperar do estúdio Trigger. É um título que acabou meio ignorado na própria temporada, mas que bem merece um pouco mais de atenção.

Agora, eu preciso desde já deixar claro que esta análise terá spoilers, incluindo ai de alguns dos maiores twists da série e do seu final. Então se você ainda não viu Gridman, fica aqui o aviso e a recomendação. E aos que continuam, vamos então em frente.

Conforme o anime avança, nós fazemos duas descobertas que são de particular interesse para essa nossa análise. Primeiro, nós descobrimos que a colega de classe de Hibiki e Rikka, Akane Shinjo, é, para todos os efeitos, a pessoa que criou aquele mundo, graças aos poderes do alienígena Alexis Kerib. E segundo, nós também descobrimos que aquele mundo é essencialmente um escape para a Akane Shinjo. Um mundo dos sonhos onde ela pode ter e fazer e ser o que quiser. Um que ela pode controlar ao bel prazer – ou assim ela pensa.

Nós nunca aprendemos realmente como a Akane é fora daquele mundo, ou que tipo de vida ela levava para que quisesse fugir para dentro de um sonho. Mas é possível fazer algumas inferências.

O próprio Alexis se identifica como um ser que se alimenta das emoções negativas de uma pessoa. Que a Akane use de sua oportunidade para criar o mundo que deseja criando apenas um no qual ela é uma adolescente normal e popular pode também ser um indício daquilo que ela sente faltar em sua vida real. Ao longo do anime, muitas das suas atitudes beiram a sociopatia, eliminando todos aqueles que ela sente serem um incômodo em seu mundo perfeito, e até o final da série nós aprendemos também o quanto ela odeia a si própria.

São todos indícios de alguém que, no mínimo, não leva a mais perfeita das vidas sociais. É difícil de extrapolar isso pra dizer com certeza que ela sofria bullying na escola ou qualquer coisa do tipo, mas é seguro afirmar que a Akane real é uma garota bastante solitária e com sérios problemas de autoestima. O que talvez explique o seu fascínio com os kaiju.

Em seu livro de 1999 “Otaku: os Filhos do Virtual”, o jornalista francês Étienne Barral chega a entrevistar diversos desses otaku, um dos quais o aficionado por kaiju Kiritoshi Risaku. Sofrendo com bullying e exclusão social na infância, para Barral ele assim descreveu os monstros:

“eu amo os monstros, pois nesses filmes seu poder destrutivo reduz a cidade e a sociedade a nada, e eu gostaria que eles me livrassem da minha escola, do meu grupo. Como eu, eles são párias da sociedade, mas sua força lhes permite destruir tudo (…)”

E pouco depois, acrescenta:

“Não é que eu não diferencie a realidade da ficção, é que eu prefiro, de longe, a ficção à realidade”

Diga-se de passagem, essa última frase é uma que provavelmente agradaria à Saito Tamaki, que em seu livro “The Beautiful Fighting Girl” identifica no otaku justamente essa inclinação à ficção.

Mas podemos chamar essa inclinação de saudável? Se nascido de um profundo rompimento entre a pessoa e o seu meio social, podemos dizer que o escapismo é a melhor saída? SSSS.Gridman não parece concordar. Como a série enfatiza, Akane precisa acordar. Precisa deixar aquele mundo, que nesse ponto já deixou de ser um sonho para se tornar uma prisão.

E ai chegamos na parte mais interessante: é para isso que o Gridman está ali.

Eu gosto bastante do pequeno discurso do Gridman na sua luta decisiva contra o Alexis. Eu passaria o clip aqui, mas como não quero convidar strikes no meu canal vou só citar as partes mais relevantes mesmo. Ele diz:

“O meu poder… não é apenas o de lutar e destruir. Meu verdadeiro poder é… Grid Fixer Beam”

“Fixer Beam é o poder de consertar este mundo. Por aquele que criou este mundo… Para resgatar o coração da Akane Shinjo”

Sabem… Muito se fala sobre os impactos negativos da ficção nas pessoas. O velho debate de se filmes, ou desenhos, ou jogos violentos tornam as pessoas violentas. E enquanto muito se discute em prol de demonstrar que não é o caso, há de se perguntar: e que efeitos positivos pode a ficção ter em nós? Pode nos ajudar? Pode… nos curar? Provavelmente não, ou ao menos não sozinha, mas talvez sejam um começo.

SSSS.Gridman é mais do que apenas uma história que denuncia o caráter escapista da ficção. Como uma verdadeira carta de amor ao tokusatsu, a série faz o argumento de que a ficção pode ser benéfica. Akane mesmo diz que ela precisa acordar por vontade própria, mas ela só chega a esse ponto após toda a interferência do Gridman naquele mundo.

Ao final, Akane deixa aquele mundo para voltar ao seu próprio. Que será dela, nós não sabemos. Ainda assim, é um final esperançoso. A ficção lhe deu um lugar ao qual recorrer quando mais precisava. Mas também lhe fez lembrar que, mais cedo ou mais tarde, é preciso acordar.

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