Vinland Saga, episódios 1 a 3 – “Correntes são o único colar que fica bem em humanos”


A volta dos Comentários Semanais!


Como leitor assíduo do mangá há já alguns anos, eu digo com tranquilidade que Vinland Saga era uma das minhas estreias mais aguardadas deste ano. Ainda que, vou ser honesto, com um misto de apreensão e ansiedade. Afinal, poderia o anime fazer jus à alta qualidade do material original?

Bom, não há porquê se alongar nessa pergunta. O anime chegou, e chegou em grande estilo, com o estúdio WIT lançando logo de uma vez os seus três primeiros episódios (reflexo, ao que parece, de uma produção bastante saudável; boas notícias, considerando que o anime terá duração de dois cour). E enquanto eu comentarei cada episódio individualmente ao longo deste texto, quero já adiantar que (aparentemente) sim, o anime é uma adaptação absolutamente digna do mangá original (ufa!).

Mas feita essa rápida introdução, e antes de entrarmos na análise de cada episódio, eu queria ainda dedicar alguns breves parágrafos a falar um pouco desses três episódios como um conjunto.

Agora, para essa série de artigos, eu farei o possível para manter as referências ao mangá a um mínimo, e isso por vários motivos. Eu quero poder julgar o anime pelo anime, e não pelo mangá original. Também já tem alguns anos que eu li esse começo do mangá, e minha memória não é das melhores. E acima de tudo: a última coisa que eu quero é dar spoilers sem querer, comentando sobre cenas que talvez sejam adaptadas depois ou personagens que o leitor talvez ainda não tenha se dado conta que são importantes.

Ainda assim, eu quero falar sobre a decisão do estúdio WIT de pular o comecinho do mangá. Digo, “pular” entre aspas, porque ele com certeza será adaptado mais pra frente. O que acontece é que o mangá começa alguns anos no futuro, quando o protagonista, Thorfinn, já tem lá seus 17 anos, e logo temos um longuíssimo flashback que cobre a história do Thors tal como a estamos vendo nesse começo do anime. Este, portanto, apenas decidiu adaptar as coisas em ordem cronológica, o que eu considero uma decisão bastante curiosa – e mesmo corajosa.

O primeiro capítulo do mangá é bom em vender a violência daquele mundo e em nos apresentar o protagonista de toda essa história. Ele entrega, portanto, bem aquilo que você mais esperaria de uma história sobre vikings. Esse arco do flashback, porém, é bem mais calmo, algo que o leitor já deve ter notado.

Agora, Vinland Saga tem violência. Mas o ponto que eu quero fazer aqui é que a violência não é o que realmente torna essa uma história tão memorável. E eu diria que a decisão do estúdio de adaptar as coisas cronologicamente telegrafa isso muito bem. Sai de foco a luta e o sangue, entra em foco os personagens e temas dessa obra. Foi uma boa decisão, que inclusive também demonstra que os responsáveis pelo anime não vêem problema em fazer algumas mudanças se acharem necessário.

Mas dito isso, vamos logo então às análises dos episódios. Ah! E uma última coisa: por conta do estúdio já ter lançado 3 episódios de uma vez, o anime irá entrar em um hiato de algumas semanas, só voltando dia 28. E como eu já decidi que eu só irei comentar esse título durante a temporada, isso significa que, ainda que este texto marque o retorno dos Comentários Semanais, esse quadro também entrará em hiato por algumas semanas. Paciência. Mas até lá, aproveitem! (o anime e a leitura)


Episódio 1


Eu gosto bastante da sequência inicial desse primeiro episódio. Nós começamos com um rápido vislumbre de um sonho do Thors, que será depois recuperado no episódio 3, e somos então imediatamente jogados no calor da batalha. Temos uma sequência de combate muito bem animada e coreografada, mas durante toda ela o Thors permanece com um olhar impassivo. Quando ele acaba atirado ao mar, Thors nada até a terra firme, e dai a câmera se vira mais uma vez para o campo de batalha, onde vemos, de longe, os navios em chamas.

A meu ver, toda esse sequência serve para nos passar qual a visão do Thors de tudo aquilo. Como a sua aparente passividade no campo de batalha é, em fato, um reflexo de como ele enxerga aquela situação toda com um olhar distante. Lutar naquela guerra não lhe trás nenhum prazer, bem pelo contrário. E então ele deserta.

Ao longo de todo esse primeiro episódio, vemos com bastante frequência o tema de pessoas que fugiram em busca de uma vida melhor. O escravo de Halfdan, que chega à vila do Thors em meio a uma nevasca. Os ancestrais dos atuais habitantes da Islândia, que ali chegaram fugindo da Noruega. A própria Vinland aparece aqui como uma espécie de terra prometida, um paraíso terreno que mesmo as crianças têm dificuldade de acreditar. A chegada de Halfdan, portanto, funciona como um prenúncio do que está por vir.

Imagino que Thors tenha se identificado com o escravo que chegou até a sua casa. Afinal, ele também fugiu. Que Halfdan venha então reclamar o seu escravo serve como indicativo de que mudar de vida não é assim tão fácil. O passado pode bater à porta a qualquer momento, e o episódio 1 terminará justamente com a aproximação iminente de um navio jomsviking, liderado por Floki. Thors já descansou o bastante: é hora de voltar às suas antigas correntes.

Mas antes de passarmos para o episódio 2, vale também falarmos um pouco sobre o Thorfinn.

Nesse ponto da história, Thorfinn ainda é uma criança de apenas 6 anos de idade, e isso muito se reflete em sua visão de mundo. Como a criança que é, ele idealiza a navegação e aventura, se mostrando inclusive o mais entusiasmado com as histórias de Leif. A sequência que mostra seu sonho inclusive reflete essa inocência infantil. As cores são mais brilhantes, e a serpente gigante parece saída de um desenho animado americano.

Desnecessário dizer, mas essa não é uma visão que durará muito tempo. Em histórias do tipo, a inocência nunca passa impune. Algo que já começamos a ver logo no episódio seguinte.


Episódio 2


O episódio 2 de certa forma já abre tocando, ainda de forma bastante sutil, nessa questão da inocência. Começamos com um ataque inglês a um assentamento viking, onde vemos toda a brutalidade da guerra (implícita ou explicitamente), e então imediatamente cortamos para as crianças na Islândia brincando de “guerra”. O contraste entre a brutalidade do mundo real e a brincadeira infantil prenunciando o que ainda veríamos ao longo deste episódio e do próximo.

Um batalhão do exército jomsviking chega à Islândia, procurando por Thors. A população local, há tempos afastada de qualquer conflito maior verdadeiro, vê a situação toda com admiração. Conforme Thors e Floki conversam, os rapazes da vila tentam espionar a discussão, e se animam com a possibilidade de participar em uma guerra. Que essa cena seja logo seguida de Floki dando a entender que, no caso de uma recusa do Thors de voltar à ativa, toda a vila seria massacrada, apenas reforça o contraste entre a inocência daquele povo e a brutalidade dos recém chegados. E claro, também já nos informa que o Floki não é um personagem que deva ser levado na brincadeira.

Quando este parte, toda a vila entra em alvoroço. Fica bastante claro como este é um mundo que romantiza a guerra, um no qual mesmo uma vila afastada de todos ainda se anima com a perspectiva de ir para a luta. O Thors, porém, é o único que parece descontente com a situação, e desabafa com sua esposa e o Leif. O episódio 3 trará depois o pay off para esses momentos de construção do personagem, mas falamos mais disso em breve.

Após o eye catch que marca o meio do episódio (e o intervalo comercial, para quando o anime é exibido na televisão), voltamos com uma nova cena das crianças brincando de guerra. Agora, porém, a situação é bem diferente. Thorfinn está levando a coisa bem mais a sério, e machuca pra valer diversas crianças. A guerra acaba de ficar um pouquinho mais real.

Nesse ponto, Thorfinn claramente quer seguir os passos do pai. Ou melhor, ele quer seguir aquilo que a sua cabeça de 6 anos acredita que foram os passos de seu pai. Ouvir o Floki chamando ao Thors de “herói”, bem como notar o entusiasmo da vila com a ideia de ir para a guerra, parece ter afetado bastante o garotinho, que agora parece querer provar o próprio valor. Ainda é uma visão bastante infantil, mas em alguma medida já bem distante daquele seu sonho do episódio anterior.

Passamos então para uma cena dos rapazes do vilarejo exibindo suas armas e armaduras, e eu só menciono essa cena aqui porque gosto de como todos enfatizam que tais armas estiveram guardadas por um bom tempo, tendo pertencido às gerações passadas. Uma forma ao mesmo tempo clara e sutil de enfatizar o quão pacifica é a vila, e o quão distantes eles estão de uma guerra de verdade.

A cena seguinte é uma na qual o Thorfinn vasculha o bau do pai em busca de uma arma de verdade, e temos então o momento no qual ele acha uma adaga e fica quase que hipnotizado pelo brilho dela. É literalmente ofuscante, conforme ela reflete a luz nos seus olhos. Thors, porém, logo chega para criticar a atitude do filho. “Não há ninguém que seja ok machucar”, ele diz. O garoto, porém, imediatamente aponta a hipocrisia da fala. Não está o próprio Thors prestes a partir para a guerra? Mais uma vez, vemos o conflito entre a vida e os ideais que ele quer levar e as correntes metafóricas que o puxam de volta ao campo de batalha.

O episódio então termina com a introdução do bando do Askeladd, conforme Floki vai até eles com um pedido (ou eles são chamados para o acampamento do Floki; para ser sincero isso não ficou muito claro). E aqui é um bom ponto para passarmos ao episódio 3.


Episódio 3


O episódio 3 começa exatamente de onde o episódio 2 parou: o encontro entre Floki e Askeladd. Encontro este que nos comunica duas coisas. Primeiro, que o Floki parece ter algum tipo de ódio pessoal contra o Thors. Como o próprio Askeladd aponta, o desejo daquele de matar a este é claramente fora do padrão. Floki diz que trata-se apenas de uma sentença de morte a um desertor, mas se fosse algo assim tão oficial para que confiar a tarefa a um bando de piratas? E em segundo lugar, aprendemos aqui o quão astuto é o próprio Askeladd, capaz não apenas de perceber que havia algo de estranho ali, como também de arrancar informação do Floki sem que o mesmo sequer parecesse perceber.

A cena que encerra esse começo, da lança que “acidentalmente” perfura o infiltrado do Floki, sendo ainda outro indício que o bando do Askeladd não é um que deva ser subestimado – nem pelo exército jomsviking.

Após a abertura nós voltamos à Islândia, onde vemos alguns dos rapazes da vila se preparando para partir junto do Thors. Daqui até mais ou menos a metade do episódio o anime basicamente reafirma o quão pouco preparados estão esses jovens para entrar numa guerra. Se cansam ao remar, sentem enjoo no barco, etc. Não é a toa que, como vemos, o próprio Thors não tem intenção nenhuma de levá-los a uma, tendo desenvolvido um plano para mandá-los de volta à Islândia (talvez o único motivo pelo qual ele não fique assim tão irritado quando vê que o Thorfinn entrou de clandestino no barco).

Em todo caso, lá pela metade temos uma pequena conversa entre o Thors e o Ari, que responde há uma pergunta que o anime já vem fazendo (ainda que de forma bastante indireta) nos últimos dois episódios: por que o Thors desertou? O que fez um guerreiro tão renomado desenvolver tamanho desgosto pela guerra? A resposta que ele nos dá: o nascimento de sua filha. Como ele mesmo coloca, foi a partir desse ponto que ele começou a ter medo de morrer na guerra. Ter para quem voltar o fez temer ter de partir.

É uma conversa que muito bem contrasta a experiência do Thors, que viu de perto (e mesmo causou) os horrores do campo de batalha, e a inexperiência e ingenuidade do Ari, que ainda trás em si uma visão bastante romantizada da guerra. Este pede para ouvir histórias de bravura e heroísmo, mas o que acaba recendo é uma pequena lição sobre o valor da vida. Se após três episódios ainda não ficou claro: Vinland Saga não tem intenção nenhuma de glorificar a guerra e a violência.

O episódio encerra com os navios do Thors e do Leif caindo na emboscada do bando do Askeladd, e aqui é um bom ponto para encerrarmos nós também. A luta que se segue é bem animada, e comunica bem a diferença de poder que existe entre o Thors e os piratas, além do fato dele se recusar a puxar sua espada mesmo que diante de um grupo tão grande de inimigos reforce bem o seu ideal mais pacifista. Mas o resultado dessa batalha fica para o próximo episódio, então paramos por aqui.

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