Uma Breve Análise – Overlord: Quando a Humanidade se Torna o Underdog


Protagonista vilão?


O que é preciso para que o protagonista seja, também, o vilão de sua própria história? Não poucas obras nos prometem acompanharmos a ascensão do vilão daquele universo, mas eu diria que bem poucas obtêm êxito na empreitada. Claro, podemos discutir se é se quer possível que o protagonista seja também o vilão, a depender de se “vilão” é necessariamente uma categoria moral, indicando sempre aquele que está moralmente errado naquela narrativa, ou se na verdade a palavra é apenas uma forma de indicar qualquer personagem que antagonize o protagonista. Mas assumindo que isso seja possível, qual o ingrediente que permitiria a tanto?

Overlord fornece um interessante exemplo para essa questão. Light novel de Kugane Maruyama, adaptada em, até o momento, três temporadas de anime, a trama da obra começa quando do fechamento do MMORPG em realidade virtual Yggdrasil. Aqui temos o protagonista, o jogador de alto nível Momonga, em seu avatar de elder lich, que caminha pelos corredores da sua antiga guilda, a Ainz Ooal Gown, interagindo uma última vez com os NPCs que ele e seus amigos criaram quando o jogo ainda estava em seu ápice. Sentando pela última vez em seu trono, a contagem regressiva para o fim do jogo chega a 0, mas então algo acontece.

Ao invés de ser expulso daquele mundo virtual, Momonga, ainda em seu avatar do jogo e junto do prédio da Ainz Ooal Gown e todos os NPCs ali dentro, é transportado para um mundo de fantasia com regras bastante similares à Yggdrasil. Aqui, e pelo menos até onde o anime nos mostrou, Momonga se revela como o ser mais poderoso, dotado de habilidades herdadas do jogo que o tornam praticamente imbatível por qualquer outra pessoa ou monstro. Mas apesar disso, no princípio os seus esforços se concentram em tentar encontrar outros jogadores de Yggdrasil que por ventura tenham sofrido o mesmo destino. E isso é um dado importante.

Durante o começo de Overlord, há bem pouca base para chamar o Momonga, que adota o nome de sua antiga guilda a fim de tentar chamar a atenção de qualquer possível jogador, de um “vilão”. Sim, ele tem a aparência de um esqueleto, e sim, é mencionado que ele não possui empatia pelos humanos, mas essa sua falta de empatia nem por isso se traduz em desdém, desgosto, ou efetiva agressividade contra os humanos. Muito pelo contrário, até: suas ações, pelo menos nesse começo, soam até mesmo heroicas. Fora que, vale apontar, o anime tendia a retratar os inimigos do Ains como objetivamente muito piores, moralmente, do que ele próprio.

A coisa começa a mudar um pouco a partir da segunda temporada do anime, e ao final da terceira eu já não teria problemas em chamá-lo de vilão. Então: o que mudou? Agora, eu quero manter este texto o mais livre de spoilers que for possível, então eu não vou realmente entrar em detalhes. Mas eu diria que se trata de uma combinação de pelo menos três fatores: a moralidade do protagonista, a moralidade de seus antagonistas, e aquilo que eu apontei no título deste artigo, o fato da história colocar a própria humanidade na condição de underdog. Vamos por partes.

Começando do ponto mais fácil, numa história onde acompanhamos o vilão é importante que ele não seja o bastião moral da obra. Se nós temos um protagonista de moral torpe, mas que enfrenta antagonistas de moral ainda mais torpe, então o que temos aqui é um anti-herói, não um vilão. No começo de Overlord, onde os antagonistas incluem soldados assassinando criancinhas e uma sociopata que se diverte matando inocentes, Ains de fato surge como o bastião moral ali. Ele talvez não tenha empatia pelos humanos, mas ei, pelo menos ele não está assassinando gente indiscriminadamente! Conforme a trama avança, porém, a coisa vai mudando um pouco.

Os antagonistas de Ains deixam de ser caricaturas da maldade e se tornam seres com uma moralidade bem mais cinza. Alguns são, inclusive, boas pessoas. E nisso o Ains vai perdendo esse posto de centro moral da história. Isso, também, por conta das suas próprias ações: vemos que ele não tem problemas em matar inocentes se isso lhe trouxer algum benefício, e ele até se torna conivente com não poucos massacres na segunda e terceira temporadas do anime. A obra nunca faz dele um completo monstro, do tipo que sairia massacrando tudo o que vê pelo caminho só porque sim, mas, como eu disse, ele vai perdendo o seu posto de moralmente superior aos seus inimigos.

Agora, para muitos talvez pareça que um protagonista de moral torpe enfrentando antagonistas de moral não torpe é o suficiente para qualificar o primeiro como o vilão da história, mas eu acrescentaria um elemento: é preciso também que a audiência queira vez o protagonista perder. Porque esse é o destino de um vilão, não? A sua função narrativa, até, pelo menos na maioria dos casos. Sem esse elemento, se mesmo o protagonista tendo um moral torpe a audiência ainda torce pelo seu sucesso, eu argumentaria que ele não está cumprindo a função que um vilão deve cumprir em uma história. Mas como você faz para que a audiência queira ver o protagonista perder?

Overlord faz isso numa dimensão micro e numa dimensão macro. No primeiro caso, ele o faz nos apresentando e desenvolvendo personagens que, eventualmente, entrarão em conflito com o protagonista, não raras vezes terminando mortos por ele. São quase sempre personagens que terminamos por gostar, em cujos combates com o Ains nós torcemos para que saiam vivos, e cujas mortes servem para ir lentamente minando a cumplicidade natural que existe entre audiência e protagonista. Mas talvez o mais efetivo venha ao final da terceira temporada, quando fica implicado que eventualmente teremos um conflito direto entre Ains e praticamente toda a humanidade.

Sejamos honestos: nós, como audiência, adoramos torcer pelo underdog. O menos favorecido, que com esforço e ingeniosidade supera a todos os desafios, subvertendo expectativas e vencendo os favoritos da competição, é um mito bastante poderoso, um reforço da ideologia meritocrática tanto quanto um reflexo do nosso desejo por um mundo justo (onde esforço pode te levar até o topo). Não é a toa que histórias do tipo soam tão inspiradoras. E o que isso tem a ver com Overlord?

O leitor já deve ter entendido, mas num conflito direto entre Ains e a humanidade, a humanidade é que se coloca na posição de underdog. Nós, como audiência, sabemos que Ains é perfeitamente capaz de eliminar exércitos inteiros sozinho, sendo praticamente invencível em confronto direto se estiver auxiliado pelos NPCs de sua antiga guilda. Não importa como vejamos isso, a humanidade simplesmente não tem chance, pouco importa quantos reinos se unam contra o Ains. E é justamente isso que nos faz torcer por eles.

Combinando esses três elementos, nós vemos como Overlord foi do que poderia ser a narrativa de um anti-herói, isso se não até mesmo a de um convencional herói, em direção a uma narrativa do vilão de fato. É claro, eu tenho certeza que mesmo com tudo o que eu falei ainda há pessoas que torcem pelo sucesso do Ains, muito da forma como existem pessoas que insistem em torcer pelo vilão. É uma discussão que poderia se alongar bastante ainda, mas por agora eu vou só deixar a reflexão. Para min, Ains é o protagonista, e também é o vilão.

E você, leitor, que pensa de tudo isso? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

Imagens: Overlord III, episódio 13

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