Café com Anime – Dororo, episódios 1 & 2


Nossa conversa semanal sobre os animes da temporada


E depois da nossa pequena experiência com filmes, eis então que a nova temporada de animes finalmente começa aqui no Café com Anime! E como de costume, mais uma vez se juntam a mim o Fábio “Mexicano”, do Anime 21, o Vinicius Marino, do Finisgeekis, e o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, desta vez para discutirmos essa mais nova adaptação do clássico de Osamu Tezuka, Dororo.

Antes de irmos parara a conversa, porém, não deixem também de conferir os demais blogs! No Anime 21, teremos nossas conversas sobre Mahou Shoujo Tokushuusen Asuka. No Dissidência Pop, nossas discussões sobre Kouya no Kotobuki Hikoutai. E no Finisgeekis, aquelas sobre Yakusoku no Neverland. Não percam!

E sem mais delongas, vamos então à conversa. Uma boa leitura /o/


Diego:

E começa então a nova temporada aqui no nosso Café com Anime \o/ E, diga-se de passagem, começamos muito bem. Dororo é um anime para o qual eu estava bastante ansioso – inclusive, busquei ler o mangá original antes dele estrear -, e com certeza não me desapontou.

Agora, eu poderia fazer uma longa introdução falando de ambos os episódios, mas acho que desta vez vou começar deixando vocês falarem um pouquinho :stuck_out_tongue: Digam ai: o que acharam destes dois primeiros episódios?


Fábio “Mexicano”:

Nem uma introduçãozinha, Diego? Espero que não se importe com a minha então:

Dororo é um mangá original do Osamu Tezuka. A ideia é simples, como quem já assistiu aos episódios deve ter entendido: um pequeno lorde local no Japão feudal durante o Período Sengoku tinha muito mais ambição do que tinha poder, então fez um pacto com 12 demônios (48, no original): um troca de seu primogênito ainda por nascer, queria que suas terras fossem prósperas. A criança deveria ter morrido, mas o próprio Buda interviu e salvou-lhe a vida.

A história de verdade começa 15 anos depois, quando Hyakkimaru sai ao mundo caçando os demônios que devoraram seu corpo para recuperar suas partes.

Temas sobrenaturais frequentemente são associados à períodos de turbulência social, e não é diferente com o Período Sengoku. Várias histórias que se passam durante o período são habitadas por demônios, ou youkais, como chamam genericamente os japoneses. Inuyasha é um exemplo famoso de uma dessas. E há um tema comum entre ambas, que, penso eu, exista em diversas outras:

O mal original vem do próprio homem. Em Inuyasha, o grande vilão da história, Naraku, era originalmente um ladrão qualquer, humano, que desejou possuir (sexualmente) uma sacerdotisa: Kikyou. Como ele não pôde, entregou o próprio corpo a 100 youkais que o devoraram.

E assim é o começo de Dororo também, no qual o pai de Hyakkimaru condena o próprio filho ao fazer o pacto com os demônios. E vimos isso de novo no segundo episódio, no qual os aldeões de uma vila simples, desesperados, escolheram acolher um demônio e alimentá-lo com os viajantes que por ali passassem. Bandai era o nome do demônio, e ele ficava com a carne, enquanto os aldeões ficavam com suas posses.


Vinicius Marino:

Acho que a cena que melhor reflete isso que o Fábio trouxe é essa daqui, do segundo episódio.

A crença de que os “anjos maus” da natureza humana são externos ao homem. Quem dera fosse tão fácil!


Diego:

Bom, talvez uma introdução ao anime (ao invés de aos episódios em específico) tivesse sido uma boa ideia :stuck_out_tongue: Grato então pela sua, Fábio :smile:

Só acho importante fazer uma pequena correção: demônios e yokai são seres sobrenaturais diferentes, dois dos três que existem no universo de Dororo, com o terceiro tipo sendo os fantasmas. Yokai é tipo o monstro de lâminas que matou a parteira do Hyakkimaru. Fantasma é tipo aquele “monstro” com sininho que vimos no episódio 2. E os demônios… Bom, são aqueles que o Hyakkimaru ganha um pedaço do corpo após matar.


Fábio “Mexicano”:

A Bandai é chamada no episódio 2 inteiro de “bakemono”, que se não me engano significa apenas “monstro”. Não sei ainda se o anime vai mesmo fazer uma classificação das espécies de criaturas sobrenaturais, mas se você leu no mangá e é assim, vamos assumir por enquanto que sim.

O Dororo, se a memória não me engana, fala em “bakemono” o tempo todo também, para se referir à Bandai, ao Deiki (o demônio do primeiro episódio), e à criatura com a sineta na mão no segundo episódio.


Diego:

A distinção é complicada mesmo. Sabemos dos demônios porque o pai do Hyakkimaru ofereceu o filho a 12 demônios. Yokai é basicamente toda sorte de aparição não explicada. E fantasmas também surgem muito mais pelo contexto (no caso, fica implícito que era o fantasma do primeiro viajante morto).


Fábio “Mexicano”:

De ouvido no primeiro episódio: o sacerdote e o pai do Hyakkimaru usam a palavra “kishin”, que é um termo budista japonês para, sei lá, um tipo de buda maligno? (Fierce deities)


Vinicius Marino:

Não como se o Hyakkimaru precisasse se preocupar com isso, já que ele consegue enxergar intuitivamente a índole das criaturas. :grin: Achei um barato essa habilidade. Lembrou-me o poder “Force Sight” da Visas Marr de Star Wars: KotOR 2, capaz de identificar quem é do Lado Negro ou do Lado da Luz da Força:


Fábio “Mexicano”:

Assim como o Dororo (o personagem, não o anime) usa o termo bakemono indistintamente, eu uso o termo youkai indistintamente – por influência de Inuyasha, admito. Se o anime irá diferenciar os tipos de criaturas sobrenaturais a gente tenta prestar atenção nisso então. Para o Hyakkimaru parece não fazer diferença também, por enquanto.


Diego:

Na prática não faz mesmo diferença, exceto em termos de quem o Hyakkimaru mata e quais os monstros hostis aos humanos (fantasmas costumam ajudar os protagonistas, não atacá-los, por exemplo).


Fábio “Mexicano”:

E demônio (kishin) são os 12 demônios. Ok, posso viver com isso.


Gato de Ulthar:

Deixo a discussão de terminologias para vocês que já falaram sobre ostensivamente. Foi uma estreia bastante interessante e bem animada.

As referências ao folclore japonês são interessantíssimas, bem como a caracterização dos demônios e outras entidades, estou bem animado com esse anime.


Diego:

Bom, avançando então um pouco a discussão, vamos começar com nossos protagonistas: Dororo e Hyakkimaru. Digam, o que acharam de ambos?


Fábio “Mexicano”:

Eu sei que a sinopse original diz que Hyakkimaru está explicitamente caçando seus demônios, mas nessa versão aqui, ainda cego e surdo, não sei como ele poderia ter absorvido um conceito tão complexo. Se bem que ele aprendeu a escrever, né? Enfim, é um mistério, me pergunto se descobriremos como ele aprendeu tanta coisa. Por enquanto o Dororo é mais interessante. Nascido já durante essa era de “prosperidade”, a sua história de vida é prova de que, pelo menos para o povo comum, não mudou muita coisa. Temos apenas fragmentos, mas já é suficiente para entender o tipo de personagem trágico que ele é: uma criança que cedo perdeu a mãe e passou a acreditar que vale tudo para sobreviver – e na era em que vive, talvez esteja certo.

Hyakkimaru precisa de mais do que suas partes do corpo para recuperar a humanidade, e já sabemos que é o Dororo quem vai ajudá-lo. Ele caçando e comendo peixes crus não é mais do que uma besta-fera, mas Dororo o ensinou a cozinhar. Similarmente, o mundo que Dororo enxerga é limitado, e Hyakkimaru irá ajudá-lo a expandi-lo. Espero uma dinâmica muito interessante entre os dois.


Gato de Ulthar:

Eu faço coro ao Fábio, Hyakkimaru é o típico badass da ficção que enquanto segue sua missão reencontra sua humanidade, só que no caso dele isso é literal mesmo. Ele me lembra bastante o Guts de Berserk , igualmente amaldiçoado por “demônios” e bom de briga, e que também recupera sua humanidade quando conhece diversas pessoas em sua jornada.

Dororo, que inclusive faz jus ao anime, confesso que pensava que o Hyakkimaru era o Dororo antes de começar a ver o anime…

E ele é muito importante, se não fosse assim não seria o próprio nome do anime :stuck_out_tongue:

Ele é o típico malandro com a vida sofrida, vai ser interessante ver a sinergia formada entre os dois.


Fábio “Mexicano”:

Guts também foi sacrificado para demônios e sobreviveu apesar de que deveria ter morrido. Por conta disso, ele passa a ser perseguido por demônios depois, e ele próprio se incumbe da missão de caçar demônios. Será que Kentaro Miura se inspirou no mangá que Tezuka começou mas meio que largou?


Gato de Ulthar:

Não duvido.

Não sei qual a importância de Dororo no Japão, mas é uma possibilidade. Miura se diz inspirado pela saga de livros Guin Saga, que já teve até animes próprios. Mas não somente de uma referência vive um autor né?


Fábio “Mexicano”:

Nunca li Guin Saga, mas talvez a Kaoru Kurimoto tenha se inspirado algo em Dororo? :smile: Bom, não importa, é só especulação e curiosidade.


Vinicius Marino:

Vocês falaram do seu fundo temático, eu falarei do design: Hyakkimaru é uma das personagens mais impactantes que já vi nesse tipo de anime. Eu entendo que seu traço foi “modernizado” em relação à obra original de Tezuka, mas mesmo assim ele salta aos olhos no atual cenário de animes.

Vê-lo sobre a ponte no primeiro episódio, com aquele rosto que não se movia foi uma tomada que me trouxe arrepio aos braços. Eu até fiquei triste em vê-lo recuperar sua pele tão cedo. Fosse eu o roteirista, teria deixado-a por último só para que ele não largasse a máscara tão cedo.

E é o tipo de coisa que um traço mais detalhista ou afinado às sensibilidades atuais não teria conseguido captar tão bem.

Eu ainda farei cosplay desse Hyakkimaru mascarado, me aguardem :grin:


Fábio “Mexicano”:

O Hyakkimaru mascarado nem existe no anime antigo. Foi uma adição e tanto.


Diego:

O visual do Hyakkimaru ficou mesmo bem impactante nesse começo. Mas acho que foi bom ele recuperar a pele já. Digo, imaginem ele recuperar o braço antes, e ai ele fica lá, puro nervo e músculo :stuck_out_tongue:

E é como o Fábio disse, foi uma inclusão desse anime. No mangá original, quando Hyakkimaru encontra com o Dororo ele já tinha matado mais de uma dezena dos 48 demônios da história, e recuperou a pele numa dessas aventuras iniciais. O que traz uma discussão talvez válida de termos: essa nova adaptação vem mudando bastante a obra original – e na minha opinião, o tem feito para a melhor!

Eu já li o mangá, e tanto eu como o Fábio estamos acompanhando o anime de 1969 em paralelo com o atual, e as diferenças não são poucas. Por exemplo, na obra original Hyakkimaru é capaz de ver, ouvir e falar, tudo isso graças a poderes especiais que nunca foram realmente explicados. E Dororo só começa a seguir o Hyakkimaru porque ficou obcecado por roubar a espada que ele tem no braço. De minha parte, acho o cenário atual bem mais interessante.


Gato de Ulthar:

Não tenho problemas quanto uma adaptação mudar a fonte original, não sei ao certo o caso de Dororo pois não li o mangá nem vi o anime antigo, mas é como o próprio nome diz, uma adaptação, e é interessante quando uma difere da outra, nos dá outra forma de apreciar uma história semelhante.

E se mudar para melhor, melhor ainda!


Vinicius Marino:

Eu também sou da opinião que uma adaptação é uma obra à parte. Tudo vale, desde que haja um propósito. Afinal de contas, o original já existe e está aí. Se nós sentimos a necessidade de recontar uma história é porque temos alguma coisa nova a dizer sobre isso. Nada mais justo que adaptá-la à nossa nova realidade.

Sem ter visto (ou lido) Dororo original, não posso comentar muito sobre o que esse anime trouxe de novo, no entanto. Felizmente, Diego e Fábio estão aqui para nos elucidar.

Com base no que vocês nos disseram, de fato, acho que a motivação do Dororo melhorou bastante nessa nova edição. Embora eu ainda o considere a personagem menso interessante do anime. Ele parece aquele moleque birrento insuportável que atormenta sabe lá quantos animes.


Fábio “Mexicano”:

O parceiro criança obrigatório em mangás e animes cujos protagonistas não eram crianças até os anos 1980. Ainda bem que esse clichê caiu.

Mas acredito que, mesmo sendo insuportável, o Dororo tenha um papel muito importante. Vamos ver.

Sobre “o original estar aí”, vale lembrar que o anime original de Dororo é em preto e branco ainda, mas até onde eu vi é muito bem animado para a época. Já vi muito anime já colorido, de décadas seguintes, que me saltam muito mais aos olhos como coisa datada do que Dororo. Claro que o fato do traço do Tezuka ser algo que de alguma forma transcendeu o tempo ajuda.


Diego:

A questão do “original estar ai” é uma sempre complicada. Sim, o mangá está ai, mas mangá e anime são mídias diferentes, e eu entendo fãs do original que fiquem chateados de não ver no anime aquela cena ou aquele personagem ou aquele detalhe que teve de ser cortado por um motivo ou outro. Tudo bem que no caso de Dororo temos ainda um anime mais antigo, mas é aquilo, em preto e branco (a menos que você assista o piloto de 1968, esse foi em cores :stuck_out_tongue: ).

Mas avançando na discussão dos personagens, e o que pensam do velhinho? De minha parte, eu me pergunto qual vai ser o papel dele na história. Isso porque o seu papel no original me parece praticamente impossível nessa nova adaptação, por conta do estado do Hyakkimaru. Até aqui me parece que colocaram o personagem para ser a voz que o Hyakkimaru não pode ter.


Fábio “Mexicano”:

Eu não sei qual é o papel dele ainda, não li o mangá :stuck_out_tongue: Pelo que vi no anime até agora ainda é possível.

Só mudaria a ordem dos acontecimentos.

A não ser que ele tenha mais algum papel do qual não estou sabendo.

Mas bem, o papel de mentor ainda é totalmente possível.


Gato de Ulthar:

É o velho arquétipo do sábio idoso que não fala claramente, somente por símbolos e insinuações, junto com um bom humor bastante duvidoso.

Mentor? Talvez…


Vinicius Marino:

Ele me lembrou um pouco o Stick, mentor do Demolidor da Marvel.

Ok, o papel de “mentor” não está muito bem definido, mas existem tipos e tipos de mentor. Nem todos são… didáticos, se é que vocês me entendem.


Fábio “Mexicano”:

Ele é um velho cego que anda por aí. Aposto que ele está perfeitamente dentro do estereótipo do sábio oriental, que fala coisas enigmáticas cheias de significado para quem o decifra.


Diego:

Esperar pra ver então. Não duvido que ele vá assumir o papel de mentor, mas se for o caso quero só ver como vão fazer…

Bom, mas para já encaminhar a discussão pro final, qual a expectativa de vocês para o anime? Digo, Dororo está marcado para ter dois cour, o que significa algo em torno de 24 episódios. Adicionando a isso temos que o anime diminuiu o número de demônios de 48 para 12, dos quais, até o segundo episódio, Hyakkimaru já matou dois. O que implica em 10 demônios para mais de 20 episódios ainda. O que vocês acham que vem pela frente?


Fábio “Mexicano”:

São números excelentes, de episódios e demônios. Eles apontam para a possibilidade de contar uma história completa. Por isso Hyakkimaru pôde começar ainda mais cru do que no original, e foi bom podermos ver isso. Ele poderá derrotar todos os demônios e assistiremos as consequências de tudo isso. E ainda sobrará bastante tempo para o necessário desenvolvimento de personagens.


Gato de Ulthar:

Além disso, não é impossível dele te de lidar com demônios por mais de um episódio, é até bem comum a dificuldade ir aumentando ao longo da jornada, seria um pouco aquém das expectativas que todos os demônios fossem fáceis de derrotar. Há ainda toda a confrontação com o pai e o irmão, que deve render bastante pano para a manga.


Vinicius Marino:

Não excluam eventuais flashbacks. Não sei bem quão linear é a história de Dororo, mas não são raros animes que aprontam saltos temporais.

Não tinha visto que a série teria dois cours. Estou muito animado agora! Essa foi minha estreia favorita da temporada.


Diego:

Bom, de minha parte, como já li o mangá eu tenho boas noções de para onde a história vai, mesmo com as mudanças feitas até aqui. Mas agora é esperar pra ver. Ficamos por aqui essa semana e até a próxima o/

E você, leitor, que acha do anime até aqui? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

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Um comentário sobre “Café com Anime – Dororo, episódios 1 & 2

  1. Dororo sem sombra de dúvida foi uma das melhores estreia da temporada, gostei muito da modernizada no visual e a mudança no roteiro. Não sabia que haveria dois cour, o mangá é bem curto acho que eles farão muita mudança no decorrer da história. Com certeza irei acompanhar o anime, e os comentários de vcs também. Até a próxima semana.

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