[Resultados] Pesquisa com Leitores de Mangá


Um agradecimento a todos que participaram.


No começo deste mês (5 de Setembro, para ser mais exato), eu publiquei meu artigo Considerações sobre o mercado brasileiro de mangás, onde busquei tecer alguns comentários a respeito da atual situação editorial na qual o país se encontra no que tange ao mercado de mangás. Aumentos de preço, dificuldades na distribuição, dentre outros tópicos, perfizeram o grosso daquele texto, que por isso se focou muito mais na experiência das editoras e as dificuldades que vêm enfrentando e decisões que vêm tomando.

Desde o início era meu plano escrever um artigo irmão para aquele, desta vez abordando a mesma problemática – o estado atual do nosso mercado de mangás – pelo ponto de vista do consumidor. Imediatamente, porém, eu me vi diante de uma pergunta para a qual eu não tinha uma resposta: quem é esse consumidor? Obviamente que eu tinha minhas própria suposições, impressões formadas pela convivência nesse meio, mas que garantias eu tinha de que elas eram qualquer coisa além de meras suposições? Nenhuma. Eis o problema.

Para escrever o artigo que gostaria, eu precisava primeiro ter uma imagem minimamente mais concreta sobre quem é o consumidor de mangás no Brasil. E foi assim que decidi coletar alguns dados, através de um formulário Google que perguntava questões como demografia (idade, gênero, UF) e hábitos de consumo (quantos mangás comprava no mês, o que o influenciava na hora da compra, etc.) em um total de quatro seções.

Ao longo de aproximadamente uma semana e meia de divulgação, consegui atingir a marca de 684 respostas, um numero que considerei satisfatório o bastante para encerrar a pesquisa. O artigo que pretendo escrever virá em breve, mas por agora fiquem com os resultados dessa singela empreitada.

 

Mas antes: algumas ressalvas.

Apesar de ter recebido um feedback majoritariamente positivo por parte dos que comentaram sobre o formulário, ele teve alguns problemas que precisam ser reconhecidos. Em particular, quero chamar a atenção para duas das principais limitações dessa pesquisa.

Em primeiro lugar, algumas pessoas apontaram que, apesar de ser uma pesquisa com leitores e não com compradores de mangá, o formulário não apropriadamente contemplava aqueles que consomem mangás apenas pela pirataria, sem comprar os volumes físicos. É uma crítica perfeitamente válida e uma falha no meu julgamento, que de fato joga dúvida sobre alguns dos resultados.

Em segundo lugar, é preciso lembrar que o alcance da pesquisa está condicionado pelas plataformas onde ela foi divulgada – especificamente o Facebook, o Reddit e o Twitter. Inclusive, no que tange a esta última rede o alcance foi especialmente limitado, dado que se limitou sobretudo aos que seguem ali o blog, ainda que muitos tenham ajudado a divulgar o formulário com retweets.

Enquanto eu acredito que os dados coletados são válidos, peço ao leitor que mantenha essas limitações em mente.

 

Os resultados

Nesta parte do texto eu tentarei manter meus comentários ao mínimo – o propósito aqui é a divulgação dos resultados, sua análise eu deixo para o artigo que ainda irei escrever -, mas em alguns momentos eles ainda serão necessários, nem que para esclarecer o que exatamente os gráficos estão mostrando.

 

Página 1: Dados Demográficos

Nada fora do esperado. A pergunta era obrigatória, e do total de 684 respostas a maioria absoluta – 551 (80,6%) – se declarou pertencente ao gênero masculino. 128 (18,7%) assinalou “feminino”, e 5 (0,7%) selecionaram “outro”.

Eu só vou colocar que é preciso cuidado na hora de interpretar esses dados, já que podem significar ou que de fato a vasta maioria dos leitores de mangá são homens, ou então que são os espaços onde a pesquisa foi divulgada que são predominantemente masculinos.

Eu esperava que a maioria estaria acima dos 18, mas francamente não imaginava que seria a maioria absoluta. Outra pergunta obrigatória, dos 684 respondentes 401 (58,6%) se declarou estar entre os 18 e os 25 anos de idade. A seguir veio o grupo dos 26 aos 30 anos, com 107 (15,6%) respondentes, seguido de perto pelo grupo dos 14 aos 17, este com 105 (15,4%).  Maiores de 40 veio a seguir, com 8 (1,2%) respondentes, e por último temos o grupo dos menores de 14 anos, com 4 (0,6%).

Uma das poucas perguntas para as quais eu não realmente tinha qualquer expectativa. Novamente uma questão obrigatória, 371 (54,2%) afirmaram não possuir renda própria, enquanto que 313 (45,8%) afirmaram possuir.

Eu tive algumas pessoas apontando que essa divisão das classes E a A que eu coloquei está incorreta, mas do que o Google me informou esta é a divisão usada pelo IBGE, baseada no censo populacional. Se alguém quiser oferecer fontes recentes que contradigam a afirmação, eu agradeço.

Uma das poucas perguntas optativas, esta teve 320 respostas (o que significa que pelo menos 7 pessoas ligeiramente perdidas, se você considerar os números da pergunta anterior), com 157 (49,1%) afirmando pertencer à classe E, 90 (28,1%) à classe D, 54 (16,9) à classe C, 14 (4,4%) à classe B, e apenas 5 (1,6%) à classe A.

Eu esperava o sudeste aparecendo em peso, mas não imaginava que seria tanto. Outra pergunta obrigatória, São Paulo foi o estado mais representado, com 234 (34,2%) respondentes. Na sequência vieram o Rio de Janeiro, com 82 (12%) respondentes; Minas Gerais, com 48 (7%); Rio Grande do Sul, com 44 (6,4%); Paraná, com 43 (6,3); Santa Catarina, com 30 (4,4%); Pernambuco, com 29 (4,2); Distrito Federal, com 34 (3,5%); Ceará, com 21 (3,1%); e Bahia, Pará e Paraíba, os três com 16 (2,3%) respondentes. Todos os demais estados ficaram abaixo dos 2% de respondentes, com o menos representado tendo sido o Amapá, com apenas 2 (0,3%). 8 (1,2%) afirmaram não residir no Brasil.

 

Página 2: Hábitos de Consumo

Eu esperava que “1 a 5 volumes” fosse ter mais votos, mas novamente não achava que seria maioria absoluta. Ao mesmo tempo, eu não imaginava que “0” teria o número de votos que teve, ultrapassando um quarto das respostas. E aqui é que eu mais lamento não ter tido uma divisão mais rígida entre compradores e aqueles que só consomem via pirataria. Será que todos que responderam “0” nunca compram mangás, ou será que apenas não compram regularmente? Impossível dizer.

Em todo caso, foi ainda outra pergunta obrigatória. 361 (52,8%) respondendo “1 a 5”, 208 (30,4%) respondendo “0”, 70 (10,2%) respondendo “6 a 10”, 24 (3,5%) respondendo “11 a 15”, 13 (1,9%) respondendo “16 a 20”, e apenas 8 (1,2%) colocando que compram mais de 20 volumes de mangá no mês.

Uma crítica que eu recebi sobre essa pergunta era a de que ela não contemplava aqueles que compravam em sebos, ou no mercado secundário de maneira geral. O que, honestamente, é uma crítica extremamente válida, e foi mesmo um relapso meu esquecer dessa possibilidade. E eu não posso abandonar a possibilidade de que parte dos que votaram “online” são aqueles que consomem apenas por pirataria, e por isso escolheram a opção (mas não que eu tenha alguma base mais sólida para afirmar, é apenas uma impressão).

Outra pergunta obrigatória, 313 (45,8%) responderam comprar online com mais frequência. 174 (25,4%) ainda mencionam as bancas de jornais como sua fonte primária de mangás. 93 (13,6%) assinalaram as livrarias, seguidos de perto pelos 70 (10,2%) que assinalaram as lojas especializadas. 21 (3,1%) afirmaram comprar sobretudo em eventos, e em último lugar aparecem os 13 (1,9%) assinantes.

Aparentemente a pergunta não estava marcada como obrigatória no formulário (erro meu), então teve 30 respostas a menos do que o total, com 654. Fora isso, porém, foi perfeitamente dentro do esperado. 450 (68,8%) afirmaram não consumir outros quadrinhos além do mangá, enquanto que 204 (31,2%) afirmaram consumir.

Se a quantia que você comprava era 0, e você continua comprando 0, então segue comprando a mesma quantia, certo? Pois é: apesar de “sigo comprando a mesma quantia” ter sido a segunda resposta mais comum nesta pergunta, eu penso quantos dos que responderam caem nesse problema…

Novamente uma pergunta obrigatória, 277 (40,5%) afirmaram que passaram a comprar menos mangás. 232 (33,9) não apontaram qualquer mudança em seus hábitos de consumo. 102 (14,9%) deixaram de comprar mangás por completo. E 73 (10,7%) deixaram de comprar especificamente os títulos de preço mais elevado.

Nada fora do esperado. Outra pergunta obrigatória, 567 (82,9%) disseram consumir pirataria, ao passo que 117 (17,1%) afirmaram não consumir.

Uma das poucas perguntas optativas, é interessante apontar que embora 567 pessoas tenham afirmado consumir pirataria, 571 (portanto, 4 a mais) responderam aqui. Era possível assinalar múltiplas opções, nas quais a ordem da mais votada para a menos votada ficou:

  1. O mangá não foi lançado de forma legal no país (446 votos; 78,1%)
  2. O mangá foi lançado no país, mas está muito para trás em relação ao original japonês (256 votos; 44,8%)
  3. O mangá foi lançado no país, mas já faz tanto tempo que se tornou impossível achá-lo para compra (255 votos, 44,7%)
  4. O mangá foi lançado no país, mas não tenho dinheiro para colecioná-lo (231 votos; 40,5%)
  5. O mangá foi lançado no país, mas queria experimentá-lo antes de decidir pela compra ou não (187 votos, 32,7%)

Fora isso, 49 pessoas escolheram também a opção “outros”. Não pude ler todas as diferentes respostas dadas aqui, mas as que li enfatizavam questões monetárias, como o preço dos mangás ou o ler muito mais do que teria dinheiro para comprar.

Eu esperava que a adesão aos mangás digitais nacionais já fosse um pouco maior, mas para minha surpresa aparentemente ainda é algo bastante insipiente entre o público consumidor de mangá.

Novamente por um erro meu a pergunta não foi marcada como obrigatória, tendo 4 respostas a menos do que o total. 577 (84,9%) disseram não consumir mangás digitais de forma legal. 75 (11%) afirmaram consumir pelo Crunchyroll Mangá, serviço da plataforma de streaming Crunchyroll. 16 (2,4%) afirmaram comprar volumes digitais estrangeiros. E apenas 12 (1,8%) afirmaram comprar os volumes digitais nacionais.

 

Página 3: Gostos e Preferências

Enquanto eu esperava que shounenseinen seriam as respostas mais comuns, que tenha sido o segundo, ao invés do primeiro, a tomar a primeira posição foi uma leve surpresa.

Outra pergunta obrigatória, 349 (51%) pessoas afirmaram preferir mangás seinen. 242 (35,4%) escolheram shounen. 71 (10,4%) selecionaram shoujo. E apenas 21 (3,1%) disseram preferir mangás josei. Aparentemente, ninguém selecionou kodomo.

Novamente uma pergunta obrigatória. Que “ação” tenha vindo em primeiro já era esperado, recebendo 256 (37,4%) votos. “Drama” veio em segundo, com 74 (10,8%) dos votos, e minha maior surpresa foi ver “slice of life” vindo logo em seguida, com 71 (10,4%) votos. Na sequência vieram “mistério”, com 62 (9,1%) votos; “romance” e “comédia”, ambos com 61 (8,9%) votos cada; “horror”, com 23 (3,4%) votos; e “esporte”, com 13 (1,9%) votos. Todas as demais entradas ficaram abaixo de 1%.

Mais uma pergunta obrigatória, é interessante que aqui vemos uma distribuição das respostas um pouco mais diversa do que a que encontramos na pergunta 1 desta página. Seinen ainda toma o primeiro lugar, com 384 (56,1%) votos. Em segundo lugar veio o josei, com 106 (15,5%), seguido de perto pelo shoujo, com 103 (15,1%) votos. Shounen vindo em quarto, com 79 (11,5%) votos, foi a maior surpresa aqui. E finalizando, kodomo vem em último, agora angariando 12 (1,8%) votos.

Se na pergunta anterior eu disse que havia uma diversidade “um pouco” maior do que na sua contra-parte um pouco mais acima, as respostas nesta pergunta 4 foram surpreendentemente muito mais diversas do que aquelas da pergunta 2.

Outra pergunta obrigatória, para minha surpresa aqui foi o “slice of life” o gênero mais votado, por 106 (15,5%) respondentes. Logo depois veio “mistério”, com 93 (13,6%) votos. Ai temos “ação”, com 88 (12,9%) votos; “comédia”, com 84 (12,3%); “horror”, com 66 (9,6%); “drama”, com 64 (9,4%); “romance”, com 62 (9,1%); esporte, com 54 (7,9%); e “erótico”, com 28 (4,1%). Todas as demais opções ficaram abaixo de 1% em número de respostas.

 

Página 4: Opiniões sobre o Mercado

Ao contrário das seções anteriores, onde eu optei por tecer alguns comentários sobre os resultados, sobretudo para discriminar melhor questões como número bruto de votos em cada opção ou porcentagens que a imagem em si não mostrava, para as perguntas desta seção 4 eu decidi deixar apenas as imagens. Números brutos e porcentagens já aparecem nas próprias imagens, e todas as perguntas eram obrigatórias, então acredito que não há o que comentar.

Apenas tenham em mente o que cada número significa:

  1. Discordo completamente
  2. Discordo parcialmente
  3. Indiferente / Sem opinião no assunto
  4. Concordo parcialmente
  5. Concordo completamente

 

Considerações finais

Antes de encerrar o texto, eu quero deixar aqui os agradecimentos a todos que participaram nesta pesquisa. A mim ela certamente será de grande ajuda, os dados e os comentários que recebi me dando muito o que pensar sobre esse meio que são os consumidores de mangá no Brasil.

E lógico, não poderia deixar de agradecer também a ajuda do Fábio, do Anime21, e do Vinicius, do Finigeekis, que auxiliaram na elaboração do formulário, opinando e criticando de forma a melhorá-lo.

Por fim, eu digo que por improvável que isso seja eu certamente gostaria que estes dados fossem úteis para qualquer um que encontre usos para eles – um dos motivos pelos quais eu os divulgo, afinal. Mas se mais nada, espero que estes resultados deem ao leitor algo sobre o que refletir, assim como deram a mim.

Um comentário sobre “[Resultados] Pesquisa com Leitores de Mangá

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s