Café com Anime – Dororo, episódio 14


Nossa conversa semanal sobre os animes da temporada.


Olá a todos, e bem vindos a mais um Café com Anime \o/ E como de costume, mais uma vez se juntam a mim o Fábio “Mexicano”, do Anime 21, o Vinicius Marino, do Finisgeekis, e o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, desta vez para discutirmos essa mais nova adaptação do clássico de Osamu Tezuka, Dororo.

Antes de irmos parara a conversa, porém, não deixem também de conferir os demais blogs! No Anime 21, teremos nossas conversas sobre Carole & Tuesday. No Dissidência Pop, nossas discussões sobre Sarazanmai. E no Finisgeekis, aquela do final de Yakusoku no Neverland. Não percam!

E sem mais delongas, vamos então à conversa. Uma boa leitura /o/


Diego:

Oh boy… :smile: Por onde começar? Bom, ok, vamos por partes.

Eis que o anime já começa seu 14º episódio nos contando a história por trás do mapa nas costas da Dororo, e temos que é sim o de um tesouro em dinheiro que o pai da Dororo escondeu. Agora, com os comentários de vocês na semana passada, eu já imagino que teremos algumas críticas ao fato, mas queria fazer uma um pouco mais narrativa: eu sinto que esse pay off foi um pouco cedo demais, ao ponto de me fazer questionar se o episódio passado precisava mesmo terminar no clifhanger, ao invés de aproveitar seu tempo para melhor desenvolver a história da Okaka e ai começar este episódio com a revelação do mapa. Dito isso, eu vou apontar que o anime manteve o significado que o mapa tem no mangá, o que já me faz pensar em como essa história deve acabar…

Para o “monstro da semana” o anime adapta também uma história do mangá (acho que essa será a norma a partir daqui, a própria abertura já denuncia algumas outras histórias do mangá que serão adaptadas). Mas não sei se essa história em particular era uma boa escolha para ser contada em dois episódios… Talvez porque é a única que apresenta o tema da mãe com seu filho, e que por isso se “mescla” um pouco melhor na própria história da Dororo. Faz a história por trás do mapa soar um pouco menos descolada do que a relevação do mapa soou no episódio passado? Sei lá, me digam ai vocês :stuck_out_tongue:


Fábio “Mexicano”:

ERA UM MAPA DO TESOURO. E é uma tatuagem yakuza também. E os pais do Dororo eram mais fanáticos do que eu imaginei. Ok, não, o pai não, ele já havia provado ser estúpido, mas agora a mãe mostrou que era quase tanto quanto. Quase, porque ela se deu ao trabalho de esconder metade do mapa de si mesma para garantir que não cederia à tentação – ou seja, ela sabe que, se pudesse, teria ido atrás do tesouro. E assim os dois morreram e deixaram Dororo sozinho no mundo pelo bem da revolução ou algo assim. Acho meio idiota porque não me parece que meros camponeses pudessem comprar uma revolução apenas com dinheiro naquela época, mas estamos carecas de saber que Dororo não é sobre o Período Sengoku, então talvez não seja tão idiota assim.

E o monstro da semana é legal. Outro demônio que vai devolver algo ao Hyakkimaru quando derrotado, e uma historinha que parece divertida por trás dele. Mal posso esperar pelo desfecho, e tenho cá minhas teorias já.


Gato de Ulthar:

Os pais da Dororo caíram completamente no meu conceito. Eles preferiram morrer e deixar a filha à Deus dará só para salvar uma bem improvável revolução.

Se é um tesouro mesmo, não haveria problema em usar parte dele para se estabelecerem até todos melhorarem a trágica situação. Claro que sempre haverá o risco de se tornar um vira-casa e desistir dos ideais nobres, mas estamos falando da vida de uma criança! Ou melhor, de uma família.


Fábio “Mexicano”:

O pai a gente já sabia que era literalmente assim. Ele pisoteou em comida, quando estavam morrendo de fome, só porque foi dada por uma nobre. E ainda comprou briga e morreu ali mesmo.

Mas né, é uma questão de prioridades. A Revolução não vai acontecer de barriga vazia.


Vinicius Marino:

Pois é, esse “mapa do tesouro” me faz crer que muita coisa mudou na cartografia nos últimos quatro séculos… :grin: Por outro lado, o design de monstros é criaturas fantásticas de Dororo nunca foi tão forte.

Esse episódio foi um acerto atrás do outro, do humano amante do demônio mariposa – com seus olhos esbugalhados de vilão de Lovecraft – ao demônio e seus flhos em si. Qual legal é que um bicho que cuspa seda seja, ele próprio, um bicho da seda gigante?

E isso vale em dobro para os dois “youkai” neutros que cruzaram o caminho dos nossos heróis. O que é essa criatura que parece o filho da Yubaba de A Viagem de Chihiro? Por que sua alma possui cores tão diferentes?


Diego:

Olha, eu acho que o anime já deu pistas o bastante para se imaginar “quem” é aquele ayakashi que se afeiçoou à Dororo :smile: Mas bom, sobre isso a gente comenta quando falar do episódio 15, que trará a resolução do arco.

Falando desse especificamente, que acharam do Hyakkimaru nesse episódio? Ele me pareceu um pouco menos falante, ao mesmo tempo que ele pareceu meio que ignorar demais a Dororo em muitos momentos. Quando do ayakashi faz sentido, ele sabia que aquele monstro não era uma ameaça de fato, mas ai temos cenas como a Dororo perguntando se ele tinha alguma ideia do que ia fazer depois de matar os demônios…

Momentos como esse me fazem lembrar que a Dororo meio que só acompanha o Hyakkimaru porque… sim. Ela não tem realmente nenhum motivo maior além de, como esse episódio até demonstrou bem, o desejo de estar junto de alguém, de não se sentir sozinha. Mas da parte do Hyakkimaru… Vemos que ele já demonstrou preocupação com ela antes, como quando ela ficou febril, mas a relação dos dois ainda me soa bastante tênue. Concordam? E se sim, acham que isso é um problema?


Gato de Ulthar:

É que esse contexto da criança seguindo o herói não é de hoje nos animes e mangás, é um tropo bastante comum. Não é como se Dororo precisasse de um grande motivo para seguir Hyakkimaru. Mas sendo práticos, a sobrevivência é o maior motivo de todos. Mesmo que Hyakkimaru viva caçando demônios, ele protege Dororo e garante sua sobrevivência, tanto corporal como financeira, já que não raras vezes vemos a Dororo barganhando as habilidades de Hyakkimaru em troca de dinheiro.

Além disso, há uma sincera afeição de ambos, a menina sentiu que podia confiar nele. E lembram que ela estava em maus lençóis com o pessoa daquela vila? Ela até mesmo estava sendo espancada. A vida não é fácil para uma criança de rua. Se encostar no guerreiro andarilho foi a melhor coisa.

Além disso, a função de Dororo é dar uma outra visão para o que ocorre com o Hyakkimaru, ela é como se fosse uma intérprete dele para nós entendermos seus sentimentos e medos. Vejo algo parecido em Berserk, tanto é que o seu autor, Kentaro Miura, disse em uma entrevista (não consegui achar ela), que Dororo foi uma de suas inspirações. Em Berserk temos Guts, um espadachim bastante “trevoso”, assim como Hyakkimaru, e no caso dele, é acompanhado por um elfo, Puck (depois entram outras pessoas na trupe, mas não vem ao caso no momento. Assim como Dororo, Puck nos ajuda a entender os sentimentos do espadachim negro e nos dá outra visão das coisas.


Vinicius Marino:

Dororo e Hyakkimaru já passaram por tanta coisa juntos que já são praticamente família. Realisticamente: se você fosse a Dororo para onde você iria? Não é como se eles vivessem em um parque de diversões.

E Hyakkimaru é badass para caramba. Quem não gostaria de ter um irmão com espadas nos braços que fatia demônios?


Fábio “Mexicano”:

Sobre a relação entre Dororo e Hyakkimaru, eu li uma entrevista do Kentaro Miura sobre Berserk e o que ele comenta da relação entre Puck e Guts, depois Isidro e Guts, é absolutamente na mosca:

“Esses parceiros estão tradicionalmente presentes nos mangás japoneses. ( o autor usa a palavra “kyogen-mawashi”, que vem do tradicional teatro kyôgen japonês. O kyogen-mawashi é um ator responsável tanto pelo papel do narrador quanto pela explicação da situação). Ao lado do herói que tem a força para levar a história adiante, há, por exemplo, seu amigo complexado que o admira, ou um pessoa que dá uma olhada comum na história para nos explicar a situação. É assim que é no mangá japonês. Ainda temos personagens que assumem esse papel. Em Berserk, tal papel era necessário no início da série, na época do Espadachim Negro, porque Guts não tinha como obter a simpatia dos leitores. Então Puck estava lá para olhar a história com os mesmos olhos do leitor, um olhar normal. Embora ele seja um elfo, a propósito! Como ele poderia parecer despreocupado em qualquer cena, ele não interferiu na história e foi até mesmo uma ferramenta para avançar: esse foi seu papel durante as primeiras aparições. Se ele passou para um papel cômico, acho que foi porque a atmosfera da série estava ficando mais pesada. Para o leitor, tal papel é semelhante ao acompanhamento de um prato destinado a refrescar o paladar: no Japão, seria o vegetal salgado ou a fatia de gengibre em conserva. No exterior, Puck provavelmente seria uma pickle.”

Fonte (me perdoem um link para o Facebook, mas ele tem a entrevista traduzida e link para o original, em francês).

Tenho muito pouco a acrescentar, depois de ter lido isso, que explica porque é assim em primeiro lugar, e as respostas do Gato e do Vinicius, que discutem em mais profundidade o caso específico de Dororo e Hyakkimaru.


Diego:

“No exterior, Puck provavelmente seria uma pickle.”

Que comparação :smile: Bom, de fato, do ponto de vista da Dororo ficar com o Hyakkimaru é a melhor estratégia, enquanto que do ponto de vista deste é que eu sinto que a coisa fica meio ambígua. Mas bom, o anime já demonstrou que ele se importa com a Dororo, então não vou prender a gente nesse assunto por muito mais.

Mudando então, o que acharam do vilão zoiudo da vez? :stuck_out_tongue: Como curiosidade, no mangá original ele não sabia que a esposa era um demônio, enquanto que aqui ele está 100% ciente disso e a ajuda a conseguir comida. Ao mesmo tempo, ele parece ser um bom governante para aquele povoado.


Fábio “Mexicano”:

Não sei se descobri o suficiente para achar coisas ainda. Ele dá medo, o próprio Dororo se assustou com ele, e ele serve visitantes desavisados para lagartas gigantes que são seus filhos com um demônio comerem. Acho ele uma pessoa horrível, sei lá.

Se formos falar de potencial, como começou essa relação? Ele se apaixonou pela mariposa, legitimamente? Foi enfeitiçado por ela? Isso mudaria tudo. Só viajantes são dados de comida para os demônios? Parece ser o caso, mas a gente nunca sabe, e tem o caso mal explicado do templo-orfanato que pegou fogo.


Gato de Ulthar:

É um vilão muito lovecraftiano, um ser humano que claramente esconde algo e esse algo é uma relação amorosa com um demônio. Não sei se o chamaria de malvado, isso é limitar muito as coisas. Se ele realmente amar a mariposa demoníaca e seus filhos, mesmo com a aparencia monstruosa de suas crias, buscar a sobrevivência de sua família é natural. O anime já mostrou que ser monstro é um ponto de vista. O ser humano é um monstro para as criaturas que caça para comer…


Fábio “Mexicano”:

Esse ponto (“o ser humano é um monstro para as criaturas que caça”) é um que o anime absolutamente nunca fez :stuck_out_tongue: O homem é verdadeiro demônio, não para os outros, mas para si mesmo, isso sim está em Dororo desde o primeiro episódio.

Não sinto que se trate tanto de ponto de vista também. Em algumas situações limite, pode ser, e é o caso de todos os membros da família Daigo, Hyakkimaru incluso. Mas, no geral, o Bem e o Mal são muito bem delineados.


Gato de Ulthar:

Nunca fez pois é explicito, vide o caso daquela mulher aranha. Todo mundo quer sobreviver, inclusive os demônios. Aquelas crias demoníacas também. E isso não tira o direito dos seres humanos que vão ser comidos de se defenderem.


Fábio “Mexicano”:

A mulher aranha nunca matou ninguém. Ela era um demônio, sim, mas não era maligna. Foi todo o ponto daquele episódio.

O episódio nunca disse que ela tinha algum “direito” a comer pessoas, e ela não comia, só sugava a força vital mas não o suficiente para matar. No final, ela fica com um homem quê, sabendo disso, se dispôs a ser alimento dela. Não há mal quando ninguém sai prejudicado e é consensual, né? Em comparação, no episódio da centopeia voadora, ela comia pessoas, e nem por um instante ficou implícito ou explícito que talvez ela não fosse assim tão má.

Tenho convicção de quê, por tudo o que apresentou até agora, em Dororo comer pessoas é sim inequivocamente considerado “maligno”.

A única instância em que isso está em aberto ainda, e isso só se quisermos ser legais, é justamente no ato inaugural da história, quando Daigo Kagemitsu dá seu filho de alimento para os demônios. Não é que o anime diga que talvez isso não seja mal, e sim que a alternativa seria supostamente um mal maior – muito mais pessoas morrendo de fome, peste e guerra.


Diego:

Eu vou concordar com o Fábio nessa, não acho que a moral em Dororo seja exatamente cinza. O único caso em que isso de fato acontece é com o pacto do Daigo, mas mesmo aqui fica meio que implícito que ele está mais preocupado com poder do que com seu povo. Tahomaru é o personagem mais cinza, e mesmo ele reconhece que tem de escolher entre dois maus objetivos. O que fizeram com o Hyakkimaru é mau, ponto, mas fica no ar se é tão mau quanto não fazer nada e deixar o povo morrer.


Vinicius Marino:

Também não vejo Dororo tomar o lado dos monstros. Embora não esteja claro para mim até que ponto suas ações são malignas ou simplesmente amorais. Vários dos monstros são retratados simplesmente como predadores. A mulher-mariposa do episódio de hoje é um belo exemplo. Não sei se chamaria uma criatura dessas de “maligna”, embora também não considere suas ações moralmente “boas”. Colocando em outras palavras: se um leão me devorasse, não sei se ficaria ressentido. É a natureza dele.

Agora, preciso concordar com o Gato em outro critério: o amante da mariposa de fato é uma personagem lovecraftiana. E em mais de um sentido.

Um de seus trabalho de que mais gosto é uma novela chamada “A sombra sobre Innsmouth”. A trama diz respeito a uma misteriosa cidade que vive a mercê de monstros vindos do mar. Na medida em que o protagonista explora o lugar, ele descobre que toda a população parece, de certa forma, estar “do lado” dos monstros. Uma peculiaridade que não escaparia à Dororo.

A questão não termina por aí: no final das contas, ele descobre que todos na cidade são descendentes dos monstros e, por consequência, estão fadados a cederem a sua natureza bestial cedo ou tarde. O primeiro indício da metamorfose são justamente os olhos, que se tornam cada vez mais esbugalhados, como os de um peixe.

Lembrei dessa novela imediatamente ao ver o rosto desconcertante do nosso vilão. Imagino que o Gato, sendo o fã de Lovecraft que é, também.


Diego:

Bom, vamos então encerrando por aqui. Agora é esperar e ver o que o episódio 15 nos trará. Até lá o/

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