Considerações sobre o mercado brasileiro de mangás.


São tempos difíceis para se colecionar…


É possível que não exista momento pior do que este para abordar esse tema. Nossa conjuntura atual está além de complicada: crise financeira, dólar subindo, bancas e livrarias fechando, editoras falindo… O termo “apocalipse editorial” já está na boca do povo. Numa tal situação, querer fazer qualquer crítica ao estado atual das coisas, no que se refere ao mercado brasileiro de mangás, talvez soe para alguns como algo entre o insensível e o egocêntrico. Ainda assim, este é um assunto sobre o qual eu já desejava falar há algum tempo. E como aparentemente essa crise que enfrentamos não será resolvida tão cedo, o agora é um momento tão propício para abordar o assunto quanto qualquer outro no futuro próximo.

Verdade seja dita: os tempos são outros. Nos últimos anos pudemos ver uma série de novas tendências no que se refere ao mercado nacional de mangás, para a alegria de alguns e o desespero de outros. Meu objetivo com estes textos será o de explorar brevemente algumas dessas mudanças, dando a minha sincera opinião em cada tópico. E sim, eu disse textos, no plural. Serão dois: este aqui, explorando o lado editorial dessas mudanças, comentando questões como o aumento dos preços dos mangás e o afastamento das editoras das bancas, e um texto subsequente, a ser publicado, onde explorarei o lado do consumidor, abordando as mudanças na nossa própria forma de consumir, valorar e apreciar esses produtos.

Representação gráfica da situação do nosso mercado editorial.

 

Em tempos de crise…

Este não é um texto sobre a crise. No que se refere à crise econômica em que o país como um todo se encontra, há certamente indivíduos – economistas, cientistas políticos, sociólogos, historiadores, etc. – muito mais qualificados para explanar a situação do que eu. E no que se refere à crise mais específica, do nosso mercado editorial, há já também uma quantia substancial de conteúdo no assunto, e vou inclusive deixar uma pequena bibliografia a respeito no final deste artigo.

Eu preciso, porém, reconhecer que a crise existe. Isso porque uma parte considerável dos problemas que irei abordar ao longo deste texto é consequência direta dessa crise, e não admitir isso seria colocar nas editoras uma responsabilidade muito maior do que a real. Então comecemos com uma (extremamente) rápida explanação a respeito do estado das coisas no que se refere à crise.

A atual crise econômica que o Brasil enfrenta é uma que vem desde 2014, a alta do dólar sendo uma das consequências dessa crise. No momento em que escrevo este artigo, em agosto de 2018, o dólar já ultrapassa os R$ 4,00, e enquanto eu espero que este dado date o texto me assusta um pouco pensar que isso se deva à possibilidade desse número subir ainda mais daqui para frente. E claro, o aumento do dólar tem consequências diretas no mercado de mangás.

Não ta fácil pra ninguém.

Importamos papel. Qualquer editor no Brasil dirá que isto é absolutamente ridículo, considerando que somos um grande produtor de celulose, mas é a nossa realidade. Quando o dólar sobre, o preço do papel sobe. O custo de impressão dos mangás (ou de qualquer outro produto impresso, é óbvio) sobe. E nisso qualquer editora fica posta entre a cruz e a espada: repassando o aumento dos encargos ao consumidor, e no processo arriscando atrair a ira desse mesmo consumidor, ou essencialmente operar no vermelho, com o risco de simplesmente falir.

Não é uma situação agradável, e é uma que se complica ainda mais quando você considera que em tempos de crise o supérfluo é o primeiro alvo dos cortes orçamentários. Entretenimento não é essencial à nossa sobrevivência, e mesmo que fosse existem formas de entretenimento muito mais baratas do que colecionar mangás. Assim, conforme os preços aumentam temos menos e menos pessoas comprando, o que só faz iniciar um efeito bola de neve.

E antes a crise se limitasse a isso. Bancas de jornais estão desaparecendo. Grandes redes de livrarias, como a Saraiva e a Cultura, enfrentam dívidas altíssimas, ficando sem pagar as editoras. A editora Abril entrou com processo de recuperação judicial, e para aqueles que acreditam que a derrocada da Abril seja uma coisa boa é sempre útil informar que o grupo Abril é também o responsável por aquela que é, essencialmente, a única distribuidora de nível nacional para bancas de jornais.

Eu vou parar por aqui porque, como disse, este não é um texto sobre a crise. Mas há de se reconhecer: são tempos difíceis. Para nós. Para as editoras. E para quem mais você puder pensar. Bem poucas pessoas estão felizes com o estado atual das coisas, e mesmo os que estão muito provavelmente estariam ainda mais se não estivéssemos em crise. Só nos resta torcer por tempos melhores…

Minha cara quando eu olho meu extrato bancário.

 

A “gourmetização” do mercado de mangás.

A “onda gourmet“, se podemos chamar assim, é um fenômeno relativamente recente. Eu enfatizo o “relativamente” porque, na minha visão, esta é apenas a mais nova manifestação de uma tendência ao gosto pelo exótico. A ideia de que o estrangeiro é, se não automaticamente melhor, no mínimo diferente: e que portanto um produto estrangeiro carrega consigo não apenas a si próprio, mas também uma experiência diferente daquela que estamos acostumados. Ponto em questão: pegue um produto cotidiano, passe seu nome para o inglês, aumente o preço em um fator de dez, e veja filas se formando para pagar.

Mas esse pequeno preâmbulo de lado, acabou que o termo “gourmetização” vem descrever exatamente esse fenômeno: o aumento de preço de um produto que era, até então, relativamente barato. No mercado de mangás, o termo vez ou outra aparece para descrever o progressivo aumento da qualidade do material, que obviamente é acompanhado do aumento de seu preço. Papel off-set, capa com orelha, luva, capa dura, tamanhos e formatos diferenciados… E nisso o preço vai subindo: 25 reais, 40 reais, 60 reais, 80 reais, 100 reais… E nisso o que já é um mercado de nicho, afinal não é todo mundo que compra mangá, vai se fechando cada vez mais.

Eu quero deixar bastante claro que não há nada de errado em exigir uma qualidade maior no produto que você compra. Quando você abre o mangá e consegue ler três páginas adiante, tamanha a transparência do papel, isso afeta a experiência. Quando você abre o mangá e a deterioração do papel de baixa qualidade faz parecer que você acaba de abrir a tumba selada de algum faraó, tamanho o mal cheiro, isso afeta a experiência. Quando você abre o mangá e metade dele cai no chão devido ao uso de uma cola de má qualidade, isso afeta a experiência. E não há nada de errado em apontar esses problemas e pedir por um material melhor.

Eu também não vejo problema nenhum em pedir um material de luxo, ainda que isso levante algumas questões que pretendo discutir no próximo artigo. O problema é quando o luxo vai se tornando padrão.

Minha cara quando lançam outro mangá por mais de 20 reais.

Aqui uma pequena anedota. Estava eu passando em frente a uma banca de jornais, e vi entre os mangás o primeiro volume de Children of The Sea, da editora Panini. Com uma capa que denotava um estilo artístico diferente, eu peguei o volume em mãos para dar uma olhada, e eis então que vejo seu preço: R$ 32,90. Um mangá do qual nunca ouvi falar, que não sabia quantos volumes teria ou mesmo se já estava ou não finalizado no Japão. Por R$32,90. “Experimentar” um mangá se tornou um comprometimento grande demais: coloquei o volume de volta na prateleira.

Mas talvez ainda mais sintomático seja a decisão da Panini de fazer com que sua linha mais básica saia pela “módica” quantia de R$21,90. Black CloverDragon Ball SuperBoruto: Naruto Next GenerationsThe Promissed Neverland, todos títulos que saem por esse valor. Sabem o que têm em comum? São shounen. Mangás voltados para o público infanto juvenil, normalmente na faixa dos 12 aos 15 anos, às vezes um pouco mais. E mangás que são conhecidos por serem de longa duração, facilmente ultrapassando as dezenas de volumes. Pergunto ao leitor: vocês imaginam algum pré-adolescente ou adolescente, hoje, colecionando algum destes títulos? E nisso o público não se renova. E sim, pelo menos por enquanto esse é um problema sobretudo com os títulos da editora Panini, mas veremos por quanto tempo isso se mantém assim.

Faz sentido. Em tempos de crise, as vendas caem. O dólar aumenta. Produzir se torna caro. Distribuir se torna caro. Você não sabe se terá retorno deste ou daquele ponto de vendas. E os poucos que ainda compram pedem por mais e mais qualidade. A solução é aumentar o preço, garantindo algum retorno a curto prazo mesmo que minando o mercado no longuíssimo. Sim, em alguns anos, talvez algumas décadas, os atuais leitores deixarão de consumir mangá. Mas para uma editora se preocupar com isso ela primeiro precisa garantir que ainda estará funcionando no próximo mês, que dirá então em dez ou vinte anos.

O ideal seria um formato mais barato. Voltar o meio-tanko, talvez? É, exato. A simples menção a essa possibilidade já causa arrepios em qualquer colecionador, como se fazer a pergunta fosse em si uma blasfêmia. Um formato mais barato levantaria a ira de um número considerável de consumidores – com razão, até, dependendo do quão baixa seria a qualidade desse material. Claro, um formato mais barato seria voltado para um outro público. Um novo público! Mas… onde ele seria vendido?

Bancas que fecham. Livrarias que não pagam. Nessa bagunça, pra onde vão os mangás?

 

Bancas sumindo, livrarias quebrando…

Como alguém que cresceu tendo por hábito entrar em toda banca de jornal que cruzava o meu caminho, chega a ser um pouco triste – para não dizer assustador – pensar que um dia elas serão lembradas por uma geração da mesma forma que a minha se lembra das saudosas locadoras: relíquias de um passado há muito superado. Infelizmente, esse pode justamente ser o caso.

Vamos ser honestos: a distribuição de mangás em bancas nunca foi exatamente cinco estrelas. Para o eixo Rio-São Paulo talvez sim, mas viva numa cidade um pouco menor e provavelmente ou o mangá não chegava, ou chegava meses atrasado, ou chegava em péssimo estado de conservação. Só que se até há pouco o motivo era pura e simples incompetência por parte dos distribuidores, a situação agora é um pouco diferente. O número de bancas vai diminuindo, e as que sobram vão inovando: vendem cigarros, doces, sorvetes, brinquedos… Olhando de fora, pode ser difícil distinguir uma banca de jornais moderna de uma lojinha de conveniências.

A situação é crítica. Praticamente todas as editoras de mangá – Panini, JBC, New Pop, Devir – já abandonaram as bancas de jornais, com seus produtos agora passando para livrarias e lojas especializadas. Ambientes que atraem justamente os colecionadores: não exatamente aqueles mais dispostos a pagar por um material de qualidade inferior, por barato que ele seja.

Nada contra livrarias, mas bancas são tão mais práticas…

Infelizmente, nem mesmo as livrarias são mais uma aposta tão segura – como já comentei mais acima. Não seria de estranhar se num futuro não tão distante a venda física dos mangás fosse relegada a apenas um pequeno punhado de lojas especializadas. E claro, à internet.

O problema é que com isso vamos perdendo a praticidade. É pouco provável que um simples curioso vá até uma loja especializada, enquanto que bancas de jornais já chegaram a existir em praticamente toda esquina. E quanto à internet, ela mesma também não me parece particularmente capaz de criar novos leitores. Ambos os espaços são ambientes que você visita quando já sabe o que quer. E nisso mais uma vez o público vai se afunilando. Não é mais apenas uma questão de não poder pagar: logo será também uma questão de quem pode ou não saber sobre o produto vendido.

Como alguém que não é particularmente entusiasta por acompanhar checklists, a banca de jornais sempre foi o local onde eu me informava sobre o que havia ou não sido lançado recentemente. Quando a New Pop sumiu das bancas, tendo sido a primeira editora a fazê-lo, ela também praticamente sumiu das minhas prateleiras: meu contato com as obras da editora se limitando a eventos nos quais ela participasse. Que em algum tempo o mesmo ocorra com todas as demais editoras seja uma perspectiva se quer possível é simplesmente lamentável. Mas de novo: não da para culpá-las por isso.

Quem vai numa livraria ou loja especializada normalmente já sabe o que quer comprar.

 

Mas por outras coisas dá!

Eu tenho duas críticas maiores às editoras, a primeira – e também a menos severa, digamos assim – sendo com relação ao marketing. Que, sejamos sinceros, no caso das principais editoras de mangá se resume à páginas em redes sociais e presença em eventos pontuais: ambos espaços frequentados sobretudo por aqueles que já conhecem a editora e seu trabalho. Sim, mais uma vez batendo na tecla da falta de renovação do mercado.

Obviamente esse é um problema difícil de solucionar. A própria presença dos mangás em bancas era por si só uma forma de marketing, mas se no futuro eles simplesmente sairão delas de vez… Em um mundo ideal haveria propagandas para toda sorte de títulos em tudo que é lugar, de outdoors em auto-estradas até os espaços para propaganda em ônibus e metrô. Mas não vivemos em um mundo ideal: marketing custa dinheiro, e investimentos de grande magnitude são exatamente o que as editoras não precisam atualmente.

Talvez fosse interessante algum tipo de parceria com plataformas de streaming. Muitos dos mangás lançados aqui possuem adaptações em anime legalmente disponíveis. Nanatsu no Taizai, publicado pela editora JBC, tem seu anime exibido pelo Netflix. Dragon Ball Super, que acabou de ter seu primeiro volume lançado pela editora Panini, tem o anime disponível pelo Crunchyroll, fora que este também é exibido dublado no canal de televisão pago Cartoon Network. Obviamente eu não acredito que parcerias com qualquer uma dessas plataformas seria fácil, e talvez seja mesmo algo já há muito considerado e descartado pelas editoras por uma série de razões, mas seria interessante um maior investimento no setor.

Seria interessante vermos formas mais variadas de marketing por parte das editoras.

Mas sabem, se a coisa chegou a esse ponto seria bom então no mínimo ter uma política mais consistente para com o checklist. Não raras vezes o checklist vem no final do mês, um bom tempo depois dos mangás já terem saído. O que proporciona o nada implausível cenário de você só tomar conhecimento de que um dado volume está chegando às bancas quando ele já esgotou. Fenomenal.

Já a minha segunda crítica vem com relação às republicações, ou falta de. De novo, aqui uma pequena anedota. Em 2017, eu finalmente parei para assistir Hunter x Hunter (2011), e foi uma experiência até que bastante agradável. Não sem seus problemas, mas num geral um anime bem divertido. Tenho vontade de ler o mangá? Absolutamente. É algo que eu farei? Muito provavelmente não. Porque achar esse mangá é essencialmente impossível, e quando você encontra terá de lidar com coisas como o primeiro volume custando três dígitos antes da vírgula. E o mesmo pode ser dito para qualquer título. É praticamente impossível iniciar uma coleção depois de passados os primeiros volumes, e iniciar uma coleção já longa é uma tarefa que nem Héracles cumpriria, com ou sem ajuda de Zeus.

Pense por um minuto, você imagina alguém começando One Piece hoje? E que tal NarutoDragon Ball é ligeiramente mais possível graças ao box completo que a Panini lançou, mas vai saber por quanto tempo esse box vai durar (isso se já não acabou). E enquanto isso os volumes mais antigos de qualquer coleção vão tendo o preço inflacionado no mercado secundário. Nesse ponto as editoras poderiam bem entregar aos consumidores o link do site pirata mais próximo, porque esse é basicamente o resultado do descaso.

Eu entendo que repor estoque não é fácil. Especialmente para séries antigas. Existe um custo ai, e talvez a demanda não seja alta o bastante para compensar o custo. Mas é preciso fazer alguma coisa! Nesse sentido a New Pop é a editora que melhor consegue manter um bom estoque, ao passo que a JBC ao menos iniciou uma política de republicação em novos formatos de séries mais antigas (EdenAlita em formato BIG, Yu Yu Hakusho em formato tanko, só para mencionar alguns). Já a Panini…

Você imagina alguém começando One Piece hoje? Pois é, nem eu.

 

Ah sim, e mangás digitais existem.

Essa seção do texto vai ser bem mais curta, essencialmente porque, para ser bem franco, eu não gosto de mangás digitais.

Evidentemente que eles possuem as suas vantagens. Para começo de conversa, não ocupam espaço, e se há aqueles que compram mangás só para expor na estante, há também aqueles para os quais a praticidade de acomodação fala bem alto. Fora isso, é literalmente impossível para um produto digital esgotar, então o formato pode ser uma fantástica solução para o problema descrito acima.

Por que então eu não gosto dele? Bom, na maior parte é certamente devido a um gosto pelo físico. Poder pegar o mangá em mãos e virar página a página tem o seu apelo. Num nível um pouco menor eu também não gosto da perspectiva de ter de comprar um produto mais um outro produto que me de acesso ao primeiro. Eu não tenho um tablet ou um kindle, e o notebook é terrível para ler quadrinhos. Celular então, nem se fala: eu quero poder ver a página inteira sem precisar aumentar ou diminuir o zoom.

Mas uma pequena parte minha também simplesmente desconfia do formato digital como um todo. Como repositório de informação, digo. É imaterial demais. E há entraves demais. Um mangá (ou livro, ou revista, ou qualquer material impresso) exige apenas que você o abra e leia. Um PDF (ou qualquer que seja o formato de um mangá digital) exige que você tenha uma máquina e um programa capaz de ler aquele formato. E com a velocidade com a qual as coisas mudam nesse meio digital eu simplesmente não consigo abandonar o medo de que eventualmente qualquer mangá digital que eu compre simplesmente deixará de ser acessível porque aquele formato dele já não é mais suportado.

Ainda se fossem mais baratos… Mas no fim do dia o preço do digital é praticamente o mesmo do físico. Claro, existem motivos para isso. Para começo de conversa, todos os custos de diagramação e edição ainda estão lá. Licenças para o digital também tendem a ser mais cara, o que encarece o produto final. E deve haver também a preocupação da editora de não lançar um produto digital tão mais barato que faça o físico encalhar. Mas sendo as coisas como são esse é um formato que realmente não me agrada.

E pra adicionar: só lançam digital o que já tem físico!

 

E em meio a tudo isso: um mercado monótono.

Nos aproximando então do final deste primeiro artigo, o último assunto que desejo abordar é um que talvez seja um tanto quando controverso (ou não). Na minha opinião, nosso mercado ainda é homogêneo demais.

Shounen continua sendo o carro chefe dos mangás aqui no Brasil. Não apenas isso, mas fica evidente a importância do anime em termos de determinar o que sai aqui: um mangá adaptado em um anime popular recente tem bem mais chances de dar as caras. Experimentalismos mais ousados ficaram renegados a formatos mais caros, e por isso mesmo o que vemos aqui são apostas em títulos ou autores “clássicos”. O selo Tsuru, da editora Devir, lançando títulos como NonNonBaO Homem que Passeia. A JBC apostando em Rosa de Versalhes. A Panini lançando JoJo’s Bizarre Adventure. Mesmo a bastante recente editora Pipoca e Nanquim entrando no mercado com Guardiões do Louvre.

É raro chegar aqui algo completamente desconhecido. E quando chega… Bom, já leram o que eu falei sobre Children of the Sea, não? Shoujo está acabando. Josei então, é mito. E se você já leu Azumanga Daioh K-On, você basicamente leu todo yonkoma que já saiu no Brasil (bom, tem Hetalia também). Se não saiu na Shounen Jump, não teve um anime de sucesso no último ano, nem é um título consagrado com potencial de atingir o público colecionador ou uma fanbase dedicada, as chances da obra sair por aqui caem bastante.

Em grande parte isso é um reflexo do próprio público consumidor. Dizer que para um título fazer sucesso no Brasil ele precisa ter porrada e explosões soa absurdamente pretensioso e condescendente, mas tem lá seu quinhão de verdade. Ou, no mínimo, é o senso comum que parece imperar nas editoras. E com isso o mercado segue se estreitando, excluindo qualquer um cujos gostos não batam com o mainstream.

Nosso mercado é saturado de shounen com um pouquinho de seinen.

Infelizmente, a solução para quem deseja ler algo minimamente diferente acaba sendo se voltar para outros mercados. Quem pode pagar, importa: o mercado americano é de uma diversidade como nunca vista por estas bandas. Quem não pode… bom, pirataria existe, né?

Só para deixar claro, não é que eu tenha algo contra os títulos lançados. Tenho O Homem Que Passeia, e se tivesse dinheiro sobrando eu certamente compraria Guardiões do Louvre. Já tenho o volume 1 de JoJo na minha coleção, e não fosse um mangá potencialmente gigante eu provavelmente teria comprado também ao menos o volume 1 de The Promissed Neverland, sendo um atual sucesso da Shounen Jump sobre o qual já ouvi falar muito bem. Made in Abyss já está na minha estante, e espero ter algum dinheiro sobrando para quando Rosa de Versalhes finalmente sair.

O que eu gostaria é uma maior diversidade. As pessoas às vezes reclamam quando uma editora traz um título que “ninguém pediu”, mas é justamente nesses títulos mais obscuros que você por vezes encontra uma joia escondida. Tom Sawyer [review] foi um dos primeiros mangás que cheguei a comprar, um volume único que nunca foi muito comentado, mas que se tornou um dos meus títulos favoritos. Seria ótimo ter mais experiências assim…

E qual é, já passou da hora de alguém lançar Yuru Camp ou Shoujo Shuumatsu Ryokou por aqui! (Eu posso sonhar, não posso?)

Estou sem um tostão furado, mas compraria o mangá de Yuru Camp…

 

Concluindo (por enquanto).

São tempos difíceis. E num cenário de crise como o nosso, o que vemos é uma retração do mercado. Menos pessoas estão comprando, então as editoras se voltam para os colecionadores. A qualidade do produto sobre, mas também o preço. O mercado fica estagnado, preso aos gostos de um público especifico. Sem renovação da base consumidora, é uma bomba relógio esperando para estourar.

Talvez a pior parte de tudo isso é que a solução não parece estar no horizonte. Claro, é sempre preciso cuidado para não sair por ai com um cartaz dizendo “o fim está próximo”. Não é como se todo o mercado fosse implodir amanhã (eu acho). Mas é um cenário preocupante, que tende apenas a se agravar. Francamente, eu adoraria poder em alguns meses pegar este texto para ler novamente e pensar como estava sendo demasiado pessimista para com a situação toda. Mas não parece que será o caso.

Mas tudo isso dito, esta é apenas metade da história. Estas são as minhas opiniões, críticas e análises no que diz respeito ao nosso mercado e às práticas das principais editoras de mangá no país. Mas não podemos ignorar o outro lado da moeda: o consumidor. Nossos hábitos de consumo mudaram, e precisamos falar um pouco mais sobre isso. Mas este é um assunto que fica para o próximo artigo.

Notas:

Conforme prometido, aqui alguns links sobre a crise editorial:

Textos:
Carta Aberta aos Leitores da New Pop, por Junior Fonseca.

Vídeos:
Dissecando a Crise das Bancas, Livrarias e Editoras | com Artur Vecchi, do canal 2quadrinhos

Podcasts:
Mercado Editorial em Crise, do podcast Confins do Universo.
Concordâncias e Discordâncias Sobre a Crise do Mercado Editorial Brasileiro, do podcast Melhores do Mundo.

E você, leitor, que pensa de tudo isso? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Wotaku ni Koi wa Muzukashi, episódio 2.

2 – Hunter x Hunter (2011), episódio 126.

3 – GeGeGe no Kitaro, episódio 21.

4 – Sakura Quest, episódio 1.

5 – Jinrui wa Suitai Shimashita, episódio 9.

6 – Wotaku ni Koi wa Muzukashi, episódio 2.

7 – Kino no Tabi, episódio 9.

8 – Animegataris, episódio 3.

9 – Re:Creators, episódio 1.

10 – Capas dos volumes 1, 2 e 3 de One Piece (Guia dos Quadrinhos).

11 – Capas dos volumes 1, 2 e 3 de Battle Angel Alita (JBC).

12 – Boku no Hero Academia, episódio 13.

13 – Yuru Camp, episódio 1.

8 comentários sobre “Considerações sobre o mercado brasileiro de mangás.

  1. Parabéns pelo excelente texto
    Só tenho uma observação a fazer: essa “gourmetização” dos mangás é mais culpa da Panini, que chegou fazendo aumento absurdo de preço do nada e matando todo mundo do coração (inclusive eu). JBC e NewPOP, pra mim, são exemplos de como isso deve ser feito no Brasil: o material é de boa qualidade e o preço é em conta também. A JBC também tem os luxos, mas ela sabe aplicar bem. A Devir e o Ayako da Veneta são realmente de colecionador, mas ambas as editoras já vieram com o propósito de serem diferenciadas, então não acho que fosse um grande problema
    Enfim, só isso que tinha a acrescentar

    Curtido por 1 pessoa

  2. O problema maior é o mercado ser de nicho. Tenho vários amigos que assistem animes (indo muito além do shoune), mas que não tem dinheiro para comprar um mangá, pois ele é caro e tem as scans. Eu acho que “gourmetizar” é um tiro no pé, mas, entendam, não estou falando em deixar os mangás com qualidade abaixo do mediando.
    No mais, o que me pegou de surpresa foi a Panini, que, de uma hora pra outra, aumentou o preço dos seus mangás. Eu acho que será a única editora que ainda distribuirá seus mangás nas poucas bancas de revista, talvez pelo fato de terem uma linha de distribuição própria (mas ruim) o preço aumentou. Thr Promised Neverland é 22,00 reais e nem páginas coloridas tem, vindo de uma editora que lançou Arakawa Under the Brigde que tinha páginas coloridas em todos os seus volumes. A JBC lançou Little Witch Academia com páginas coloridas e por cinco reais a menos, então dá para ver a diferença.
    Para cenários como o atual, o certo é trabalhar com Just in Time, ou seja, atendendo a demanda sem criar muitos estoques, e aí vemos a panini errar feio com Childrens of the Sea, um produto de nicho que não irá vender muito, pois é caro. Deve-se manter a qualidade sem extrapolar o consumidor, algo que a Panini (uma editora internacional) está ignorando.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Sinceramente, eu acho bem-feito para as editoras. Antes de 2014 o país ia muito bem, todo mundo estava empregado, gastando dinheiro. E o que as editoras fizeram? Absolutamente nada. Ficaram agarradas ao nicho e não fizeram um mísero movimento para ampliar o público. Eu bato nessa tecla de “as editoras vão se ferrar porque não investem em marketing” desde sempre. E o que eu falei se concretizou. Se, na época que o país estava bem e as editoras tinham mais verba, elas investissem em marketing para ampliar o público e extrapolar o nicho, a situação, hoje, seria diferente.

    Marketing digital não é tão caro, dava para ter investido nisso anos atrás. Mas as editoras só abastecem suas rede sociais, nem impulsionam as publicações direito, e dizem que isso é marketing.

    O estado atual das editoras é culpa delas mesmo, porque não investiram quando podia. Optaram pela opção comoda de ficar dentro do nicho achando que isso iria dar certo para sempre.

    Sinceramente, bem-feito para as editoras de mangá, estão pagando pelos erros que cometeram.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ah, e se não é possível fazer investimento em publicidade sozinho, junte-se com os outros. Antes de 2014, se não tinha verba para fazer uma ação forte sozinha, por que não fizeram uma união de forças para divulgar a mídia?
    A JBC e a Panini poderiam ter se unido para divulgar o mangá como mídia, não um título específico. Assim, mais pessoas conheceriam o produto e iriam se interessar pelos títulos. Poderiam ter feito ações em escolas, em livrarias, em eventos, em bancas de jornal.

    Possibilidades existem e, antes, quando o país não estava em crise, existiam muito mais. É muito fácil, agora, com tudo ferrado, ficar chorando que a situação está ruim. Mas vai ver o que eles fizeram (ou não fizeram) quando a situação era favorável.

    Curtido por 1 pessoa

  5. […] O 「Apocalipse Editorial」. Bancas de jornais fechando. Livrarias que não pagam seus fornecedores. No país, uma crise que já dura quatro anos. O dólar sobre em relação ao real, o que encarece o preço do papel. Entre as editoras de mangá, o aumento dos preços é a norma, seja ele razoável, seja ele talvez um tanto quanto excessivo. Todas questões que discuti – com maior ou menor aprofundamento – no meu último ensaio: Considerações sobre o mercado brasileiro de mangás. […]

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