Antiguidades – Shin Takarajima e o Mangá de Osamu Tezuka

Poucos autores poderiam alegar terem sido tão seminais para a história do mangá quanto Osamu Tezuka, o proverbial manga no kamisama: o “Deus do Mangá”. Responsável por uma vasta biblioteca de títulos, e por uma série de personagens ainda hoje icônicos, este estudante de medicina tornado mangaka é não poucas vezes apontado como grande responsável pelo mangá moderno.

Tezuka, porém, não brotou da terra com lápis em uma mão e papel na outra, já o melhor em sua arte. É preciso tempo para que alguém atinga a divindade, afinal. Sendo assim, neste artigo eu quero falar um pouco sobre uma das primeiras obras de sua carreira, um título que inclusive veio a se tornar tão mítico quanto o seu criador: Shin Takarajima.

E aos que se interessarem, o mangá foi lançado no Brasil pela editora New Pop, e pode ser encontrado para compra pela Amazon.

 

Contexto: o pós-guerra e o mercado akahon

Antes de falarmos sobre Shin Takarajima, é preciso primeiro entender melhor o contexto no qual ele surgiu. Pois saindo em 1947, esse mangá é um produto do imediato pós-guerra e ocupação americana do território japonês.

Como Kinko Ito nos conta em seu ensaio Manga in Japanese History, capítulo do livro Japanese Visual Culture, conforme a Segunda Guerra Mundial ia avançando, recursos como o papel foram se tornando mais e mais escassos, e uma das consequências disso foi os jornais irem limando os mangás de suas páginas. Com o fim da guerra, porém, eles encontraram terreno fértil para florescer mais uma vez:

A maioria dos japoneses da época estavam famintos e pobres; eles estavam insatisfeitos com a política atual e com medo do futuro. Eles ansiavam por entretenimento e humor tanto quanto por comida. [1]

Por curiosidade, ainda hoje o mangá segue sendo uma mídia essencialmente barata: tanko e semelhantes de lado, as revistas de mangá, onde as histórias são publicadas capítulo a capítulo, são feitas com papel reciclado justamente com o intuito de serem um entretenimento barato e descartável.

Mas voltando ao imediato pós-guerra, uma das formas pelas quais os mangás retornaram foi o mercado akahon. Palavra que se traduz por “livro vermelho”, no contexto do pós-guerra ela designa os livros – sobretudo mangás – impressos em papel barato e com uma capa vermelha, voltados sobretudo para o público infantil.

Foi nesse formato que Shin Takarajima foi originalmente publicado, um único volume contendo já toda a história. Um imenso sucesso, mas não sem os seus problemas.

 

Shin Takarajima: a obra em suas múltiplas versões

Ao contrário do que se poderia esperar, a história de Shin Takarajima é uma que não começa com Tezuka, mas sim com outro homem:  Shichima Sakai.

Ele próprio um mangaka, foi Sakai quem propôs a história à Tezuka, quando este ainda era um iniciante nesse mercado. Por conta disso, por vezes se coloca que o roteiro da obra é de Sakai, enquanto que a arte é de Tezuka, mas o segundo contesta essa visão:

A obra é considerada que o senhor Shichima Sakai foi o responsável pelo projeto de composição da obra enquanto fiquei com o desenho, mas fui eu que fiz o esboço da composição que havia dado 250 páginas. [2]

Tezuka confirma, porém, que Sakai teve considerável influência no produto final. Por conta de exigências da editora, cerca de 60 páginas daquelas 250 tiveram de ser cortadas, e Sakai ainda teria alterado algumas falas e desenhos antes que o mangá fosse efetivamente publicado.

Dentre as mudanças, certamente a maior foi com relação ao final da história. Para os que não leram o quadrinho, a trama de Shin Takarajima começa quando o garotinho Pete encontra um mapa do tesouro em meio aos pertences de seu pai, e decide então embarcar em uma jornada para encontrar a esse tesouro. Na versão de Tezuka, a história deveria terminar com Pete acordando e vendo que fora tudo um sonho, mas Sakai teria, como nos conta Helen McCarthy em seu livro A Arte de Osamu Tezuka: Deus do Mangá, insistido em favor de um final mais convencional.

Mas as mudanças que Sakai fez não foram as únicas dificuldades pela qual a obra passou. Outra veio do método de impressão de mangás à época. Conhecido como kakiban, Tezuka assim a descreveu:

(…) as impressões não eram feitas gravando uma chapa de impressão. A pessoa encarregada da matriz fazia uma cópia de próprio punho para então esta ser impressa. (…) Graças a isso, se a pessoa encarregada da matriz não for um bom profissional, pode acabar estragando os desenhos originais e imprimindo uma obra com traços extremamente ruins.

(…) Devido ao trabalho descuidado do encarregado ao transcrever minha obra, as nuances do meu traço desapareceu (…). Nas piores situações havia personagens que acabavam ficando sem uma perna, ou que surgia um terceiro olho (…) [3]

Por conta desses problemas, e levando em conta que os originais há muito desapareceram, Tezuka era bastante reticente com republicações desse mangá. Após seu lançamento em 1947, ele só foi republicado em 1968, na revista Jun Manga, com uma nova publicação desta versão saindo apenas em 2009, muito depois da morte de seu autor.

Mas se digo “desta versão” é porque há pelo menos uma outra. Em 1984, Shin Takarajima foi a obra escolhida para encerrar a coleção de obras completas de Osamu Tezuka, encabeçada pela editora Kodansha. Uma vez que isto ficou decidido, Tezuka decidiu reescrever a obra do zero, melhorando o traço e devolvendo à trama elementos que tiveram de ser cortados quando da primeira publicação, como o final onde tudo não teria passado de um sonho.

Por conta disso, essa “versão atualizada” da obra, por assim dizer, traz algumas diferenças notáveis em relação à versão de 1947. Uma que fica evidente literalmente logo nas primeiras páginas: as duas páginas que abrem a edição de 1947 tendo sido expandidas em 8 na versão de 1984, com a adição de quadros e do cãozinho que Pete quase atropela em sua pressa de chegar logo ao porto.

No Brasil, a edição publicada pela editora New Pop é baseada na da versão de 1984.

 

Mitos que ainda persistem

Conforme mencionei na introdução deste artigo, Shin Takarajima é uma obra que foi tão mitificada quanto o seu autor, com pelo menos dois mitos a seu respeito por vezes ainda escapando da boca daqueles mais desavisados.

O primeiro deles é o de que este teria sido o primeiro mangá de Tezuka, o que não é verdade. Para começar, como qualquer artista antes de ingressar no mercado, Tezuka já desenhava mangás desde bem pequeno, com os únicos leitores destas primeiras obras sendo seus amigos e colegas de sala. Mas mesmo em se tratando de trabalhos comerciais, há pelo menos um título que precede Shin Takarajima: a série de tirinhas de 1946, Maa-chan no Nikkichou.

Lançado de 4 de janeiro a 31 de março no Shokokumin Shinbun, essas tirinhas de quatro painéis cada contavam as desventuras do travesso Maa-chan, garotinho em idade escolar crescendo nesse Japão do pós-guerra. Premissa simples, mas efetiva, ao ponto mesmo de bonecos de Maa-chan terem sido produzidos, o primeiro produto do tipo inspirado por um personagem de Tezuka.

Shin Takarajima fica, portanto, como o primeiro tankoubon de Tezuka, bem como seu primeiro mangá publicado a apresentar uma narrativa contínua, contando uma história com começo, meio e final. Qualificativos importantes na hora de entender onde a obra se encaixa na longa bibliografia de seu autor.

Mas ainda mais comum é o mito de que foi com este título que Tezuka introduziu as chamadas “técnicas cinematográficas” nos mangás.

Para quem não sabe do que se trata essa discussão, o que está colocado aqui é uma distinção entre o mangá como uma peça de teatro, onde a “câmera” permanece estática e os personagens apenas se movimentam de um lado a outro do quadrinho, e o mangá como um filme, onde a “câmera” se movimenta, dando close, mudando de ângulo, e por ai vai.

Acontece que Tezuka não foi o primeiro a usar dessas técnicas, como ele próprio certa vez disse, citando artistas como Shishido Sako e Oshiro Noburu como seus predecessores. Sakai teria mesmo alegado que fora ideia dele introduzir essas técnicas cinematográficas em Shin Takarajima. Como McCarthy coloca:

A escassez dos tempos de guerra e a propaganda interromperam o fluxo de quadrinhos e a liberdade dos artistas (…). Crianças um pouco mais jovens do que Tezuka nunca tiveram acesso a quadrinhos japoneses de alta qualidade (…). Para elas, o trabalho de Tezuka era revolucionário de todas as maneiras. [4]

Tezuka era imensamente talentoso, além de absurdamente dedicado e apaixonado pelo seu trabalho. Mas ele era também a pessoa certa no momento certo. E enquanto devemos lembrar de suas contribuições para essa mídia, é também importante contextualizá-lo dentro de seu momento histórico.

 

Impacto à época e o seu legado

Quando de seu lançamento, Shin Takarajima foi um indisputável sucesso comercial. Como Frederik L. Schodt coloca, em seu livro Manga! Manga! The World of Japanese Comics, ainda que não tenhamos números exatos, estimativas colocam que o mangá teria vendido entre 400 mil e 800 mil cópias.

Justamente por isso não é surpresa que diversos mangaka posteriores viriam a se dizer bastante impactados por essa história. Nesse sentido, costuma ser bastante citado o relato de Motoo Abiko, que junto de Hiroshi Fugimoto compunha a dupla Fujiko Fujio, responsáveis pelo aclamado Doraemon:

Eu definitivamente ouvi o estrondoso ronronar do carro esporte, e engasguei com as nuvens de poeira levantadas com a sua passagem. [5]

Claro: hoje, mais de sete décadas desde a publicação de Shin Takarajima, tais palavras soem como um pequeno exagero, mas justamente por isso é preciso ter em mente o contexto da época. Abiko teria lido o mangá de Tezuka com apenas 13 anos, jovem demais para se lembrar de como era o mangá (ou mesmo a vida) antes da guerra. Visto por esse lado, seu deslumbre soa bem mais compreensível.

 

Considerações finais

Quando a editora New Pop primeiro anunciou que Shin Takarajima seria finalmente publicado no Brasil, eu fui um dos que ficou bastante animado com a notícia. Para todos os efeitos, esta é uma obra seminal, vinda de um autor tão seminal quanto.

É, a versão que recebemos não é a original, mas a versão de 1947 o era? Tezuka não parecia concordar. Uma dessas complicações que, pelo menos na minha visão, só tornam a obra mais interessante.

Não, não foi o primeiro mangá de Tezuka. E não, não foi o primeiro mangá a usar de técnicas cinematográficas na composição de seus painéis. Mas ela veio no momento certo, e entregou às pessoas – especialmente às crianças – aquilo que elas mais precisavam. Seu sucesso fala por si só.

Como seria o mangá, hoje, sem Shin Takarajima? Talvez tudo mudasse. Ou talvez (provavelmente?) nada. É um exercício de imaginação que eu deixo para o leitor. De minha parte, fico por aqui.

Notas:

1. Tradução livre de “Most Japanese people at this time were hungry and poor; they were unhappy with current politics and afraid for the future. They were starving for entertainment and humor as well as for food.” Ito, Kinko. “Manga in Japanese History”, in MacWilliams, Mark W. Japanese Visual Culture. Nova York, M.E. Sharper, 2008. Pág. 35.

2. Tezuka, Osamu. “História até chegar à versão revisada de ‘Shin takarajima’ (A Nova Ilha do Tesouro)”, in A Nova Ilha do Tesouro. New Pop, 2017. n.p.

3. Idem. n.p.

4. McCarthy, Helen. A Arte de Osamu Tezuka: Deus do Mangá. São Paulo, Mythos, 2012. Pág. 80.

5. Tradução livre de “I definitely heard the sports car’s thunderous roar, and choked on the dust clouds stirred up in its wake.” Abiko, Motoo. Futari de shōnen manga bakari kaitekita. Tokyo, Bunshun Bunko, 1980. Citado por Fusanosuke, Natsume. “Where is Tezuka?”, revista Mechademia, vol. 8. Minneapolis, University of Minessota Press, 2013. Pág. 99.

Imagem: Capa da edição brasileira de Shin Takarajima.

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