Saito Tamaki – Beautiful Fighting Girl

Foi no ano de 2000 que o psicologo japonês Saito Tamaki publicou seu livro Sento Bishojo no Seishinbunseki, que chegaria ao ocidente onze anos depois baixo o título Beautiful Fighting Girl. Essencialmente uma análise (mesmo uma defesa) da sexualidade do otaku, aqui o autor parte da figura da “Bela Garota que Luta” – essas garotas adolescentes e pré adolescente, dotadas de habilidade de combate e de uma capacidade intrínseca de incitar o desejo sexual daquele que a vê – para tecer considerações sobre a distinção entre realidade e ficção, o (então) atual ambiente midiático, além de uma série de outras questões, tudo isso enquanto se pautando sobretudo nas ideias do psicanalista francês Jacques Lacan.

Lançado em inglês pela editora da Universidade de Minessota, com tradução de J. Keith Vincent e Dawn Lawson, o livro já chegou a ser bastante criticado pela sua excessiva, mesmo exclusiva, atenção às experiências de otaku homens heterossexuais, apenas brevemente reconhecendo a existência de otaku mulheres e nem isso para aqueles que fujam à heteronormatividade (gays, trans, etc.) [1]. Nesse sentido, ele acaba sendo um trabalho bem mais restrito em escopo do que seu autor provavelmente intencionava. Ainda assim, a simples influência que o livro teve, como um dos trabalhos pioneiros sobre o otaku, mais que justifica dar uma olhada no que Saito tinha a dizer.

Quem desejar adquirir uma cópia do livro, ele está disponível para compra pela Amazon brasileira, tanto na forma física como na de e-book. Alternativamente, uma prévia do livro pode ser visualizada pelo Google Books.

Agora, antes de mais nada eu quero deixar aqui o mesmo aviso que deixo em todo artigo do tipo. Este sendo o de que o propósito deste texto não é o de fazer uma resenha crítica do livro, então não esperem encontrar nele muito sobre a minha opinião da obra. O intento aqui é muito mais o de um resumo, reconstruindo a argumentação do autor de forma a tentar trazer as discussões que o livro levanta para um outro público.

Começando então o artigo, a tradução da editora da Universidade de Minessota abre com uma introdução escrita por um dos tradutores, Keith Vincent. A bem da verdade, essa introdução é essencialmente um resumo dos principais pontos do livro, então não pretendo me estender aqui. Na sequência, temos um breve Prefácio onde Saito comenta sobre como a ideia desse livro surgiu após ele entrar em contato com a produção do artista outsider Henry Darger. Como este autor é um tópico ao qual Saito irá retornar quando do quarto capítulo do livro, vou também pular essa seção por agora e voltar a ela um pouco mais adiante no texto.

Assim, nós finalmente chegamos ao capítulo 1, The Psychopathology of the Otaku. Aqui, Saito começa com uma exposição sobre as origens do termo otaku – primeiro usado em um texto escrito por Nakamori Akio, em artigo de 1983 para a revista Manga Burikko – antes de entrar então em algumas das teorias que tentaram caracterizar o otaku. Considerando que Saito menciona essas teorias basicamente para dizer que discorda delas, passemos dessa parte para chegar justamente no ponto em que o autor anuncia quatro características que ele diz observar no otaku. Tenham em mente: o capítulo inteiro é essencialmente uma explanação sobre cada uma dessas características, então falemos delas, em ordem, já trazendo também as explicações a seu respeito que o capítulo apresenta.

Primeiro: o otaku se define por uma forte afinidade pelo que Saito chama de “contextos fictícios”. Para exemplificar o que ele quer dizer com esse termo, temos o exemplo por contraste entre um documentário, percebido com um nível de ficcionalidade muito baixo, versus a paródia, capaz de tornar a própria ficção ainda mais fictícia, num movimento ainda que pode seguir indefinidamente, numa sequência de paródias de paródias. E seguindo nesse ponto, Saito ainda contrasta o otaku com o maniac (que aqui talvez fosse melhor traduzido por “colecionador” ou “aficionado”), cujos objetos de adoração (selos, moedas, carros) possuem uma maior “materialidade” quando comparados com aqueles do otaku (anime, mangá, jogos).

A segunda característica vem para responder à pergunta de como, então, o otaku “possui” o seu objeto de desejo, ao que Saito responde: através da ficcionalidade. Doujinshi seria, nesse contexto, uma das formas pelo qual o otako possui o seu objeto de adoração. É nesse ponto que Saito pergunta o que é, afinal, a ficção, e nisso torna-se necessário fazer um desvio das quatro características em direção às teorias do psicanalista francês Jacques Lacan.

De particular importância para este livro é divisão tríplice entre o Real, o Simbólico e o Imaginário: na explicação de Saito, o primeiro sendo um campo inatingível, o segundo equivalendo à escrita, e o terceiro sendo o campo da imagem e da representação. O argumento aqui feito é o de que os seres humanos só podem perceber o mundo de forma mediada, e por isso toda experiência só existe no âmbito do Imaginário, nunca do Real (daí este ser inatingível). Por conta disso, o que Saito irá dizer é que a única real distinção entre a ficção e aquilo que nós chamamos de a realidade cotidiana é a consciência da experiência estar sendo mediada ou não.

Daqui nós podemos passar para a terceira característica do otaku: a capacidade de saltar livremente entre diferentes contextos ficcionais. É nesse ponto que Saito comenta na crença popular de que o otaku é propenso a confundir realidade e ficção, argumentando que, na verdade, o otaku apenas percebe a realidade como um tipo de ficção (dai o framework da teoria de Lacan ser tão relevante nesse livro). Nesse sentido, ele não hierarquiza as coisas, colocando a realidade cotidiana contra a ficção das histórias que consome. Para reforçar seu argumento, Saito ainda traz o exemplo do livro de Stephen King Misery, sobre uma fã que sequestra o autor de sua série de livros favorita e o força a escrever o final que ela gostaria. Longe de algo do tipo, a reação do otaku a um final que não lhe agrada é criar, ele mesmo, o final que gostaria. Borrar a linha entre autor e consumidor sendo ainda outro exemplo de como o otaku se move entre diferentes contextos.

A quarta e última característica é talvez a mais importante para a argumentação do livro, bem como aquilo que, em última instância, parece definir o otaku muito mais do que as três característica anteriores: a capacidade de sentir atração sexual por personagens fictícias. Saito inclusive identifica um ciclo aqui, com o “trauma” inicial sendo a primeira excitação sexual que a pessoa sente por uma personagem fictícia, que é reforçado por situações similares ou, quando o otaku em questão se torna ele próprio um criador, pela produção de nova ficção. É por isso que, Saito aponta, não existe otaku criança: havendo esse componente sexual, ele precisaria ser no mínimo adolescente.

Dito isso, um ponto extremamente relevante para o livro é a noção de que a sexualidade do otaku no que tange à ficção é drasticamente diferente daquela dele na realidade. Assim, enquanto na ficção ele pode buscar toda sorte de perversões das mais variadas, Saito identifica que a vida sexual do otaku tende a ser bastante “vanilla” (na falta de palavra melhor). E o capítulo inclusive se fecha num comentário que bem resume a opinião de Saito sobre tudo isso: “no campo do Imaginário, todo ser humano tem o direito de ser um pervertido” [2].

Agora, antes de entrarmos no segundo capítulo, eu preciso informar que dos seis capítulos do livro, o grosso da argumentação de Saito está no primeiro e no último. Os capítulos 2 a 5 majoritariamente oferecem exemplos e contexto para os argumentos, e nesse sentido eles são bem fáceis de resumir. Digo isso para evitar a impressão de que estou de alguma forma apressando esse resumo: se não uso de muitos parágrafos para resumir o que é essencialmente a maior parte do livro é porque, sem querer soar pedante, não há realmente muito o que resumir aqui em primeiro lugar. Sendo assim, continuemos.

O segundo capítulo, Letter from an Otaku, entrega exatamente o que diz o seu título. Trata-se de um excerto de uma conversa que Saito teve com um otaku, um jovem na faixa dos 20 e poucos anos. Francamente, não há muito o que extrair daqui. Fora ser o comentário de apenas um indivíduo, o próprio Saito reconhece que talvez as visões desse otaku tivessem sido influenciadas pelas suas, dado o longo período em que estiveram em contato. Ainda assim, pelo menos nesse caso em particular podemos ver em funcionamento a ideia de Saito de que a sexualidade do otaku é performativa, de certa forma como que distanciada do próprio indivíduo, a exemplo de quando esse otaku comenta um poema que escreveu para a figure da personagem pela qual estava apaixonado.

O terceiro capítulo é intitulado Beautiful Fighting Girls Outside Japan, e aqui somos apresentados a correspondências que Saito teve com otaku fora do Japão, com os quais ele entrou em contato através da internet. Aqui, o mais interessante a se apontar é que Saito identifica um forte contraste entre o otaku japonês e aquele no ocidente, com o primeiro sendo bastante aberto no que diz respeito à sexualidade na ficção que consome, enquanto que aqueles do segundo grupo tendem a ser bem mais críticos da sexualização presente nos animes e mangás. Fora isso, o capítulo essencialmente busca argumentar que a figura da “Bela Garota que Luta” é bem pouco presente no ocidente, onde ele identifica muito mais a figura da “Amazonas”, a mulher guerreira, não tanto a garota.

No quarto capítulo, The Strange Kingdom of Henry Darger, retornamos ao artista outsider cujo trabalho Saito havia mencionado no prefácio do livro. Agora, o termo “artista outsider” tecnicamente implica em qualquer artista vindo de fora do mundo das artes, mas na prática ele se tornou muito mais associado com aquelas pessoas dotadas de algum tipo de desordem mental e que faziam arte de alguma natureza.

Henry Darger nasceu em 1892 e veio a falecer em 1973. Vítima de uma infância complicada, ele viria a se tornar famoso pelo seu trabalho monumental The Story of the Vivian Girls, in What is Known as the Realms of the Unreal, of the Glandeco-Angelinian War Storm Caused by the Child Slave Rebellion, uma obra de mais de 15 mil páginas compiladas em diversos volumes, mais diversas ilustrações feitas pelo próprio Darger. Aqui, acompanhamos a história das “Vivian Girls“, sete meninas que lutam na titular guerra glandeco-angelinian, num mundo fictício criado pela mente de Darger. O curioso, porém, fica por conta das imagens que ilustram a história, que retratam cenas de brutal violência com as sete garotas principais constantemente aparecendo nuas. Ah sim: e elas têm um pênis.

No prefácio, Saito havia mencionado que o conceito de garotas pré-pubescentes que lutam em uma guerra lhe causava uma certa sensação de déjà vu, uma que ele não conseguiu explicar até que alguém apontou o quanto o conceito lhe soava similar ao de Sailor Moon. Foi a partir disso que Saito começou a reparar melhor na figura da Bela Gatora que Luta na cultura japonesa, e foi onde ele começou a formular as ideias que eventualmente resultariam neste livro. Dito isso, o que o capítulo parece trazer de mais relevante é a colocação de Saito de que Darger seria um hikkikomori, vivendo a maior parte de sua vida isolado (ele tinha um emprego, mas não socializava, e seu tempo livre ele passava em seu quarto).

Para Saito, as imagens que Darger criou, nas quais o próprio Saito identifica um componente sexual, são resultado de uma adolescência prolongada – ela própria causada pelo seu isolamento – somada ao ambiente midiático em que Darger vivia – ele frequentemente usava de colagens de jornais e revistas para criar suas obras. Essa relação entre sexualidade, adolescência e mídia é um dos pontos mais importantes do livro, e será melhor retomada no último capítulo.

Com isso chegamos ao quinto capítulo, o maior do livro em tamanho, intitulado A Genealogy of the Beautiful Fighting Girl. Aqui temos essencialmente uma cronologia da Bela Garota que Luta, desde os anos 60 até os anos 90, com Saito observando um total de 13 sub-tipos de histórias que se utilizam dessa figura. Abaixo, a lista com os sub-tipos, uma breve explicação sobre eles, mais alguns dos exemplos fornecidos.

  • Single Splash of Crimson (“único splash rubro”): onde numa equipe de heróis majoritariamente masculina, temos uma – às vezes duas – personagens femininas junto. Ciborg 009 (mangá, 1964), Gundam (anime, 1979), Macross (anime, 1982)
  • Magical Girl (“garota mágica”): bastante auto-explicativo. Mahou Tsukai Sally (anime, 1966), Creamy Mamy (anime, 1983), Cardcaptor Sakura (anime, 1998)
  • Transforming Girl (“garota que se transforma”): também bastante auto-explicativo. Pa-man (anime, 1967), Cutey Honey (anime, 1973).
  • Team (“equipe”): equipes compostas inteira ou majoritariamente por garotas. Cat’s Eye (mangá, 1981), Gunsmith Cats (mangá, 1991).
  • Grit and Determination (“garra e determinação”): sobretudo histórias de esporte feminino. Attack Nº 1 (manga, 1968), Ace wo Nerae (anime, 1973).
  • Takarazuka (famoso grupo de teatro composto exclusivamente por mulheres): histórias na qual a personagem feminina precisa se vestir como homem por algum motivo. Ribon no Kishi (anime, 1967), Versailles no Bara (anime, 1979), Shoujo Kakumei Utena (anime, 1997).
  • Sartorian Pervertion (“perversão sartoriana”): histórias que enfatizam o contraste entre a doçura e a força da personagem feminina, o que Saito chama de uma “atração transexual” exercida pela personagem. Harenchi Gakuen (mangá, 1968), Yamete! Hibari-kun (mangá, 1983)
  • Hunter (“caçadora”): histórias na qual a personagem feminina luta em prol de alguma recompensa. Lupin III (mangá, 1967), Appleseed (mangá, 1985), Ghost in The Shell (filme em anime, 1995).
  • Alien Girl Next Door (“vizinha alien”): quando a personagem feminina vem de um outro mundo. Urusei Yatsura (mangá, 1978), Tenchi Muyo (anime, 1992).
  • Pygmalion (referência ao mito de Pigmalião, que se apaixonou por uma estátua): histórias na qual a personagem feminina é uma criação artificial. Dr. Slump (mangá, 1980), GUNNM (mangá, 1991).
  • Miko (sacerdotisa japonesa): histórias na qual a personagem feminina realiza a mediação entre dois “mundos”. Nausicaä (filme em anime, 1984), Mononoke-hime (filme em anime, 1997)
  • Other World (“outro mundo”): histórias na qual a personagem feminina é transportada para outro mundo. Mahou Kishi Rayearth (anime, 1994), Escaflowne (anime, 1996).
  • Hybrid (“híbrido”): histórias que combinam os 12 sub-tipos anteriores. Top wo Nerae! Gunbuster (anime, 1988), Shinseiki Evangelion (anime, 1995).

O capítulo também traz alguns comentários sobre cada década, destacando pontos como a comercialização dos primeiros gravadores VHS domésticos no fim dos anos 1970, a plena maturidade e declínio do anime nos anos 1980 (segundo Saito), o boom lolicon também nos anos 1980, e o renascimento dos animes nos anos 1990 (de novo, segundo Saito).

E com isso chegamos ao sexto e último capítulo do livro, The Emergence of the Phallic Girls, que começa com Saito questionando o que há de especial no mangá e anime, ao que ele responde com três características que, mais uma vez, são melhor explicadas ao longo do texto.

A primeira dessas características é o que Saito chama de “atemporalidade”: a tendência do mangá de “esticar” o tempo, usando da passagem dos quadros para fazer um momento durar muito mais do que seria natural. O contraste aqui fica com os quadrinhos americanos ou o próprio cinema, onde o tempo seria muito mais linear. Mas haveria também outras formas pelas quais certos títulos atingem essa supressão da temporalidade, como personagens que nunca envelhecem ou que são dublados pela mesma pessoa por décadas a fio.

A segunda característica mencionada é uma que Saito chama de “múltiplas personalidades”. O argumento feito aqui é o de que o mangá é uma mídia limitada no âmbito dos personagens: não seria possível criar aqui personagens acima de uma certo nível de complexidade, o que significa, em resultado, que não seria possível contar histórias acima de um certo nível de complexidade. O que ocorre, na sua visão, é que cada personagem acaba sendo um aspecto de uma personalidade maior – por exemplo, aquela do autor. Pensamento que ele muito bem resumiu na seguinte frase: “Eles [os mangás] talvez não sejam capazes de representar ‘personalidades complexas’, mas certamente produzem ‘tipos fascinantes’” [3].

A terceira e última característica é o que Saito chama de “alto contexto”, e de certa forma ela parece estar atrelada à alegação anterior. O argumento aqui é que o mangá e o anime são mídias de alto contexto, isto é, são mídias nas quais a forma tem um profundo impacto no conteúdo. Saito exemplifica o que ele quer dizer com isso comparando a fotografia ao anime: dizer “eu vi uma fotografia” não produz nenhuma imagem específica na cabeça de quem ouve (uma foto pode ser uma foto de literalmente qualquer coisa), mas dizer “eu vi um anime” já evoca uma imagem muito mais concreta.

A partir daqui, Saito entra em uma discussão sobre a mídia, comentando seu impacto social e econômico, mas argumentando que ela não trouxe nenhuma mudança interna. Posto de outra forma, o que Saito coloca é que nossa estrutura de desejo não mudou com o advento do ambiente midiático moderno. Porém, o nosso objeto de desejo mudou. É aqui que entra a figura da Bela Garota que Luta, que Saito declara ser um objeto autônomo de desejo. Em outras palavras: ficção não lastreada pela realidade, desejável em si mesma.

Aqui, Saito busca rejeitar qualquer interpretação que veja a Bela Garota que Luta como um reflexo da realidade, seja este um reflexo do machismo prevalente na sociedade japonesa, seja este um reflexo de avanços no status da mulher nessa mesma sociedade. Saito distingue aqui o que ele chama de “espaço ocidental” do “espaço japonês”: no primeiro, impera uma lógica platônica onde a realidade é um simulacro do mundo das ideias e a arte é um simulacro da realidade. Em tal contexto, a arte é sempre reflexo da realidade, mas no espaço japonês isso não seria necessariamente verdade. Aqui, ela pode existir como completamente separada da realidade, mesmo assumindo o que Saito argumenta ser uma realidade própria. Essa realidade própria, porém, necessita da sexualidade para se manter, isso porque dentre os objetos que despertam o nosso desejo é a sexualidade a que mais resiste à tornar-se ficção. Como Saito coloca, dinheiro e poder de papel não desperta nosso desejo, mas o sexo sim.

Nesse sentido, talvez a citação que melhor resume o argumento nessa reta final do livro seja esta:

“Nossas fantasias compartilhadas foram reduzidas a uma só: que todos vivemos nossas vidas consumindo vastas quantias de informação. (…)

Para nós que vivemos a fantasia de um cotidiano informatizado, não há nada de surpreendente na existência de algo como ficção mais real que a realidade” [4]

Ao final, Saito se pergunta se a figura da Bela Garota que Luta não seria uma forma de resistir ao que ele chama de uma “ficcionalização achatante” do mundo. Se o sexo resiste a tornar-se fictício, no momento em que desejamos uma personagem da ficção a realidade se intromete – e nisso somos capazes de perceber que a distinção entre ficção e realidade é uma apenas imaginária. E quanto ao otaku, que aprecia de toda sorte de perversões na ficção, mas que leva uma vida sexual absolutamente mundana na realidade, Saito assim declara: “Se há uma certa sinceridade e ética em uma vida dissociativa vivida com autoconsciência, é porque hipocrisia e engano habitam na falsa vida coerente” [5].

O livro finaliza então com dois Pós-escritos, o primeiro da edição original e o segundo da republicação de 2006, onde Saito tece algumas considerações sobre o processo de produção do livro e, no caso do segundo, o quanto o cenário da cultura otaku havia mudado desde que publicara a primeira versão. Finalmente, as últimas páginas trazem um Comentário escrito por Azuma Hiroki, onde ele comenta o impacto que o livro de Saito teve e como o seu próprio livro, Otaku: Japan’s Databased Animals, era essencialmente uma resposta à Beautiful Fighting Girl, após Azuma ter lido o livro de Saito e ter basicamente discordado de absolutamente tudo.

Notas:

1 – Para dois exemplos de críticas do tipo, recomendo a review do livro por Kathryn Hemmann, bem como a review feita por Raechel Dumas

2 – Tradução livre de: “In the imaginary real all human beings have the right to be perverts”. Saito Tamaki. Beautiful Fighting Girl. Editora da Universidade de Minessota, 2011. Pág. 31.

3 – Tradução livre de: “They may not be able to portray ‘complex personalities’, but they certainly do produce ‘fascinating types”. Idem. Pág. 146.

4 – Tradução livre de: “Our shared fantasies have been reduced to a single one: that we are all living our lives consuming vasts quantities of information. (…) For us that live this fantasie of an informationalized everyday, there is nothing at all surprising about the existence of something like a fiction more real than reality”. Idem. Pág. 170.

5 – Tradução livre de: “If there is a certain sincerity and ethics in a dissociated life lived with self-awareness, it is because hypocrisy and deception dwells in the falsely coherent life”. Idem. Pág. 172.

E você, que leu o texto até aqui: que achou das ideias apresentas em Beautiful Fighting Girl? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

4 comentários sobre “Saito Tamaki – Beautiful Fighting Girl

  1. “Em tal contexto, a arte é sempre reflexo da realidade, mas no espaço japonês isso não seria necessariamente verdade. Aqui, ela pode existir como completamente separada da realidade, mesmo assumindo o que Saito argumenta ser uma realidade própria.” Esse trecho me lembrou de como yaoi, yuri e queerbaiting são presentes na indústria mas ao mesmo tempo os LGBTs de “verdade” sofrem apagamento. É como se fossem realidades realmente distintas.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigado por fazer esse resumo desse livro super interessante.

    Fiquei bastante curioso com relação a isso: “O capítulo também traz alguns comentários sobre cada década, destacando pontos como a comercialização dos primeiros gravadores VHS domésticos no fim dos anos 1970, a plena maturidade e declínio do anime nos anos 1980 (segundo Saito), o boom lolicon também nos anos 1980, e o renascimento dos animes nos anos 1990 (de novo, segundo Saito).”
    Você poderia, por favor, falar mais detalhes sobre os comentários dele sobre cada década?
    É que eu me interesso muito sobre a trajetória da mídia, as evoluções, transformações, os motivos desses ocorridos.

    Valeu o/

    Curtido por 1 pessoa

    • Pior que não tem muito mais o que falar, para ser sincero. Mas aqui uma pequena lista de alguns pontos que ele destaca no livro (detalhe que ele não fala nada de mais dos anos 60):

      Anos 70
      – Coloca como sendo a época do rápido crescimento e expansão do mercado otaku
      – A questão do VHS é ele citando Toshio Okada (um dos fundadores da GAINAX), que os destacou como cruciais para essa expansão do mercado otaku.

      Anos 80
      – Ele coloca como a década de plena acensão e declínio dos animes, mas não explica melhor o que quer dizer com isso.
      – Destaca o boom de mangás lolicon.
      – Aponta Captain Tsubasa como o ponto de início da cultura de fãs de yaoi
      – Termo “otaku” é cunhado em 1983

      Anos 90:
      – Época de renascimento do anime, com destaque para duas obras que ele diz terem se tornado fenômenos sociais: EVA e Sailor Moon
      – Destaca o surgimento dos Laser Disc e sua popularização entre otaku.
      – Fala de avanços na área dos jogos, em especial a possibilidade de inserir voz nos jogos.
      – Aponta o fenômeno do “media mix”

      E meio que é isso ai. Quase tudo ele muito mais “aponta” do que propriamente “comenta”, então a coisa não vai muito além disso, infelizmente.

      Curtido por 1 pessoa

      • Muito obrigado pela resposta!
        Uma pena que ele não desenvolve, fiquei curioso com esse declínio que ele citou na década de 1980. Porque, pelo que estudei, a década de 1980, que estava no embalo do boom que Yamato criou, quando isso passa, ela entra em uma fase de estagnação, até o outro boom na década de 1990 com Evangelion. Em nenhum lugar eu li sobre declínio, por mais que tenha tido problemas, como o caso daquele carinha que cometeu assassinatos e a mídia colou nele o rótulo de otaku porque tinha muito conteúdo de animê/mangá no quarto dele.

        Enfim, muito obrigado o/

        Curtir

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