Review – Comic Girls (Anime)

Comic Girls

Foi em maio de 2014 que começou a seriação do mangá de Kaori Hanzawa Comic Girls, na revista seinen mensal Manga Time Kirara Max, da editora Honbunsha Quatro anos depois, em abril de 2018, o mangá recebe a sua adaptação em anime, uma produção em 12 episódios do estúdio Nexus, com direção de Yoshinobu Tokumoto.

Nossa história começa com Moeta “Kaos” Kaoruko, adolescente aspirante a mangaka que acaba de ter seu primeiro trabalho duramente criticado pelos leitores da revista na qual conseguira publicar. Sua editora, porém, vê potencial na menina, e decide então recomendar a ela que se mude para um dormitório feminino para jovens mangaka, na esperança de que o convívio com outras pessoas ajudará a Kaos a crescer como artista.

Da decisão dela de aceitar o convite somos então introduzidos às outras garotas do elenco principal: a também iniciante e também recém chegada ao dormitório Koizuka Koyume, aspirante a artista de mangá shoujo, e duas outras adolescentes que já possuem trabalhos seriados, Irokawa Ruki, autora de mangá erótico, e Katsuki Tsubasa, autora de um mangá shounen.

O que se segue daqui é o seu típico nichijoukei, uma leve e singela comédia conforme vamos acompanhando o dia a dia dessas quatro garotas, em busca de suas aspirações como mangaka. Ainda assim, Comic Girls possui alguns traços que o elevam ligeiramente acima de outros títulos no mesmo gênero, e é sobre estes traços que pretendo tratar nesta review. E como sempre, spoilers a frente: se você ainda não viu o anime, fica a minha recomendação.

Moeta “Kaos” Kaoruko

Como qualquer um familiar com o gênero nichijoukei (ou slice of life, como ele é normalmente conhecido no ocidente) poderá dizer, a maior força de obras do tipo é o seu elenco. Personagens carismáticos e memoráveis, que rendam boas interações uns com os outros, são normalmente aquilo que de fato move essas histórias, que justamente por isso podem ter pouca ou mesmo nenhuma trama propriamente dita. Comic Girls não é diferente, e em se tratando de seu elenco este certamente passa no crivo.

As personagens são simples, quase um pré-requisito para animes desse tipo, que muitas vezes buscam evocar no espectador um sentimento de moe. Apesar disso, elas podem também ser interessantemente multifacetadas – algo com o que o próprio anime por vezes brinca ao enfatizar o “gap“, como as personagens colocam, na personalidade de algumas delas.

Ruki é apresentada como bastante próxima do arquétipo da “onee-san” (“irmã mais velha”), o fato dela escrever mangás eróticos dando a entender que ela talvez possua uma maturidade que, afinal, ela demonstra não realmente ter, sendo ainda bastante tímida e insegura em muitos aspectos. Tsubasa, por sua vez, vai na direção oposta: enquanto seus acessos de chuunibyou a fazem parecer um tanto quanto imatura, em não poucos momentos é ela quem acaba servindo de conselheira para as demais três.

Koyume é talvez a personagem mais arquetípica em Comic Girls, e mesmo ela ganha contornos mais próprios ao se revelar apaixonada para Tsubasa. E claro, temos a Kaos, cuja própria editora eventualmente descreve como admirável: apesar de auto depreciativa e não realmente muito boa em fazer mangá, Kaos nunca desiste, constantemente colocando a própria cara a tapa (figurativamente, claro) ao submeter rascunho após rascunho para avaliação.

Koizuka Koyume

É interessante também como a personalidade de cada uma se expressa em seus mangás e nas dificuldades que possuem. Ruki começa o anime bastante envergonhada de seu trabalho, e amadurece justamente ao aceitar a própria sexualidade, ganhando confiança em si mesma e no seu mangá. Koyume foi para o dormitório por não conseguir desenhar bons personagens masculinos, algo que vemos ser resultado do seu completo desinteresse em homens como parceiros românticos. E claro, temos a própria Kaos, cujo isolamento social tornava difícil para ela escrever personagens verossímeis.

Tsubasa é a única cujo trabalho não reflete as próprias dificuldades, sendo em fato um reflexo de sua personalidade tomboy, mas ainda é interessante a visão que Comic Girls apresenta da arte, estabelecendo uma relação clara entre o autor e seu trabalho, o segundo um reflexo quase que inconsciente do primeiro, representando seus interesses, mas também suas dificuldades e limitações. Limitações essas, vale dizer, que as personagens vão superando conforme a história progride.

Ruki, como eu disse, aprende a ser mais confortável com a própria sexualidade. Koyume consegue escrever personagens masculinos ao baseá-los em Tsubasa, por quem de fato possui interesse romântico. E é o convívio com as demais garotas que leva a Kaos a finalmente conseguir ter um rascunho aprovado para publicação no último episódio – um yonkoma slice of life apropriadamente (e previsivelmente) intitulado Comic Girls. Já quanto à Tsubasa, o fato dela não receber nenhum maior desenvolvimento pode muito bem se dever a ela ser, como já disse, a mais madura dentre as quatro.

Dito isso, dentre as protagonistas o conflito da Kaos é talvez o mais interessante, então permitam-me explorá-lo um pouco mais.

Katsuki Tsubasa e Irokawa Ruki

Em última instância, o problema da Kaos é basicamente que ela é uma otaku – alguém cuja maior diversão, como ela própria eventualmente coloca, era ficar sozinha no próprio quarto brincando com suas figures e cantando ani-songs. Dessa falta de contato com o mundo exterior é que nasce o seu mangá, rejeitado justamente pela sua falta de verossimilhança.

É difícil assistir a Kaos e não lembrar imediatamente da já velha crítica que Hayao Miyazaki fez à indústria do anime, de que ela estaria “cheia de otakus”, “pessoas que não suportam olhar outras pessoas”, acrescentando ainda que você não pode fazer animação se não passar algum tempo observando as pessoas. Que essa seja a exata lição que a protagonista precisa aprender foi algo bem interessante, e certamente é algo que vem da própria autora do mangá original, Kaori Hanzawa.

A Amazon japonesa chegou a publicar uma entrevista com a Hanzawa antes do lançamento do anime, entrevista esta que foi parcialmente traduzida para o inglês pelo blog Doki Doki Visual. Ao final, a autora declara: “Quanto mais amplos os seus interesses, mais ampla a sua bagagem de materiais, então eu ando pensando que talvez se dedicar inteiramente ao mangá não seja uma coisa boa” [1]. Inclusive, um pouco mais cedo na entrevista ela própria comenta sobre como colegas de profissão acabaram servindo de inspiração para algumas das personagens de Comic Girls.

A Kaos, porém, é a que possui a origem mais interessante. Segundo a autora, a personagem representa ela própria em seu ponto mais baixo, quando seu mangá anterior havia terminado e ela não conseguia outra seriação. Talvez seja isso que faz da Kaos uma personagem tão curiosa, uma que tinha tudo para ser apenas um self insert, mas que se revela com muito mais personalidade do que isso.

Being Kaos is Suffering

O fato da autora se basear nas próprias experiências e nas de suas colegas também faz com que Comic Girls apresente algumas facetas bem interessantes da própria indústria, começando pelo fato das personagens estarem ainda no ensino médio – isso que a própria Hanzawa começou quando ainda estava no fundamental: e nem era a única da sua região nessa circunstância!

A compra de materiais, o estresse a pressão que vem com a profissão, o impacto que pode ter o feedback dos fãs, as diferenças entre o desenho no papel e aquele no computador ou tablet, mesmo algo como a Tsubasa não podendo fazer uma seção de autógrafos pelo medo de que seus leitores não vejam com bons olhos uma garota escrevendo um mangá shounenComic Girls pode não ser sobre mangás realmente – isto ainda é um nichijoukei, afinal, o foco está na interação entre as personagens e a comédia que advém daí -, mas ainda está lotado de detalhes sobre esse universo.

Mas indo além da própria Hanzawa, a equipe do anime também merece algum enfoque. Em especial, o trabalho de direção de Yoshinobu Tokumoto foi simplesmente ótimo, sobretudo no que diz respeito ao ritmo e ao timing cômico do anime. Logo no começo do primeiro episódio uma cena que me chamou a atenção foi quando Kaos perde o trem que ia pegar apenas para este sair da plataforma em altíssima velocidade. É o tipo de exagero que torna a piada ainda mais engraçada, e Comic Girls está lotado de momentos assim, grandes e pequenos.

E claro, não poderia deixar de mencionar as dubladoras, sobretudo Hikaru Akao, que empresta sua voz à Kaos. Seu “abababababa” já é praticamente indistinguível da personagem, e que este seja seu primeiro papel dublando uma personagem principal é certamente impressionante. Como curiosidade, durante o lançamento do anime as dubladoras tiveram um show próprio no site Nico Nico Video, onde faziam uma live stream conversando entre si, conforme a disponibilidade de cada uma.

A direção e o timing cômico desse anime são realmente ótimos.

Um último aspecto que eu gostaria de discutir aqui é como o anime lida com a sexualidade de suas protagonistas, sendo este um universo onde não apenas a sexualidade está presente, como ainda possui considerável importância narrativa ao longo da trama.

Eu já mencionei o caso da Ruki e de como seu arco em boa parte se resolve em torno dela precisando aceitar a própria sexualidade, perdendo a vergonha e assumindo a postura madura e confiante que suas leitoras esperavam dela. E há também o caso da Koyume, onde o trope popularmente conhecido como yuri bait ultrapassa a linha do puro fanservice para deixar claro que sim, ela está apaixonada por outra garota – e todas ao seu redor tratam isso com perfeita naturalidade. E claro, temos a Kaos.

Moeta Kaoruko é talvez uma das personagens femininas mais abertamente sexuais que eu já vi em um anime, sobretudo em se tratando de nichijoukei. Ela não faz questão nenhuma de esconder o quanto estar rodeada de garotas atraentes a agrada, e é interessante como quase todo momento de fanservice sexual do anime ocorre por vermos a cena justamente do ponto de vista da Kaos. E mais interessante ainda é o anime nunca tratar esse seu traço como um problema.

Curiosamente, dentre as quatro protagonistas a Tsubasa é aquela que se apresenta como a menos interessada em questões de ordem romântica ou sexual. Mesmo no seu mangá o romance só é incluso a pedido da sua editora. Sua ingenuidade para com questões do tipo pode ser vista como uma consequência de sua personalidade tomboy, mas seja como for eu diria que ter uma personagem que não tenha de lidar com questões do tipo é também em si mesmo uma forma de adicionar variedade ao elenco.

A Kaos quer o corpo de todas ali nu.

É claro, porém, que nem tudo é perfeito, e se eu fosse fazer uma crítica a Comic Girls essa seria a falta de progressão em sua história. Aliás, pior até do que progressão: a constante regressão em sua história, que vai desde algo pequeno, como a Kaos descobrindo que precisa usar óculos apenas para nunca mais a vermos usando, até algo bem maior, como um epílogo que essencialmente devolve a história ao status quo do primeiro episódio.

Eu reconheço que criticar um nichijoukei por falta de progressão é no mínimo complicado, considerando que não poucas vezes são obras onde o trope “o status quo é Deus” impera, mas dado que em tempos recentes temos visto não poucos títulos nesse gênero que consegue manter pelo menos a ilusão de algum tipo de progressão, ver aqui muitos dos avanços serem esquecidos ou desfeitos foi um tanto quanto frustrante.

Ainda assim, já devo ter deixado bastante óbvio que o saldo final desse anime é deveras positivo, e olha que há ainda muito que deixei de falar. No elenco de personagens, as três adultas da história – a governanta do dormitório, a editora da Kaos e a professora das garotas – e a quinta mangaka apresentada, Fura Suzu, são também personagens interessantes e multifacetadas a seu próprio modo, embora não pretenda me estender aqui. Fica, portanto, apenas a menção.

Eu fui para Comic Girls sem grandes expectativas, e sai do anime até que bastante impressionado. A direção é excelente. As personagens são carismáticas e divertidas de assistir. A comédia me garantindo boas risadas praticamente todo episódio. E a produção visual é também bastante sólida e bem detalhada. Não é uma obra prima, mas nem tudo precisa ou tenta ser. E para o que é, Comic Girls é um anime que eu certamente fico feliz de ter dado uma olhada.

Notas:

1 – Tradução livre do inglês. Original: “The wider your interests, the wider your pool of material, so I’ve been thinking perhaps devoting yourself entirely to manga isn’t such a good thing”.

E você, leitor, que achou de Comic Girls? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Comic Girls, episódio 1

2 – Comic Girls, episódio 1

3 – Comic Girls, episódio 1

4 – Comic Girls, episódio 1

5 – Comic Girls, episódio 1

6 – Comic Girls, episódio 1

7 – Comic Girls, episódio 1

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