Nenhuma história é atemporal: e tudo bem.

Toda história é, em alguma medida, um produto de seu contexto.

“Atemporal” é um elogio comum de se fazer a uma história. Mesmo eu já usei o termo nesse sentido, em reviews passadas. Mas quanto mais reflito sobre ele, mais reconheço sua imprecisão. Deixemos uma coisa bem clara já de início: pouquíssimas coisas poderiam ser consideradas “atemporais”, e histórias, narrativas, arte num geral certamente não está entre essas coisas. Na medida em que tanto a arte quanto o artista que a cria são, antes de mais nada, um produto de seu tempo e contexto (social, político, histórico, cultural) é inevitável que as marcas destes transpareçam na obra. E isso não é realmente um problema.

Já disse isso em textos passados, mas para mim arte nada mais é que ainda outra forma de comunicação. Uma admitidamente muito mais indireta, mediada, com enorme espaço para interpretações outras que não a originalmente intencionada pelo artista, e que liga a si mesma propósitos outros para além do comunicar, como o entreter e o produzir lucro, mas uma forma de comunicação ainda assim. E é assumindo essa visão que fica fácil de ver qual a vantagem de aceitar essa posição temporal da ficção: a capacidade de se comentar, criticar, analisar, justamente o tempo ao qual a obra pertence.

Mas claro: encerrar o artigo aqui faria dele um tanto quanto curto demais. Sendo assim, vamos estender um pouco a discussão. De que formas a temporalidade de uma obra se apresenta? O que as pessoas de fato querem dizer quando falam que uma obra é “atemporal”, e haveria uma palavra melhor para descrever esse conceito? E vantagens de lado, a partir de que ponto abraçar plenamente a temporalidade da ficção pode ser um problema? São algumas questões que eu espero abordar nos próximos parágrafos, então avancemos.

Por melhor que seja, toda obra de ficção está, de alguma maneira, datada.

Como a temporalidade de uma obra de ficção se manifesta? Há duas maneiras disso ocorrer: pela forma e pelo conteúdo. No primeiro caso, estamos falando dos materiais e técnicas envolvidas na criação da obra, ao passo que no segundo estamos falando da obra em si, a história que está sendo contada.

Pensem, por exemplo, em um livro. Em sua forma estão inclusos seu papel, sua encadernação, se trata-se de um manuscrito ou um livro impresso, mesmo a língua na qual foi escrito. Por motivos óbvios, é esta faceta da obra aquela que mais intensamente exprime o seu caráter temporal. Conforme novas técnicas e tecnologias são desenvolvidas, aquelas do passado se tornam inevitavelmente datadas. No caso dos animes, vemos isso sobretudo no visual das obras: traço, coloração, animação, todos elementos que se revelam bastante próprios de uma época. Qualquer que você prefira, precisa admitir que os animes de hoje não possuem a mesma aparência daqueles do passado.

Mas se essa faceta material é o sinal mais visível da temporalidade de uma obra, ela é também a mais contornável: basta pegar o conteúdo e refazê-lo dentro das novas técnicas. Desta forma, um livro pode ser reimpresso por décadas – mesmo séculos e, em alguns casos extremamente específicos, milênios – com sua forma material se mantendo assim condizente com o momento presente da nova impressão.

O conteúdo se revela o exato oposto disso. Enquanto narrativa, pode ser mais ou menos difícil de perceber nela o tempo no qual foi produzida. Em alguns casos ele estará escancarado nos valores que a história defende ou nos esterótipos que adota, mas há casos mais sutis. E enquanto conteúdo, é possível argumentar que mudá-lo significa inevitavelmente mudar a própria obra: certamente que os contos de fadas se fazem presentes ainda hoje, mas somente porque as histórias foram mudadas a tal ponto que as versões da Disney mal se assemelham aos contos originais – algo que vez ou outra alguma revista ou portal de curiosidades decide nos lembrar.

Através de modificações e reinterpretações, certas histórias, personagens e arquétipos seguem relevantes – ainda que bem distantes do que eram originalmente.

O que pode existir de atemporal em uma obra de ficção são os temas que ela aborda. Conceitos como a cobiça e a arrogância, questões como o lugar de cada um na sociedade, e angústias como o lidar com a inevitabilidade da morte são todas temáticas presentes praticamente desde as primeiras mitologias. Hoje elas ainda persistem, mas é inegável que a abordagem dada a cada um desses temas variou bastante no tempo e no espaço. Afinal, como cada pessoa vê esses diferentes tópicos será bastante influenciado pela cultura na qual se está.

Mas aqui um detalhe: culturas não mudam da noite para o dia, muito menos mudam por completo de uma só vez. Certos valores podem persistir por longos períodos de tempo, e por consequência obras que abordem esses valores podem se mostrar relevantes por longos períodos de tempo. Ao mesmo tempo, pelo exato mesmo motivo é difícil perceber a temporalidade de uma obra muito recente. Por rápidas que sejam as transformações trazidas pelo mundo moderno, ainda é razoável esperar que certos valores se mantenham por pelo menos algumas décadas, se não mais, e nisso obras que tocam nesses valores podem persistir por bem mais do que outras, mesmo que seu cenário, personagens ou mesmo algumas de suas mensagens se tornem datados.

Uma história não pode ser atemporal, mas ela pode ser longeva. Ou duradoura. Ou qualquer outra palavra nesse sentido. E quando dizemos que uma história é “atemporal”, na prática só estamos dizendo que nossa cultura ainda não mudou o suficiente para que seus temas mais centrais tenham deixado de ser relevantes, ainda que outros aspectos da obra denotem a sua temporalidade.

A atemporalidade pressupõe uma retirada do contexto. A-temporal significando, literalmente, fora do tempo. Mas, como já comentei, toda produção humana está imersa no tempo, num zeitgeist bastante particular. Colocar uma obra como longeva ou duradoura é reconhecer o seu contexto inicial, enquanto dizendo que ela segue de alguma forma relevante para além daquele contexto.

Uma obra não pode ser atemporal, mas ela pode ser duradoura, conforme alguns de seus temas seguem relevantes ao longo dos anos.

Chegando agora ao último ponto que pretendo tratar neste texto, preciso primeiro reforçar o que disse no segundo parágrafo. Nós tendemos a ver a temporalidade de uma obra como um demérito: uma história ser “datada” é quase sempre posto como algo ruim. Mas ao comunicar-se com seu tempo você pode justamente criar histórias bastante relevantes para aquele momento específico. Caso em ponto: Ge Ge Ge no Kitaro.

Na temporada de primavera de 2018 foi ao ar a mais nova iteração de Ge Ge Ge no Kitaro, sobre um jovem yokai que protege os humanos de outros yokai. Acontece que esta é, em fato, a sexta adaptação em anime do mangá de Shigeru Mizuki, as anteriores tendo vindo em 1968, 1971, 1985, 1996 e 2007: literalmente uma a cada década. Não se trata, porém, da exata mesma história, com as desventuras de Kitaro sendo constantemente adaptadas de forma a melhor se comunicar com o período da mais recente adaptação – e nisso a versão de 2018 abre com um youtuber causando problemas em um cruzamento antes de ser transformado em uma árvore-vampiro, enquanto a multidão em volta só faz tirar fotos com seus celulares.

Diga-se de passagem, essa singela acidez de Ge Ge Ge no Kitaro segue intocada pelos episódio subsequentes, mas deixo mais elogios ao anime para um outro momento. Por agora, o que quero chamar a atenção é para como esse título é um bom exemplo de como abraçar a própria temporalidade permite à história discorrer sobre temas relevantes ao seu momento histórico. Mas a pergunta que fica é: existe algum ponto onde esse abraçar da temporalidade se torne um problema?

A verdade é que muitas obras são pensadas para não durar. Sátiras e paródias, por exemplo, muitas vezes dependem do contexto específico daquilo que ridicularizam, e sua relevância se vê ameaçada tão logo que este passa – pensem, por exemplo, as charges. Mas isso é ruim? Não realmente.

Aceitando a própria temporalidade, uma obra pode comentar o próprio tempo.

Se a obra aceita a sua curta duração, ela pode ainda ser um comentário bastante pontual e importante numa questão igualmente pontual e importante. Acho que o problema vem justamente quando a temporalidade é inadvertida: quando a obra claramente quer ser longeva enquanto usando gírias elas próprias já datadas, por exemplo. No final, é uma questão de entender as próprias aspirações e potencialidades.

Eu realmente não tenho nenhuma grande conclusão para tudo isso, exceto aquela que já deixei clara nos parágrafos introdutórios. Tudo aquilo que é produzido pelas mãos humanas terá alguma temporalidade, a ficção não sendo diferente. Por conta disso, história alguma pode ser atemporal, mas ela pode muito bem transcender o seu contexto específico na medida em que algumas de suas mensagens sigam sendo relevantes para culturas posteriores àquela da qual fazia parte seu autor.

É preciso aceitar essa faceta temporal da ficção, pensando nessas histórias não em termos de se elas estarão datadas em vinte ou trinta anos, mas sim em termos do quão bem ela se comunica com o seu tempo presente. E mesmo quando ela eventualmente se provar datada, ainda há a perspectiva de que ela talvez encapsule tão bem o seu momento histórico que se torne alvo de nostalgia. Por agora, porém, eu encerro por aqui.

E você, leitor, que pensa a respeito? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

Imagens:

1 – Comic Girls, episódio 1

2 – Versailles no Bara, episódio 1

3 – Jinrui wa Suita Shimashita, episódio 1

4 – Ginga Eiyuu Densetsu, episódio 1

5 – Ge Ge Ge no Kitaro (2018), episódio 1

2 comentários sobre “Nenhuma história é atemporal: e tudo bem.

  1. Gostei do artigo, ficou um pouco triste por lembrar da morte (e da morte, que é nosso destino final ou “final”, aí depende de sua cosmovisão) mas isso faz parte do ser humano: ter um limite, e é engraçado ver os fãs fanáticos dizendo que tal mangá/anime é atemporal, os mangás que antes eu achava que não mudaram quase nada em relação aos animes (por exemplo: Dragon Ball Z e Dragon Ball Kai,mesmo sendo a mesma história e tendo algumas diferenças, o gráfico e movimento das animações expressam muito bem quando foram feitos) depois vi que mudaram e sim, como: quadros deixaram de serem só retangulares ou quadrados e temos hoje quadros mais dinâmicos (em forma de triângulo, trapézio ou circular por exemplo), os traços que antes eram mais semelhantes mesmo de obras diferentes (compare os mangás da década de 70 e 80 com outros da época deles) e hoje cada autor tem um traço bem diferente do de outro (Eichiro Oda com One Piece, Hiro Mashima com Fairy tail,Kentaro Miura com Berserk) onde você vê uma obra ou ilustração e já percebe que é daquele mangaká específico, e fora os recursos narrativos que evoluíram (pra melhor pra mim) e as histórias simples/sem ambição não chamam mais tanta atenção a não ser que seja um battle shounen que consiga agradar os otakus menos exigentes ou fa~s roxos de shounen e battle shounen

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pensava em acrescentar alguma coisa ao texto, mas não sei exatamente se tenho algo de relevante a apresentar, já que concordo com praticamente tudo!

    Acho que quando as pessoas falam que algo é “atemporal”, normalmente se referem a algum tema ou elementos específicos de uma obra, não levando em conta sua totalidade. O mangá de Dragon Ball é um que sempre vejo dizerem que é algo atemporal, já que o dinamismo da versão em quadrinhos, assim como o excelente enquadramento do Toriyama e seu estilo de arte único, não ficando preso à época, nos passe a ideia de que a obra não é um “produto de seu tempo”. Porém, parando pra analisar mais algumas coisinhas dela, pode-se encontrar facilmente alguns elementos que parecem estranhos ao público recente, mesmo o pessoal que curte os battle shonens. Dragon Ball não tem exatamente uma grande temática, que se tornou praticamente um padrão nas obras posteriores. Mas mais do que isso, a tecnologia de ponta daquele universo já se encontra bastante datada. Só isso já denota o quão velho a obra é, quando se vê telefones gigantes nas mãos das pessoas, em vez de smartphones (vistos só no Super).

    No fim das contas, como bem dita o título, nenhuma história é atemporal e está tudo bem, desde que ela seja uma boa história!

    Curtido por 1 pessoa

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