[Vídeo] Youjo Senki: Uma História sobre a Tolice Humana


Em meio à guerra: uma garotinha.


Roteiro:

O que nos define enquanto humanos?

Youjo Senki foi um título relativamente ignorado quando saiu. E eu digo “relativamente” porque ele foi até que bastante assistido, mesmo brevemente comentado, mas de forma geral o discurso em torno do anime era o de que se tratava de uma distração rápida e nada mais. Que era divertido ver uma garotinha de uns 9 anos de idade metralhando inimigos num cenário inspirado na primeira guerra mundial, mas que não era um título para se pensar muito a respeito. Tanto que, tão logo o anime acabou, acabaram também as discussões a seu respeito. Mas… eu acho isso um tanto quanto injusto para com o título.

O episódio final de Youjo Senki é simplesmente excelente. E sim, eu estou prestes a contar o final, mas antes que você feche o vídeo porque não assistiu esse anime ainda, tenha em mente que o anime adapta uma light novel ainda em lançamento, e que seu final não é nem de longe o final em si da história. Além disso, eu vou falar sobretudo sobre os temas que esse final aborda, e não tanto sobre os eventos. E se mesmo assim você quiser ir embora, fique ao menos mais um minuto enquanto eu dou pelo menos uma sinopse dessa obra.

Youjo Senki narra a história de um assalariado japonês que, após ter de demitir um funcionário da empresa onde trabalha, é empurrado na frente do trem por tal funcionário. Porém, instantes antes de morrer, deus aparece para esse homem, e se queixa de como a humanidade se esqueceu dele. O assalariado responde que numa era da ciência, deus se tornou obsoleto, do que deus raciocina que, portanto, carestia leva à adoração. E tentando provar o seu ponto, ele decide reencarnar esse assalariado em um mundo imerso na guerra, colocando que isso faria-o adorá-lo.

Assim temos nossa protagonista, Tanya, que além de tudo ainda nasceu com um enorme potencial para a magia, cortesia de ninguém menos que deus. Só que a garota não leva assim tão na boa a situação na qual se encontra, e está determinada a conseguir uma boa vida sem a ajuda de qualquer divindade. Assim ela vai subindo no exército de sua nação, e a história basicamente a acompanha enquanto é enviada junto de seu batalhão para diferentes missões uma mais impossível que a outra.

No episódio final – e AGORA é uma boa hora para ir embora se não quiser spoilers da obra – Tanya profere três discursos em três momentos distintos, com o fio que os amarra sendo justamente a resposta que o anime tenta dar à pergunta que eu fiz no começo do vídeo. É a tolice que nos torna humanos.

O primeiro destes discursos vem quando Tanya conversa em uma sala com outro oficial, Erich. Nesse ponto da história, o Império deu um golpe decisivo na República, tomando a sua capital. Todos os oficiais acreditam que isso levará a República a se render e a guerra a terminar, mas Tanya discorda. Erich aponta que seria irracional continuar a guerra, ao que Tanya responde:  “Razão não é a única coisa que move as ações humanas”, e aponta para o papel que a emoção tem em mover as pessoas, muito mais até do que a razão.

Quando acuadas, desesperadas, irritadas, frustradas, as pessoas podem tomar decisões que, racionalmente falando, seria em seu melhor interesse não tomar. Como o homem que um dia empurrou a outro nos trilhos do trem…

“Somos criaturas tolas”, é o argumento de Tanya. E que exemplo maior dessa tolice do que a guerra?

O segundo discurso da protagonista vem um pouco depois, e é desta vez um monólogo que essencialmente martela ainda outra vez o ponto que o anime tenta passar, se este ainda não estava claro.

A guerra se intensifica. Porque o medo, antes de inspirar submissão e derrota, inspira justamente o levante e a revolta. O Império se vê numa batalha em múltiplos frontes, contra inimigos cuja maior motivação, como Tanya aponta, é a paz.

Si vis pacem para bellum. Se desejas a paz, prepare-se para guerra. O dito de um povo que construiu todo um império com guerra preventivas, anexando seus vizinhos com a premissa de garantir a paz. Mas talvez o mais interessante em todo esse segmento é como vemos um Império que ainda planeja também continuar a lutar. E nisso podemos ver como mesmo o racional Império não consegue se desprender desse paradoxo de mais de dois mil anos.

O terceiro e último discurso vem ao final do episódio, numa cena pós créditos onde temos a Tanya, enviada para combate junto de seu batalhão, discursando para seus homens. E isoladamente essa até pode parecer uma cena sem grande importância: o conteúdo do discurso é essencialmente a Tanya reafirmando a sua oposição a deus, declarando que não há lugar para ele naquele campo de batalha. Mas é possível contextualizar esse discurso junto dos outros dois.

Não poucas vezes, Tanya aparece ao longo do anime como talvez excessivamente racional. Mas se existe um momento onde ela abaixa essa sua fachada racional é justamente em seu antagonismo a deus, quando a vemos irritada, frustrada, rancorosa… Em outras palavras, é no seu antagonismo para com deus, que ela se reafirma enquanto humana. E apesar da fala final de Erich sobre Tanya ser um monstro em forma de garotinha, esse seu discurso final é também um lembrete de que ela ainda é, essencialmente, humana.

Claro, você pode argumentar que essa é uma visão um tanto quanto pessimista da humanidade, e é mesmo. Mas reconhecer uma mensagem em uma obra de arte não te obriga a concordar com ela. Youjo Senki é uma história sobre a tolice humana, e sobre como nossas emoções negativas não raras vezes obscurecem o nosso discernimento, nos levando a situações de violência. O que fazer com essa mensagem vai de cada um, e meu objetivo primário era apenas apontar que ela existe.

Como eu disse no começo do vídeo, Youjo Senki foi relativamente ignorado quando saiu. Mas agora, mais de um ano depois, eu posso dizer que esse é um anime sobre o qual eu vira e mexe ainda acabo pensando a respeito. Pode não ter sido sensacional, nem mesmo o melhor de sua temporada, mas eu acho que ainda é uma obra sobre a qual ainda vale a pena lembrar.

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