[Vídeo] Diferentes Histórias. Diferentes Prioridades.


O problema das reviews “checklist“.


Roteiro:

Se você parar pra ler algumas reviews do MyAnimeList, você logo vai perceber como a plataforma tem uma certa cultura não dita de como se faz uma análise.

Primeiro, você separa a obra em uma série de características, normalmente coisas como “história”, “personagens”, “animação e trilha sonora” e algumas outras de acordo com o seu gosto. Então, você avalia a obra dentro de cada uma dessas categorias: se o ritmo da história é bom, se os personagens são bem desenvolvidos, se a animação é fluida, e por ai vai. Ao final de cada uma dessas análises você dá uma nota a um desses pontos, e a nota final da obra vem de uma espécie de média de todas essas notas individuais.

Só que esse tipo de análise tem alguns problemas que surgem por conta das pressuposições que ela faz. Por exemplo, ela pressupõe que todos esses diferentes elementos possuem o mesmo peso sempre. E ela também pressupõe que todas as histórias buscam executar esses elementos de forma igual. Só que a coisa nunca é assim tão simples. Porque diferentes histórias têm diferentes prioridades.

Se você começar a elencar os elementos mais comuns de um anime, como roteiro, personagens, animação, trilha sonora, cinematografia, temáticas, e por ai vai, eu diria que na vasta maioria dos casos cada obra está preocupada com apenas um pequeno punhado desses elementos.

Eu acho que o slice of life, de maneira geral, é um bom exemplo disso, e especialmente a vertente “moe” do slice of life. Você vai muitas vezes ter quem critique que essas são histórias sobre “nada”, e isso muitas vezes é verdade. Mas é verdade porque estas não são histórias preocupadas com coisas como trama ou temáticas. Elas são geralmente comédias, bastante despretensiosas até, que estão mais interessadas em proporcionar alguns minutos de descanso para o expectador. Elas querem te fazer rir, não te fazer ter em mente os vinte subplots e cinquenta detalhes de worldbilding.

Quando você julga esse tipo de obra seguindo aquele sistema do MyAnimeList, você acaba forçado a dar uma nota relativamente baixa à “história”, que termina por abaixar a nota final. E eu acho que para algumas pessoas isso pode soar como mais “justo” ou mais “objetivo”, mas não é. Nesse ponto essa nota final deixa de ser um reflexo da obra em si e passa a ser muito mais um reflexo de um sistema que prioriza certos elementos da ficção a outros. Por exemplo, que prioriza roteiro à atmosfera, personagens ao visual, realismo à abstração, fluidez a estilo, e por ai vai.

É um sistema que inclusive reifica certas categorias, como se elas fossem “coisas” que existem na realidade concreta, e não elementos que estão sempre em diálogo com outros elementos da obra. Personagens, por exemplo, as pessoas tendem a ter muito claro o que é um “bom personagem”. É o personagem que é complexo, que é tridimensional, que passa por um arco de personagem, que se desenvolve e muda conforme a história avança, e por ai vai. Mas se você perguntar pra pessoas de onde elas tiraram esse “arquétipo” e o que torna ele objetivamente melhor do que qualquer outro, bem poucos vão ser capazes de dar uma resposta satisfatória. Pior: alguns talvez até perguntem “que outro?”, como se aquela forma que eu descrevi fosse a única possível de se fazer um personagem.

Mas claro, não é. Você pode ter bons personagens arquetípicos, algo que inclusive favorece a interação entre múltiplos personagens, especialmente no âmbito da comédia. Você pode ter personagens que não mudam e não evoluem porque não precisam evoluir, porque são uma idealização de como as pessoas deviam ser ou porque são catalisadores da mudança de outros. Para saber se um personagem é bom ou não, você precisa entender qual o papel dele naquela obra, para que exatamente ele serve e o que a obra queria colocando ele ali. E o mesmo pode ser dito para todas as demais categorias, dai eu dizer que esses múltiplos elementos estão em constante diálogo.

Só que ai você adiciona ainda outro nível a essa complicação toda: quem assiste.

Assim como diferentes animes se importam com diferentes elementos, também diferentes espectadores se importam com diferentes elementos. E se você parar pra pensar agora mesmo, provavelmente vai perceber, se ainda não o fez, que você gosta muito mais quando histórias focam em narrativa, ou em personagens, ou em atmosfera, ou você gosta mais da animação, da trilha sonora, da paleta de cores, do visual, e por ai vai.

Eu mesmo sou do tipo que tende a preferir temáticas acima de qualquer coisa. Se uma história tem temas interessantes e me faz refletir sobre alguma coisa, eu tendo a gostar ou no mínimo a ser bem mais leniente com possíveis defeitos. Eu adoro Sword Art Online, porque vejo na franquia algumas discussões bastante válidas sobre a relação entre o real e o virtual. E não por acaso uma obra tão pesadamente temática como Kino no Tabi é a minha favorita.

Outras pessoas terão outros interesses. Peguem a comunidade Sakuga, por exemplo. Você vai ver muitos animes sendo elogiados não por terem um roteiro bem amarrado, personagens bem desenvolvidos ou temáticas provocativas, mas porque tem uma animação fluida e detalhada.

Eu inclusive vejo que há certa sobreposição entre os conhecimentos e a bagagem cultural de cada um e aquilo com o qual eles mais se importam na ficção. Por exemplo, um músico pode se importar bastante com a trilha sonora. Um cineasta pode se importar mais com a cinematografia, composição de cena, direção, e semelhantes. E provavelmente não é coincidência que alguém (eu) com formação em humanas tenha mais interesse em temáticas.

Quando você avalia uma obra usando de alguma listinha pré-montada de pontos que ela precisa satisfazer, você não apenas apaga as próprias intenções da obra, o que afinal as pessoas por trás dela queriam fazer em primeiro lugar, mas você também deixa de levar em consideração que diferentes pessoas têm interesses diferentes, e nisso o que é um defeito para uns pode não ter a menor importância para outros. É por isso, aliás, que nas minhas indicações eu busco sempre explicar qual o apelo de cada obra, para que cada um decida se ela corresponde aos seus interesses ou não.

O que nos leva à problemática final. E quando o que uma obra quer mostrar e uma pessoa quer ver entram em conflito? Fiquem com essa provocação que semana que vem eu falo um pouco mais sobre o assunto.

Um comentário sobre “[Vídeo] Diferentes Histórias. Diferentes Prioridades.

  1. Esta é uma questão interessante de pensar: como o pessoal avalia um anime ou outras mídias, não pelos que dizem especialista e sim a nós, o público. Pois bem, vou citar um caso que me aconteceu, ao ter tido contato com a primeira e a última animação do “Devilman”: o anime dos anos 70 e o mais atual, “Devilman Crybaby”, na ordem, vi o segundo pela enorme repercussão que o pessoal teve com esta série e mesmo ciente que conta praticamente o plot da obra original, numa nova roupagem, segundo a visão do seu diretor, achei este um tanto apelativo e com um animação estranha, não ruim, apenas estranha pra mim, não indicaria pra qualquer um e até eu não ia rever; indo para a primeira adaptação da obra, digamos que reimagina todo o conceito e trás uma história diferente, bem nos padrões de heróis tokusatsu e no padrão que anos 70 podem oferecer, sabe, eu gostei deste anime e seria bacana uma nova série, atualizando seus diferenciais e mantendo parte do seu charme incomum. Ao menos, este já tô fazendo uma fanfic calcada nele e até o momento, tá bacana. Ou seja, pra mim, gostei muito mais da reimaginação dos anos 70 que sua última adaptação. Isso é maluco de minha parte, sim, mas, quem sou eu pra julgar o gosto dos outros? Vivendo e aprendendo, é o que dizem.

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