Shounen não é gênero! …ou é?


Jogando um pouco de nuance na questão.


A depender do quão a fundo você entrou nessas mídias que são o anime e o mangá, ler ou ouvir alguém chamando shounenshoujojosei ou seinen de “gêneros” pode suscitar uma série de reação que vão de absolutamente nenhuma até  um intenso sentimento de rejeição e desconforto – popularmente conhecido como cringe. Isso porque, os mais experientes não hesitarão em elucidar, todos estes termos não são gêneros, mas sim demografias, que delimitam o público alvo das revistas de mangá.

Agora, para todos os efeitos eu devo admitir que me incluo no grupo dos que balançaram a cabeça em sinal de reprovação e descrença quando um funcionário da editora Panini declarou, através do twitter da empresa, que Nisekoi, publicado na revista Shounen JUMP, seria um shoujo. E a fala de um popular youtuber, também no twitter, sobre como Death Note, outro mangá publicado na Shounen JUMP, seria em fato um seinen, igualmente me fez revirar os olhos. Mas este texto não vem apenas para admoestar alguns desavisados.

Meu intento aqui é jogar um pouco de nuance sobre essa problemática toda. É mesmo errado chamar ao shounen – bem como as suas contra-partes – de “gênero”? O que é um gênero literário, afinal de contas? E talvez a pergunta mais fundamental: por que alguns (eu incluso) parecem se importar tanto com essa distinção entre gênero e demografia?

É mesmo assim tão execrável chamar “shounen” de “gênero”?

 

A origem dos termos: o caso japonês

Antes de existir o tankobon, existem as revistas de mangá. Nessas publicações antológicas, usualmente semanais ou mensais, impressas em papel reciclado, frequentemente mais grossas que uma lista telefônica, saem os capítulos individuais de diversas séries atualmente em lançamento, que somente meses depois serão compilados nos volumes que nos são mais familiares. Mas não vá o leitor pensar que trata-se de pura anarquia. Cada revista tem o seu público, e, consequentemente, a sua própria política sobre o que entra ou não nela.

Shounenshoujojoseiseinen são demografias, indicando qual o público alvo de uma revista de mangá qualquer, algo que fica bastante claro quando traduzimos estes termos: respectivamente, “garoto”, “garota”, “jovem mulher” e “jovem adulto”. Lógico, estas não são as únicas demografias contempladas por estas revistas: de crianças a jogadores de maajan (o mahjong japonês), para cada indivíduo há pelo menos uma revista de mangá que atenda aos seus gostos. Esses quatro são, porém, os mais conhecidos aqui no ocidente.

“Shounen” significa simplesmente “garoto”.

O perigo de se igualar demografia e gênero é que se perde muito da variedade que esses termos comportam. Muitos pensam que shounen obrigatoriamente significa uma história de ação e aventura, e justamente por isso ficam confusos quando descobrem que Nisekoi foi publicado numa revista shounen. Semelhantemente, a imagem do seinen como um mangá mais sério, denso e violento se quebra quando você aponta que K-ON!, bem como a vasta maioria desses mangás yonkoma slice of life, foi publicado em uma revista seinen.

Mais uma vez, porém, eu preciso destacar que não se trata de pura anarquia, e é preciso cuidado na hora de falar dessa suposta variedade. Existe uma importante dimensão social nestas revistas, conforme elas buscam agradar ao seu público alvo, no processo refletindo e reforçando estereótipos. O que agrada a um garoto de 12 anos? Ou a uma jovem de 15? Ou a um universitário de 21? Se todas as obras em uma mesma revista buscam atingir a um mesmo público, não seria de se esperar que elas fossem pelo menos um pouquinho similares entre si?

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar o impacto das revistas – e obras – de maior relevância. Os mangás shounen modernos bebem muito da fonte que é a Shounen JUMP e suas histórias de maior sucesso, como Hokuto no KenDragon Ball, e outros. A própria Shounen JUMP possui diretrizes bem específicas sobre os tipos de mangá que publica, baseando-se na famosa tríade Amizade, Esforço e Vitória, mas mesmo afastando-se em direção a outras revistas shounen é possível encontrar mangás que parecem seguir essas mesmas diretrizes.

Fullmetal Alchemist, Fairy Tail e Magi: nenhum destes títulos saiu na Shounen JUMP, e ainda assim podemos ver neles a tríade Amizade, Esforço e Vitória.

Nada disso significa que não exista espaço para experimentação e inovação, só que é perfeitamente possível existirem semelhanças entre histórias voltadas para uma mesma demografia. Sejam elas estilísticas (o mangá shoujo é bastante conhecido por ter uma estética bastante própria, por exemplo), temáticas, estruturais, ou mesmo em termos do que pode ou não ser mostrado no mangá. São semelhanças talvez menos proeminentes do que as que encontramos entre obras de um mesmo gênero, mas elas ainda estão ali.

Considere o anime Comic Girls [review], adaptação do mangá homônimo de Kaori Hanzawa sobre quatro garotas do ensino médio que são, também, autoras de mangá vivendo juntas em um mesmo dormitório. A protagonista, Kaoruko, tenta emplacar como mangaka escrevendo yonkoma slice of life, um tipo de mangá bastante associado com revistas seinen. Ruki, por sua vez, escreve mangás eróticos com uma ênfase na história e no romance, atraindo para si uma audiência quase que exclusivamente feminina. E nisso temos Tsubasa e Koyume.

Tsubasa escreve uma história de ação e aventura, enquanto que Koyuma ainda tenta emplacar como autora de uma história de romance. A primeira chama ao seu trabalho de shounen manga, enquanto que a segunda, de shoujo manga. Para toda variedade que essas demografias comportam, existe um esterótipo bastante enraizado, no próprio Japão, sobre o que termos como shounen mangashoujo manga implicam. E sendo assim, seria mesmo tão errado considerá-los como gêneros?

Existe um claro estereótipo sobre o que faz um mangá “shounen”.

 

Afinal: o que é um gênero literário?

Um gênero literário nada mais é do que uma forma de agrupar trabalhos com alguma semelhança entre si. Essa semelhança pode ser temática, pode ser estilística, pode ser de formato, e a lista continua. No passado, reconhecia-se a existência de um número bastante limitado de gêneros literários, com inclusive uma forte hierarquia entre eles, mas atualmente a situação já se tornou bem mais complicada. Olhando a lista de gêneros literários da Wikipedia, é difícil não se sentir um tanto quanto desorientado com a pura quantia deles.

Agora, é preciso perguntar: se um gênero nada mais é do que uma forma de agrupar obras com alguma similaridade, por que algo como shounen ou shoujo não podem ser gêneros? O principal argumento que se pode dar é a já mencionada variedade que as revistas de mangá comportam. Slam DunkNarutoNisekoi possuem similaridades o bastante entre si para dizermos que são de um mesmo gênero? Porque os três são shounen, publicados na exata mesma revista, inclusive, a Shounen JUMP.

Mas não pode um gênero comportar semelhante variedade? Haibate Renmei é uma fantasia, mas uma bem diferente daquilo que o termo costuma evocar. O leitor não encontrará aqui dragões e cavaleiros, magias e feitiços, mas sim um mundo que parece servir de purgatório para as protagonistas da obra, que assume um tom introspectivo que em muito foge ao que se convencionou esperar do gênero “fantasia”. E, ainda assim, dificilmente alguém colocaria em dúvida que o anime é uma fantasia.

Talvez não seja uma fantasia tradicional, mas Haibane Renmei é definitivamente uma fantasia.

Existe, porém, outro argumento, este muito mais difícil de rebater. Para que shounen possa ser um gênero, seria preciso assumir que ele pode existir fora das revistas de mangá. Mais especificamente, que ele pode existir fora de uma revista shounen. Indo até mais além, seria preciso assumir no mínimo a possibilidade de existir um mangá shounen em uma revista shoujo – e vice versa. Afinal, um gênero não pode estar rigidamente atrelado a um só tipo de publicação. Mas fica a pergunta: é possível de separar o shounen da revista shounen?

Talvez. Alguns podem até se sentir tentados a dizer que os tankobon fazem exatamente isso. Afinal, o mangá não deixa de ser shounen só porque o capítulo anteriormente publicado em uma revista está agora em um volume de mangá, não é? Se bem que a isso podemos perguntar: esse mangá seria shounen caso não existisse a revista shounen em primeiro lugar? É complicado, e mesmo serve como exemplo da interdependência entre ambos. O mangá shounen vai na revista shounen – e vice-versa. É tautológico. Mesmo circular.

A melhor forma de separar a ambos seria identificar quais as características comuns a todo mangá shounen, a partir das quais qualquer mangá poderia ser reconhecido como tal, independente de onde ele for publicado. Mas quais são essas características? Elas realmente existem? Conforme discutido na seção anterior, certamente existe um estereótipo de como deve ser um mangá shounen, mas a realidade não raras vezes coloca em xeque esse exato estereótipo. E claro, o mesmo vale também para as demais demografias.

É possível shounen fora de uma revista shounen?

 

Cruzando o oceano: o caso ocidental

Às vezes eu penso que não temos real noção do quanto o nosso contato com os mangás é mediado. Estamos sempre à merce daquilo que está disponível, seja de forma legal, com os títulos que as editoras decidirem trazer, seja de forma ilegal, com os títulos que os scans decidirem traduzir. E enquanto isso ainda nos garante uma biblioteca bastante vasta à qual recorrer em momentos de tédio, é inegável que não experimentamos essa mídia em toda a sua extensão. Podemos saber do quão diversa ela é, mas não vivemos essa diversidade toda.

Isso, atrelado ao fato de que não encontramos por aqui as conhecidas revistas de mangá, é o que me parece estar no cerne da discussão sobre demografia e gênero. Para quem só conhece o mangá shounen através do que veio para o Brasil, não parece descabida a ideia de que esses títulos possuam semelhanças o bastante entre si para serem rotulados por um mesmo termo. Claro, esse termo podia ser “ação”, “aventura”, “artes-marciais”, “combate”, e outros tantos. Mas acabou sendo o shounen. Um dado que levanta toda uma outra discussão.

Palavras possuem o sentido que damos a elas. Não existe nada de essencialmente “arbóreo” na combinação de sons que usamos para formular a palavra “árvore”, e ainda assim, uma vez proferida (ou escrita) a palavra, todos os falantes da língua portuguesa saberão o que ela significa. Não pode o mesmo princípio valer para termos como shounenshoujo, e demais? Se quando eu falo “mangá shounen” a pessoa para quem eu falo entende o que eu quero dizer com o termo, faz alguma diferença saber seu significado japonês?

Quem só conhece o mangá shounen pelo que sai no Brasil pode mesmo pensar que existem regras bem rígidas que o definem.

Note que você não precisa concordar com o significado atribuído para entendê-lo. Mesmo que você seja um rígido defensor da pureza desses termos, você ainda assim provavelmente entende o que o leitor médio de mangá quer dizer quando fala em shounen ou em shoujo. E por divertido que seja indicar K-ON! ou Azumanga Daioh quando alguém pede indicações de mangás seinen, acho que todos entendemos muito bem que não era esse tipo de história que a pessoa buscava, não é?

Num cenário do tipo, a comunicação não é difícil, mas sim dificultada pela intransigência de um dos lados, que mesmo entendendo o sentido da palavra, insiste em corrigir o falante. Então talvez a questão não seja se shounenshoujo e semelhantes são ou não um gênero, mas sim se eles são ou não um gênero aqui no ocidente. Existe, porém, um forte argumento contra essa possibilidade. Afinal: é possível que um gênero exista apenas em uma região específica do globo? Fantasia não está atrelada a uma região, nem a ficção científica.

Isso nos deixa com um termo que é útil no vernáculo, mas que rui facilmente baixo um maior escrutínio. Qualquer defensor da ideia de que shounen pode ser um gênero precisa necessariamente sanar essa fragilidade da palavra, ou então estaríamos melhor usando com mais frequência dos gêneros já existentes: novamente, ação, aventura, combate, etc. Seria, portanto, o momento de apontar e rir para o funcionário da editora Panini ou o youtuber mencionados no começo deste artigo? Bom…

Fim da discussão? Ainda não!

 

De que importa a distinção?

Filosoficamente, semanticamente e literariamente, shounenshoujojoseiseinen não podem ser gêneros. Esses termos simplesmente não funcionam, nem foram pensados para funcionar, como os termos “fantasia”, “ação”, “suspense”, e semelhantes. Mas realisticamente falando: e daí? Conforme discutido na seção anterior, as pessoas ainda assim se entendem, pouco importa essa tão enfatizada fragilidade das palavras. Então que diferença realmente faz insistir nessa distinção entre gênero e demografia?

Nesse ponto, a discussão se torna uma de purismo linguístico versus praticidade real, e nisso se torna fácil de ver porque muitos indivíduos, e mesmo diversas empresas, se sentem confortáveis em usar destes termos como se fossem gêneros. Porque, apesar de todas as objeções levantadas ao longo deste texto, a verdade é que funciona. Você compreende e é compreendido, e para a vasta maioria isso é mais do que o suficiente. O que faz insistir na distinção soar como pouco mais do que… gatekeeping.

Tenham em mente que eu não falo isso para ofender. Como já mencionei, eu mesmo sou do tipo que insiste nessa distinção, e não consigo evitar um sentimento de incômodo quando ela é quebrada. Mas eu quero tentar ser um pouco mais crítico com esse sentimento. No fim do dia, ele vem de uma noção minha de que o falante – sobretudo se é uma empresa ou figura relevante nesse meio do anime e mangá – deveria saber mais. Mas… a troco de que, exatamente? Eu não tenho uma boa resposta, então apenas deixo no ar a pergunta.

O que exatamente nós ganhamos, realisticamente falando, insistindo nessa distinção?

 

Considerações finais

Eu reconheço que esse artigo talvez soe um tanto quanto “espalhado” para muitos, tecendo um monte de conjecturas que, na melhor das hipóteses, apenas retornam ao que alguns talvez considerem senso comum, mas isso não deixa de ser um reflexo dessa problemática toda. Para todos os efeitos, as duas conclusões às quais eu pude chegar é que shounen não é gênero, e dizer isso importa bem pouco.

Mas as conclusões são menos relevantes para o artigo do que o caminho até elas. Acaba que termos como shounenshoujo e semelhantes fornecem um interessantíssimo estudo de caso para como a língua interage com a sociedade, tanto no tempo quanto no espaço, além de como comunidades se apropriam de certos termos conforme a necessidade. Todas questões dignas de consideração.

Pode ser um final anti-climático, mas espero que a jornada tenha valido a pena.

E você, leitor, que pensa de tudo isso? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Boku no Hero Academia, episódio 1

2 – Shingeki no Kyojin, episódio 1

3 – Boku no Hero Academia, episódio 1

4 – Posters de Fullmetal AlchemistFairy Tail e Magi.

5 – Comic Girls, episódio 1

6 – Haibane Renmei, episódio 1

7 – Capas das revistas Shounen JUMP nº 51 e Shounen Magazine nº 1

8 – Capas de Dragon Ball Super 1, Black Clover 1 e Fire Force 1

9 – Death Note, episódio 1

10 – Non Non Biyori Repeat, episódio 3

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s