Antiguidades – Choujuu Jinbutsu Giga: O Primeiro Mangá da História?


Explorando esse emakimono de oito séculos


Onde começa a história do mangá? Qual obra foi, afinal, o primeiro exemplar dessa mídia? Eu quero começar esse texto já adiantando que a resposta não é, e nem poderia ser, tão clara quanto alguns talvez gostariam, por motivos que ainda discutiremos ao longo deste artigo.

Dito isso, por muito tempo se apontou a uma certa obra talvez não exatamente como o primeiro mangá, de fato, mas mais como o seu mais antigo ancestral. Uma coletânea de quatro emakimono (literalmente “rolo de pintura”) pertencentes ao templo Kōzan-ji, na moderna Quioto, produzidos entre os séculos XII e XIII, quando a cidade ainda era a capital imperial.

Chōjū Jinbutsu Giga (literalmente “caricaturas de animais antropomórficos”), ou apenas Chōjū Giga, é o nome que se dá a esse conjunto específico de quatro emakimono, considerados como legítimos tesouros nacionais.

Atualmente, os dois primeiros volumes estão sob a guarda do Museu Nacional de Tóquio, enquanto que os demais dois estão com o Museu Nacional de Quioto. E apesar da já mencionada longa tradição discursiva que os coloca como a origem do mangá moderno, em tempos mais recentes alguns começaram a questionar até que ponto este seria mesmo o caso.

Choujuu Giga: detalhe do rolo 1

 

Chōjū Jinbutsu Giga

Agora, antes de entrarmos de cabeça em toda a discussão em torno de se esses quatro emakimono são de fato ou não os antecessores do mangá moderno, vamos primeiro dedicar alguns parágrafos a entender melhor o que eles são, em que contexto foram produzidos, e o que exatamente retratam.

De particular utilidade nessa empreitada é o livro de Frederik L. Schodt, Manga! Manga! The World of Japanese Comics. Publicado pela primeira vez em 1983, sendo um dos primeiros trabalhos do tipo sobre mangá, o livro se tornou referência bibliográfica obrigatória para qualquer um que queira estudar essa mídia, ainda que seu objetivo inicial fosse bem mais modesto: simplesmente apresentar o mangá ao leitor.

Ao traçar uma breve história do mangá, Schodt começa no distante passado, com a adoção de costumes, pela corte japonesa, da China, nos séculos VI e VII. Entre estes costumes estava o budismo, e aqui começa a construção de templos da religião em solo japonês. Isso é importante pois, como o livro conta, é nas paredes desses templos que vamos encontrar algumas das primeiras caricaturas do Japão.

Choujuu Giga: detalhe do rolo 1

Schodt chama ao Chōjū Giga de “a primeira indisputável obra prima em desenho do Japão” [1], colocando-o como o pináculo dessa tradição já bastante antiga, e aponta que seu especulado criador teria sido Kakuyu (1053–1140), mais conhecido pelo nome Toba Sōjō: literalmente “o sōjō (título religioso normalmente traduzido como ‘bispo’) de Toba (prefeitura de Kyoto)”. Embora, vale dizer, Schodt coloca que o consenso era o de que apenas os dois primeiros emakimono teriam sido feitos por ele.

Em termos de conteúdo, o primeiro volume é o que parece fazer mais jus ao nome da coletânea, apresentando diversos animais – entre coelhos, sapos, macacos e outros – praticando atividades humanas. O segundo volume apresentaria apenas alguns esboços de animais. Já no terceiro e o quarto figuram não animais, mas clérigos imersos em todo tipo de atividade então tidas como imorais, como jogo e apostas.

Não sem surpresa, os quatro emakimono foram interpretados como uma crítica aos vícios da época, colocados dentro de uma tradição pictórica que usa do humor e do escatológico para transmitir determinados valores budistas. Não, porém, que faltasse no período trabalhos bastante distanciados de qualquer conotação religiosa. Schodt chega mesmo a mencionar dois destes: o Hōhigassen (“Competição de Peidos”) e o Yōbutsu Kurabe (“Competição Fálica”), cujas lendas a respeito atribuem a autoria de ambos ao próprio Toba.

Choujuu Giga: detalhe do rolo 2

 

O Primeiro Mangá?

Que argumentos existem a favor da hipótese de que seria o Chōjū Giga o ancestral do mangá moderno?

A questão narrativa parece ser o principal. Schodt menciona que rolos como o Chōjū Giga “estão entre os mais antigos exemplos sobreviventes da narrativa em quadrinhos japonesa” [2]. Conforme o rolo vai sendo desenrolado (da direita para a esquerda, sentido de leitura ainda hoje vigente no Japão), uma série de cenas e acontecimentos vão se revelando.

Schodt inclusive menciona que “assim como nos quadrinhos de hoje, mudanças no tempo, lugar, e atmosfera eram indicados pelo nevoeiro, flores de cerejeiras, folhas de plátano, ou outros símbolos de entendimento comum” [3]. E é particularmente famosa a imagem de um coelho saltando com linhas de movimento em suas costas: um recurso usado no mangá (e mesmo no anime) ainda hoje para indicar movimento e velocidade.

Pelo menos três décadas antes de Schodt, o crítico de cinema Taihei Imamura chegou a traçar comparações entre esses antigos rolos e a animação japonesa de então. Em seu artigo “Japanese Art and Animated Cartoons“, cuja tradução para o inglês, por Fuyuichi Tsuruoka, foi publicada no sétimo volume da revista The Quarterly of Film Radio and Television, de 1953, Imamura argumenta que esses rolos foram uma primeira tentativa de introduzir um elemento temporal na pintura.

Choujuu Giga: detalhe do rolo 3

E não é essa a essência do quadrinho? Da arte sequencial? Está até no nome! Qual poderia então ser o problema de considerar o Chōjū Giga como o mais antigo ancestral do mangá? Bom…

Miyamoto Hirohito traz um argumento interessante de se pensar a respeito. Em seu artigo “The Formation of an Impure Genre – On the Origins of Manga“, publicado no volume 14 da revista Review of Japanese Culture and Society, de dezembro de 2002, Hirohito aponta que a própria palavra “manga” só veio a tomar forma ao final da era Meiji (1868 – 1912), e que o discurso que buscava traçar uma linha cronológica desde o Chōjū Giga até o mangá moderno era também um produto desse período.

Segundo Hirohito, de particular importância na época foi o desejo por uma distinção rígida entre arte e literatura. O primeiro deveria constituir apenas de pintura, enquanto que o segundo apenas de texto. Nesse contexto, o mangá vai tomando forma como um sub-gênero da arte (tenham em mente que nessa época “mangá” significa sobretudo as caricaturas e charges de jornais), e inclusive vai perdendo muito de seu texto, ainda que não todo.

Considerar ao Chōjū Giga como o predecessor do mangá seria, portanto, pouco mais que um anacronismo, uma tentativa de encaixar o passado em conceitos modernos.

Choujuu Giga: detalhe do rolo 4

Jaqueline Berndt coloca também qual poderia ser o propósito de fazer essa associação entre um emakimono de quase oito séculos e o mangá moderno. Em seu ensaio “Considering Manga Discourse”, publicado no livro Japanese Visual Culture: Explorations in the World of Manga and Anime [resumo], de 2008, Berndt argumenta que no passado essa ligação serviu para a legitimação do mangá como arte, enquanto que na atualidade ela serve à divulgação das artes tradicionais. E critica:

(…) alegar que o Chōjū Giga seria um ancestral direto do mangá seria faltar com precisão histórica. Essa obra de arte (…) difere fundamentalmente do mangá. O Chōjū Giga foi pintado a mão, e, como residia originalmente no templo Kōzanji, podia ser acessado apenas por certas pessoas em condições restritas. Além disso, ele não possui um texto narrativo escrito (kotobagaki) nem uma narrativa coerente e claramente identificável. [4]

O argumento aqui é o de que essa tentativa de traçar uma linhagem ininterrupta que vai desde o Chōjū Giga até o mangá moderno é apenas discurso. Um apelo a algum tipo de essencialismo japonês, que não leva em consideração as influências estrangeiras decisivas para a confecção daquilo que hoje chamamos de mangá.

Qual, então, seria o ponto de partida da história dos mangás? O consenso atual parece apontar sobretudo para as chamadas ponchi-e: as charges de jornais que tiveram seu início no Japão com a revista Japan Punch, criada pelo britânico Charles Wirgman, em 1862. Berndt, porém, pede cautela: mais do que tentar ver a história do mangá em termos de continuidades ou descontinuidades, uma abordagem que considere a ambos seria o ideal.

Choujuu Giga: detalhe do rolo 4

 

Legado e Conclusões

Como mencionado no começo do texto, atualmente os quatro emakimono estão divididos entre o Museu Nacional de Tóquio e o Museu Nacional de Quioto, o que significa que exibições dos quatro juntos são raras.

Dito isso, houve algumas ao longo da história, como a exibição do museu Suntory “National Treasure, Choju-Jinbutsu-Giga Emaki – A Special Exhibition Celebrating the New Home of the Suntory Museum of Art“, de 2007, e a exibição do Museu Nacional de Tóquio “Masterpieces of Kosan-ji Temple: the complete scrolls of Choju Giga, Frolicking Animals“, de 2015.

Na cultura popular, o Chōjū Giga já fez diversas aparições. Apenas para citar algumas, Kyousougiga [review], que começou como um ONA (animação para a internet) em 2011, antes de ganhar uma série para a TV em 2013, faz algumas referências sobretudo ao primeiro volume da coleção, com algumas imagens do emakimono inclusive aparecendo nos minutos iniciais do ONA.

Fragmentos do Choujuu Giga em Kyousougiga.

Em 2016, o estúdio Ghibli animou partes do Chōjū Giga para uma série de três comerciais da Marubeni Power, demonstrando o quanto a obra está enraizada na cultura japonesa. No mesmo ano, foi lançada para a TV a primeira temporada do anime Sengoku Choujuu Giga, em cujos episódios de aproximadamente 3 minutos figuras históricas do período dos estados guerreiros são representadas pelos animais do Chōjū Giga, com uma estética geral que também remete aos emakimono.

Como eu disse, apenas alguns exemplos, mas que demonstram que a obra ainda está bastante viva na memória japonesa – um feito impressionante por si só.

Quando daquela exposição de 2007 no museu Suntory, o portal Anime News Network noticiou um ensaio escrito pelo jornalista Kanta Ishida para o jornal Yomiuri Shimbun, onde ele explora a história do mangá, mas conclui que o Chōjū Giga deveria ser visto como uma obra prima em si mesmo, ao invés de ser entendido apenas como o ponto de partida de uma outra mídia. Uma reflexão bastante válida, e um bom ponto para encerrarmos este artigo.

E você, leitor, que tem a dizer de tudo isso? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

Notas:

1 – Tradução livre de “(…) Japan’s first undisputed masterpiece of cartooning (…)”. Schodt, Frederik L. Manga! Manga! The World of Japanese Comics. Estados Unidos. Editora Kodansha, 2012. Pág. 28.

2 – Tradução livre de “Picture scrolls like the Chōjūgiga are among the oldest surviving exemples of Japanese narrative comic art”. Idem.

3 – Tradução livre de “(…) like the comics of today, changes in time, place, and mood were signified by mist, cherry blossoms, maple leaves, or other commonly understood symbols”. Idem. Pág. 29.

4 – Tradução livre de “(…) claiming Chōjū Giga as the direct ancestor of modern manga lacks historical accuracy. This artwork, which has been considered a national treasure since 1899 and was placed in the Imperial Museum in 1906, differs fundamentally from manga. Chōjū Giga was painted by hand, and, since it resided originally in the Kōzanji temple, it was accessible only to certain people under restricted conditions. Moreover, it lacks a written narrative text (kotobagaki) and a clearly identifiable, coherent narrative”. Berndt, Jaqueline. “Considering Manga Discourse”, in MacWilliams, Mark W. Japanese Visual Culture: Explorations in the World of Manga and Anime. Estados Unidos. Editora M. E. Sharpe, 2008. Pág. 306.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 1 [Wikipedia]

2 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 1 [Wikipedia]

3 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 1 [Wikipedia]

4 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 2 [Wikipedia]

5 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 3 [Wikipedia]

6 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 4 [Wikipedia]

7 – Chōjū Giga, detalhe do rolo 4 [Wikipedia]

8 – Kyousougiga, episódio 00

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s