Review – Futatsu no Spica (Anime)

Twin Spica

Chega a ser trágico como, com o passar dos anos, muitas boas obras vão caindo no esquecimento. Claro, muitas outras seguem sendo lembradas com bastante carinho por muitos – temos animes dos anos 1970 e para trás que seguem sendo apontados como grandes clássicos dessa mídia -, mas sempre haverá um ou outro que acaba se perdendo nas areias do tempo. Futatsu no Spica é um destes títulos: mesmo no exterior são poucos aqueles que se dedicaram a falar dessa obra, e os que fizeram tenderam muito mais a falar do mangá. O que tem lá algum sentido, é verdade. Escrito por Kou Yaginuma, ele foi publicado na revista seinen mensal Comic Flapper entre 2001 e 2009, resultando em um total de 16 volumes. Em contraste, o anime foi uma produção do estúdio Group TAC, com direção de Tomomi Mochizuki e roteiro de Rika Nakase, com uma duração de 20 episódios entre 2003 e 2004. Dos 89 capítulos do mangá, o anime adapta menos de 30, o que talvez explique porque os poucos que decidem falar dessa série o fazem comentando sobre o mangá.

Em termos de uma sinopse, nossa história em fato começa cinco anos antes, quando o foguete japonês Shishigo explode no ar após ser lançado, com seus restos caindo sobre a cidade de Yuigahama. No local do acidente estava a mãe de Kamogawa Asumi, a menina ainda apenas um bebê. Tendo a maior parte do corpo queimada, sua mãe entra em um como profundo, vindo a falecer cinco anos depois, sem nunca acordar. Após a cremação do corpo, Asumi decide levar as cinzas de sua mãe até um templo próximo, onde ela então encontra o auto-proclamado fantasma Lion. Logo descobriremos que ele é de fato um fantasma, o espirito de um dos astronautas que estava no foguete quando ele caiu na cidade. Lion e Asumi acabam formando uma singela amizade, e a garota declara que um dia ela se irá se tornar uma “motorista de foguete”, mas eu paro essa sinopse por aqui e deixo então o aviso de sempre: spoilers adiante. É um anime que eu altamente recomendo, um drama bem construído com personagens carismáticos, então se você não o assistiu ainda fica aqui a minha indicação.

A menina e o leão

Para começar, eu preciso primeiro tecer alguns comentários sobre a estrutura desse anime. Futatsu no Spica divide seus episódios em dois momentos dentro da cronologia da história: um momento “presente”, onde acompanhamos a entrada da Asumi e seus amigos no programa de treinamento de astronautas da Academia Espacial Nacional de Tóquio, e um momento “passado”, onde acompanhamos o dia a dia da Asumi – com a eventual companhia do Fuchuya e da personagem Suzunari Yuko, professora de ambos – quando esta era mais nova, destacando aqui seu encontro e posteriores interações com o Lion. Nessa condição, passado e presente são frequentemente colocados lado a lado, seja num mesmo episódio, seja numa sequência de dois episódios, com situações diferentes criando paralelos temáticos que tendem a se complementar. É, no entanto, uma fórmula que não vem livre de problemas, e talvez o maior deles seja como a demora para introduzir certos elementos faça eles soarem tirados do nada quando efetivamente aparecem.

São casos como a amiga que a Asumi faz na infância, e que só viemos a conhecer no episódio 12. Ou como o primeiro amor da garota, que, embora mencionado de passagem um pouco antes, vamos conhecer apenas no episódio 16. Aqui talvez entre o fato do anime ser uma adaptação de um mangá, até então, em lançamento. Enquanto o anime ainda estava introduzindo elementos e backstories a quatro episódios do seu final, os mesmos momentos aparecem no mangá quando este ainda não estaria nem se quer na metade. E fora essa questão, essa estrutura narrativa também cria o problema da frustração que se segue ao finalizar um episódio num clifhanger apenas para o episódio seguinte voltar ao passado da protagonista – algo que o anime faz múltiplas vezes. Dito isso, essa estrutura não é de forma nenhuma sem mérito, e pelo menos um deles eu já elenquei no parágrafo anterior, ao apontar os paralelos temáticos que a obra consegue traçar entre os diferentes momentos no tempo. Já outra vantagem é a possibilidade de melhor desenvolver os seus personagens, sobretudo a sua protagonista.

Ao menos a amiga da Asumi reaparece mais pro final do anime, então tem isso.

Futatsu no Spica é a história da Asumi, do seu sonho de se tornar uma “motorista de foguete” e do caminho que ela trilha em direção a esse sonho. É através dos seus olhos que vemos a maior parte dos acontecimentos do anime, e é também ela que passamos a maior parte do tempo, sendo a personagem com mais tempo de tela. Francamente falando, é difícil descrever a menina sem fazer ela parecer uma Mary Sue, sendo uma pessoa um tanto quanto tímida e insegura, mas ainda vastamente competente em seu campo e com uma personalidade gentil e aberta que faz qualquer um querer ficar ao seu lado. É preciso notar, porém, que cada um desses elementos possui raízes profundas na vida que a Asumi levou desde pequena, e eu diria que é isso que a diferencia de uma Mary Sue. Entre seus feitos podemos destacar a capacidade de citar toda sorte de trívias sobre o espaço e a de se navegar por um terreno desconhecido sem uma bússola e tendo apenas um mapa topográfico da região, feitos que poderiam soar como forçados num roteiro menos competente, mas que aqui demonstram o esforço e dedicação que a menina investiu no seu sonho de eventualmente ir ao espaço.

Já sobre a sua personalidade aberta, podemos tirar dela uma bonita mensagem. Conforme vamos vendo, sobretudo através dos episódios que mostram o passado da menina, Asumi viveu tragédia atrás de tragédia. A mãe entrou em coma quando a menina ainda era um bebê, morrendo sem nunca acordar. Na escola, ela era frequentemente ostracizada. A primeira real amiga que ela faz acaba partindo sob circunstâncias não lá muito boas, enquanto que o seu primeiro amor cai vítima do clássico trope da doença misteriosa. Isso sem mencionar que a situação financeira da sua família não parece ser das melhores, ainda que ela nem de longe seja pobre. É uma personagem que passou por toda sorte de choques e adversidades, e que ainda assim consegue ser gentil e esperançosa. É difícil dizer o quanto ela é realista (um termo que eu francamente não gosto de usar para personagens fictícios), mas ela é sem dúvida um bom modelo de pessoa. Frequentemente quando se fala em personagens femininas fortes as pessoas lembram da figura da amazonas, mas Asumi demonstra muito bem outro tipo de força, não menos importante.

Inteligente e habilidosa, Asumi é uma personagem e tanto.

É interessante também apontar que há algo de infantil na menina – algo que mesmo o seu design, colocando-a como a mais baixinha do elenco, parece tentar reforçar. Durante praticamente todo o anime ela segue dizendo que quer um dia ser uma “motorista de foguete”, mesmo sabendo que o termo está simplesmente incorreto. Isso porque a exatidão é menos importante do que o sonho em si. Futatsu no Spica é também uma história sobre sonhos, e sobre a inerente infantilidade do próprio conceito de um sonho a ser perseguido. Mas o anime não é crítico dessa noção: pelo contrário, ele busca justamente demonstrar como a busca de um objetivo pode nos dar propósito, e urge o espectador para que não esqueça dos seus próprios. A chama no olhar que o professor Sano perdeu é aquela que arde ainda nos olhos da Asumi, que em dado momento da história inclusive se pergunta porque os adultos tendem a ter um olhar tão melancólico – seu pai incluso. A oposição aqui é clara, e a mensagem mais ainda: nunca perca o contato com a sua criança interior – uma ideia reforçada ainda pelo final do anime (do qual eu falo mais em breve).

A própria noção de ir em direção às estrelas tem algo de infantil em si mesma. Algo de sonhador, de ingênuo, e talvez um pouquinho de megalomaníaco. E mesmo assim, repetidas vezes foi exatamente o que a humanidade fez. De Yuri Gagarin, primeiro homem no espaço, passando pelas missões Apolo e a chegada à Lua, até a Estação Espacial Internacional, o que um século atrás soaria como delírio é hoje fato concreto. E talvez o personagem que melhor represente esse ideal infantil do anime, mais mesmo que a própria Asumi, seja o Lion. A imagem de um adulto com uma enorme máscara de leão talvez soe como estranhamente infantil em um anime que começa com um trágico acidente e que segue nesse tom por praticamente toda a sua duração, mas eu acho que esse era exatamente o ponto. Claro, a máscara de leão pode ser representativa do chaveiro que ele deixou, em vida, com a professora Suzunari, um indicativo do arrependimento que o mantém nesse mundo – não ter conseguido se casar. Mas é algo que também serve para exteriorizar a personalidade infantil que ele possuía, querendo ver os fogos de artifício do espaço.

“Meu sonho é ser motorista de foguete” -Asumi.

Infelizmente, eu não posso dizer muito dos demais personagens. Cada qual tem a sua própria personalidade, claro, sendo únicos e memoráveis a seu modo e mesmo havendo indícios ao longo do anime de que para cada um deles há mais do que se enxerga em um primeiro olhar. Infelizmente, o anime nunca realmente entra em detalhes sobre o backstory de cada um, algo que provavelmente se deve, mais uma vez, ao fato da obra ter adaptado essencialmente o primeiro terço da história do mangá. Fuchuya fica como um dos poucos tsundere masculinos dessa mídia, constantemente protegendo e indo atrás da Asumi enquanto agindo de forma relativamente ríspida perto dela. Kei é a que recebe menos atenção em todo o elenco principal, sendo a garota energética, cabeça quente e ligeiramente avoada do grupo. O Shu é mostrado como alguém extremamente competente e inteligente, segundo apenas à Asumi nesses dois quesitos, e que parece ter uma relação não lá muito boa com seu pai – backstory que é apenas brevemente indicado. E ai temos a Marika…

Dentre os personagens do elenco principal, a Marika foi provavelmente a que mais se desenvolveu ao longo do anime, pouco a pouco se abrindo para a amizade da Asumi. Seu backstory, porém, é no mínimo confuso. Se você terminou o anime e ficou sem entender qual é afinal a trágica história que cerca o seu passado, basicamente a Marika é um clone da Marika original (aquela que o Lion conheceu quando criança), e que morreu devido ao mesmo trope da doença misteriosa que acometeu o primeiro amor da Asumi. Você pode deduzir isso com base nas pistas que o anime dá (o pai dela falando que ela não é a verdadeira Marika, e mesmo assim ela tem a exata mesma aparência e doença da verdadeira, por exemplo), mas mesmo que o fizesse você provavelmente terminaria pensando “não, não deve ser isso…”. Eu sei porque foi exatamente a minha reação quando considerei a possibilidade – e só fui descobrir que estava certo quando li um pouco sobre o mangá.

Não há realmente muito que eu possa falar dos demais personagens…

Sem exagero, eu acho que o backstory da Marika serve como um interessante estudo de caso sobre a forma como consumimos histórias. Nós estamos falando de um universo onde existe um programa de treinamento de astronautas voltados para alunos do ensino médio, e onde um dos personagens centrais é literalmente um fantasma. E ainda assim, diante da possibilidade de uma personagem ser um clone a minha primeira reação foi “eles não fariam isso, né?” Embora, vale lembrar, a tecnologia para tanto já perfeitamente existe. Vamos lembrar: clonagem humana é ilegal, não impossível. Se mais nada, a menina ser um clone seria a parte mais verossímil dessa história toda! De onde vem, então, o sentimento de “não fariam isso” que eu tive? Pois bem: ao consumir uma história fictícia, a falta de informação costuma ser complementada com o nosso conhecimento sobre o nosso mundo real. É por isso que nenhuma história precisa explicar qual a física do seu mundo para eu saber que a gravidade é algo que existe naquele universo, por exemplo.

Clonagem humana, porém, é algo que não existe na nossa realidade, pelo menos não no nível que temos com a Marika. Então qualquer um assistindo simplesmente assumiria que nada do tipo ocorre naquele mundo – porque em nenhum momento essa possibilidade foi levantada. Mesmo com toda sorte de indícios possíveis, esse é o tipo de coisa que uma história precisa falar com todas as letras, do contrário fica sempre aquela sensação de “mas será…?” Claro, nesse ponto nós mais uma vez voltamos a como essa é uma adaptação de apenas uma parte da história, e o mangá certamente entra em muitos mais detalhes sobre o passado da Marika conforme a trama avança. Mas eu penso que o anime poderia ter deixado essa situação mais clara – ou até mesmo ter cortado ela fora de vez. Uma doença degenerativa e um pai controlador já serviriam como todo backstory do qual a Marika precisava nesse anime, e incluir aqui o mistério da sua concepção simplesmente parece estranho quando o anime claramente não tinha nenhuma intenção de resolver esse mistério – ou mesmo de ter uma segunda temporada!

Era mesmo necessário tentar incluir no anime todo o backstory da Marika?

Claramente o anime tenta ter um final mais conclusivo, e a maior prova disso é finalizar com o Lion indo embora, finalmente fazendo a travessia para o além quando entende que a Asumi está em boas mãos. Um momento que funciona muito bem simbolicamente. Mais uma vez ele retoma a associação entre os sonhos e a infância e a importância de não esquecê-los, conforme cada personagem vai relembrando seus sonhos, o traço mudando para como eles eram quando crianças, e finalmente todos conseguem ver o Lion. A cena que vem no pós crédito mesmo reforça essas mensagens, conforme a Asumi usa da gaita do Lion para tocar, dentre todas as músicas possíveis, Twinkle, Twinkle, Little Star (Brilha Brilha Estrelinha). Mas crescer ainda é importante, e o Lion tirando a máscara e indo embora é um excelente momento de “perda da infância” para a Asumi, um ponto que bem demonstra o caráter de coming of age desse anime. E um exclusivo do anime, dado que no mangá o Lion só faz a travessia no penúltimo capítulo.

É difícil dizer o que ocorre por trás da produção de um anime, então nunca saberemos a partir de que ponto na produção de Futatsu no Spica esse final foi decidido. Pode muito bem ter sido uma decisão de última hora, quando se acertou que o anime não teria uma segunda temporada, como pode ter sido algo previsto desde o começo da produção. Se foi o primeiro caso não há realmente muito o que fazer aqui, mas se foi o segundo há certamente alguns elementos do mangá que bem poderiam ter sido deixados de lado – o passado da Marika sendo um deles (e talvez a história do primeiro amor da Asumi, já que ela não realmente serve pra muita coisa e vem um pouco tarde na trama). Mas, sendo justo, essa é uma sina compartilhada por inúmeras adaptações, e dado que apenas uma minúscula fração dos mangás e light novels são adaptados em sua integridade esse é um problema que ainda deve persistir por um bom tempo. Dando crédito, ao menos este ainda tentou ser mais conclusivo.

E no final, certamente foi uma boa experiência.

Não há muito o que eu possa falar dos aspectos técnicos desse título. A animação, enquanto longe de ser ruim, é bastante padrão para a época. Mas eu gosto da paleta de cores desse anime, e como ele sabe usar das cores mais escuras para criar um clima de melancolia – embora essa seja uma característica bastante comum do período, para ser sincero (e um dos motivos pelos quais eu tendo a gostar bastante dos animes do começo dos anos 2000, sendo ainda mais sincero). A trilha sonora, enquanto não me impressionando, tem a sua própria identidade, e sempre complementa bem a cena na qual se faz presente. Destaco, porém, a excelente música de abertura, Venus Say, do grupo musical Buzy (não confundir com a música Kujira, do mesmo grupo, com praticamente a exata mesma melodia, mas com uma letra diferente, um pouco mais longa, e com absolutamente nada a ver com Futatsu no Spica). É uma que eu com certeza não irei esquecer tão cedo.

Ao final, essa review terminou um pouco mais crítica do que eu esperava, então eu quero apenas reforçar o quanto eu realmente gostei desse anime. É um excelente drama, com personagens interessantes e uma protagonista bastante carismática, além de algumas mensagens bastante bem vindas. É uma pena que esse título tenha sido esquecido pelo tempo, algo que eu poderia dizer para não poucos outros. Faz parte, eu acho, mas se mais nada seria legal se esta review ajudasse alguns a se lembrarem – ou a conhecerem – essa obra. Futatsu no Spica foi uma experiência que eu realmente gostei de ter, e eu encerro por aqui.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Futatsu no Spica, abertura

2 – Futatsu no Spica, episódio 4

3 – Futatsu no Spica, episódio 12

4 – Futatsu no Spica, episódio 3

5 – Futatsu no Spica, episódio 3

6 – Futatsu no Spica, episódio 13

7 – Futatsu no Spica, episódio 10

8 – Futatsu no Spica, episódio 15

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