Café com Anime – Shoujo Kageki Revue Starlight, episódios 11 & 12


Nossa conversa semanal sobre animes da temporada.


E aqui começa mais um Café com Anime, agora para comentarmos os dois últimos episódios de Shoujo Kageki Revue Starlight. E como de costume, a mim aqui se juntam o Vinicius Marino, do Finisgeekis, o Fábio “Mexicano”, do Anime21, e o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, para discutirmos nossas impressões e opiniões sobre o título.

Fica aqui a dica para irem também conferir os demais blogs participantes, pois cada um servirá de host à discussão de um anime. No Finisgeekis, vocês conferem nossas conversas sobre Happy Sugar Life; no Anime21 aquelas de Banana Fish, e no Dissidência Pop teremos aquelas referentes à Hanebado. E dados os avisos de sempre, vamos então à conversa. Peguem uma xícara do seu líquido favorito, sentem-se confortavelmente, e vamos em frente.


Diego:

E as cortinas se fecham para este grande espetáculo! Mas não, claro, sem que as personagens nos dessem uma pequena mesura final, aceitando os merecidos aplausos pelo show que entregaram.

Vou dizer que Shoujo Kageki Revue Starlight chegou bem perto de ser o meu anime favorito dessa temporada. Não fosse a terceira temporada de Yama no Susume, ele certamente teria tomado o posto. Foi um dos animes que eu mais antecipava o próximo episódio, e um que nunca falhou em entregar algo, fosse um twist de explodir a cabeça, fosse um show de coreografia, animação e música.

Neste nosso último Café com Anime de Starlight, vamos discutir os dois últimos episódios, 11 e 12. Mas antes disso, que tal darem algumas palavras sobre o anime como um todo? Para vocês, Revue Starlight correspondeu às expectativas?


Vinicius Marino:

Eu confesso que tinha poucas expectativas. Depois, com os primeiros episódios, elas cresceram um pouco além da conta. A despeito de elas terem baixado uma segunda vez, lá pelo meio do anime, devo dizer que a impressão final não podia ter sido melhor.

Ecoo aqui o Diego. Não sei se foi meu favorito da temporada (nem sei se tenho um favorito), mas foi uma delícia de assistir. Original, emocionante e puta que pariu, que produção de primeira!


Gato de Ulthar:

De fato, foi uma produção impecável no que concerne os aspectos técnicos. Teve seus altos e baixos, como a própria protagonista que não me despertou muito interesse. Por um outro lado, o restante das personagens foram interessantíssimas, como a Banana.

O final foi bem justo se levar em conta o que a série foi como um todo. A conclusão não chamou a atenção por um plot twist ou algo do gênero, foi bem o esperado, a Karen buscando a estrela junto com a Hikaru.

O final foi bem justo se levar em conta o que a série foi como um todo. A conclusão não chamou a atenção por um plot twist ou algo do gênero, foi bem o esperado, a Karen buscando a estrela junto com a Hikaru.


Fábio “Mexicano”:

O final não foi tanto uma revolução quanto foi uma reafirmação do direito que as garotas têm de buscar seu próprio final ideal, o que em alguns lugares (como no Takarazuka) isso pode sim ser bastante “revolucionário”, mas no geral, para a vida, a gente chamaria isso apenas de “direito de ser livre”. E sim, a produção tirou leite de pedra para entregar algo agradável aos olhos apesar das óbvias limitações.


Diego:

E que limitações… Não seria exagero dizer que foi um verdadeiro milagre esse anime ter terminado. Muneki Ogasawara, presidente do estúdio Kinema Citrus, chegou mesmo a dizer, já no segundo episódio do anime, que não sabia se conseguiriam terminar a obra. Aparentemente, Revue Starlight foi vítima de sua própria ambição, apenas por muito pouco conseguindo cumprir seus prazos, contando mesmo com a ajuda de animadores freelancer internacionais.

Eu diria, porém, que o maior milagre aqui foi esse anime conseguir manter uma produção tão polida mesmo com todos esses problemas. É inegável que os primeiros episódios tem um visual muito mais impactante, excetuando-se talvez o embate entre a Hikari e a Banana, mas mesmo assim os episódios finais ainda conseguiram se manter um colírio para os olhos. É de se admirar, convenhamos.


Vinicius Marino:

Eu comecei comparando Starlight a Princess Tutu e adivinha? Vou terminar fazendo o mesmo :slight_smile:

O cenário dessa última revue, nessa espécie de limbo arenoso, me lembrou muito o interior do Corvo em Princess Tutu, quando Rue é forçada a dançar até morrer.


Diego:

Sempre bom lembrar como certos animes infantis conseguem ter conceitos absurdamente mais fucked up que muito anime gore pra adolescente :smile:

Ah, mas não nos adiantemos demais! Afinal, estamos aqui para falar de dois episódios. Comecemos, então, pelo 11. O que mais gastaram aqui e por que foi a cena da Karen descendo até o palco? :stuck_out_tongue:


Fábio “Mexicano”:

Porque o resto só estava lá para passar o tempo, literalmente, dentro e fora do anime? :joy:


Vinicius Marino:

Pareceu-me uma referência clara à cena da biblioteca em Mawaru Penguindrum. Outro primor de animação, disparado meu episódio favorito daquele anime.

A música do clipe, Butai Shoujo Kokoroe, é até reminiscente de Grey Wednesday, a canção que embala Penguindrum. Aliás, o arranjo intimista, low key do anime em muito supera a versão “de álbum”.

E, bom, de resto o Fábio teve razão. Essa cena foi a “chave” do anime. Faria até sentido por si só.

O que é um elogio, mas também uma crítica. Os números cantados são tão bons (e esse, em especial, é tão superior aos outros) que sinto que o resto estava lá de filler.

O que, sei lá, é algo próprio do teatro musical, então nem sei se tenho o direto de reclamar.


Diego:

Eu não acho que o restante foi “filler”. Apesar da minha brincadeira, eu diria que o penúltimo episódio teve diversos bons momentos. Coisas como o quão “seca” é a passagem do tempo, refletindo no quão brutal ela parece para a Karen, ou como a Karen percebe que perdeu seu “brilho” da mesma forma que a Hikari (durante uma performance) foram bastante comentadas quando o episódio saiu, e são todos pontos que eu concordo bastante.

Eu também gosto de como o anime sabe usar de seus “trocadilhos”. Hikari se sacrificou acreditando que assim impediria a Karen de perder seu brilho, sem se dar conta de que era ela própria, cujo nome significa “luz”, o brilho da amiga. Eu achei esse um episódio bastante sólido de maneira geral. Desde o seu começo Starlight foi bastante criticado por sua parte “no mundo real” não ser tão chamativa ou impactante quanto as audições, mas acho que todos podemos concordar que as próprias audições – e mesmo este interlúdio – não teriam o impacto que têm sem esse lado do mundo real, não concordam?

(E por sinal: de fato a descida da escada lembra muito a cena da biblioteca em Mawaru Penguindrum)


Vinicius Marino:

Acho que as passagens do mundo real melhoraram muito com o passar do anime. Depois do sumiço da Hikari, ou antes ainda, com o “twist-Banana”, ficaram essenciais à obra.

O início… poderia ter sido melhor, em retrospecto. Mas não foi ruim, de forma alguma, e não atrapalhou.

Só o falso bilinguismo da Claudine. Aquilo não dá pra comprar :stuck_out_tongue_closed_eyes:


Fábio “Mexicano”:

Pra quem não entende nem japonês nem francês quase passa :stuck_out_tongue:

O anime pré-Banana estava desenvolvendo (só um pouquinho) as personagens secundárias. Será que Starlight teria se beneficiado de menos personagens? Ou será que com menos elas pareceriam tão importantes que roubariam um pouco do brilho das protagonistas e outras centrais (como a Banana)?


Vinicius Marino:

Acho que é uma cilada 22. Por um lado, sim, pois daria atenção redobrada a quem merece. Por outro, é um tipo de premissa que meio que depende de um grupo grande. É uma classe, afinal, que está competindo (toda) entre si.

É um problema similar ao enfrentado por Angel Beats, que também fala de um classe meio indivisível, e também não teve tempo para explorar todo mundo. Angel Beats sofreu um pouco mais, pois tinha muito mais personagens e teve de “explodir um shopping” (metaforicamente) para eliminar meio elenco lá pelo final.


Gato de Ulthar:

Foi o esperado de um anime de 12 episódios, realmente não se dá para focar devidamente em tanta gente, mas foi como o Vinicius disse, não dava para simplesmente deixar alguma personagem completamente de lado ou restringir o número delas.


Diego:

Fora que para excluir qualquer uma dessas personagens o anime teria de ser bem diferente, né? Talvez a Kaoruko e a Futaba pudessem sair sem muito prejuízo, já que a história das duas se liga muito pouco à da Hikari e a Karen. Mas as demais… O roteiro desse anime me pareceu muito bem fechado, no sentido de usar muito bem de seu tempo e não deixar muita brecha pra cortes.


Fábio “Mexicano”:

Kaoruko e Futaba servem de paralelo para a gente entender melhor a relação entre Maya e Claudine. Elas são mais “povão”, enquanto as outras estão tão acima das outras que são quase incompreensíveis, acho que o anime precisaria gastar tempo desproporcional nelas se não tivesse Kaoruko e Futaba. Fora que é interessante ver um par em que a dominante não é a mais masculina.


Diego:

Bom, por isso o meu “talvez” :stuck_out_tongue: No fim, acho que podemos concordar que, para todos os efeitos, Revue Starlight tirou o melhor proveito de suas decisões.

Mas acho que agora podemos avançar, não é? Pois bem: após a fantástica cena final do episódio 11, temos então o episódio 12. O que acharam do final do anime?


Vinicius Marino:

Achei a cena do deserto à la Princess Tutu um tanto alongada demais. Mas o próprio conceito daquela revue, com aquelas estrelas opressivas destruindo o trabalho duro da Hikari foi de cair o queixo.


Fábio “Mexicano”:

O que achei da cena final, do que levou ao final, ou de como terminou?


Diego:

De todo o episódio final, Fábio :stuck_out_tongue:


Fábio “Mexicano”:

Eu acho que o anime cantou a bola do seu final há muito tempo. Está lá, as duas conseguiram, mudaram a história, deixou de ser uma tragédia. A Karen salvou a Hikari, e ao fazer isso salvou também a si mesma, porque foi a Hikari quem primeiro a havia dado a motivação para viver. De várias formas, isso espelhou o que aconteceu com a Hikari em Londres, após sua derrota, ela só não conseguiu chegar à conclusão final, redentora, porque aquilo era algo que só a Karen poderia fazer.

A forma como o anime executou isso foi bastante competente. A parte do deserto foi um pouco longa, como o Vinicius disse, mas mesmo assim eu estava emocionado durante todo o episódio final. E foi bonito.


Gato de Ulthar:

Também concordo que a parte do deserto foi longa, mas foi importante para dar um panorama eficaz do vazio existencial da Hikari e que seus esforços de escapar daquilo estavam sendo totalmente infrutíferos e que somente com ajuda de alguém, leia-se Karen, ela conseguiria escapar daquele lugar. O uso da simbologia do empilhamento de estrelinhas foi bem eficiente, me lembrou o mito de Sísifo, onde se empurrava eternamente uma pedra até o topo de uma montanha e no fim do dia ela voltava ao chão.


Diego:

Pelo visto só eu não achei a parte do deserto longa demais :smile: E sim, as ações da Hikari lembram bastante ao mito de Sísifo. E eu acho que nesse ponto vale a pena perguntar: por quê? Teoricamente, todo aquele deserto rosa era o palco escolhido pela própria Hikari. O que a gente pode tirar disso? Que simplesmente ela não tinha brilho o bastante para produzir o seu palco dos sonhos, o que acabou com aquele palco pela metade? Ou que talvez aquele cenário fosse exatamente o que ela desejou, por algum motivo?


Fábio “Mexicano”:

Ela estava repetindo de novo e de novo a peça, como, parece, ela foi obrigada por ter vencido tudo mas não levado nada. Não acho que tenha faltado algo a ela. Mas não sei se ela escolheu especificamente aquele cenário.


Gato de Ulthar:

Acho que é bem o que o Fábio disse, ela ganhou as audições mas não levou nada, por isso entrou no limbo da peça de Starlight, ficar separada de sua amiga querida.


Vinicius Marino:

Eu entendi que o limbo se deveu a um incompatibilidade entre os sonhos dela e da Karen… e do fato de seu projeto conjunto de se tornarem top stars juntas ser contraditório ao próprio sistema das revues. Pelo menos é assim que aquele monólogo no final do episódio 10 me parece, vendo-o agora através do que aconteceu no 11.


Diego:

São boas teorias. De minha parte, confesso que eu meio que só aceitei :stuck_out_tongue:

Mas avançando um pouco, o que acham do discurso que a Hikari faz quando a Karen quebra sua performace? Aquele sobre a tiara não ter nenhum valor real, sendo praticamente apenas uma isca.

Vou dizer que foi um dos momentos onde Starlight se mostrou verdadeiramente critico desse sistema da top star, indo além do caso especifico da Karen (que vai contra o sistema só porque quer estar no topo junto da amiga, não por qualquer questão ideológica).


Fábio “Mexicano”:

Bom, mas é só a verdade, não é? Estar no topo não te dá nenhum poder especial, mas te dá um monte de obrigações a mais. A Maya, que vem de uma família de artistas, sabia disso mais do que ninguém.

É que nem aqueles cartazes de funcionário do mês do McDonald’s. Digo, como dizem, pelo menos, não sei se é verdade, mas eles não servem pra nada. O cara não ganha nada. Só a possibilidade de ser constrangido caso algum cliente o reconheça e decida tocar no assunto.


Vinicius Marino:

Eu diria mais: o topo é o lugar mais decepcionante – e perigoso – para se estar. Você só pode se mover para baixo.

Muitas celebridades sofrem com burn out quando sentem que não são capazes de se reinventar. Isto vale em dobro para artes mais “comerciais” cujo sucesso se deve em boa medida ao espetáculo e marketing. Mundo das idols, por exemplo: nenhuma daquelas bandas é popular porque são cantoras exímias.

Não conheço o suficiente o teatro Takarazuka para saber se cai nessa categoria. Seja como for, a pressão (e a decepção) existem.


Gato de Ulthar:

Quando você está no topo a pressão é sempre muito grande, todos sempre irão querer te derrubar e além disso o esforço para se manter no alto tem que ser constante.

Além disso, quando se forca em um objetivo de se obter sucesso é fácil deixar coisas importantes de lado, como família e amigos. É uma faca de dois gumes.


Diego:

É até interessante. Aquelas que buscaram o topo melhoraram e cresceram como pessoas, mas aquela que de fato atingiu o topo encontrou ali apenas desolação. Um comentário bem ácido, eu diria.


Fábio “Mexicano”:

Ou uma forma boba de dizer que o que importa é o caminho, não o destino? :smile:

(estou zoando, naturalmente)


Vinicius Marino:

Isso me lembra a cena final de Millenium Actress, quando a protagonista, Chiyoko, descobre que o homem que passou a vida perseguindo havia morrido décadas atrás.

Em vez de se desesperar, ela reage conformada: “no fundo, era de correr atrás dele que eu de fato precisava”.


Fábio “Mexicano”:

Mas é isso mesmo, não é? Ela continuou naquela carreira porque esperava que com a fama pudesse reencontrá-lo.


Vinicius Marino:

Na superfície, sim. No fundo, acho que ela mesmo reconhece que ele não era importante. O crucial era ter um objetivo, algo que a propelisse à frente, que desse uma “narrativa” à sua vida.


Fábio “Mexicano”:

E no caso de Starlight, era o desejo de subirem no palco juntas que movia Karen e Hikari.

E elas realizaram esse desejo. Foram as protagonistas no final. Daí vale perguntar: se isso foi só o motor delas até então, e agora? Elas vão ser capazes de continuar sendo boas atrizes mesmo sem essa motivação? Conseguiriam estrelar sozinhas, por exemplo?


Vinicius Marino:

Sem dúvida precisarão arranjar outra. Se Starlight é uma alegoria sobre a juventude, a relação entre Karen e Hikari é a amizade que as impulsiona nessa fase da vida. Tal como uma pessoa não pode viver para sempre de nostalgia juvenil, também elas precisarão de novos objetivos.


Diego:

É de se imaginar como será o futuro dessas duas…

Bom, estamos quase no final dessa nossa conversa, mas é óbvio que não íamos encerrar sem comentar aquela cena, não é? :stuck_out_tongue: Então vamos lá: que acharam da quebra da quarta parede por parte da Girafa?


Fábio “Mexicano”:

Era a isso que você estava se referindo? Bom, acho que foi um troço auto-contido. Uma provocação só. Mas finalmente descobrimos a identidade da girafa: somos nós os espectadores com nossos pescoços esticados apenas consumindo vorazmente, sem nos preocupar com as pessoas por trás das máscaras.


Vinicius Marino:

Precisei assistir de novo ao episódio para identificar a cena. Só para mostrar quão marcante ela foi pra mim… só que não.

(Suspiro) Por onde começar? Acho que já disse várias vezes aqui que Starlight é excelente como um espetáculo simbólico do amadurecimento de um grupo de meninas. Mas, como “comentário social”, é completamente oco. Pura forma sobre substância. E o fato de chupinhar uma estética Ikuhara só torna o paralelo mais patético.

Se a única função da Girafa for dizer que “nós, também, somos pescoçudos”, então ela é um símbolo desperdiçado. Isso é trivial – e até acrítico. Por si só, não nos diz nada sobre o mercado do espetáculo, a relação entre artista e mídia, nossa “responsabilidade moral”, etc.


Fábio “Mexicano”:

Eu não consegui entender mais nada da girafa além disso :stuck_out_tongue:

Sempre achei ela bastante jogada ali mesmo.

O tipo de coisa que ou terminaria sem significado ou … seria algo assim.


Vinicius Marino:

Não pude deixar de pensar, contudo, como há vários animes e mangás que fazem isso de forma super competente. Só para ficar em um que ainda não foi mencionado, cito Helter Skelter, da Kouji Ueno. A trama é um “Perfect Blue” do mundo da moda, mostrando a depravidade cometida sobre (e por) uma modelo de sucesso. O que acho interessante é que o mangá leva a crítica a um caminho pouco óbvio. Sua grande “tese” (se assim posso chamá-la) é que o público sabe, sim, que o mundo do show bis é podre, mas o acompanha justamente por isso. As pessoas não amam as celebridades a despeito dos suicídios, escândalos, rehab, etc. Elas as “amam”, de uma forma deturpada, justamente por causa disso.

Enfim, é um exemplo de muitos. Após Starlight, pelo contrário, eu não sei o que pensar sobre o teatro Takarazuka. Era para eu pensar algo? Havia algo naquele final que dizia respeito a mim?


Fábio “Mexicano”:

Bom, eu tomei a liberdade de pensar além do Takarazuka desde o começo :stuck_out_tongue: Acho o Takarazuka muito pequeno para um anime. Faz ainda menos sentido para o público internacional do que artes japonesas tradicionais. Entendo que do Takarazuka Starlight emprestou a estética, mas pode representar o teatro, a indústria idol, enfim, o mundo do espetáculo de forma geral.


Vinicius Marino:

Mas eu também não escutei mensagem nenhuma sobre nenhuma dessas coisas :stuck_out_tongue: Só generalidades envolvendo auto-estima, sonhos e individualismo.


Fábio “Mexicano”:

Bom, a girafa olhou pra gente e disse que elas sofrem por nossa culpa. Ok, é bem raso, entre outras coisas por nunca ter sido trabalhado no anime antes, mas é o que tem.


Vinicius Marino:

É tão raso que não tem sentido. Digo, é uma ideia tão “jogada” que se torna vazia. Qual é o “sofrimento”, afinal de contas? Nem isso fica claro. As picuinhas que elas enfrentam são conflitos escolares completamente triviais. Eu também passei por isso. Só que na minha escola não tinha um porão secreto com um palco e uma girafa onde eu podia lutar com armas ninjas. Só prova de matemática. Será que a Karen aceitaria trocar de lugar, para ver o que é bom?


Fábio “Mexicano”:

Acho que a ideia por trás é que esses conflitos só existem porque alguém está interessado no resultado.


Vinicius Marino:

Você pode argumentar que elas “sofriam” porque os próprios conflitos das vidas delas foram criados por um autor ou demiurgo. E que, para o autor (e espectador) é bom que personagens sofram. Finais felizes, afinal de contas, não têm graça. Em suma, o plot do já citado Princess Tutu.

O problema é que o anime não dá força a essa ideia. Se alguma delas tivesse um problema muito sério (morte de um parente próximo, um trauma paralisante, um Ponto Sem Retorno) eu entenderia o apelo desse recurso. Muita gente nessa situação acaba questionando o sentido da vida mesmo.

Agora “minha melhor amiga Ojou-sama está sendo chata comigo” não é um deles. Desculpa.


Fábio “Mexicano”:

Como eu disse, veio do nada. E de fato a maioria dos conflitos existiria mesmo sem a disputa pela Top Star. Se qualquer coisa, essa disputa ajudou elas a resolverem seus conflitos :stuck_out_tongue:


Diego:

Acho que o ponto era pra ser um pouco mais abstrato do que o “sofrimento” dessas personagens em particular. Do que ouvi a respeito, o próprio posto da Top Star surgiu, no teatro Takarazuka, para agradar o público. Para entregar aquilo que o público queria, princípio que vale para a indústria do entretenimento num geral.

Agora, eu acho bom ter algum cuidado ao falar que o Takarazuka é muito pequeno para que seja válido um comentário ou crítica a ele. Vamos lembrar que nós, aqui no Brasil, não somos o público alvo desse anime. O público alvo é o público japonês, onde essa forma de teatro é claramente popular, além de ter uma longa história de influência no mangá e anime, de A Princesa e o Cavaleiro a Rosa de Versalhes e Utena.

Tudo bem se o anime não despertou em vocês nenhum sentimento mais forte pela trupe: eu assisti Rapugo Shinju e continuo pouco me importando com o rakugo. Mas não vamos subestimar além da conta a importância da trupe só porque não é familiar para nós aqui do outro lado do mundo.


Fábio “Mexicano”:

Não se trata de subestimar, mas de tentar tirar algo mesmo sem conhecimento específico. Se você insistir à ferro e fogo que é especificamente sobre o Takarazuka, a minha conclusão final vai ser igual a do Vinicius. Não diz nada para mim. É só um espetáculo visual. Rakugo Shinjuu não depende que você conheça rakugo para que entenda a história daqueles personagens e os temas mais importantes do anime. Se Starlight é, como você diz, tão hermético assim, então está realmente desperdiçando oportunidades.


Diego:

Eu não acho que ele seja tão hermético porque suas referências nunca ultrapassam o âmbito da referência em direção a dizer com todas as letras qual a sua inspiração. Mas mesmo que fosse hermético, não é preciso muito para expandir os pontos que ele traz para outras áreas do entretenimento, como idols. Não vejo porque seria perda de oportunidade.


Fábio “Mexicano”:

Exatamente, é possível expandir. Alguns temas são temas gerais, independentes da especificidade com a qual se manifestam no Takarazuka em particular. Eu posso interpretar dessa forma? Ou estou desautorizado, o que estou fazendo é impróprio e inválido?

Eu não sou japonês, não conheço o Takarazuka, e nem me interessa tentar abstrair como um japonês enxergaria uma referência ao Takarazuka. Estamos quase falando de alquimia aqui.


Diego:

Bom, eu acho qualquer obra bem mais interessante quando colocada em seu contexto. Mas o que não falta é gente falando que você deve prestar atenção apenas ao texto e nada mais, então fique a vontade :stuck_out_tongue:


Fábio “Mexicano”:

O problema é que é um contexto que não nos diz respeito, e não nos diz respeito de maneira tão dramática que eu me sentiria prepotente sequer achando que sou capaz de começar a entender porque assisti um anime e li uns artigos.


Gato de Ulthar:

Na minha opinião acho que Starlight foi um anime bastante leve, sem grandes conflitos e problemas a serem apresentados, nem ao menos consegui vislumbrar uma crítica feroz à carreira artística e sua indústria. Para mim foi um conflito de adolescentes, com temas adolescente até em certo ponto banais se comparado com todos os problemas da humanidade. E isso não é ruim, é só um outro jeito de se fazer um slice-of-life.


Diego:

Eu não discordo que Starlight seja muito mais forma do que substância. Lembro até de chamar o anime, brincando e em off, de o mais bonito pires do ano: o que falta em profundidade ele compensa em puro espetáculo. Mas se chamo de pires é também porque não o acho raso ao ponto de ser uma folha mesmo :smile:


Vinicius Marino:

Não é uma folha, de fato. E como um slice-of-life adolescente differentao, como colocou o Gato, é uma obra primorosa.

Só vou aproveitar esse último desabafo para repetir algo que já disse antes: não importa quão importante seja o teatro Takarazuka. Um anime que só olha para o teatro é uma obra menor.

A boa arte fala do específico para chegar no geral. Ninguém precisa ser um gangster para se emocionar com Banana Fish, uma idol para entender Perfect Blue, um mago para curtir Mahoutsukai no Yome. Tal como ninguém precisa ser um rei para gostar de Macbeth ou um general grego para entender A Odisséia.

Starlight é obviamente uma obra autorreferente do mundo Takarazuka. O que faz todo o sentido se considerarmos que é a ponta de lança de um franquia multimídia.

Mas isso, por si só, é muito pouco. Podia ser um Rakugo Shinjuu, mas virou um Animegataris.


Fábio “Mexicano”:

Eu acho que tem um pouco do geral em Starlight, como já disse, mas pode ser só impressão minha tentando fazer algum sentido de algo que eu não entendo. Talvez tudo o que eu vi não seja muito melhor do que a girafa olhando pra tela e dizendo que a culpa é nossa: uma tentativa de algo que meio que não deu certo.


Vinicius Marino:

Considerando nossa conversa até aqui, acho que é só impressão sua mesmo.

Há uma coisa “fake” em Starlight que me incomoda desde o primeiro episódio. Os diálogos parecem engessados, herméticos, mais do que a média dos animes. Como se estivessem falando de alguma coisa que eu não conheço.

Pode ser só uma vagueza proposital para parecer inteligente. Ou pode ser uma mensagem meta ao público do Takarazuka, mirando explícitamente a galera que for ao show ver o live action. Tal como essa cena da girafa.


Diego:

Bom, acho que podemos finalizar por aqui, não? Saímos numa nota um pouco mais dura, mas é verdade que tematicamente Starlight poderia ter sido melhor. Ainda assim, todos concordamos que foi um espetáculo em termos de visual, coreografia e música. O Vinicius disso que poderia ter sido um Rakugo Shinjuu, mas terminou um Animegataris. Bom, para todos os efeitos, todos gostamos de Animegataris, por mais que não seja um novo clássico moderno. E acho que essa colocação cai bem a Starlight: divertido, empolgante, único a seu próprio modo, mas provavelmente não um título que irá entrar para a história.

Mas é hora de deixar as cortinas se fecharem sobre este palco. Foi bom enquanto durou, mas tchau pra você, Revue Starlight. Vejo a todos no nosso próximo Café com Anime, agora começando a temporada de outono. Até lá o/

E você, leitor, que achou deste final de Shoujo Kageki Revue Starlight? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

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