Café com Anime – Ginga Eiyuu Densetsu: Die Neue These, episódio 9

E cá estamos nós, em mais uma edição do Café com Anime: nossa conversa semanal sobre alguns dos animes da temporada. E desta vez você confere nossa discussão sobre o nono episódio de Ginga Eiyuu Densetsu: Die Neue These, com presença do Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, o Fábio “Mexicano”, do Anime21, e do Vinicius Marino, do Finisgeekis, além, é lógico, de mim mesmo [rs]. Sirvam-se então de uma xícara do seu líquido predileto e venham então conferir o que achamos desse primeiro episódio :D

E claro, sempre bom lembrar: aqui no É Só Um Desenho você também confere nossas conversas sobe Sword Art Online Alternative: Gun Gale Online, às se0xtas, enquanto que no Dissidência Pop estarão nossas conversas sobre Mahou Shoujo Site, no Anime 21 aquelas referentes à Hisone to Maso-tan, e no Finisgeekis continuamos com as conversas sobre Cardcaptor Sakura: Clear Card-hen, que entrou agora em seu segundo cour.


Diego:

E para a surpresa de absolutamente ninguém, eis que temos mais um ótimo episódio :D Olá a todos e bem vindos ao nosso nono Café com Anime de Ginga Eiyuu Densetsu, e vou dizer: que episódio!

Retornando para a Aliança, vemos o resultado da conquista de Iserlohn, e não é um bonito. É interessante que após 150 anos de guerra a Aliança está chegando a um ponto crítico economicamente falando. Para aqueles no comando, porém, só importa assegurarem a sua re-eleição – uma crítica bastante comum à democracia representativa, onde a constante mudança daqueles no poder impede a estes de enxergar qualquer coisa além dos próximos anos. Um imediatismo preocupante, como vemos no episódio.

E claro, temos que a Jessica retorna, tomando agora seu lugar na política, como porta-voz da facção anti-guerra e mais uma vez trazendo a crítica que trouxe episódios atrás: é fácil falar sobre sacrifício quando aqueles que o pregam nada sacrificam.

Mas vamos ouvir vocês um pouco! Digam: que acharam deste novo episódio?


Fábio “Mexicano”:

Não vejo como uma crítica à democracia, porque a Aliança não me parece mais ser uma democracia. Ter eleições é condição necessária, mas não suficiente para caracterizar uma democracia. A Aliança talvez tenha sido democrática um dia, mas hoje não é mais. A guerra a degenerou. Se a sociedade está mesmo a ponto de entrar em colapso, em breve ou o governo que ainda existe terá que se impôr à força (e com forças militares tão numerosas e poderosas isso é muito fácil), encerrando qualquer pretensão de democracia e acabando com a farsa, ou a nação se desintegra. Nesse ponto ainda parece possível recuperar a democracia, mas extremamente improvável.

E não concordo muito com “ótimo episódio” também. Achei bem mediano. O dia à dia da Aliança me entedia, como sempre. O Yang civil me entedia também. Aliás, ele tem uma vida? Quero dizer, há quanto tempo ele está com o Julian? A Jessica ainda não sabia. Ele não mantém contato com ninguém? Ele não tem amigos? Eu sei que a maior parte da vida dele é devotada aos assuntos militares, mas puxa.

Enfim, o que salvou esse episódio de ser medíocre foi o discurso da Jessica no final. Não muito pelo conteúdo, que foi bom, nada excepcional mas foi bom, mas mais pelo clima que o anime de alguma forma conseguiu construir. Eu fiquei o tempo todo esperando ela levar um tiro ou o palanque explodir. Pura tensão. Assim são sociedades à beira do colapso, quando a democracia já não mais funciona e os ânimos estão irremediavelmente divididos.


Gato de Ulthar:

O que mais gostei nesse episódio foram as perspectivas. Isso mesmo, as perspectivas . Quero que a Aliança ataque o Império de maneira afobada e que pague por isso, levando a uma derrota acachapante, seria mais interessante que o Império contra-atacasse e tomasse a capital da Aliança. Não sei se temos tempo para tudo isso, mas… :)

E Fezzam? Achei aquele tempinho de tela de Fezzam bastante relevante, uma planeta que domina por monopólio econômico vários setores importantes tanto do Império como sa Aliança, seria interessante um dos lados acabando com a farra desse planeta.


Vinicius Marino:

Só eu achei Fezzan idêntica à Coruscant, capital da Galáxia na série Star Wars?

Diego, você que viu a série antiga: o visual do planeta foi sempre assim? Ou será que foi influência da saga do Lucas?

Enfim, devo dizer que gostei do episódio, apesar de me incomodar com o foco desmesurado na Aliança. Não posso dizer que ver as coisas do lado do Yang seja chato, mas considero a história de vingança do Reinhard muito mais interessante. Bom que pelo menos tivemos uma “casquinha” do que ela virá a ser, com o mogul-mor de Fezzan expressando desejo em ajudar alguém como o Reinhard.

Também gostei (e me surpreendi) com a discussão sobre os custos da guerra. Este é um ponto que dificilmente é tocado em obras do gênero. Guerras são muito caras, e às vezes o custo de se travar uma (político, econômico e até moral) é suficiente para destruir um país. Primeira Guerra é o exemplo clássico. A Guerra Mexicano-Americana, menos conhecida, também. Ao incorporar territórios do México, os EUA engatilharam tensões que eventualmente explodiram na Guerra Civil.


Diego:

Esse visual de Phezzan é do novo anime mesmo. Aqui como era nos OVAs originais:

Agora, comentando em cima do que o Fábio disse: que a Aliança “degenerou” é exatamente o ponto aqui. E um nada sutil, aliás: digam se a enorme estátua do fundador da Aliança, Heinessen, ao fundo do concelho, não lembra a estátua do primeiro imperador, Rudolf, de alguns episódios atrás?

Esse anime não deve chegar nesse ponto, mas no antigo era bastante destacado como a passividade dos cidadãos da Aliança permitiram o surgimento de um governo corrupto e ineficiente. A exata mesma situação que levou ao surgimento do Império em primeiro lugar.


Gato de Ulthar:

Eu gostei muito da nova retratação de Fezzan, tem muito mais a cara de uma megametrópole globas, enfatizando o seu domínio econômico e tecnológico.

E quanto ao ponto da degeneração da Aliança. Como eu disse alguns episódios atrás, a diferença básica entre a Aliança e o Império é apenas na questão do estilo e em alguns pontos específicos. No fim das contas, ambos buscam a mesma coisa.

A guerra pode custar caro para um país, mas nem todo mundo empobrece com ela. Aposto que as empresas que fazem as naves, as armas e os diversos equipamentos utilizados lucram horrores, sendo empresas da Aliança, do Império, ou da própria Fezzan, que é quem mais lucra com a guerra.

É só olhar para o nosso “mundo”. Cada míssil Tomahawk lançado pelos EUA na Síria algum tempinho atrás custava alguns milhões, cada um repito. E isso vale para cada implemento militar.

E como as empresas possuem uma forte autoridade política, seja financiando os candidatos ou por outros subterfúgios, não é difícil crer numa sociedade belicista na Aliança, mesmo que isso endivide o país, prejudicando os serviços básicos, como vimos neste episódio, quando o Yang ficou preso no engarrafamento.


Fábio “Mexicano”:

Claro que o anime está enfatizando como a Aliança está em uma espiral descendente de qualidade de suas instituições democráticas, mas isso é “culpa da democracia”, como você sugeriu inicialmente, Diego, ao dizer que isso é “uma crítica comum à democracia representativa”? Para mim, isso equivale a dizer que a culpa pela água derramar é ela um dia ter estado dentro de um copo. Sobre como evitar que se chegue nesse ponto prefiro me abster de comentar, iremos iniciar um debate interminável que não me parece que o anime esteja tentando fazer de todo modo. Só digo que não acredito que “a passividade do povo” tenha nada a ver com isso – ou se tem, a alternativa, um povo “sempre ativo”, tem potencial para ser ainda pior.

Fezzan … eu não sei ainda o que pensar de Fezzan. Só sei que os bônus de guerra do sujeito lá não valem nada enquanto a guerra não acaba, não é? Suponho que ele possa negociá-los independente disso, e até definir o preço, dada a quantidade que ele possui, mas não sei se isso sozinho é uma operação muito lucrativa. Claro que o que é realmente lucrativo para ele são as empresas que ele controla, então isso nem importa tanto assim, só acho engraçado quando penso que no instante em que ele tiver certeza que irá receber esses bônus, ou seja, quando a guerra acabar, a não ser que haja uma assinatura de paz, parte desses papéis irá instantaneamente se tornar podre, sem valor, com a derrota total de um dos lados. A não ser que ele consiga colocar em um dos documentos que encerram a guerra a obrigação do vencedor pagar os bônus do perdedor, o que não faz sentido lógico, mas não precisa ser necessariamente lógico para ele conseguir isso.


Diego:

Eu realmente não consigo ver como um povo apático à política de sua nação seja uma boa ideia, ou uma ideia “menos pior” do que um povo engajado.


Fábio “Mexicano”:

Engajado em quê? Para quê? O que cada pessoa sabe? Quem pode “ajudá-las” a “saber mais”? Estou dizendo, esse debate é horrível e não quero travá-lo aqui.


Diego:

Só fico sem entender: se as pessoas não devem participar na política, para que então uma democracia? :P


Fábio “Mexicano”:

As pessoas devem participar de acordo com as regras instituídas. No caso de LOGH, não há nenhum sinal de que as pessoas não estejam participando dessa forma – inclusive a Jessica acaba de se eleger a alguma coisa em algum planeta lá.


Diego:

Bom, de fato, como eu disse esse é um ponto mais destacado no antigo (e bem mais adiante nele, inclusive). Nesse ponto da história as coisas ainda estão bem normais, até.


Fábio “Mexicano”:

Talvez pareçam normais para a população geral, mas perceba como o governo já está totalmente degenerado. Só dois ali naquele alto escalão parecem ainda pensar na população como a origem e o fim de seu poder. Isso é importante de se destacar: até chegar nesse ponto, a culpa não foi da democracia. Talvez uma série mais curta, sintética, tenha dado o contraste suficiente para se perceber isso que a antiga não deu. A população ainda pode fazer algo a essa altura? Pode, mas o establishment provavelmente está disposto a destruir as instituições para manter o poder caso se chegue a esse ponto, então talvez já seja tarde demais.

Ah, ninguém falou até agora, eu estava aguardando essa, mas tenho certeza que todo mundo percebeu aquele sujeito que fez questão de anotar nos registros que foi CONTRA o ataque ao Império, certo? Se por acaso o ataque der certo, ele lucra politicamente fazendo parte de um governo que tomou uma ação popular; se der errado, ele lucra mais ainda sendo “a voz da razão”. Ele sabe que esse ataque vai ser um desastre, e francamente, eles só tomaram uma fortaleza, é uma muito importante sem dúvida, mas estão longe de poderem realizar outros ataques decisivos contra o Império, principalmente considerando as condições econômicas em que se encontram. Quem defende esse ataque é, sinceramente, ou burro, ou fanático, ou tem interesses escusos na continuidade da guerra (está fornecendo para os militares, etc).


Vinicius Marino:

Existem vários estudos de ciência política que mostram que as pessoas mais abertamente engajadas em política (I. E. militantes) o fazem por tribalismo e orgulho, não por convicções fundamentadas em fatos. Um dos trabalhos mais polêmicos é o “Against Democracy” do Jason Brenner, que defende que a maior parte da população é composta ou de “hooligans” (militantes ensandecidos) ou “Hobbits” (cidadãos passivos que deixam tudo rolar.)

Como o próprio título indica, Brenner chega à mesma conclusão do Diego, argumentando que democracia parece não ter um ponto. E que deveria ser substituída por uma epistocracia (governo dos conhecedores). Não gosto do argumento, que se aproxima muito do velho elitismo platônico. Mas ele toca bem em grandes contradições da democracia, que foram muito bem ilustradas nesse episódio.


Fábio “Mexicano”:

Nossa, só agora percebi! Vejam a Jessica nesse quadro:

Ela é uma sith lord e está tentando usar Force Grip em alguém! Pena, para ela, que está no space opera errado…

(ok, podem voltar à programação normal :P )


Gato de Ulthar:

Bom, não acho que o anime se preocupe com a opinião da população em geral, pois somente aborda a visão de quem exerce uma posição de comando, o próprio Yang é um destes privilegiados. Nem na parte do congestionamento vimos alguém ficar reclamando que o governo preferia gastar em uma guerra do que no transporte público.


Diego:

Isso é algo de que não posso discordar: o anime possui mesmo uma ênfase no pessoal “de cima”. O que de certa forma se liga a um detalhe bem interessante de LOGH: a depender de como você interpreta, você pode ver isso como um reconhecimento de que a política é sempre feita por pessoas, ou, numa outra ótica, pode ser interpretado como uma defesa do personalismo, onde a política é na prática feita por algumas pessoas, e só podemos fazer é esperar surgir a pessoa certa para os cargos mais altos. E é uma ambiguidade que pelo menos o anime antigo não faz questão nenhuma de clarificar.


Vinicius Marino:

Não se pode dizer que o anime está errado. A política é feita pelo pessoal de cima, e quem acha o contrário está passando tempo demais em faculdades de humanas. Em contrapartida, uma crítica pertinente que poderia ser feita é de que LOGH privilegia o nível “macro” em vez de dar voz a quem sofre a guerra “de baixo”. Pessoas no anime são formigas: nós as vemos lutando (e morrendo) aos milhões, mas ninguém lá tem nome próprio, família ou sentimento. São apenas recursos que os senhores da guerra usam no seu xadrez espacial.

Ao que eu retrucaria que é interessante que seja assim. Vários animes já nos mostram a história “de baixo”, focando em pilotos e guerreiros e proezas individuais. Não é sempre que vemos uma série interessada na sala de comando.


Fábio “Mexicano”:

Realmente parece que Império e Aliança estão jogando <escolha aí seu jogo de estratégia espacial favorito>. Desse ponto de vista, tanto faz a “forma de governo”, é só algo que irá dar “bônus” ou “desvantagens” no grande esquema das coisas.

Por exemplo, uma rebelião é muito mais difícil em uma “democracia”, como a Aliança, e no entanto acabamos de assistir uma no Império.


Vinicius Marino:

Mas não é assim que funciona a guerra? E a política de uma forma mais geral? A gente tende a achar que é tudo uma questão pessoal, mas olhando de cima para baixo as coisas raramente passam por aí. Sim, a vida é o bem mais fundamental que temos, mas quando se trata de conflitos militares, ela vira um recurso como tanto outro.

É interessante você citar jogos de estratégia, porque games de estratégia são frequentemente acusados de “imperialistas” e beligerantes por tomar escolhas parecidas. Mas eu acredito que o ponto que eles colocam é pertinente: a ação individual não é lá tão decisiva. Essa história de que há um escolhido que vai salvar o mundo só porque tem cabelo espetado e tempo de opening é coisa de battle shounen.


Fábio “Mexicano”:

Jogos de estratégia costumam ter como objetivo a conquista total, ou pelo menos ela é uma forma de vitória válida entre outras, então, bem, não sei se entendo a moral dessa crítica. É tipo reclamar que o Pac-Man come muitas bolinhas?


Diego:

Fora que “tanto faz a ‘forma de governo'” é meio que o ponto do anime. Bom ou ruim, tudo depende de quem comanda.


Vinicius Marino:

Bom, sim. O fato de você ganhar conquistando o mundo (e, às vezes, de nenhuma outra forma) é tido como prova da “agenda imperialista”. O que é correto até certo ponto. Vários jogos de estratégia obrigam a virar impérios povos que nunca quiseram nada do tipo. Por exemplo: a guerra medieval não era uma guerra total de dominação, mas em Medieval: Total War ou você conquisa o mundo ou o mundo te conquista.


Diego:

Qual o jogo que Gandhi taca bombas nucleares na sua fuça mesmo? :P


Fábio “Mexicano”;

À rigor, para a guerra total, quanto mais centralizado o poder melhor. Pode ser difícil de sustentar a longo prazo e complicado de equilibrar todos os interesses, mas enquanto o líder acerta, ele tem uma máquina de guerra incrível. Se eu for pensar demais nisso, vou me perguntar como a Aliança durou todos esses séculos. Não é possível que o Império só tenha tido líderes fracos desde então.

Acho que em Command & Conquer você pode fazer isso, Diego :D


Vinicius Marino:

Não, é Civilization. O jogo ficou célebre por causa disso.


Fábio “Mexicano”:

SEM CAMISA


Vinicius Marino:

Tanto é que isso nunca foi “consertado” em versões mais novas:


Gato de Ulthar:

Jogos sempre são voltados à dominação global, mesmo que haja outros meios de ganhar, como pontos e monopólio comercial, nada é tão legal quanto esmagar seus adversários. Age of Empires também é um bom exemplo.


Vinicius Marino:

Isso tem melhorado nos últimos anos. Várias franquias célebres inventaram vitórias “culturais” (pense nos Monumentos em Age of Empires). Mas sim, é inegável que poucas coisas são mais divertidas do que conquistar o mundo como o Gandhi :’D


Fábio “Mexicano”:

Acabo de ver aqui que o primeiro dispositivo nuclear detonado em um teste na Índia se chamava Smiling Buddha. Quem precisa de jogos? A realidade é muito mais divertida.


Vinicius Marino:

Só vou largar isso aqui.


Diego:

Smiling Buddha >>>>>> Little Boy >>>>>> Fat Man.

Indianos sabem como dar nomes.


Fábio “Mexicano”:

Para sermos historicamente razoáveis, provavelmente o Gandhi, esse daí que conhecemos como símbolo pacificista, não teve nada a ver com o programa nuclear indiano. Ele morreu em 1948, afinal.


Diego:

Mas deixando de lado Civilization e o programa nuclear da Índia (minha nossa olha o desvio que fizemos!), que acharam dos discuso final da Jessica? É uma crítica até que bastante comum: quem conclama a guerra normalmente não vai para a guerra. Inclusive, no primeiro anime o Yang tem uma ótima fala no assunto:


Vinicius Marino:

É o tipo de discurso que já ouvi de muita gente. E, dependendo de quem fala, acho muito pertinente ou muito ignorante.

Por um lado sim, a guerra tem um custo humano enorme. E, muitas vezes, os chefes de Estado tomam suas decisões sem se preocupar com isso. As três potências do Eixo da Segunda Guerra sentiram isso na pele. Nos três casos, (e sobretudo na Alemanha e Japão) a população foi sujeita a um sofrimento absurdo por conta da convicção de seus líderes para morrer lutando.

Por outro, é ÓBVIO que um chefe de Estado não deve sair na linha de tiro feito o William Wallace em Coração Valente. O comando (civil e militar) precisa ficar em segurança, do contrário todo o país pode cair em anarquia.


Fábio “Mexicano”:

No caso da Jessica, ela já sentiu na pele o que isso significa, perdendo o noivo. Por outro lado ela sempre foi pacifista, é provável que proferisse o mesmo discurso ainda que não fosse vítima dessa tragédia.

Quero dizer, é possível ser um pacifista que nunca dá a cara a tapa tanto quanto um líder belicista que manda os outros para a guerra.


Gato de Ulthar:

Líderes que acompanhavam os exércitos na linha de frente é coisa do passado né?


Fábio “Mexicano”:

É coisa de quando só era possível transmitir comandos estando ali do lado mesmo, e as guerras se travavam em frontes relativamente pequenos.

Napoleão ia para a guerra, mas ele obviamente não lutava em todos os frontes que ele abriu ou que eram abertos contra ele. Foi provavelmente o primeiro caso de guerra total na Europa, que eu saiba. Os amigos historiadores aqui me corrijam se tiver falado besteira.


Vinicius Marino:

Não só na Europa, mas no mundo inteiro. Dito isso, mesmo na era das guerras “pequenas” os generais não desembestavam à frente tipo o Leeroy Jenkins.

É importante lembrar que, ao contrário da maioria dos países hoje, a liderança nessa época não era “civil”. A aristocracia era uma classe de guerreiros. Ir para a guerra era o trabalho dos nobres.


Fábio “Mexicano”:

(As grandes linhas de ataque dos exércitos mongóis não qualificam como “guerra total”…? Provavelmente não, desculpe desviar do assunto de novo :P )


Diego:

(Acho que o conceito é um pouco mais complicado do que várias frentes de combate. Do contrário, toda existência de Roma não contaria como uma? :P )


Vinicius Marino:

O conceito de guerra total não é o tamanho. Uma guerra total é aquela em que toda a economia do Estado está voltada à guerra. I.e. tudo, da esfera cultural à industrial, gera em torno do aparato militar.

Guerras nas sociedades pré-industriais eram pequenas e sazonais. Você estava guerreando numa estação, plantando e cuidando de gado na outra. E mesmo quando os guerreiros guerreavam todo o resto da sociedade fazia outra coisa.


Fábio “Mexicano”:

Entendido. Império e Aliança estão em guerra total, e estamos vendo como isso está afetando ambos – no primeiro, começa a provocar rebeliões; no segundo, está exaurindo a economia e corroendo a democracia.


Vinicius Marino:

Voltando ao assunto, acho importante ressaltar outra coisa. Mesmo na era contemporânea, os chefes de Estado podem não ir à guerra, mas os seus próximos vão. A rainha Elizabeth foi piloto de caminhão na Segunda Guerra. O filho do Lincoln, Robert Todd Lincoln, serviu na Guerra Civil a despeito da insistência de seus pais para que não se alistasse. Quase todos os membros (masculinos) da família real britânica recente serviram nas forças armadas em um momento ou outro.

Então não é como se os “poderosos” estivessem todos no seu bunker rindo da desgraça alheia.

Pelo contrário, líderes que fazem isso costumam ser mal-vistos (e, às vezes, até alvos de rebelião).


Diego:

Mas acho que vale também ressaltar que o ponto em si não se aplica apenas aos líderes. Digo, o discurso da Jessica se foca bem mais nos líderes, de fato, mas a crítica de que é fácil glorificar a guerra sem participar nela pode ser aplicada a não poucos “civis”.


Fábio “Mexicano”;

Poder pode, mas eu entendi que ela estava falando dos líderes sim. A vimos dizer aquilo primeiro no evento lá, há vários episódios atrás, e ela se contrapôs a um dos líderes. Nesse episódio ela falou nos líderes, e o próprio episódio contrapôs a ela os líderes falando antes, tomando todas as decisões que ela despreza, e se mostrando muito cientes de que estão fazendo exatamente o que ela diz.

Quero dizer que sim, a gente pode entender isso em vários contextos. Mas o do anime é um só, específico, e bastante claro.


Diego:

Como eu disse, a Jessica se refere sim aos líderes. Só estou extrapolando um pouco a coisa para manter a conversa rolando :P


Gato de Ulthar:

A Jéssica se tornou uma líder bem promissora, além do seu discurso anti-belicista, que agrada parte da população, ela possui uma história trágica para servir de muleta eleitoral para ela, não estou dizendo que o que ela está fazendo está errado, mas ela se beneficiou bastante por sua situação pessoal.


Fábio “Mexicano”:

Uma líder promissora pacifista = Vão muito matar ela logo logo.

Já tentaram matar antes e por bem menos.


Diego:

Acho que todo mundo que viu esse episódio estava esperando ela tomar um headshot de um sniper :P


Fábio “Mexicano”:

Eu tava até meio que inconscientemente virando a cabeça a olhando meio de lado, sabe? Quando você não quer olhar para algo horrível?

Parece que não estão tão descarados ainda, pelo menos.


Diego:

Totalmente entendo. Sinceramente, eu sabia que não ia acontecer, e mesmo assim estava tenso na cena XD Se mais nada, há de se cumprimentar a direção do momento.


Fábio “Mexicano”;

Sim, acho que elogiei essa cena em meu primeiro comentário já, não foi? Melhor parte desse episódio de longe.


Gato de Ulthar:

E nem cheguei a cogitar que ela seria baleada ou algo do gênero, acho que sou muito inocente :)


Fábio “Mexicano”:

Eu me segurei aqui na cadeira quando começaram a dar close-up no rosto dela :P


Vinicius Marino:

Eu não estava por razões um pouco “meta”. Meu entendimento de LOGH é o de uma série que valoriza o palavrório. E a Jéssica é a “garota propaganda” perfeita para um tipo de opinião que agrega muito ao anime. Não achei que a fossem matar tão cedo.

Ok, sempre é possível matar uma pacifista e substituir por outra. Mas com apenas 12 episódios e alguns filmes, me parecia uma decisão muito precipitada.


Diego:

Mudando então um pouco o tópico, que acharam de Phezzan? Já falamos dele um pouco, mas vamos ver se vocês têm algo mais a dizer sobre o pequeno planeta :P


Gato de Ulthar:

Uma potência econômica que lucra comercializando com os dois lados. Aposto que o planetinha tem armas exclusivas que nem o Império ou a Federação tenham. O problema é que um dos lados, aposto mais no Império, pode se tocar do poder crescente de Fezzan e tomá-lo.


Vinicius Marino:

Dizem que os EUA perderam o Vietnã porque estavam jogando xadrez, enquanto que os vietnamitas estavam jogando go. A moral é que os americanos tentavam lutar a guerra errada, usando ofensivas convencionais sobre um inimigo que, até certo ponto, era imune a elas. O que os americanos entendiam por “ocupação” e “controle” não era o mesmo para os comunistas.

Sinto algo parecido em relação a Phezzan. Eles estão jogando Banco Imobiliário enquanto que os outros estão jogando queimada. O Império e a Aliança acham que estão arrasando, mas só estão preparando terreno para o domínio do planeta.

Se eu fosse o presidente/CEO de Phezzan, inclusive, eu começaria a comprar ações e patrimônio em ambos os lados do conflito. Com o tempo, seria o dono de facto de toda a galáxia, independente de que idiota senta no trono/palácio presidencial.


Fábio “Mexicano”:

Ele deu a entender que já está fazendo isso. E quanto mais tempo conseguir se manter longe dos conflitos armados, mais perto estará de se tornar o líder de fato de toda a humanidade, por via financeira que seja. Mas esse é um tipo de liderança frágil e melhor exercida das sombras – e ele também está ciente disso, disfarçando suas operações financeiras para não ser rastreado.


Vinicius Marino:

Isso me lembra do Império de Nilfgaard nos livros de The Witcher, escritos por Andrzej Sapkowiski. Trata-se de uma potência igualmente “germânica” (e vestida de preto) que tenta dominar os Reinos do Norte. Quando não conseguem, decidem oferecer a paz, mas concomitantemente forçar um tratado comercial que favoreça mercadores do Império em territórios estrangeiros.

A ideia é buscar uma dominação comercial, já que a política, explícita, falhou.


Fábio “Mexicano”:

Mas Fezzan ainda é só um planeta, não importa o quão bem defendido seja. Yang já mostrou o que fazer em caso de planetas “bem defendidos”. Se Fezzan passar a ser visto como uma ameaça à economia da Aliança ou do Império, é só eles se negarem a pagar as dívidas e expropriarem todas as suas empresas. O que o Senhor Fezzan poderia fazer nesse caso? Ele precisa de contatos políticos, já que a hipótese de ter uma incrível armada está descartada para um planeta solitário, e por isso parece já estar considerando um golpe no Império – o que pode vir a calhar para o Reinhard.


Gato de Ulthar:

Qualquer um dos lados que dominasse Fezzan saíiia bastante bem na fita. Para compensar a perda da fortaleza “inexpugnável”, seria interessante o Reinhard tomando o controle de Fezzan.


Diego:

Tem um detalhe interessante que esse anime deixou de lado. Enquanto aqui Phezzan é desde o início colocado como um terceiro poder, nos OVAs originais é dito que ele é, ao menos nominalmente, propriedade do Império, possuindo uma permissão especial para fazer comércio com a Aliança. A versão deste anime soa ao mesmo tempo mais e menos verossímil: no original nunca foi se quer cogitada a possibilidade do Império invadir Phezzan porque, ao menos na teoria, este já era propriedade daquele. Mas dar permissão especial para comerciar com um inimigo que o Império não quer nem ao menos reconhecer a existência soa um tanto quanto estranho.


Fábio “Mexicano”:

Pense em Hong Kong ou Taiwan. Ambos não existem sem a China, e no entanto, de forma limitada, podem tocar seus próprios negócios. E isso é interessante para todos os envolvidos. Não vejo nada de inverossímil nisso não.

Porém, se Fezzan é formalmente parte do Império, então a Aliança continua sob risco de invasão – e nem vão poder alegar “traição”, afinal Fezzan sempre foi parte do Império. Mas isso a gente ainda não se sabe se vai se aplicar no caso desse anime.


Diego:

Acho que ai entra o que você mesmo já falou sobre o rei precisar assegurar a lealdade de seus súditos. Se Phezzan possui uma permissão especial para permanecer neutro, simplesmente usar o corredor para invadir a Aliança, sem o apoio do líder de Phezzan, poderia gerar animosidades no interior do Império, quando outros nobres perceberem que as benesses do imperador podem sumir tão rápido chegaram.

E obviamente o Rubinsky não está interessado em ter o Império invadindo a Aliança agora.


Fábio “Mexicano”:

Sim, não falei no Império passar por cima da autonomia de Fezzan. Do ponto de vista do Império (e de Fezzan), tal passagem exigiria uma articulação política cuidadosa. Mas tudo isso ocorre ao largo da Aliança, e foi do ponto de vista dela que eu falei: exceto estatística (“nunca atacaram por lá”), eles não têm muitos motivos para se considerar seguros.


Vinicius Marino:

Não sei como funciona a riqueza no universo de LOGH, mas dependendo do caso invadir Phezzan é matar o ganso dos ovos de ouro.

Nós vivemos em uma época em que muito da riqueza é virtual. Uma país, uma cidade ou uma empresa minúscula pode exercer uma influência gigantesca nadando nas ondas do mercado de ações e tráfego de informação. Isto sem contar outras “imaterialidades” da economia.


Fábio “Mexicano”:

A riqueza “virtual” ainda está lastreada em bens reais – empresas, produtos, moedas (ok, isso é um pouco menos real).

Tanto que a crise imobiliária dos EUA (que afetou o mundo) ocorreu justamente porque um banco faliu ao se ver incapaz de negociar títulos que na prática não tinham valor (eram empréstimos podres) e isso criou ondas de choque por todo o sistema financeiro mundial.


Vinicius Marino:

O impacto de um planeta deixando de existir será inconcebivelmente maior do que uns bancos. Sobretudo se esse planeta tiver tentáculos sobre todo mundo.

Os economistas nos comentários que me corrijam, mas acho que, dependendo do caso, o Império/Aliança perderia em ambos os casos. Se muita riqueza sumir, é uma catástrofe. Se muita riqueza entrar, será hiperinflação e sabe-se lá mais o quê.


Fábio “Mexicano”:

Eu não duvido. Só estou dizendo que a riqueza está lastreada em algo ou não. A do Lehman Brothers não estava. A de Fezzan parece estar lastreada em empresas e títulos de guerra dos dois países. Os títulos podem evaporar a qualquer instante, mas as empresas possuem valor real – e podem ser sequestradas.

Qualquer ação desastrada levaria a perda de dinheiro, fuga de investidores, aumento de poupança e retração da economia, naturalmente. Mas a partir de um determinado ponto, cancelar todos os seus títulos de guerra que estão com Fezzan e estatizar as empresas controladas pelo Planeta pode ser menos pior do que ter a economia controlada por ele.


Vinicius Marino:

Sim, se você não se incomodar em ter um povo morto de fome, naves sem combustível e ser imperador de nada. Porque é claro que esses impérios super estáveis, que amam de paixão seus governantes, vão durar depois de uma crise econômica.

A única chance é perceber antes que a dominação aconteça e agir. Será que os cabeças-dura conseguirão?


Fábio “Mexicano”:

Sim, é disso que estou falando. Não é qualquer ação, obviamente. E em qualquer caso nunca seria o mais recomendado se você estiver pensando na população: mesmo que o Estado consiga absorver o impacto, de alguma forma, isso vai significar milhões ou bilhões morrendo de fome. Mas creio que nem o Império e, como esse episódio deixou claro, nem a Aliança se importam com isso.


Vinicius Marino:

Nenhum desses estados parece ter condições de manter a compliance da população no caso de uma crise agravada. Se eles fizerem isso, e o resultado for o que imaginamos, será a última coisa que farão.

Todas as empresas de Phezzan sofrerão um “acidente” e queimarão tragicamente antes da galera da ocupação chegar. E é bom o Império/Aliança soprar bastante, pois duvido que conseguirão mover uma frota até o planeta.


Fábio “Mexicano”:

Mas se Fezzan politicamente pertencer ao Império, então alguém continua com uma imensa vantagem nessa guerra.


Vinicius Marino:

Certamente há aqueles que não lucram nada com a existência do Império. E que preferem que a Galáxia pegue fogo.


Diego:

O problema está nesse “se”. Como vimos, desde o começo esse anime estabeleceu Phezzan como um terceiro poder, não subordinado a ninguém.


Fábio “Mexicano”:

Sim, era o meu entendimento até agora. Você que trouxe essa informação nova, que faz toda a diferença.

Repetindo e ampliando: se Fezzan faz parte do Império, a Aliança teria dificuldade para retaliar o planeta caso uma esquadra do inimigo passe por ele, o usando como rota de invasão. O que alegariam?


Diego:

Bom, se mais nada, podem só alegar que a neutralidade do planeta foi pro espaço e que, portanto, ele agora é um alvo tão válido de invasão e tomada quanto qualquer outro ponto do Império.


Fábio “Mexicano”:

Mas provavelmente não poderiam retaliar economicamente, que é o que machuca Fezzan de verdade.


Gato de Ulthar:

Enquanto esse anime não dizer que Fezzan pertence ao Império, eu o tratarei como poder autônomo, assim como foi mencionado no primeiro episódio.


Fábio “Mexicano”:

Eu estou falando apenas por hipótese. A diferença de palavras vai implicar em diferença na história? Supondo que isso seja importante para a história original, para começo de conversa. Se o Diego achou relevante o suficiente para comentar, acredito que seja.


Diego:

Vamos então para as considerações finais? Que mais gostariam de falar desse episódio?


Fábio “Mexicano”:

Já estou frustrado por antecipação porque o anime não vai ter nenhum tipo de final.


Vinicius Marino:

Idem. Sinto que LOGH nos deixará na mão justo quando nos vidrar na sua intriga. E me obrigará a arranjar tempo para ver os 100 e poucos episódios da série original…


Gato de Ulthar:

Pelo menos teremos os filmes né? Seria interessante fazer uns Cafés com Anime extraordinários apenas para discutirmos sobre eles.

E desse episódio, o que eu gostaria é que na sequência mostrasse mais ação por parte do Império.


Vinicius Marino:

Nem fale! Já estou com saudades do Reinhard e sua missão épica para dominar a galáxia!


Diego:

É, onde esse anime vai terminar é algo que me pergunto desde que ele começou. Mas ei, ele caminhou tão bem até aqui. Vamos ao menos torcer por um final digno, mesmo que seja apenas, na prática, um final de temporada. Mas por agora ficamos por aqui. Até a próxima semana o/

E você, leitor, que achou deste nono episódio? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

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