[Vídeo] Não Era o Que Eu Queria Ver | Neon Genesis Evangelion


Quando obra e audiência entram em conflito.


Roteiro:

Com Neon Genesis Evangelion chegando à Netflix esse mês, e o provável aumento no interesse pelo título nas próximas semanas, achei que seria uma boa hora para comentar um pouco sobre a minha experiência com essa franquia. Porque: eu não gosto de Evangelion. Mas… bom, calma, me escute um pouquinho.

Eu comecei a ver animes lá por meados de 2010, mais ou menos, no meu último ano do ensino médio. Sim, eu vi vários animes quando criança, mas até então eu nunca havia pensado neles como uma mídia distinta de qualquer outra. Eram, bom, só mais um monte de desenhos.

Mas encurtando uma longa história, Evangelion está ali entre os primeiros, vai, dez a vinte animes que eu assisti na época, e vamos dizer que a minha experiência não foi lá muito boa. Antes de assistir o anime eu vi alguns comentários sobre como ele era difícil de entender, e ao terminá-lo a minha reação imediata foi algo como “bom, é claro que ninguém entendeu: não tem o que entender aqui, pra começo de conversa”.

Uma reação um tanto quanto injusta, é verdade. Evangelion tem algumas mensagens com as quais vale a pena se engajar, sobretudo no que tange às relações que as pessoas estabelecem umas com as outras. O dilema do ouriço, como a série chama, referenciando Schopenhauer.

O problema que eu tenho, e que eu tive na época, com Evangelion é menos a sua temática e mais a sua lore. Bem pouca coisa é explicada, e termos são jogados a torto e a direita. Maior exemplo disso: os anjos. Afinal, quem teve a brilhante ideia de chamar esses monstros gigantes de “anjos”?! E… eles têm alguma relação com os anjos da bíblia? É uma pergunta que os próprios personagens fazem múltiplas vezes ao longo do anime, sem nunca ser dada uma resposta.

Outras referências causam a mesma estranheza, como os Pergaminhos do Mar Morto ou a Lança do Destino. Que relação eles têm com os objetos, reais ou mitológicos, que conhecemos? No fim, eu decidi que isso era só enfeite sem sentido, classifiquei a obra como tento um worldbilding capenga na melhor das hipóteses, e simplesmente ignorei a sua existência pelos anos subsequentes.

Hoje em dia, eu posso dizer que eu estava basicamente certo. Mas calma, deixa eu terminar.

O simbolismo judaico-cristão em Evangelion é mesmo pura firula, algo que fica até que bastante óbvio quando você considera a obra dentro da carreira de seu diretor, Hideaki Anno, que parece ter certa predileção pelo uso de referências à bíblia, vide sua obra imediatamente anterior a Evangelion, Fushigi no Umi no Nadia. E sim, o worldbilding é a parte mais fraca do anime, pelo menos se você considera apenas o anime.

Chegou a sair um jogo para playstation de Neon Genesis Evangelion, e entre os extras que havia no jogo era possível encontrar documentos que detalhavam aquele universo e respondiam a toda sorte de perguntas possíveis. De onde vieram Adam e Lilith, porque os Anjos atacam os Humanos, como foram criadas as Unidades EVA, e várias outras informações. E enquanto isso deve saciar a curiosidade daqueles que buscam por explicações, eu não consigo pensar em forma mais clara de dizer que tudo aquilo é quando muito um bônus bem pouco importante em toda essa franquia.

Agora, vamos lá. Se você chegou até aqui no vídeo, pode parecer que eu só quero criticar um título que tende a ser muito bem falado nesse nosso meio. Mas não é bem esse o caso. Eu não gostei de Evangelion, não me entendam mal, mas eu acho que essa minha primeira reação ao worldbilding da série rende algumas considerações interessantes.

Por exemplo, o fato de que enquanto eu fiquei bastante incomodado com as referências à mitologia judaico-cristã na obra, eu nunca tive uma reação semelhante a referências de outras religiões. Anime, e especialmente histórias de ação, aventura e fantasia, tende a referenciar toda sorte de divindades aqui e ali, e dificilmente alguma do tipo me incomoda. Talvez porque eu estou muito mais familiarizado com os mitos judaico cristãos do que com aqueles do xintoísmo, budismo ou hinduísmo.

Outra consideração que eu poderia fazer é a da distância. No passado, eu era muito mais intransigente com a ideia de que uma história deve deixar tudo muito bem explicadinho. E enquanto hoje eu ainda aprecio um universo bem desenvolvido, eu tendo a ser muito mais leniente com o que uma história precisa ou não explicar. Será que se eu assistisse Evangelion hoje eu teria uma reação diferente daquela de quase uma década atrás? É possível, o que já serve para pensar em como nossos gostos podem mudar com o tempo.

E por último, temos que… Bom…

Na semana passada, eu lancei um vídeo falando um pouco sobre como, resumindo aqui em poucas palavras, diferentes obras se importam com diferentes elementos. Algumas se preocupam mais em desenvolver seus personagens, outras em criar uma certa atmosfera, outras ainda em experimentar com sua animação, ou com passar uma certa mensagem, e por ai vai. Diferentes histórias têm diferentes focos, e Evangelion ilustra bem isso: o mundo não importa aqui, não é uma preocupação da história, que está muito mais focada nos seus personagens e nos seus temas.

Mas eu também coloquei naquele vídeo que diferentes pessoas se importam com diferentes elementos de uma obra. Worldbilding era e ainda é uma faceta da ficção que me interessa bastante, por exemplo. E terminei o vídeo perguntando como fica quando aquilo que uma obra quer fazer e aquilo que um expectador quer ver entram em conflitos.

Como você julga uma obra quando isso acontece? Evangelion não me agradou, ponto. Mas ele não agradou porque não era o que eu queria ver. Seria justo eu dizer que é uma obra ruim? Eu acho que não, e justamente por isso me pareceu um caso interessante de se comentar.

Ainda hoje eu não recomendaria Evangelion para quem gosta de histórias muito bem explicadas ou para pessoas que busquem por um bom worldbilding na ficção que consomem. Mas isso é menos um julgamento da obra e mais uma constatação de quais são as suas intenções. E no fim, talvez essa seja mesmo a melhor abordagem a toda essa problemática. Reconhecer quando uma obra não é pra você, e entender que isso não necessariamente a torna ruim. Entender que diferentes histórias têm diferentes intenções e diferentes apelos, e se o que uma obra quer fazer não é o que você quer ver… bom, tudo bem.

Não sei se algum dia eu darei uma segunda chance a Evangelion, e diria até que provavelmente não. No meu My Anime List a série está com uma nota 6, e assim irá ficar: minhas notas refletem o meu divertimento com a obra, nada mais. Mas apesar de tudo isso, eu recomendaria Evangelion? Bom… depende do que você quer assistir.

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