Café com Anime – Dororo, episódios 18 & 19


Nossa conversa semanal sobre os animes da temporada.


Olá a todos, e bem vindos a mais um Café com Anime \o/ E como de costume, mais uma vez se juntam a mim o Fábio “Mexicano”, do Anime 21, o Vinicius Marino, do Finisgeekis, e o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, desta vez para discutirmos essa mais nova adaptação do clássico de Osamu Tezuka, Dororo.

Antes de irmos parara a conversa, porém, não deixem também de conferir os demais blogs! No Anime 21, teremos nossas conversas sobre Carole & TuesdayE no Dissidência Pop, nossas discussões sobre Sarazanmai. Não percam!

E sem mais delongas, vamos então à conversa. Uma boa leitura /o/


Diego:

E com isso encerramos o arco do menino tubarão :smile: Que, no fim, foi bem maior do que apenas o vilão da semana, não? Tivemos uma – por agora pelo menos – conclusão da trama do tesouro escondido pelo pai da Dororo, e um segundo enfrentamento do Hyakkimaru com o irmão, que agora se mostrou bem mais decidido quanto à sua missão. De forma geral, um momento de catarse no anime, não tão grandioso quanto o que vimos lá pelo episódio 13, mas ainda um ponto alto que provavelmente só irá se repetir lá para os episódios finais.

Eu só me pergunto: como exatamente o Hyakkimaru sabia onde a Dororo tava? Alguém chuta um palpite? Porque eu não tenho a mais vaga noção :smile:


Gato de Ulthar:

Poder da amizade talvez?

Mas saber como o Hyakkimaru sabia que o Dororo estava vivo não é a maior questão para mim, o mais intrigante foi entender a natureza do tubarão demônio.

No episódio retrasado eles pareciam tubarões normais, um morreu e o outro ficou vivo e no final despirocou. Nesse episódio ele virou um monstro, que por uma coincidência do destino, era um dos demônios do Hyakkimaru. Então ele era um demônio disfarçado e apenas o outro tubarão era real? Ou o demônio tomou o corpo e se manifestou no segundo tubarão?


Vinicius Marino:

Eu sabia que alguma coisa nesse episódio me soava familiar.


Fábio “Mexicano”:

O Tahoumaru sabia, ele tem uma rede de informantes por aí que estão procurando pelos dois, foi assim que ele ficou sabendo, de alguma forma o Hyakkimaru ficou sabendo também. Aliás, tive impressão que no episódio anterior ele escutou isso de alguém, mas nem me lembro direito.

Em todo caso, o que esse episódio fez foi destacar o Dororo dos demais – e mostrar o que o Hyakkimaru ainda precisa mudar. É um mundo de pessoas obcecadas.

Hibukuro, seu pai, era obcecado em seu ódio pelos samurais. Morreu miserável por causa disso. Kagemitsu, pai de Hyakkimaru, é obcecado por poder, e por isso vendeu o próprio filho para os demônios – que seu povo tenha prosperidade é um ganho colateral. Tahoumaru é obcecado justamente por proteger o povo de Daigo, por isso jurou matar o próprio irmão. Shiranui, o garoto dos tubarões, bem, era obcecado por seus tubarões ou algo assim. Itachi era obcecado por dinheiro. Traiu Hibukuro por causa disso e morreu em sua busca. Foi a sua cena de sua morte a que mais capturou a ideia de obsessão nesse episódio.

E Hyakkimaru, o anime insiste, e repetiu nesse episódio na boca do Shiranui, que o protagonista é obcecado por recuperar seu corpo. A coisa é meio besta por que como assim, né? Mas já reclamei bastante disso então vou só aceitar, não vamos entrar nisso de novo por favor. Ele é obcecado, ponto.

Enquanto isso, Dororo. Há dois episódios foi compassivo com o assassino que tentou alimentá-lo a tubarões. Mesmo tendo todos os motivos do mundo para detestar o Itachi se preocupou com ele até o último minuto – e até depois dele. E diante de um enorme tesouro ele apenas não sabe o que quer fazer, então tira dali só o suficiente para pagar as contas de viagem.


Vinicius Marino:

De fato, a obsessão salta aos olhos nesse episódio. Como já vínhamos conversando, este está longe de ser um tema novo. Ainda assim, o conflito de propósitos nestas últimas sequências o elevaram a outro nível.

É notável como tudo poderia se resolver se qualquer um dos atores, do Itachi aos vassalos do Tahomaru, estivessem dispostos a ceder. Não quero insistir muito na relação disso com o coletivismo/senso de dever nipônicos, mas me limito a ressaltar como esse é um tema caro à ficção de samurai. Sobretudo à obra do Akira Kurosawa, responsável por “ocidentalizar” e apresentá-los num formato que o mundo estaria disposto a consumi-lo.

Assistindo a esse episódio, lembrei-me do que Roger Ebert teve a dizer sobre Os Sete Samurais (1954), filme máximo do gênero:

“Why do they take the job? Why, for a handful of rice every day, do they risk their lives? Because that is the job and the nature of the samurai. Both sides are bound by the roles imposed on them by society, and in To the Distant Observer, his study of Japanese films, Noel Burch observes: “masochistic perseverance in the fulfillment of complex social obligations is a basic cultural trait of Japan.” Not only do the samurai persevere, but so do the bandits, who continue their series of raids even though it is clear the village is well-defended, that they are sustaining heavy losses, and that there must be unprotected villages somewhere close around. Like characters in a Greek tragedy, they perform the roles they have been assigned.”


Diego:

Bom, mas nenhum dos lados pode ceder nessa situação toda, não é? Pior: o lado que talvez mais pudesse é o próprio Hyakkimaru. Para o Daigo e o Tahomaru, perder o contrato com os demônios significa a ruína daquele domínio. Enquanto que para o Hyakkimaru, no pior dos casos ele “só” continua como já estava…

Aliás, falemos um pouco disso. Todo mundo na história quer tentar dissuadir o Hyakkimaru, e nesse oitavo episódio até o vilão da semana deu o seu pitaco sobre como ele se esforça tanto para ter um corpo humano – como o Fábio apontou. Mas entre o que um personagem fala e o que a história em si fala pode ter ai uma longa distância. Então digam: vocês acham que Dororo vai caminhar para uma moral utilitarista, de que o “certo” era mesmo o Hyakkimaru ficar sem o corpo em prol do bem de todos naquelas terras?


Gato de Ulthar:

É complicado afirmar isso, mas se parar para pensar, o domínio de Daigo já está quase todo arruinado, as secas devastam o feudo e sua população sofre horrores com a fome.

E não tem como voltar atrás, a maioria dos demônios já foi morta mesmo, o que está feito está feito.

O Tahomaru deveria se esforçar em melhorar com meios técnicos a qualidade de vida do seu povo, o seu pai apelou para o contrato com os demônios, mas não acho impossível investir em meios de irrigação, etc…

Por isso, se o Hyakkimaru parar por onde está a diferença não será grande, o domínio de Daigo já está em sérios apuros. Dessa forma mais vale Hyakkimaru ir até o fim, o seu corpo já está quase completo. Ou ainda ele pode viver como está, também não seria de todo ruim…

Agora me surgiu uma coisa, pode ser estúpida, mas não há possibilidade dele e o Tahomaru entrarem em bons termos e utilizar o tesouro de Dororo para melhorar a vida das pessoas do seu domínio?

Seria uma solução muito “final feliz”.


Fábio “Mexicano”:

O dinheiro do Hibukuro indo para o tesouro de um daimyou? Certeza que isso vai acontecer, hein :joy:


Diego:

Bom, mortos não dão pitaco :stuck_out_tongue: Mas é, também não imagino a Dororo concordando com algo do tipo :smile:


Vinicius Marino:

Talvez ela, também, aprenda a colocar seu rancor de lado. Seria, de fato, um final bem poliana, mas nem por isso um que me desagradaria.

Seja como for, não imagino que o final caminhe em direção a isso pela mesma razão que o Gato citou. O domínio de Daigo está praticamente destruído. O que falta – e que já mencionamos por aqui – é o Hyakkimaru se dar por satisfeito e ver algum propósito para além de matar monstros.

Penso que o fato de ter sua espada quebrada nesse episódio possa ser uma oportunidade para refletir. Entre isso e o estreitamento de sua relação com a Dororo, não duvido que os dois possam aprender a ser felizes, onde quer que venham a viver.


Fábio “Mexicano”:

Ou talvez seja só um prelúdio da recuperação do braço, como a perda da perna também foi.


Vinicius Marino:

Não são possibilidades mutuamente excludentes. A perda da perna também o forçou a confrontar seus motivos. Tivemos um episódio inteiro sobre isso, com direito à participação do Jukai.


Fábio “Mexicano”:

Isso é verdade. Dá para explorar essa questão, e depois dar um braço inteiro, funcional, e uma boa espada para balançar usando ele, para não deixar o herói capenga.


Diego:

Com o episódio 19 já tendo saído, acho que muito em breve podemos voltar a esse ponto (er… se alguém se lembrar :stuck_out_tongue: ). Mas uma coisa que me chamou a atenção foi o Vinicius colocar que o Hyakkimaru precisa encontrar um propósito para além de matar monstros, e essa de fato parece ser a mensagem que a obra tenta passar ao personagem. Não que sua busca por um corpo não é justa, mas que ela não pode ser um fim em si mesma. Mas… não pode? O próprio Jukai comenta, no episódio 17, que faz sentido que alguém só queira seu corpo de volta “porque sim”. Poderia esse ser um caso em que a situação é tão extrema que a mensagem simplesmente “não cola”? Mais alguém sentiu ou sente isso com Dororo?


Fábio “Mexicano”:

É algo de que estou reclamando faz tempo, não é? :stuck_out_tongue:

Em espírito, por assim dizer, a jornada do Hyakkimaru é semelhante a uma história de vingança. Mas nunca foi isso que ele teve em mente, e ele sequer está se vingando, propriamente falando. Ele precisa matar demônios para recuperar seu corpo, é algo básico demais. Fora quê, já vimos, ele também atrai demônios. Se não os caçasse, seria caçado.


Vinicius Marino:

Poder pode, ué. Mas depois que ele fizer isso vai fazer o quê? Curso de Ikebana? Assim que ele recuperar seu corpo – e não parece que vai demorar muito – ele terá uma vida inteira para contemplar seu próprio vazio existencial.

O Fábio diz que não é uma história de vingança, mas é funcionalmente idêntica, pois fala da mesma corrupção espiritual. Pessoas que se vingam também acham que não têm escolha. Também gostam de esbravejar sobre sua própria agência e traçar seu próprio destino. Aí, eventualmente, a vingança é concluída, e eles descobrem que a dor da perda não foi embora. E que eles perderam tempo que poderiam ter usado para se desprender atiçando os piores rancores de seu coração.

Não é à toa que histórias desse tipo geralmente matam seu protagonista. Eu já disse e repito: eu não vejo final diferente para o Hyakkimaru, a não ser que ele encontre outro propósito para se viver. A alternativa seria ele apertar o interruptor e subitamente virar uma pessoa normal, cheio de vontade de cuidar de seu jardinzinho e viver em paz para todo o sempre. O que seria um ultraje à história até agora.


Gato de Ulthar:

Repito que o final tende a ser agridoce mas não sem esperanças, não existisse Dororo aí sim eu poderia pensar em uma desfecho com o Hyakkimaru morrendo.


Fábio “Mexicano”:

Sim, é muito semelhante a uma história de vingança, por isso me veio a mente. Mas não é propriamente vingança. Em todo caso, são essas semelhanças que me fazem (e suponho, te fazem também, Vinicius), imaginar um final trágico para o Hyakkimaru – mesmo que na prática não esperemos por isso, dada as reações do Diego e a natureza do material original.

Em todo caso, samurais faziam essas duas coisas, não é? Matar pessoas e cuidar de jardins :smile:


Diego:

Eu já disse que não acredito num final com o Hyakkimaru morrendo, mas bem, o jeito vai ser esperar pra ver :smile: Enquanto isso, que tal então falarmos um pouco do episódio 19? Que foi… bom, no mínimo diferente do que eu esperava…


Gato de Ulthar:

Acho que esse foi o episódio mais descontraído e bem humorado do anime até então. Mas mesmo assim teve seus momentos sublimes, como toa a questão da reforja das espadas de Hyakkimaru. Gostei bastante da parte em que o ferreiro afirma ser o seu sonho fabricar uma espada tão poderosa que acabaria com todos os conflitos visto que as pessoas teriam medo de enfrentá-la. Esse discurso me lembrou muito os apoiadores das armas nucleares como um elemento de alcance da paz, já que ninguém em sã consciência começa uma guerra ou ataca uma potência nuclear. Essa é uma lógica que faz sentido em uma análise mais superficial, mas que se quebra um pouco em uma análise mais aprofundada do tema.

No mais, penso que agora a parada vai ficar séria, esses episódios mais descontraídos geralmente prenunciam momentos nebulosos.


Vinicius Marino:

Esse episódio foi tudo o que eu desejava e mais um pouco. Eu supunha que a perda das espadas faria o Hyakkimaru reconsiderar suas prioridades. Não é que foi isto mesmo? Sim, ele terminou o episódio com seu propósito reivigorado, mas teve um tempo para parar e contemplar uma vida diferente.

O ferreiro fez o Gato pensar nas armas nucleares. Eu confesso que pensei no Kenshin Himura e sua agenda pacifista. Aliás, o episódio até foi um tanto parecido com a sequência em que o próprio Kenshin reforja sua espada antes do confronto com Shishio (se bem me lembro, faz tempo que vi…).

Falando em pacifismo, gostei de ver como o monstro da vez foi derrotado sem violência. Imagino que os métodos empregados pelas personagens (benzer a espada, construir santuários, usar máscaras) são tradições tipicamente usadas para lidar com esses youkais.

Aliás, o Hyottoko, em particular, já apareceu até em Mahou Shoujo Site. Ele é um dos creepy pastas que interage com as garotas:


Diego:

Eu repensaria esse “sem violência” ai :stuck_out_tongue:


Gato de Ulthar:

Foi sem “muita” violência!

Não houve derramamento de sangue pelo menos!


Fábio “Mexicano”:

Para o padrão de Dororo e da época botar pra dormir com uma cacetada na cabeça é quase um carinho :stuck_out_tongue:

Em linhas gerais, minha impressão foi muito próxima da do Gato. Um episódio leve, uma comédia mesmo, no meio de Dororo, e que não pareceu deslocado, muito pelo contrário. E também pensei em bombas atômicas quando o ferreiro descreveu seu sonho. Ele só ignorou, ou não considerou mesmo, que a posse de tal arma imbatível permite que seu dono tiranize os outros. Essa história existe no mangá, Diego? Porque quando Tezuka o escreveu, o Japão encontrava-se sob o jugo de uma potência estrangeira que tinha uma dessas “espadas pacifistas”. Mas acho que estou tentando ler demais na situação.

O mais importante do episódio foi a relação entre Dororo e Hyakkimaru. Sim, é como o Vinicius disse, Hyakkimaru não desviou um centímetro de sua rota, mas a perturbação que houve na relação entre os dois os fez perceber o quanto precisam um do outro. Não só para se defenderem e se ajudarem de maneira geral, como foi o caso do reencontro no episódio passado, mas porque estão emocionalmente ligados mesmo.


Diego:

Então, já que o Fábio perguntou, uma curiosidade interessante do ep: não, ele não existe no mangá, mas… bom, existe uma história ligeiramente similar no primeiro anime, de 1969. Nela, Dororo é quem acaba libertando aquele yokai que vemos no episódio, além de outros dois (todos estavam sendo mantidos presos da mesma forma: pisoteados pela estátua de alguma divindade). Esses três acabam causando confusões por uma vila próxima, e a culpa sempre acabava caindo no Dororo. Então enquanto a história é original, ela tem lá suas referências ao anime antigo.

E não só ao anime! Por exemplo, notaram esse porquinho? Tezuka tinha a mania de inserir ele como cenário em vários de seus mangás, uma brincadeira para os fãs mais atentos.

Agora, vou ter de concordar com os demais: esse episódio tem muito cara de ser a calmaria antes da tempestade. Não acho que temos muito o que comentar dele, fora o que já falamos, então queria perguntar: o que esperam daqui pra frente? Imagino que o anime terá 24 episódios, então estamos nos encaminhando para os últimos 5.


Fábio “Mexicano”:

Tem três coisas para o anime resolver nesses episódios que restam, o que faz parecer pouco episódio, na verdade: o conflito entre o Hyakkimaru e sua família, a caçada de demônios (alguém tem a conta ainda?) para ele recuperar o corpo, e o que o Dororo vai fazer com a herança de seus pais. Não espero que o anime fique mais sinistro, acho que já foi bastante, salvo, claro, no drama que vai ser quando Hyakkimaru e seu irmão tiverem o duelo final, mas com certeza espero um bocado de ação.


Vinicius Marino:

Bastante coisa, é verdade, mas acho que os cinco episódios que nos restam darão conta. Em termos mais práticos, prevejo uma escalada tal como a tivemos no episódios 13 (é isso mesmo?) ao final do primeiro cour. Um build-up de peso antes do novo conflito entre Hyakkimaru e seu irmão. Não duvido, aliás, que tal embate traga ecos daquela batalha – inclusive a eventual interferência de um demônio, o que já fecharia outra das pontas.


Gato de Ulthar:

Tenho que concordar com o Vinicius, cinco episódios é suficiente para encerrar tudo que Dororo começou.

Hyakkimaru terá que enfrentar o irmão e o pai, acho que primeiro ele resolve as coisas com o seu progenitor, depois entra m um embate catártico com o seu irmão.

E um demônio no meio para incomodar.


Diego:

Por algum motivo eu não estou tão confiante assim. Mas bom, com sorte minha apreensão é infundada :stuck_out_tongue: É isso então, ficamos por aqui desta vez e vejo a todos no próximo Café o/

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