[Vídeo] GeGeGe no Kitaro: Comentário Sobre a Alienação


Sobre as consequências de se esquecer o passado.


Roteiro:

Se eu fosse descrever o tema central de GeGeGe no Kitaro em uma palavra, esta certamente seria “alienação”. E não uma alienação política, como normalmente enxergamos o termo, mas sim uma alienação histórica

Agora, vamos por partes. Apesar de ser um verdadeiro fenômeno cultural no Japão, e também um dos animes de maior audiência em tempos recentes, GeGeGe no Kitaro é bem pouco conhecido fora de seu país natal. Então: do que se trata esse anime?

Sua premissa é incrivelmente simples. Kitaro é um garoto yokai, último sobrevivente da tribo dos fantasmas. Sua mãe já estava morta quando ele nasceu, e tudo que restou de seu pai foi um olho. A história conta que quando bebê Kitaro foi ajudado por um humano, de onde temos a sua motivação de retribuir o favor, protegendo os humanos dos ataques de yokai maliciosos.

Episódico, quase sempre o anime segue a fórmula de introduzir um yokai contra o qual Kitaro terá de lutar, não raras vezes auxiliado por seus amigos yokai ou pela garota humana Mana. Mas enquanto isso soa como a típica estrutura de um anime infantil – e, convenhamos, GeGeGe no Kitaro certamente o é -, são os detalhes que distinguem esse título de outras séries semelhantes.

Em sua encarnação mais recente, de 2018, GeGeGe no Kitaro se revela um anime altamente ácido, cutucando em questões bastante sensíveis, com episódios nem sempre previsíveis e também nem sempre felizes. 

E por que eu digo “encarnação mais recente”? Bom, acontece que o anime de 2018 é a sexta série nessa franquia. Como narrativa, a história de Kitaro e seus companheiros começa nos anos 1930, no então popular teatro de rua kamishibai. É somente em 1960 que a história começa a ser contada na forma de mangá, escrito e ilustrado por Shigeru Mizuki.

Originalmente chamado de Hakaba Kitaro, a primeira versão de Mizuki foi considerada assustadora demais para crianças – título que bem poderia descrever alguns dos episódios do anime mais recente, diga-se de passagem -, mas em 1965 ela começou a ser serializada na revista shounen magazine baixo o título Hakaba no Kitaro, sendo que este foi mudado em 1967 para o familiar GeGeGe no Kitaro.

A relação do personagem com a televisão começou bem cedo, já em 1968. De lá para cá, o anime recebeu um reboot a cada década, tornando-se assim presença garantida na televisão japonesa pelo menos uma vez a cada nova geração de telespectadores.

Infelizmente eu não posso falar pelas séries passadas, e muito menos pelo mangá original. Meu único contato com a franquia até aqui vem sendo pelo anime mais recente, mas eu posso dizer que este se provou uma fantástica primeira impressão. Ao ponto mesmo de eu decidir quebrar minha regra pessoal de só falar sobre títulos finalizados para dedicar um vídeo a este anime ainda em lançamento.

Mas após toda essa introdução, voltemos então à alegação que deu início a este vídeo.

Em GeGeGe no Kitaro, não raras vezes é a ignorância humana que liberta um yokai maligno adormecido. O primeiro episódio já começa exatamente assim, quando um vlogger quebra o selo de um yokai só para ganhar views no seu canal. É claro, o vlogger em si não acredita que yokai sejam reais, nem a maior parte das pessoas. E este é o ponto.

É do senso comum dizer que o Japão é uma terra que mescla tradição e modernidade, dos templos xintoístas de séculos atrás até as mais modernas empresas de fabricação de tecnologia, mas o GeGeGe no Kitaro vem expor é que a relação entre passado e presente não é uma necessariamente harmônica.

Vale lembrar que essa entrada do Japão na modernidade se deu de forma bastante traumática, através da derrota na Segunda Guerra e subsequente ocupação americana do território até 1952.

Em seu livro Otaku: Os Filhos do Virtual, o jornalista francês naturalizado no Japão Étienne Barral comenta sobre como, no espaço de 50 anos, o Japão passou do “estatuto de nação que lutava pela primeira necessidade ao de supermodernidade”. E ainda adiciona, provocando: “Nessa sociedade em rápida mutação, que evolui sem se voltar sobre o seu passado, sem mesmo parar para ter a medida exata de seus atos, o que será de sua juventude?”

A resposta de Barral é a de uma juventude que se recusa a entrar na vida adulta, mas voltando a GeGeGe no Kitaro, o anime parece ter sua própria resposta para esse dilema. “Aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la”, comentário que parece bastante adequado para uma sociedade que literalmente liberta os demônios de seu passado sem nem se dar conta de que o faz.

“O mundo que você vê não é tudo o que existe”. Essa frase, repetida no começo de cada episódio, enquanto uma referência à existência dos yokai na série, também bem poderia servir como metáfora para uma sociedade que se deixou levar pelo que há de mais imediato.

Assim chegamos ao episódio 21, talvez um dos mais tematicamente carregados na série. Aqui, flores estranhas no quintal de sua tia avó levam Mana, Kitaro e companhia em uma viagem até o coração do pacífico, em uma região remota que foi um dia um dos palcos da Segunda Guerra Mundial.

Nessa ilha, Mana acaba encontrando uma vala comum, repleta dos cadáveres dos soldados que caíram em batalha. Vinda de uma geração que não conheceu nem o horror da guerra, nem a austeridade do período que se seguiu, de uma cujo próprio ensino nunca lhe deu as bases para entender e compreender o que havia sido essa guerra e qual havia sido a participação do Japão nela, Mana se comove. E o episódio encerra com um singelo discurso por parte dela, declarando que isto não é algo que deveria ser esquecido.

Mais do que pedir ao espectador para que este conheça os yokai, o que o anime urge é para que conheçam o próprio passado.

É importante destacar que de forma alguma GeGeGe no Kitaro vê a tecnologia ou a modernização como algo negativo. Sua crítica aos apetrechos da nova era se limita a reconhecer que estes podem ser mal utilizados. Não há nada de inerentemente errado em um smartphone, até ele ser usado como ferramenta de cyberbulling.

Numa veia similar, apesar de eu chamar a alienação histórica de o tema central desta série, é importante apontar que este nem de longe é o único. Diversos episódios abordam outros temas, igualmente provocativos, e há de se reconhecer que existem episódios bem mais tematicamente ricos do que outros. Ainda assim, esta é a mensagem que eu mais consistentemente tiro desse anime.

GeGeGe no Kitaro é absolutamente fenomenal. Bom elenco de personagens, excelente qualidade de animação, ótimo uso de sua trilha sonora, e constantemente provocativo… Certamente não é um anime sem defeitos, mas é o típico caso onde o saldo final é claramente positivo. Se ainda não deu atenção para esse anime, fica aqui a minha mais sincera recomendação. É um título que realmente merece ser mais conhecido – e mais comentado.

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Um comentário sobre “[Vídeo] GeGeGe no Kitaro: Comentário Sobre a Alienação

  1. Este é um anime que realmente impressiona: remete aos animes e mangás antigos que ganham uma releitura moderna, sem tirar a essência que o consagrou; outro ponto é a animação, quando querem mesmo, a Toei Animation não fica devendo a estúdios que tem animações de qualidade, algo que me deixou de queixo caído, quando o padrão deles costuma ser bem inconstante e motivo de piada; fora os temas contemporâneos que possui, alguns mais recorrentes e outros mais de cunho moral, vê isso num anime infantil é um desafio.

    Um verdadeiro choque de culturas, algo que apenas poucas obras conseguem te mostrar: o novo e antigo andando juntos, sem que um fique com o espaço do outro; a diversidade de youkais, que revela a mitologia de tais seres e criaturas, sejam ou não do folclore japonês; de manter as características mais marcantes de Kitarou para nossos tempos e acima de tudo, um clássico ganhando um espaço que anos atrás, pra nós brasileiros, era inacessível. Poder conhecer esta obra e suas qualidades, o fazem ser um dos animes que mais surpreenderam pra mim em 2018, mesmo ciente de ser mais uma versão da obra, não quer dizer que tenha de ignorá-la. Tem as análises do anime no Anime 21 que focam bem nestes pontos, que gosto de ler quando postam e são bem legais de acompanhar. Ótimo vídeo e até a próxima!!!

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