Review – Magi: The Labyrinth of Magic (Mangá)



Quatorze anos atrás, imensas construções conhecidas como “dungeons” começaram a surgir. Seu interior é como um mundo próprio, com fauna e flora hostis, além de diversos desafios e armadilhas. Porém, aqueles poucos que conseguissem chegar ao final de uma dungeon, encontrariam ali não apenas enormes riquezas, como também o poder capaz de fazer de uma pessoa um rei.

Aladdin chega a este mundo sem saber nada sobre ele ou sobre si mesmo, estando acompanhado apenas de seu amigo e djinn Ugo, que o garotinho invoca soprando a sua flauta. Se deixando levar pelo fluxo do destino, Aladdin eventualmente se encontra com Alibaba, que lhe confessa que seu maior sonho é um dia conquistar uma dungeon. E é assim que tem início a jornada desses dois.

Mas que o leitor não se deixe enganar por esse meu cru resumo dos primeiros capítulo do mangá. Magi: the Labyrinth of Magic é uma história que vai muito além de uma simples caça ao tesouro. Com um vasto elenco de personagens bem trabalhado, um mundo inspirado nos contos da Mil e Uma Noites, e uma miríade de temas interessantes, esta é uma história que prende da primeira à última página.

O mangá é de autoria de Shinobu Otaka, tendo sido seriado na revista Shounen Sunday entre 2009 e 2017, finalizando com um total de 37 volumes. No Brasil, o título foi lançado na íntegra pela editora JBC. Quem ainda não o leu, fica aqui a minha recomendação. E como de costume: spoilers adiante.

Comecemos então essa review com algumas palavras sobre os personagens desse mangá. Agora, enquanto eu adoraria fazer uma longa análise de cada um deles – e Magi certamente dá material para tanto -, acho melhor começar falando desses personagens de maneira um pouco mais geral.

Vejam, Magi é uma história que lida bastante com a diversidade. Diversidade de culturas sendo o mais óbvio, e eu pretendo comentar esse lado da obra quando falar mais sobre seu worldbilding, mas mais importante no momento são as diversidades mais pessoais que vemos ao longo do mangá. Diferentes visões de mundo, diferentes ideologias, diferentes noções de certo e errado… Os personagens de Magi soam sempre distintos uns dos outros, e isso porque cada personagem demonstra ter a sua própria visão de mundo. Alibaba, Sinbad, Kouen, só para citar alguns, cada qual demonstra ter ideais e valores bem diferentes.

Mas claro, surgem também concordâncias. Magi é um mangá que constrói muito bem não apenas os seus personagens, como também as relações entre estes personagens. Vemos aqui como diferentes personagens são atraídos uns para os outros, bem como podem se afastar e se reaproximar, e isso por vários motivos. Alibaba desenvolve uma forte amizade com a Kougyoku por se ver muito na situação da princesa, ao passo que acaba entrando em conflito com Hakuryuu por terem visões diferentes de como lidar com o futuro.

Do começo ao fim do mangá, esses são personagens muito vivos, que estão constantemente crescendo, interagindo e afetando uns aos outros. E agora eu acho que cabe falar um pouquinho sobre nossos protagonistas.

Eu diria que Aladdin é uma adição interessante ao roll de protagonistas de battle shounen. Isso porque ele traz consigo muitas das características mais famosas de personagens do tipo, como uma certa ingenuidade para com o mundo, uma inocência infantil, e mesmo um lado um pouco mais pervertido, sempre usado para a comédia; mas ao mesmo tempo ele bem cedo se mostra muito mais sagaz do que poderia parecer a princípio. Ele é muito bom em ler as pessoas, e nisso consegue mesmo fazê-las confrontar aspectos de si mesmas que preferem manter escondido.

É um tipo de personagem que normalmente serve como catalizador da mudança daqueles ao seu redor, e ele decididamente cumpre esse papel. Mas é interessante ver como ele próprio também vai crescendo, literal e figurativamente. Em especial, Aladdin é eventualmente forçado a confrontar os próprios ideais e convicções, tais como o propósito do destino e o papel do rukh negro.

Alibaba vem numa posição bastante similar, sendo um personagem muito usado para inspirar a mudança nos outros, ainda que ele seja apresentado como uma pessoa bem mais falha do que o Aladdin. Ele tem uma certa “malandragem” das ruas (criar desculpas esfarrapadas é uma característica sua, por exemplo), mas é também facilmente impressionável e manipulável. Além do seu lado pervertido ser bem menos “inocente” do que aquele do Aladdin. Mas tal como seu amigo, Alibaba também acaba forçado a encarar e questionar as próprias visões de mundo.

Vemos isso sobretudo no arco de Barbad, onde ele inclusive termina por sugerir a abolição da monarquia, e depois com a sua volta à cidade após o último timeskip, quando ele finalmente aceita que a cidade já não precisa mais dele.

Confrontar aos próprios ideais é um tipo de desenvolvimento bastante comum em Magi, dai eu ter escolhido falar apenas dos dois protagonistas, bons exemplos dessa prática (ainda que haja vários outros, Hakuryuu e Sinbad sendo outros dois exemplos bem fortes). Mas é importante salientar que o mangá não faz isso por acaso: o enfoque nesse tipo de desenvolvimento muito serve aos temas que a obra busca abordar. Falemos um pouco destes.

Agora, até pelo tamanho da série, Magi lida com uma miríade bastante variada de temáticas. E ainda que eu muito em breve vá defender aqui que todas as diferentes temáticas em Magi estão a serviço de uma maior (algo que considero uma das grandes forças da obra, tornando-a muito mais coesa), é fato que tratar de cada uma dessas temáticas individualmente iria exigir muito mais linhas do que eu estou a fim de escrever e que o leitor está a fim de ler. Fiquemos, então, com as duas questões que perpassam a obra do começo ao fim: a do Rei e a do Destino.

É interessante como Magi vê com bastante desconfiança as suas figuras de autoridade. Tirando os vilões de um capítulo só, o primeiro inimigo maior do mangá é o Jamil, um governador, ainda no arco da dungeon Amon. Em Barbad, ainda que o Cassim seja o antagonista maior ali, a realeza da cidade é retratada como corrupta e inepta. E mesmo quando Sinbad aparece, há sempre a impressão de que ele não é tão confiável quanto se faz parecer.

O mangá pergunta diversas vezes o que significa ser um rei, e a resposta mais comum (demonstrada muito mais por ações do que por palavras) é a de que o rei é como o sol: é uma figura que atrai as pessoas para junto de si, e cujo brilho aquece e conforta aqueles ao seu redor.

Mas isso não significa que um rei seja algo necessariamente positivo. Isso é óbvio quando esse rei demonstra ser moralmente perturbado, como a já mencionada realeza de Barbad ou o diretor de Magnostadt, Mogamett. Mas mesmo reis que tenham as melhores intenções, como Salomão ou Sinbad, que criaram quase que utopias, ainda são vistos com desconfiança pela obra.

Com Salomão, Magi explora o quão conveniente (da pior forma possível) pode ser a figura do rei. Ao concentrar o poder e a tomada de decisões nas mãos de uma só pessoa, a população se exime da responsabilidade de tomar as próprias decisões. A subserviência vindo, aqui, quase que como um mecanismo de fuga. Já com Sinbad, Magi explora como esse sistema monárquico é inerentemente opressivo, uma vez que mesmo o melhor dos reis ainda detém o poder de decidir a vida, morte, e o futuro de seus súditos.

O problema é que, como Magi coloca, reis ainda são apenas humanos. Pessoas falíveis, capazes de errar e de mudar de ideia. É interessante que quando a obra começa, o problema da realeza parece ser um de caráter: alguns maus governantes tomando decisões egoístas. Mas conforme a história avança, ele vai se configurando muito mais em um problema sistêmico: poder demais para uma só pessoa só é ruim, pouco importa quem seja essa pessoa.

A questão do destino segue um caminho bem parecido. No começo da história, o destino é retratado como uma força inequivocamente boa, e inclusive ir contra ele traz à pessoa bastante dor e sofrimento. Mas conforme a trama vai avançando, o destino vai assumindo um caráter bem mais ambíguo.

O destino é a força que guia a humanidade adiante. Um poder que, mesmo em meio à dificuldade, força as pessoas a olharem para frente, para o futuro. Tanto que o cair em depravação ocorre justamente quando um indivíduo não consegue deixar o passado para trás, se tornando rancoroso e amaldiçoando a própria sorte. Isso soa muito bonito, mas somente até o ponto em que entendemos que esse destino foi criado por alguém.

O destino, tal como ele aparece em Magi, é revelado ser a vontade de Salomão. E faz sentido que alguém como Salomão, que passou boa parte da juventude numa guerra contra uma instituição tão tradicional quanto a igreja gerida por Davi, criasse um destino que prioriza o futuro. Mas como já vimos, ninguém é perfeito. Pessoas têm diferentes visões de mundo, e conforme a história avança mais e mais somos forçados a concordar com a Arba: Salomão foi mesmo um pouquinho arrogante ai.

O destino de Salomão é um que exclui qualquer visão contrária. Aqueles que caem em depravação e assim morrem são excluídos do fluxo do rukh, o que gera uma situação talvez até mais despótica do que o próprio mangá quis reconhecer. E claro, ir contra o destino vai trazer toda sorte de sofrimentos para a pessoa, mas… como o Hakuryuu eventualmente coloca, as pessoas não deveriam ter o direito de escolher o caminho que quisessem, mesmo que se arrependam no futuro?

E nisso nós chegamos àquele que eu considero ser o tema central de Magi, e um para o qual quase todos os demais convergem: agência.

Eu não diria que Magi é necessariamente uma história sobre traçar o próprio destino com as próprias mãos, mas essa é com certeza uma história sobre as consequências de se deixar que outrem trace o seu destino por você. Exemplo após exemplo nos é dado disso, desde a ocasional presença de escravos ao longo da obra até Sinbad usando do Palácio Sagrado para inserir a sua vontade no rukh das pessoas.

Se somos todos humanos, e portanto ninguém é infalível, então o melhor caminho a seguir é aquele onde cada pessoa pode ser o agente de sua própria vida, ao invés de ficar baixo o julgo de uma força maior – um dono, um rei, ou mesmo o destino. Nossa história começa com o Aladdin conseguindo a sua liberdade do Palácio Sagrado e termina com toda a humanidade se vendo livre daquele mecanismo. O mundo não precisa de alguém que dite como devemos viver: podemos fazer isso nós mesmos.

Agora, isso significa que tudo isso, toda essa sequência de eventos, estava planejada desde o início da obra? Bom, é difícil saber. Magi é um mangá surpreendentemente bem amarrado, e um onde a história segue uma progressão bastante natural. Não da pra dizer se a Othaka já tinha tudo planejado desde o capítulo um, e mangás, especialmente aqueles de longa duração, tendem a mudar bastante ao longo da sua publicação, conforme editores e fãs dão o seu feedback na história, mas diria que a autora fez um ótimo trabalho.

Não vou dizer que é um mangá livre de inconsistências, furos, ou coisas que ficaram meio mal explicada, ele certamente não é. Mas onde realmente importa a obra se mostra bastante “redonda”.

Mas avançando na review, vale dedicar pelo menos algumas linhas ao worldbilding de Magi, que é outro de seus pontos mais fortes.

O mundo de Magi é bastante inspirado no nosso próprio mundo, em diferentes povos que existiram ao longo do tempo. Não é preciso muito para perceber ai conexões de Remu com Roma, o império Kou com a China antiga, os Presas Amarelas com o império mongol, e por ai vai. E graças a essa inspiração no mundo real, Othaka conseguiu criar uma miríade de diferentes povos e culturas, cada um com suas próprias tradições, arquitetura, vestimentas, e crenças. Além de podermos ver aqui como elementos como a geografia e a história influenciam as nações.

“História”, por sinal, é outro interessante ponto forte de Magi, e aqui eu me refiro à disciplina, não à trama. O universo de Magi é um universo que tem a própria história. Sabemos de povos e reinos que cresceram e caíram. Vemos como aquele é um mundo em constante transformação, um onde as fronteiras estão em constante mudança, onde alianças são feitas e desfeitas, onde a queda de uma nação repercute em seus vizinhos e na política internacional de forma geral. E claro, podemos ver até mesmo como se deu a própria criação daquele mundo.

Acho que a minha única reclamação com relação ao universo da obra é que eu gostaria de ter visto um pouco mais do dia a dia das pessoas comuns nesse mundo. Nós passamos tanto tempo com o “1%” – reis, príncipes e seus servos imediatos – que diferenças em arquitetura e vestimenta acabam por se sobressair bem mais do que diferenças culturais, que seriam melhor expressadas com um um pouquinho mais de ênfase na vida do povo.

Mas é verdade que Magi precisava se focar nessas pessoas mais no topo da hierarquia social para contar a história que queria contar, então não levem essa crítica assim tão a sério.

E para concluir essas considerações sobre o worldbilding da série de uma forma um pouco mais positiva, eu adoro como a Othaka consegue pegar clichês tão comuns à histórias num geral e torná-los em um elemento relevante da história.

O próprio destino é um exemplo do que quero dizer. É comum que narrativas usem e abusem de encontros e desencontros entre personagens relevantes, ao ponto de fazer jus ao dito “o mundo é um lugar pequeno”. Magi abraça esse conceito por completo, criando um mundo onde encontros e desencontros são o resultado do fluxo do destino. E claro, não poderia deixar de mencionar o velho clichê “todo mundo fala a mesma língua”, que aqui se converte na pergunta que servirá de foreshadow a todo o arco de Alma Thoran.

É engraçado que nós estamos tão acostumados a esse clichê que eu imagino que a maioria de nós, lendo o mangá, nem terá parado para pensar sobre ele até que a própria obra decida chamar atenção para o fato. E quando ela o faz, dá no leitor uma espécie de “clique”, que imediatamente faz com que nós comecemos a questionar aquilo também. Uma forma até que bastante engenhosa de foreshadow, diga-se de passagem.

E para terminar, algumas palavras sobre o traço em Magi, um ponto a respeito do qual eu tenho sentimentos um tanto quanto ambivalentes.

Por um lado, eu acho que a Othaka desenha muito bem. Ela sabe fazer imagens e painéis incrivelmente detalhados, mas ao mesmo tempo ela também sabe quando trabalhar com menos. Eu particularmente gosto muito de como ela desenha o rosto, e como ela consegue fazer um personagem dizer muito mais do que ele de fato diz só com a expressão facial.

Dito isso, eu não acho que a Othaka seja lá muito boa em desenhar lutas. Justamente por conta do seu traço mais detalhado, que se reflete inclusive no design dos personagens, eu senti que muitas lutas eram um pouco difíceis de acompanhar. Talvez justamente por isso não tenha nenhum embate um contra um que tenha ficado na minha memória. Magi realmente é um mangá que eu associo muito mais com personagens sentados conversando do que com porradaria, e se isso é bom ou ruim vai de cada um.

Mas com isso eu creio que podemos encerrar a review. Sim, há coisas que eu deixei de comentar, e outras que poderia ter comentado em mais detalhes, mas é preciso saber onde terminar. Não há review que possa esgotar uma obra, afinal. Então para concluir: Magi é um mangá excelente, que vale a pena ser lido e relido, e que eu fico bastante feliz de ter conhecido.



Imagens: Capas dos volumes 1 a 37 de Magi: The Labyrinth of Magic [Guia dos Quadrinhos]

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