O Que a Senko Representa? Analisando Sewayaki Kitsune no Senko-san


Ou: “Os Quatro Aspectos da Senko”.


Nossa história começa em um outro plano de existência, de onde três kitsune, as deusas raposas do folclore japonês, observam a Terra. Uma delas, Senko, demonstra particular interesse no salaryman Nakano, reparando com preocupação como ele está envolto em uma energia escura de puro estresse. E se a coisa continuar assim… Senko decide então descer à Terra para ajudar o Nakano. Sua estratégia: mimá-lo até não poder mais!

Mais nova produção do estúdio Doga Kobo, que aqui adapta ao mangá homônimo de Rimukoro, Sewayaki Kitsune no Senko-san teve um total de 12 episódios entre abril e junho de 2019, nos entregando uma divertida e inocente história feita com o claro propósito de relaxar ao espectador. Seu típico iyashikei… Ou quase. Porque enquanto superficialmente inofensivo, há bastante aqui que podemos destrinchar – e destrinchar eu irei!

Neste texto, eu quero fazer uma análise dessa personagem que é a Senko. Mais especificamente, daquilo que eu irei chamar aqui de os quatro aspectos da personagem: a Senko como mãe, a Senko como esposa, a Senko como a encarnação da nostalgia e, por fim, a Senko como encarnação de, primeiro, sua próprio história, mas também, numa visão mais ampla, de seu gênero e de sua mídia.

Para ser claro: a intenção aqui não é a de fazer uma review da obra, ou mesmo uma exploração de suas mensagens explícitas. Antes, eu quero observar Sewayaki Kitsune como um produto de seu meio, em algum nível um reflexo de sua cultura de origem, que inclusive põe em evidência conflitos e ansiedades que permeiam a esta cultura. Então sem mais delongas, vamos logo começar a análise.

 

Senko é A Mãe

Logo no terceiro episódio do anime, Senko se apresenta para Kouenji, a mangaka vizinha de Nakano, como a “esposa-mãe” do Nakano. Nada mais justo, portanto, que comecemos a análise por esses dois termos. Notem, porém, que eu decidi inverter a ordem aqui: falemos primeiro da mãe, e depois da esposa.

Em seu livro de 1999 Otaku: os Filhos do Virtual, o jornalista Étienne Barral nos apresenta a um Japão no qual papéis de gênero ainda se mostram bastante rígidos. É dever do marido prover a família. Seu mundo é o mundo do trabalho, e das idas ao bar com os colegas depois do expediente. Por contraste, é do domínio da esposa o mundo do lar. Cabe a ela os afazeres domésticos, a administração do orçamento familiar, e é claro, o cuidar dos filhos.

Durante o dia, enquanto o pai está inteiramente dedicado ao trabalho, o par mãe e filho passa horas felizes e agradáveis. A mãe japonesa, completamente dedicada à evolução de seu bebê, atenderá a suas menores necessidades, responderá, sem hesitar, às primeiras questões e velará amorosamente o despertar de sua jovem inteligência. [1]

É também com a mãe que a criança aprenderá o conceito de amae, que Barral aqui traduz como “indulgência” e que servirá como a base de suas relações sociais futuras:

Pelo sentimento de amae, essa busca de indulgência de seu grupo, nem a criança nem o adulto buscam a independência própria do “indivíduo” tal como a concebemos no Ocidente, mas a relação de dependência ideal que lhe permitirá ser perdoado por sua mãe e, depois, pelo grupo. [2]

O anime é bastante explícito em relação ao quanto a Senko se assemelha a uma figura materna. Fora a já mencionada fala da personagem, onde ela explicitamente se coloca como tal, diversas vezes suas ações fazem com que o Nakano se lembre ou de sua mãe ou de sua avó. Mas é interessante ver também como o amae aparece aqui.

No anime, Nakano nos é apresentado como consideravelmente independente. Ele mora sozinho, longe de sua família de origem, e ele também não demonstra ter amigos próximos. Ele sequer sabia o nome de sua vizinha. Sua independência, portanto, vem também com um quinhão de solidão. Ainda assim, a princípio ele resiste aos avanços da Senko, afirmando que não deve se deixar mimar, sob o risco de se tornar alguém imprestável. Esta, porém, segue insistindo para que ele aceite seu amae, que se deixe depender dela tal como o filho depende da mãe.

Tais momentos onde temos a Senko mimando ao protagonista são também um convite para que o expectador lembre-se da sua própria infância, desses primeiros anos de convívio com a mãe dentro dessa cultura do amae. Mas falamos mais disso quando for abordar a questão da nostalgia. Por agora, passemos ao próximo aspecto.

 

Senko é A Esposa

Tal como a Senko encarna aqui o papel da mãe japonesa ideal, também vemos nela o da esposa japonesa ideal. Basta olharmos para a dinâmica que ela estabelece com o Nakano: anda que este dependa dela tal como o filho depende da mãe, todo o mundo da Senko gira em torno dele tal como o da esposa gira em torno de seu marido.

Como esposa, Senko está sempre presente, sempre pronta para confortar o seu marido quando ele chega do trabalho. Mesmo quando ele chega tarde da noite, muito depois de seu horário normal, ela não faz perguntas e nem se zanga: apenas corre para abraçá-lo e diz o quão feliz está de o ver.

Senko também garante ao Nakano pleno acesso ao seu corpo, mesmo que a contragosto. A cena comum dele afagando a sua cauda carregando ao mesmo tempo certa inocência e certo subtexto sexual. Claro, caso a Senko falasse “não” o Nakano certamente a respeitaria, mas dificilmente ela o faz. Afinal: isso é algo que relaxa o Nakano, e todo o seu propósito naquele mundo é exatamente esse.

É interessante também como ela reage quando as outras duas kitsune da história fazem suas investidas para cima do Nakano. Senko raramente se mostra irritada de verdade com o Nakano, mesmo quando este cede às investidas e pede para afagar a cauda destas kitsune. Ao invés disso, sua preocupação maior é de reafirmar, para as demais kitsune, o seu papel como a única que deve ficar ao lado o Nakano dessa forma.

Tal nível de amor incondicional é, sem surpresa, bem difícil de se encontrar, e há mesmo os que diriam que ele não é sequer saudável ou desejável. Mas claro, Senko, anime e personagem, não estão aqui para retratar a realidade. Só que essa discussão fica para o final. Próximo aspecto.

 

Senko é Nostalgia

Diversas vezes ao longo do anime, as ações e atitudes da Senko fazem o Nakano se lembrar de momentos que viveu com sua mãe ou com sua avó. Mas é interessante notar como esses flashbacks sempre remetem à sua infância, aparentando mesmo uma idade pré-escolar. Digo: onde estão as boas memórias da adolescência ou do começo da vida adulta? Por acaso ele parou de ter boas experiências quando entrou no ensino fundamental?! Bom… Talvez.

No quarto capitulo de seu livro seminal Mangá: O Poder dos Quadrinhos Japoneses, Sonia B. Luyten nos apresenta a uma família tradicional japonesa de nomes fictícios. A primeira seção do capítulo é dedicada às palavras do filho, Takeshi, de apenas 12 anos. Aqui um trecho do que ele diz:

Em casa, todos têm muito cuidado comigo. Não posso resfriar-me nem ficar doente, pois perderia as aulas. Não posso perder um minuto se quer, para não atrasar meus estudos. (…) Minha mãe também vive me lembrando para eu me comportar bem na frente dos outros, fazer as reverências corretamente, ser polido com os mais velhos, usar as palavras certas para os adultos, comer com talheres. (…) Às vezes fico acordado até tarde da noite estudando. [3]

A partir do momento que a criança pode ir à escola, ela está então submetida a uma forte pressão, algo que Barral também nota no seu já mencionado livro Otaku: Os Filhos do Virtual. E conforme os anos passam, conforme chegam exames de admissão para o ensino médio e, depois, para a faculdade, a pressão só faz aumentar. A criança dedica a vida ao estudo, mesmo ao ponto de se esquecer de ser criança.

Nada mais natural, portanto, que a época idílica ideal à qual Sewayaki Kitsune decide se remeter seja a da primeira infância. Muito antes das responsabilidades da vida adulta e do mundo do trabalho, e também antes do “inferno dos exames” e das pressões escolares da adolescência, esse é o período de convivência com a mãe, onde o amae mais se faz presente.

Como iyashikei, esse é um título bem curioso. Isso porque o iyashikei é um gênero que tende a se focar no presente. Quando pensamos em animes como Yokohama Kaidashi KikouAria ou Yuru Camp, há nessas séries um forte presentismo, que urge ao espectador que note a beleza fugaz do mundo à sua volta. Claro, isso não é dizer que tais histórias nunca lidam com o passado, mas ele raramente é feito o foco central tal como ocorre em Sewayaki Kitsune, onde o presente por vezes só parece ter valor na medida em que evoca o passado.

Por fim, é preciso também reconhecer que a própria Senko é uma encarnação do passado. É uma figura mitológica e folclórica, que usa de vestes tradicionais e mesmo fala com um linguajar bastante arcaico. Mesmo o fato dela encarnar a mãe e a esposa ideais pode ser lido como uma ode ao passado, na medida em que tais ideais vão sendo questionados pela sociedade moderna. E nisso, a nostalgia pessoal da infância se mescla com a nostalgia cultural dos “tempos mais simples” do distante (e bastante idealizado) passado.

 

Senko é Sewayaki Kitsune no Senko-san

Acredito não ser controversa a ideia de que Senko e Nakano funcionam, em grande medida, como paralelos para, respectivamente, o mangá e anime Sewayaki Kitsune no Senko-san e a sua audiência. Algo que é talvez melhor explicitado nas sequências pós-créditos do anime, onde o espectador assume o ponto de vista daquele sendo “mimado” pela protagonista titular. Mas o que a relação dos dois diz da relação entre obra e consumidor?

Pois bem, retomemos algo que eu disse há pouco: que Sewayaki Kitsune, como iyashikei, parece ir na contra-mão de seu gênero. Enquanto obras do tipo tendem a se focar no presente, a história de Senko se volta muito mais para o passado. E isso não vem sem consequências.

De um lado, narrativas iyashikei tendem a trazer uma visão bastante idealizada da realidade. Aria é ambientado em uma literal utopia, mas mesmo obras como TamayuraNon Non Biyori ou Yuru Camp apresentam ao espectador um cenário idílico. Um no qual há uma comunidade de pessoas se dando suporte mútuo, e onde esse período da adolescência é marcado não por exames sem fim, mas sim pela amizade e o tempo livre, este segundo usado para descobrir mais sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor.

Por contraste, o mundo de Sewayaki Kitsune é bem menos “gentil”. A obra não hesita em mostrar o quão estressante pode ser a vida adulta. O presente do Nakano é um de longas horas extras, má alimentação e aparentemente isolamento social. Uma comunidade baseada no apoio mútuo? Nakano nem sabia o nome da sua vizinha! E como eu disse: o anime é bem claro em dizer que se as coisas continuassem assim… (e fica o subtexto implícito). Nisso, é um mundo que soa bem mais “real”, mas é ai que temos o outro lado da moeda.

Mesmo que séries como Aria ou Yuru Camp nem reconheçam a existência de problemas estruturais na sociedade, eu ainda diria que são histórias propositivas. Histórias que buscam, pelo exemplo, incentivar o espectador a ver o mundo ao seu redor de outra forma. A buscar novas experiências, a interagir mais com as pessoas, e a prestar mais atenção ao cenário. E ei, se o enorme sucesso de Yuru Camp e o aumento de campistas Japão afora em pleno inverno são indicativo de algo seria de que essa abordagem funciona.

Mas qual a proposta de Sewayaki Kitsune? Bom, me deixem mudar um pouco a pergunta: que mudança trouxe a Senko na vida do Nakano? Bem pouca, na verdade. Senko pode fazer uma comida gostosa e dar um pouco de carinho, mas no fim do dia o mundo “lá fora” continua tão ruim quanto antes. Senko pode dar alguns momentos de alívio ao Nakano, mas ela não tem como lidar com as causas mais profundas de seu estresse. E nisso ela talvez nunca seja realmente capaz de cumprir com a missão que se impôs.

Sewayaki Kitsune no Senko-san talvez seja mais real do que seus semelhantes (bom, tão real quanto você pode ser quando a protagonista é uma deusa raposa de 800 anos), mas eu diria que isso também o torna ligeiramente mais cínico. Não o bastante para quebrar a fantasia que o anime quer criar dessa esposa-mãe que te faz comida e limpa seus ouvidos, mas ainda assim uma obra cuja mensagem última soa como, e desde já peço perdão pela franqueza, “é, a vida é uma m&rd@, tome aqui uma loli“.

No final, tudo que Senko pode propor é o escapismo. Um momento de descanso para uma vida de estresse. O que é meio triste, não? O trabalho da Senko é um trabalho de Sísifo. Tal como este foi condenado por Zeus a sempre rolar uma pedra até o topo de uma montanha apenas para a pedra rolar montanha abaixo e ele precisar recomeçar, o trabalho da Senko de se livrar do estresse do Nakano é um que só pode ter um efeito momentâneo, que desaparece tão logo começa um novo dia de serviço para esse típico salaryman.

E comercialmente falando, isso é ótimo. Primeiro porque significa que essa história em específico pode continuar enquanto estiver dando lucro. Senko pode ter um objetivo em mente, mas ela é absolutamente incapaz de atingi-lo. Mas no nível maior da ficção escapista como um todo, significa que enquanto houver pessoas como o Nakano haverão obras como Sewayaki Kitsune no Senko-san.

Uma conclusão talvez um tanto quanto dark pra um anime sobre uma garota raposa querendo mimar um assalariado, mas ei, é o que temos pra hoje.

Notas:

1 – BARRAL, Étienne. Otaku: os Filhos do Virtual. São Paulo: editora SENAC, 2000. Pág. 153.

2 – Idem. Pág. 157.

3 – LUYTENSonia B. Mangá: O Poder dos Quadrinhos Japoneses. São Paulo: editora hedra, 2000. Págs. 205 – 206.

Imagens: Sewayaki Kitsune no Senko-san, episódio 1

Um comentário sobre “O Que a Senko Representa? Analisando Sewayaki Kitsune no Senko-san

  1. Mano, muito boa essa analise, gostei bastante pessoalmente pelo fato de que eu estava bastante pensativo sobre a Senko, sobre o que ela está representando nesta obra, e algo que por mim mais me chamou atenção foi a mulher que a Senko é, ela se enquadra muito em mulheres que no passado eram de certa forma limitadas a certos deveres, e mesmo eu vendo a Senko dessa forma e não concordando com o que via, ela em nenhum momento da obra é limitada a algo, ela não é limitada apenas a cuidar de Nakano, cuidar de sua casa ou fazer a comida, ela tem um prazer em fazer as coisas corretamente, em dar o seu melhor, e isso me faz respeitar ela, mesmo sendo contra a esta “limitação”, por ela ser esse doce de personagem e gostar do que faz, eu tenho um respeito pela Senko.

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