Étienne Barral – Otaku: Os Filhos do Virtual

Foi em 1999 que Étiene Barral, jornalista francês residindo no Japão, publicou seu livro Otaku: Les enfants du virtuel. No ano seguinte o livro chegaria ao Brasil baixo o título Otaku: Os Filhos do Virtual, pela editora SENAC, com tradução de Maria Teresa Van Acker.

Uma interessante exploração da cultura japonesa às vésperas da virada do milênio, o foco na figura do otaku justifica-se na tese que Barral busca defender: a de que o otaku, enquanto necessariamente apartado da sociedade, pode por isso mesmo expor as contradições subjacentes a essa mesma sociedade. Eles seriam, portanto, um sintoma de um mal estar muito mais profundo, capaz mesmo de gerar consequências bem mais desastrosas do que apenas alguns aficionados por figures e mangás.

Quem desejar, o livro está disponível para compra pela Amazon, ainda que apenas em formato físico. Uma leitura bem fácil, em grande medida graças ao estilo jornalistico que transparece no texto, mas nem por isso menos provocativa, tocando em diversos temas bastante dignos de reflexão.

Quanto a este artigo, ele vem não como uma resenha crítica da obra, mas sim como um resumo dos principais pontos levantados no livro, reconstruindo a argumentação na tentativa de levar a um público mais amplo as discussões aqui levantadas (e justamente por isso eu recomendo que aqueles que se interessarem considerem adquirir uma cópia própria do livro). Eu peço, porém, que o leitor tenha sempre em mente que o livro tem já quase duas décadas, e que portanto pelo menos algumas das considerações feitas aqui podem não mais refletir a realidade japonesa.

Começando então, o livro abre com uma Nota do Editor, exclusiva da versão brasileira, de apenas uma página e onde de enfatiza brevemente a relação do otaku com o ambiente digital. Na sequência, temos um Prefácio, escrito por Jean-Jacques Beinex, onde seu autor comenta sobre como conheceu Barral bem como sobre alguns dos argumentos que serão apresentados em maior detalhe ao longo do livro.

Disso passamos para o Prólogo, de apenas duas páginas, onde Barral busca expor a tese que defenderá no restante da obra: a de que o otaku surge em decorrência dos excessos da sociedade japonesa, aqui tida como sustentada na tríade educação, informação e consumo.

Chegamos então ao primeiro capítulo, o mais longo dos três que compõem o livro, intitulado Na Sociedade dos Otaku. Que começa de uma forma no mínimo inusitada, com um relato do jovem Watanabe Koji, onde ele descreve um sonho no qual trocava carícias sexuais com seu computador Macintosh Quadra 950. Para Barral, o avanço tecnológico deu origem a um novo tipo de homem, o Homo virtuens, que busca no mundo virtual um escape do mundo real. Diz Barral: “O Homo virtuens vive por procuração, reivindica o direito de sonhar acordado” (pág. 21), argumento que voltará a aparecer ao longo do livro.

Na sequência, Barral busca melhor contextualizar a juventude japonesa do período. Não tendo vivido os horrores da Segunda Guerra, nem a carestia do período subsequente, desde os anos 1960 temos uma juventude para a qual, nascida numa sociedade que já parece ter tudo, o antigo ideal do sacrifício individual pelo bem coletivo já não serve mais, ao mesmo tempo em que não se propôs um novo ideal que substituísse a esse. O resultado é uma juventude sem rumo, que Akai Takami, co-fundador do estúdio GAINAX, assim descreve: “Crescemos em uma paródia de sociedade, uma fachada sem consistência” (pág. 36).

Barral se volta então para a relação entre otaku e bonecas, com o motivo dessa atenção especial ao tópico sendo sumarizado no relato do colecionador de bonecas Kawamorita Yu, para o qual estas representam uma pureza que você não encontra numa pessoa de carne e osso. Coloca Barral: “A representação imaginária toma o lugar do real. A realidade não é como deveria ser, ela trai a pureza ideal” (pág. 47). O otaku busca por um relacionamento, mas não é capaz de lidar com pessoas reais. Assim, as bonecas lhes servem, algo que o mercado não deixou de notar.

Primeiro temos as bonecas comuns, das seções de brinquedos. Em dado momento, Barral até fala sobre um aficionado pela boneca Barbie. Depois vêm os garage kits, modelos para serem montados e modificados ao gosto do comprador. O passo seguinte são os garage kits modelados a partir de pessoas reais: primeiro, idols, mas logo o foco se voltou para adolescentes comuns. Finalmente, chegam as bonecas virtuais. Fundamental nessa transição foi o jogo Princess Maker, da GAINAX, onde o jogador podia criar uma garotinha dos 10 anos até a idade adulta, com suas escolhas alterando o final da história.

Chegamos, então, às idols, fruto da televisão e, por isso mesmo, ilusoriamente mais próximas de seus admiradores do que as atrizes do cinema. Harajuku é um bairro que se tornou famoso pelas diversas lojas dedicadas a vender toda sorte de merchandising idol, e ao conversar com o gerente de uma destas lojas este disse a Barral que ali se vendiam sonhos. Ao que este comenta: “Seria preciso não ter a faculdade de sonhar seus próprios sonhos para cair dessa maneira na armadilha dos comerciantes de talento” (pág. 96). Implícito aqui estão os dois pontos já mencionados: o de uma população sem ideais que vive por procuração.

O otaku, porém, não é completamente passivo diante desse mundo do consumo. Ao falar dos camera kozo, que se dedicam a, durante as apresentações das idols, tirar fotos que revelem debaixo de suas saias, Barral coloca: “são os anunciantes – o sistema comercial – que jogam, sem pudor, com a sexualidade para vender seus produtos. Ao se tornar exímios em desviar a imagem dos ídolos através de suas fotos obsessivas, os camera kozo demonstram, talvez inconscientemente, que não são vítimas do sistema comercial no qual os publicitários querem circunscrevê-los para obter o máximo de lucro” (pág. 116).

As últimas seções desse capítulo são dedicadas ao mangá, no qual a presença do erotismo e da violência não deixa de suscitar debate na sociedade japonesa. Aqui Barral cita o psiquiatra Fukushima Akira, que rejeita as influências negativas que o mangá possa ter em seus leitores, mas reconhece que a presença do erotismo se deve em grande medida à uma sexualidade reprimida, ela próprio o resultado de uma juventude cuja rotina diária alterna entre a escola e o cursinho preparatório, sem muito tempo livre para o flerte.

Finalizando, Barral dedica algumas palavras ao yaoi, posto aqui como a contraparte feminina do mangá erótico. E mais uma vez a relação entre sujeito e sociedade é posta como aquilo que subjaz o fenômeno, dado que por meio do yaoi essas mulheres “exprimem que a maternidade, a vida de casal e o modelo de relação proposto por seus pais não as faz sonhar”. E Barral ainda complementa: “Como é frequente na sociedade japonesa, há uma maneira indireta e inofensiva de exprimir as frustrações diante dessa sociedade” (pág. 147).

Disso passamos para o segundo capítulo, intitulado Os Otaku na Sociedade. E se o capítulo anterior era uma exploração do otaku, este busca entender como um indivíduo torna-se um.

O capítulo começa com alguns comentários a respeito da estreita divisão de tarefas na família japonesa, onde a mãe é a responsável por dedicar-se integralmente à criança, enquanto que o pai deve prover o sustento da família, saindo cedo para o trabalho e só voltando tarde da noite, após um bom tanto de horas extras e de socialização com os colegas no bar. E é já nesse ambiente familiar que a criança aprende a importância da vida em conjunto. Anedota relevante, Barral conta como o castigo comum à criança que se comporta mal é ser colocada para fora de casa, em forte contraste com o costume ocidental, onde o castigo é normalmente o impedir da criança de sair.

Chegamos, então, à escola, ambiente de socialização e, na cultura japonesa, de homogeneização. Entretanto, Barral enfatiza como, apesar dessa homogeneidade que a escola promove, está também presente aqui uma forte competitividade. Escolas são ranqueadas de acordo com o número de alunos que conseguem enviar para o ciclo de ensino imediatamente superior (lembrando que é necessário um exame para entrar no ensino médio bem como na universidade), ao passo que para os alunos existe o hensashi, exame de âmbito nacional que ranqueia a todos os alunos de um mesmo ano escolar. Em tal ambiente, os juku, equivalentes aos nossos cursinhos, se tornam necessários não apenas para o ingresso na universidade, mas mesmo para o adequado acompanhar das aulas.

Nesse ambiente ao mesmo tempo homogêneo e competitivo, floresce o ijime, que Barral traduz por “humilhações”, mas que hoje nós traduziríamos por “bullying“. Há um ditado que bem resume a mentalidade japonesa: o prego que se destaca é martelado primeiro. Através do ostracismo e do ataque ao diferente (o aluno novo, o melhor da classe, o pior da classe) reforça-se a coesão do grupo. E Barral aponta: “O início do problema dos bodes expiatórios nas escolas japonesas coincide com o acirramento da competição escolar” (pág. 182).

Pela escola, o ijime é visto como um rito de passagem necessário à formação psicológica dos alunos. Sem ter a quem recorrer, muitas das vítimas optam pelo suicídio. Outros, se isolam: por ano, um aluno em cada sessenta se recusa a voltar para a escola por medo do ijime. Mas alguns buscam por um refúgio em meio à fantasia. Estes são os otaku.

Entretanto, não é porque o indivíduo deixa a escola que a escola deixa o indivíduo. Para Barral, ao buscar acumular informação sobre o seu objeto de adoração – mangás dos mais variados, gravações em VHS do tokusatsu do momento, recorte de jornais e revistas sobre uma idol qualquer – o otaku reproduz a lógica do sistema escolar, onde a memorização acrítica de informação toma primazia. Mesmo assim, Barral vê nesse esforço por documentar o irrisório um tipo de rebeldia. Por meio dele, o otaku “põe em ridículo a sociedade produtivista na qual nasceram, pervertendo grosseiramente os objetos e os símbolos dessa sociedade” (pág. 192).

Nesse ponto do livro, do trinômio educação, informação e consumo, Barral já falou de dois. Todo o primeiro capítulo pode ser entendido como uma exploração dos hábitos de consumo do otaku, enquanto que até este ponto o segundo cuidou de explicar a importância da escola na sua formação. Resta, assim, apenas um. Entra em cena a masukomi.

Abreviação de “comunicação de massa”, Barral argumenta que é difícil entender a onipresença das mídias no Japão sem estar ali presente. Exemplo emblemático sendo o que se passou quando a Dentsu, maior empresa de comunicação publicitária, obteve os direitos de promoção dos jogos olímpicos de Barcelona e da exposição universal de Sevilha de 1992. Nas semanas anteriores aos eventos, todo o foco da mídia se voltou para a Espanha, criando no país uma onda espanhola.

Fenômeno típico, como exprime Barral: “nas semanas que precedem ou seguem um evento tido como importante nacionalmente, é comum encontrar 25, 30, até 50 títulos recentes publicados sobre o assunto nas vitrines das livrarias” (pág. 203). Algo que pode ser explicado pela forma como o japonês encara a informação. Mais uma vez se fazendo presente a lógica escolar do decorar sem criticar, não estar bem informado – isto é, não estar a par do que as outras pessoas estão – é tido como motivo de vergonha.

Em 1991, a idol Miyazawa Rie lançou um álbum de nus. Movimento arriscado à época, a mídia se apressou em cobri-lo ao máximo. O resultado? Segundo uma pesquisa da revista Spa!, recente à época do livro, com 100 garotas colegiais, 41% teriam afirmado desejar publicar um álbum de nus um dia. Comenta Barral: “Através de um jogo de prestidigitação, as mídias conseguiram impor às garotas a ideia de que o fato de posar nua era, para elas, um meio de afirmar sua identidade, de se valorizar” (pág. 215).

O capítulo encerra com alguns dizeres do auto-proclamado “Rei dos Otaku”, o otaking Toshio Okada, um dos fundadores da GAINAX. Entre 1994 e 1997, Okada lecionou na Universidade de Tóquio um curso de “otakulogia”. O motivo de sua desistência foram seus alunos: enquanto Okada insistia que o otaku devia ser capaz de analisar uma obra de diversos ângulos, ele também percebeu que seus alunos nunca aplicavam o que aprendiam ao seu próprio curso. O ensino japonês é unilateral. E acrítico.

O terceiro e último capítulo se intitula O Otakauismo, sendo dedicado ao atentado terrorista com gás sarin, liberado no metrô de Tóquio em 1995, e a seita responsável por ele, a Aum Shinrikyo (ou Aum Verdade Suprema, como Barral traduz).

Se a princípio a escolha de tema talvez soe deslocada frente ao que o livro vinha trabalhando até então, logo no começo Barral justifica a decisão argumentando que há semelhanças entre o que leva uma pessoa a uma seita como a Aum e o que a leva a se tornar um otaku. Contextualizando a seita num “boom” de ocultismo que teve início nos anos 1980, Barral aponta: “O dogma produtivista do alto conhecimento a qualquer preço, do consumo exagerado e da ‘rainha’ economia não encontra mais eco entre os jovens que se interrogam sobre seu futuro, apontam a destruição ambiental, as humilhações escolares e as mortes por excesso de trabalho” (pág. 240).

Boa parte dos membros da seita e daqueles que executaram o atentado que deixou 12 mortos e cerca de 5 mil feridos eram jovens oriundos de algumas das mais prestigiadas universidades do país. Desconcertados com a sociedade na qual viviam, e sentindo que as perspectivas do mercado de trabalho (onde teriam de começar de baixo em uma empresa qualquer) não correspondiam aos seus talentos, esses jovens foram presa fácil para alguém como Asahara Shoko (nome verdadeiro: Matsumoto Chizuo), fundador e líder da Aum.

Asahara sabia como manipular esses jovens. Lhes dava respostas fáceis para duvidas complexas. Lhes dava posição de destaque e comando no interior da Aum, mostrando que valorizava seus talentos mais do que a sociedade externa. Vindos de um sistema escolar ineficiente em desenvolver o pensamento crítico, esses jovens não tinham defesas contra suas palavras.

A própria Aum estava plena de referências à cultura otaku. Apesar de começar como uma seita budista tradicional, com o passar do tempo mais e mais elementos foram adicionados. Asahara acreditava que o “Armagedon” (termo bíblico que aparecia com frequência em mangás da época) estava próximo, e que os membros de sua seita estavam sendo alvo de armas biológicas, contras quais usava de purificadores de ar que chamava de “cosmo cleaner” (termo tirado do anime Uchuu Sekan Yamato).

A mídia foi rápida em condenar a Aum, mas tamanha exposição da seita levou a um efeito perverso: a “moda Aum”, na qual vemos surgir os otaku pela Aum: os “Aumer”. Sobre estes, Barral comenta: “O que começa frequentemente como um jogo inocente de adolescente com tendência otakista, em busca de emoção para seu cotidiano, desemboca na adesão à ideologia da seita, apesar de sua reputação” (pág. 263). Os otaku têm essa tendência de subverter aquilo que a sociedade lhes empurra, mas essa subversão tem também seu lado perigoso.

Ao final do capítulo, Barral aponta que o atentado ao metrô de Tóquio vem exatos cinquenta anos após o fim da Segunda Guerra, e pode muito bem ser um sintoma de um Japão que ainda não conseguiu realmente digerir a sua derrota naquele conflito. Ao finalizar, coloca: “Em vez de seguir a massa embrutecida pelas mídias e cega pelas miragens da sociedade de consumo, os otaku mostram com desdém que o rei está nu, enquanto os adeptos da seitam Aum tentam, desastradamente, desestabilizar o sistema” (pág. 268).

O livro então termina com uma Conclusão, onde Barral pondera que a cultura otaku, ao se difundir pelo mundo, esqueceu muito de suas raízes. Ele também aponta a ironia da situação, de que um fenômeno que a mídia japonesa um dia considerou apenas uma moda passageira tenha se tornado tão forte. E ao encerrar, proclama: “viva os pregos que se diferenciam!” (pág. 271).

Bibliografia:

BARRAL, Étienne. Otaku: os Filhos do Virtual. São Paulo, editora SENAC. 2000

E você, leitor, que achou das ideias apresentas em Otaku: os Filhos do Virtual? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

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